É a Era da Biologia (Editorial)


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Publicado em: 01/06/2008

É a era da Biologia

Solismar Venzke FilhoEngenheiro Agrônomo, Doutor em Agronomia pela ESALQ/USPDiretor-Presidente da Rotar – Crop Production SystemE-mail: diretor@rotar.com.br

O motivo que me levou a expressar minha opinião é uma recente entrevista do Diretor da Escola Superior de Agricultura de Angers (ESA) – França, economista Bruno Parmentier, dada a Folha de São Paulo (27/04/2008). Nela Parmentier diz: ”A química já deu à agricultura tudo que podia no século 20, com os fertilizantes, os fungicidas, os inseticidas e os herbicidas. Hoje ela custa muito caro em termos de energia e acabou poluindo o solo e as águas. Em matéria agrícola, o século da química está chegando ao fim e é preciso deslanchar o da biologia”.

Deslanchar o século da biologia é mais do que necessário, é uma obrigação para a realização de um sistema de produção de alimentos, de fibras e de biocombustíveis baseado nos princípios da sustentabilidade e de acordo com o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Tratado de Kyoto. Contudo, os atuais conhecimentos dos processos biogeoquímicos ainda não são suficientes para tais objetivos.

É sabido há tempos que organismos biológicos conseguem transferir energia de um compartimento para outro com muito mais eficiência que os processos desenvolvidos pelo homem. Exemplo claro que temos na agricultura brasileira é a fixação de nitrogênio através dos microrganismos (bactérias e algas). O N que está na atmosfera passa para o compartimento solo, com custo energético e monetário infinitamente menor que o N via processo Haber-Bosch. Outro exemplo claro é a utilização do controle biológico que faz os agricultores economizarem muitos recursos, ou ainda a utilização eficiente de água e fósforo pela planta via micorrizas. Enfim outros processos e interações que aqui poderia citar para exemplificar a utilização da biologia no processo de produção agrícola.

Cabe a nós, conhecedores dessas práticas, divulgá-las e introduzi-las no Sistema Plantio Direto sem medo de errar. O conhecimento dos processos biológicos do solo, da planta e da interação da planta com o seu agroecossistema que formamos através das seguidas intervenções antropológicas será à base de sustentação para acreditarmos no sistema plantio direto como sendo o único meio viável de produção em grande escala nos solos tropicais.

Também cabe a pesquisa descobrir e desenvolver as tecnologias latentes de baixo impacto como (a) o desenvolvimento da supressividade do solo citado pelo pesquisador da Fundação ABC, Olavo Corrêa Silva (Rev. Plantio Direto; n°102, 2007); (b) a criação e a manutenção dos bioporos no solo para facilitar o fluxo de gases e água no solo e criar rotas alternativas para o desenvolvimento radicular em solos compactados, tema esse estudado pelo Professor Dr. Cássio Tormena – UEM; (c) a contribuição mais eficiente das bactérias promotoras de crescimento e os fungos micorrízicos no processo de produção de grãos; e, (d) a utilização da biomassa microbiana do solo como um agente regulador da disponibilidade de nutrientes a planta, através dos processos de mineralização e de imobilização descrito por mim na edição n° 88, 2005 desta revista.

Assim, muitos conhecimentos e tecnologias ainda deverão ser estudados e elucidados para que a biologia venha deslanchar nesse século; a fim de que possamos produzir alimentos, fibras e biocombustíveis em grandes escalas nos solos brasileiros pobres em fertilidade química, mas ricos em diversidade biológica.

Revista Plantio Direto, edição 105, maio/junho de 2008. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.