Alternativas de cobertura do solo para a cultura do algodoeiro em Sistema Plantio Direto
Fernando Mendes Lamas11Engenheiro-agrônomo, Doutor, Embrapa Agropecuária Oeste, Caixa Postal 661, 79804-970- Dourados, MSE-mail:lamas@cpao.embrapa.br
1. Introdução
De acordo com a CONAB (2007), estima-se que na safra 2007/2008, serão cultivados no Brasil 1.151.500 ha, com algodoeiro. Destacam-se como principais produtores os estados de Mato Grosso, Bahia, Goiás e Mato Grosso do Sul.
O sistema de produção predominante nas diferentes regiões produtoras é caracterizado pela intensa movimentação do solo, com a utilização de grades aradoras e niveladoras, o que reduz significativamente o potencial produtivo dos solos ao longo do tempo, em função da degradação dos atributos físicos, químicos e biológicos (Hernani & Salton, 2001; Calegari & Ralich, 2007).
A rotação de culturas é uma prática pouco utilizada entre aqueles que estão diretamente envolvidos com a cultura. Vale destacar que, já se observa nas diferentes regiões preocupações com o cultivo contínuo do algodoeiro numa mesma área.
Em trabalhos desenvolvidos por Séguy et al (2004), o grau de severidade da ramulose, doença causada pelo fungo Colletotrichum gossypii South. Var. cephalosporioides Costa, foi significativamente menor no sistema em que se utilizou a rotação de culturas. Resultados semelhantes foram obtidos por Chitarra et al. (2007) para ramulária (Ramularia areola (Atk.)). A rotação de culturas também é uma estratégia para redução de custos de produção, grande desafio para a sustentabilidade da cultura do algodoeiro no Brasil.
A principal espécie antecessora ao algodoeiro é o milheto. Este é semeado quando das primeiras chuvas. Após o manejo com herbicidas, é feita a semeadura do algodoeiro sobre a sua palhada.
Neste artigo será mostrado opções para cobertura de solo visando o estabelecimento do cultivo do algodoeiro em Sistema Plantio Direto, na condições do Cerrado brasileiro, principal região produtora de algodão no Brasil.
2. Sistema plantio direto
O sistema plantio direto, fundamentado no tripé (não revolvimento do solo, rotação de culturas e solo permanentemente coberto), é um sistema consevacionista (Salton & Hernani, 2003, Calegari & Ralich, 2007). Este sistema tende a contribuir positivamente para a melhorar a conservação e recuperação dos solos, a distribuição do trabalho durante todo o ano agrícola, a diversificação das atividades, a estabilidade da produção, o aproveitamento da umidade do solo, diminuição dos custos de produção, entre outras.
A decisão de iniciar o sistema plantio direto implica em fazer o levantamento dos problemas existentes e a correção dos mesmos, como controle de erosão, correção da fertilidade e o controle de plantas daninhas de difícil controle (Zancanaro & Tessaro, 2006).
3. Cobertura do solo
A camada de palha, sobre a superfície do solo, é essencial para o sucesso do sistema plantio direto. A palha deixada pelas culturas de cobertura sobre a superfície do solo, somada aos resíduos das culturas comerciais, cria um ambiente favorável ao estabelecimento vegetal e contribui para a estabilização da produção e para a recuperação ou manutenção da qualidade do solo (Alvarenga, et al., 2001).
Em trabalhos desenvolvidos por Lamas (2007), em Primavera do Leste, MT, foram avaliadas várias espécies para produção de palha e seus efeitos sobre a produtividade de fibra do algodoeiro. As espécies para cobertura do solo foram semeadas imediatamente após a colheita da soja, em março de 2005. Na Figura 1, pode ser observado o potencial de produção de matéria de espécies para cobertura de solo cultivadas, após a colheita da soja, isoladas e em consórcio, em avaliação realizada em dezembro, imediatamente antes da semeadura do algodoeiro. Espécies com Panicum maximum cv. Mombaça, cv. Tanzânia, Brachiaria brizanta cv Marandu e cv. Xaraés, em função da grande capacidade de produção de biomassa, devem ser utilizadas preferencialmente no sistema de integração lavoura-pecuária. Durante o período de junho-setembro é realizado o pastejo. Se não manejadas adequadamente, estas espécies entouceram-se, dificultando sobre maneira a implantação da cultura subsequente.
Figura 1. Produção de biomassa seca de espécies semeadas em março/2005 (após a colheita da soja), em avaliação realizada em dezembro/2005 (imediatamente antes da semeadura do algodoeiro), em Primavera do Leste, MT.
Analisando-se Figura 2, verifica-se que, em relação à quantidade de biomassa seca existente antes da semeadura do algodoeiro (dez/05), a quantidade existente por ocasião da colheita do algodão (ju/06), para todas as espécies, foi de no máximo 30%, o que mostra a baixa persistência da palha nas condições em que o experimento foi conduzido. Assim, é de fundamental importância o cultivo de espécies que possam assegurar um adequado aporte de palha ao sistema. De acordo com Alvarenga et al. (2001), para uma boa cobertura do solo é necessário pelo menos 6 t ha-1, de resíduos sobre a superfície do solo.
Figura 2. Persistência da palha das diferentes espécies em avaliações realizadas em dezembro/05, fevereiro, março, abril e junho/2006, em Primavera do Leste, MT.
Além do potencial produtivo é recomendado que se considere a facilidade de implantação, de manejo e a persistência da espécie a ser utilizada para a produção de palha e também os seus efeitos sobre a cultura sucessora. No caso do algodoeiro, as espécies avaliadas, não tiveram efeito significativo sobre a produtividade de fibra.
Na Figura 3, observa-se área de Brachiaria ruziziensis, em junho de 2007, em área anteriormente cultivada com soja. A semeadura da B. ruzizienis foi realizada em março/2007.
Figura 3. Vista de B. ruziziensis em área anteriormente cultivada com soja, em junho de 2007 em Primavera do Leste, MT
Na Figura 4, observa-se detalhe em área com Brachiaria ruziziensis, já dessecada com 2,0 l ha-1 de glifosato, em condições para ser realizada a semeadura do algodoeiro. A B. ruziziensis, foi semeada após a colheita da soja, em março de 2005.
Figura 4. Detalhe de área com Brachiaria ruziziensis, após da dessecação, em Primavera do Leste, MT.
Figura 5. Vista de algodoeiro estabelecido sobre palha de B. ruziziensis, em Sorriso, MT. Foto de Chitarra, L.G., 2007.
Em trabalho desenvolvidos por Lamas & Staut (2006), a B. ruziziensis contribuiu para a redução significativa de plantas daninhas na cultura do algodoeiro, em avaliação realizada 30 dias após a semeadura, sem a utilização de herbicidas de pré-emergentes.
O cultivo de B. ruziziensis também se constitui em uma excelente estratégia para a redução da população do nematóide Rotylenchulu reniformis Asmus et al., 2005).
4. Considerações finais
Para as condições do Cerrado brasileiro existem alternativas viáveis, além do milheto, quando se pensa em cobertura de solo. Se o objetivo for apenas a produção de palha, recomenda-se a B. ruziziensis semeada imediatamente após a colheita da soja; em consórcio com o milho segunda safra ou isolada. Se o objetivo for a integração lavoura-pecuária, recomenda-se Panicum maximum cv. Mombaça, Panicum maximum cv. Tanzânia, Paniicum maximum cv. Massai, Brachiaria decumbens, B. brizanta cv. Marandu e Xaraés. É importante ressaltar que, para B. ruziziensis são necessários de 2 a 3 l ha-1 de glifosato, para as demais espécies são necessários de 3 a 5 l ha-1. É importante observar um intervalo de tempo de 20 a 30 dias entre a dessecação e a semeadura do algodoeiro. Quanto maior a quantidade de palha, maior deve ser este intervalo de tempo.
5. Referências bibliográficas
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Revista Plantio Direto, edição 103, janeiro/fevereiro de 2008. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.