Adubação com Enxofre para o Arroz Irrigado


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Publicado em: 01/04/2008

Adubação com enxofre para o arroz irrigado: critérios para a tomada de decisão

Felipe de Campos Carmona1*; Edward Pulver2; Luciano de Campos Carmona3 & Ibanor Anghinoni41 Eng. Agrônomo, Doutorando, Programa de Pós Graduação em Ciência do Solo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).*Autor para correspondência: Av. Protásio Alves, 4403/303, 91310-002, Porto Alegre, RS. felipecamposcarmona@hotmail.com2 Biólogo, PhD, Consultor do Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT). E-mail: edwardpulver@yahoo.com3 Eng. Agrônomo, M.Sc, Consultor do Fondo Latino Americano para Arroz de Riego (FLAR). E-mail: lucianocarmona@ ibest.com.br4 Professor Adjunto, Programa de Pós Graduação em Ciência do Solo, Faculdade de Agronomia, UFRGS. Bolsista CNPq. E-mail: ibanghi@ufrgs.br

A lavoura de arroz irrigado do Rio Grande do Sul vem alcançando recordes de produtividade nos últimos anos. Na safra 2006/07, por exemplo, a média de rendimento no Estado foi de 6,83 t ha-1 (CONAB, 2007). Estes incrementos verificados devem ser atribuídos, em parte, ao êxito dos programas de transferência de tecnologia direcionados a lavoura arrozeira gaúcha. As melhorias nas práticas de manejo, muito difundidas em centenas de roteiros técnicos em todas as regiões arrozeiras do Estado, são consideradas fundamentais na obtenção de resultados cada vez melhores.

Neste contexto, o convênio firmado entre o IRGA, o Fundo Latino-americano para Arroz Irrigado (FLAR), da Colômbia; e o Fundo Comum de Comodites (CFC), da Holanda, tem destacada importância. Firmada em 2003 e com duração de três safras, essa parceria foi parte integrante do Programa Arroz RS e possibilitou a implementação de um programa de transferência de tecnologia em diversos municípios do RS, principalmente nas regiões da Campanha, Depressão Central e Fronteira Oeste.

Na maioria dos locais, os resultados foram plenamente satisfatórios, sendo que, na Fronteira Oeste e Campanha, a média de produtividade das lavouras demonstrativas foi próxima de 10 t ha-1. Entretanto, na Depressão Central, algumas lavouras não apresentaram os rendimentos esperados, mesmo que tivessem sido cumpridos todos os requisitos de manejo. Nesses casos, a produtividade média não passou de 7,5 t ha-1. Nos locais de rendimento inferior, as plantas apresentavam amarelecimento, porte baixo e perfilhamento reduzido, não condizente com o estágio de desenvolvimento em que se encontravam, mesmo tendo supridas suas demandas por nitrogênio. Os baixos teores de argila e de matéria orgânica do solo (MOS), além dos cortes profundos para o nivelamento das áreas (Figura 1), caracterizaram a possibilidade de o enxofre (S) ter sido o fator limitante.

Figura 1. Ilustração da variabilidade de solos submetidos ao nivelamento. Cachoeira do Sul, safra 2005/06.

Na safra em que o problema foi detectado (2003/04), alguns produtores foram orientados a aplicar sulfato de amônio nas lavouras demonstrativas, para verificar o comportamento da cultura, em comparação com as áreas onde apenas a uréia fora usada como fonte de N. O aporte de S resultou em uma recuperação do porte, perfilhamento e coloração do arroz (Figura 2). A partir de então, tornou-se prática comum entre muitos produtores de municípios da Depressão Central, em especial Restinga Seca, Agudo, Rio Pardo e Cachoeira do Sul, a aplicação de sulfato de amônio em áreas com baixos teores de argila e MOS.

Figura 2. Lavoura demonstrativa. a) área com 400 kg ha-1 de uréia, sem sulfato de amônio, b) área com 400 kg ha-1 de uréia + 50 kg ha-1 de sulfato de amônio, c) área com 400 kg ha-1 de uréia + 100 kg ha-1 de sulfato de amônio. Restinga Seca, safra 2003/04.

Diferentemente de regiões onde o cultivo de arroz é mais recente e há alternância de áreas com pecuária e soja, na Depressão Central, muitas das terras utilizadas para a produção de arroz não passam por qualquer tipo de rotação de culturas há anos e, em muitos casos, sequer ocorre a prática de pousio. Esse panorama, aliado ao material de origem sedimentar e à textura arenosa dos solos, determina uma situação de desgaste dos atributos químicos e físicos do solo, interferindo sobremaneira na fertilidade das terras e nos índices de produtividade do arroz.

Devido à demanda criada por maiores informações, foi conduzida uma rede de experimentos, nas safras 2004/05 e 2005/06, em 12 locais daquela região do Estado, com o objetivo de avaliar a necessidade de aplicação de enxofre em solos cultivados com arroz irrigado, além de obter uma curva de calibração e recomendação específica para o arroz irrigado. Ao fim dos trabalhos, o teor crítico desse elemento no solo foi determinado como sendo ao redor de 10,0 mg de S dm-3 (Figura 3).

Figura 3. Curva de calibração do teor de enxofre para solos da Depressão Central do RS, nas safras 2004/05 e 2005/06 (Carmona et al., 2006).

A dose de máxima eficiência econômica foi de 25 kg de S ha-1 em solos com teores abaixo do crítico estabelecido. Essa dose equivale a aproximadamente 100 kg ha-1 de sulfato de amônio, por exemplo, uma das fontes de S mais utilizadas pelos produtores. A Figura 4 ilustra a resposta do arroz irrigado a aplicação de S em um solo de Restinga Seca com 2,0 mg de S dm-3. Deve-se ressaltar que a dose de N foi sempre a mesma: 150 kg ha-1.

Figura 4. Aspecto geral das plantas: a) na parcela testemunha, b) na parcela com 20 kg de S ha-1. Restinga Seca, safra 2005/06.

Apesar de os resultados experimentais terem demonstrado ganhos de até 1,2 t ha-1, a adubação com enxofre deve seguir critérios técnicos, uma vez que, no Rio Grande do Sul, as áreas deficientes desse elemento são restritas, principalmente, a Depressão Central do Estado.

Para isso, é necessário se fazer a análise do teor de S disponível do solo, juntamente com o de matéria orgânica do solo, que é a fonte natural de S no solo e de argila, componente importante na retenção de S, impedindo sua lixiviação para camadas inacessíveis ao sistema radicular.

Solos com teores abaixo de 10 mg de S dm-3, 15% de argila e 1,5% de matéria orgânica, podem limitar a produtividade do arroz irrigado, constituindo cenário adequado para aplicação de alguma fonte de S. Nesse caso, a aplicação de cerca de 25 kg de S ha-1 é recomendada.

Entretanto, outros fatores importantes devem ser considerados pelo produtor, como o histórico de produtividade da área, por exemplo. Se a lavoura estiver distante de centros industriais ou urbanos; sem histórico recente de aplicação de adubos contendo S e estiver sendo manejada para a obtenção de altas produtividades, constitui-se, novamente, panorama propício para o investimento em enxofre.

Em muitas ocasiões, o orizicultor não tem acesso a laboratórios que realizem a análise completa de solo. Nesse caso, deve-se considerar o comportamento das plantas de arroz, quando da aplicação de nitrogênio. Os sintomas de deficiência de enxofre e nitrogênio são muito semelhantes e de difícil diferenciação no campo. Em geral, quando o S é o nutriente limitante, altas aplicações de N não surtem o efeito desejado, pois as plantas não se desenvolvem adequadamente, além de conservarem coloração amarelada.

Com os novos patamares de produtividade alcançados atualmente, novos fatores limitantes a obtenção de maiores rendimentos passam a surgir, nas diferentes regiões do Estado e nos diferentes tipos de solo e manejo empregados. A necessidade de S para o arroz irrigado foi constatada nesse novo panorama da lavoura gaúcha e sua aplicação deve ser minuciosamente estudada, para que o investimento proporcione o resultado esperado.

Referências

CONAB, 2007. Sexto levantamento de avaliação de safra 2006/2007: Estimativas de área, produção e produtividade. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, 2007, 24p. Disponível em . Acesso em: 6 jul 2007.

CARMONA, F.C.; ANGHINONI, I.; PULVER, E.; CARMONA, L.C.; DOTTO, G.M.; GONÇALVES, G.K.; FRAGA, T.I.; LEITE, G.D. Necessidade de Enxofre para o arroz irrigado em solos da Depressão Central do RS. In: REUNIÃO BRASILEIRA DE FERTILIDADE DO SOLO E NUTRIÇÃO DE PLANTAS, 27., REUNIÃO BRASILEIRA SOBRE MICORRIZAS, 11., SIMPÓSIO BRASILEIRO DE MICROBIOLOGIA DO SOLO, 9., REUNIÃO BRASILEIRA DE BIOLOGIA DO SOLO, 6., 2006, Bonito. Anais...Bonito, 2006. CD-ROM.

Revista Plantio Direto, edição 104, março/abril de 2008. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.