Amostragem e Manejo em Soja


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Publicado em: 01/02/2008

Amostragem e manejo em soja

Dirceu N. GassenEngenheiro-agrônomo, MSc, Gerente Técnico da Cooplantio, Porto Alegre, RS - E-mail: dirceu@dirceugassen.com

Para tomar a decisão de controle de pragas em plantas de lavouras os processos mais importantes são a amostragem, para estimativa real das populações, e a identificação correta das espécies mais freqüentes.

Desconhecer a identificação e a população das espécies de insetos, na adoção do manejo de pragas, pode ser comparado à gestão de um negócio sem conhecer a logística e o estoque de produtos. São gestões sem base para tomar decisões eficientes e econômicas.

Mudanças no manejo de pragas

Um dos fatores que influenciou no abandono de interesse da maioria dos agricultores na amostragem de pragas, foi o baixo preço de inseticidas piretróides. Resultando na prática de adição de inseticida piretróide aos herbicidas e fungicidas, para controle preventivo de eventuais pragas. Era considerado ”barato” e não compensava o tempo gasto em amostragem. Apesar dos alertas de conseqüências negativas nos agentes de controle biológico natural e na potencial seleção de populações de pragas resistentes, o uso de pequenas doses (cheirinho de piretróide) continuou predominando nas lavouras. Hoje, se constatam pragas novas e populações de lagartas e percevejos resistentes às doses de inseticidas que eram recomendadas e eficientes, no passado.

O uso generalizado de fungicidas em soja, também pode estar influenciando a sobrevivência de pragas, pela redução na população de fungos entomopatógenos.

O interesse sobre amostragem de pragas e identificação de espécies está sendo retomado, por causa de perdas acentuadas na produção e também pela necessidade de doses muito elevadas de inseticidas para controle das espécies de pragas, que no passado eram fáceis de controlar.

A metodologia de amostragem de insetos em soja e os níveis de dano para tomar a decisão de controle de lagartas e de percevejos foram desenvolvidos na década de 1970. Nessa época, se produzia 1400 kg de grãos/ha e as cultivares apresentavam grande volume de massa vegetativa.

Trinta anos mais tarde, na década de 2000, a produção média de grãos de soja dobrou, chegando a 3000 kg/ha. A arquitetura das plantas, com a introdução das cultivares RR, levou às mudanças nas estratégias de manejo das lavouras. A população de sementes reduziu de 30 para menos de 15 sementes por metro de fileira. As plantas devem ser manejadas para a melhor relação de índice de área foliar (IAF), de acordo com a fertilidade do solo, espaçamento entre fileiras e as características genéticas de cada cultivar.

Níveis de danos para lagartas

No passado, as recomendações para o controle de lagartas em soja consideravam populações de 40 larvas/m2, com mais de 1,5 cm de comprimento. Isso, combinado com 30 % de desfolhamento na fase vegetativa até o florescimento e 15 % na fase reprodutiva, depois do início de florescimento.

Cada lagarta consome entre 100 e 150 cm2 de área foliar de soja. Com 40 lagartas, o consumo de área foliar será de 4 a 6 mil cm2, ou seja, 0,4 a 0,6 m2. Esse consumo é relativamente baixo para lavouras com área foliar superior a 5 m2. Porém, podem causar prejuízos se a soja for precoce e com área foliar inferior a 4 m2.

Os princípios de fisiologia vegetal e os resultados de monitoramento de lavouras de alto rendimento de grãos indicam a necessidade de ter 4 m2 de área foliar para cada m2 de área de solo, para a maior interceptação da radiação solar. O IAF maior do que 5:1 ou menor do que 3:1 levam a perdas no potencial de produção por ineficiência na relação entre interceptação de radiação solar, fotossíntese e respiração. Por isso, as indicações para controle de insetos consumidores de folhas devem ser planejadas de acordo com o IAF para maior eficiência na produção. Evitando as recomendações do passado, que indicavam o controle com 30 ou 15 % de desfolhamento, independente do IAF em soja.

Identificação de lagartas

Diferentes espécies de lagartas podem exigir inseticidas ou doses diferentes.

A lagarta-da-soja, Anticarsia gemmatalis, é de fácil controle e consome, preferencialmente, as folhas jovens, na parte superior das plantas, onde é depositada a maior proporção de inseticidas na pulverização.

Até o terceiro estádio larval, a lagarta-da-soja apresenta 3 pares de pernas abdominais, podendo ser confundida com a lagarta falsa-medideira (Figura 1).

Figura 1. Número de pernas no abdômen de diferentes espécies de lagartas presentes em soja.

A lagarta falsa-medideira (Figuras 1 e 2) é conhecida como plúsia e várias sinonímias. Esse grupo de lagartas era considerado esporádico e poucas vezes causava danos severos em lavouras de soja. Em hortaliças e em algodão, o controle é realizado com várias aplicações sucessivas e com doses elevadas de inseticidas. Isso pode ter levada à seleção de populações resistentes. As mariposas podem migrar para a soja, mantendo as características de resistência a inseticidas, nas lagartas.

Figura 2. Lagartas mais freqüentes em soja.

Na bibliografia brasileira são citadas, com maior freqüência, as espécies Rachiplusia nu e Pseudoplusia includens. Na fase de larva, a diferenciação das duas espécies é difícil e envolve características morfológicas da mandíbula e de pequenos detalhes nas cerdas que revestem o corpo.

A variação na cor em diferentes estádios de desenvolvimento e as estrias no corpo das larvas são consideradas insuficientes para diferenciar as espécies.

Na Argentina, a espécie R. nu era citada como praga em soja até constatar problemas com resistência a inseticidas piretróides e fosforados. Mais tarde foi determinado que a espécie encontrada em soja e controlada por inseticidas em doses usuais era R. nu. Porém, constataram que as populações resistentes aos inseticidas pertenciam à espécie P. includens.

No passado era dada pouca importância ao dano da lagarta falsa-medideira em soja, no sul do Brasil. As dificuldades de controle mais recentes, também podem estar relacionadas à espécie P. includens, como ocorreu na Argentina, ou a populações resistentes pelo uso de doses baixas e sucessivas do mesmo grupo químico de inseticidas.

A lagarta-preta, Spodoptera cosmioides, é outra espécie que está ocorrendo em populações elevadas e com danos severos em soja. Ocorre em soja, desde o sul do Brasil até os Cerrados, e também em pastagens, girassol e outras culturas. É de constatação recente e, muitas vezes, confundida com outras espécies do gênero Spodoptera, como a lagarta-das-vagens e a lagarta-militar.

A lagarta-preta ocorre em grupos, com populações elevadas e danos severos no desfolhamento de plantas. Em soja, se posiciona na parte mediana das plantas, dificultando o controle com a aplicação de inseticidas.

A lagarta-preta, Spodoptera cosmioides, estava sendo confundida com a lagarta-das-vagens, Spodoptera eridanea.

A localização das lagartas, nas partes medianas das plantas, onde são depositadas quantidades menores de inseticidas e o conhecimento sobre a ocorrência e distribuição geográfica de populações resistentes a inseticidas, determinam a decisão de uso de doses maiores e de tipos diferentes de inseticidas para controle eficiente.

Níveis de danos para percevejos

No passado os resultados de pesquisas indicavam populações de 4 percevejos/m2 nas lavouras destinadas à produção de grãos e 2 percevejos/m2 nas lavouras de produção de sementes.

O percevejo-verde, N. viridula, era mais freqüente no Rio Grande do Sul, o percevejo verde-pequeno, Piezodorus guildinii, no Paraná e o percevejo-marrom, Euschistus heros, no norte do Paraná e cerrados.

Hoje, os percevejos estão ocorrendo em populações mais elevadas, sendo as espécies mais freqüentes Euschistus heros e Piezodorus guildinii (Figura 3). O pervevejo-marrom, antes restrito ao Paraná e Cerrados, agora, encontra-se disseminado em todo o Sul do Brasil.

Figura 3. Percevejos mais freqüentes em soja.

O percevejo Edessa meditabunda está presente nas lavouras, porém não causa danos em soja. Alimenta-se no caule, nas hastes e nas folhas, mas não suga os grãos nem causa redução no rendimento de soja. O percevejo Podisus sp. pertence à mesma família (Pentatomidade) dos percevejos praga, eventualmente suga seiva de plantas e é importante predador de lagartas, mas não suga grãos.

Os percevejos infestam as lavouras de soja a partir das bordas de áreas onde os insetos passaram a fase de diapausa de inverno ou de áreas de leguminosas de primavera (cornichão, alfafa, ervilhaca etc) onde completaram o ciclo biológico.

As cultivares de soja tardias tendem a ter infestação mais elevada por causa da migração de áreas de soja colhidas (precoces).

A amostragem pode ser feita com o pano de batidas ou pela visualização direta dos insetos na primeira hora de sol, pela manhã, quando os percevejos expõem o corpo à radiação solar. Estudos sobre amostragem de percevejos, produzidos na Embrapa Soja, indicam que cada inseto visualizado na lavoura corresponde à população real de três indivíduos. Isso exige dos agricultores e assistentes técnicos, maior cuidado na estimativa de populações de percevejos.

Os danos causados por percevejos ocorrem a partir da fase de formação de grãos, R3. Nas fases de desenvolvimento vegetativo e de floração, os percevejos alimentam-se nas hastes e folhas das plantas, sem causar redução no rendimento de grãos.

A fase de enchimento de grãos é a mais crítica para o dano de percevejos. A alimentação em grãos pequenos resulta na morte e na queda de legumes. A alimentação em grãos cheios afeta, principalmente, a germinação e o vigor das sementes. A redução na população de plantas de soja, de 30 para 10 plantas/m de fileira determinou a necessidade de maior cuidado com o dano da praga na produção de sementes.

A ”retenção foliar” ou ”soja louca” é uma reação natural da planta à falta de grãos (dreno) e legumes. Qualquer fator que provoque a queda de legumes (praga, doença, seca, estresse etc.) induz à retenção foliar da soja. Portanto, não procedem as informações de que percevejos injetariam toxinas ou microrganismos, resultando na retenção foliar.

O percevejo barriga-verde, Dichelops melacanthus e Dichelops furcatus, causa danos em plântulas de milho e de soja e tornou-se praga importante com necessidade de monitoramento e controle. Esse percevejo, entretanto, não causa danos significativos em grãos de soja.

Com base em resultados de pesquisa, no Sul do Brasil, não se recomenda a mistura de sal com doses reduzidas de inseticidas para controle de percevejos. Doses reduzidas de inseticidas podem induzir a seleção de populações resistentes de pragas.

A diferença na capacidade de danos de diferentes espécies de percevejos e soja e a constatação de populações do percevejo-marrom, Euschistus heros, com taxas de resistência que chegam a 8 vezes a dose eficiente no passado.

O percevejo-verde pequeno, Piezodorus guildinii, é a espécie com maior capacidade de dano, seguido do pervevejo-verde, Nezara viridula, e do percevejo-marrom, Euschistus heros (Figura 4).

Figura 4. Perdas causadas por 4 percevejos de diferentes espécies/planta, durante 15 dias, nas fases R3 a R5, de desenvolvimento da soja. Corrêa-Ferreira & Azevedo (2002).

O nível de controle em lavouras destinadas à produção de grãos para indústria é de 4 percevejos/m2. Em lavouras para produção de sementes é necessário monitorar periodicamente e controlar a praga no início da infestação.

Alguns pesquisadores sugerem a mudança de níveis de controle para um percevejo por m2 e a necessidade de doses maiores para o controle do percevejo-marrom.

A amostragem com o pano-de-batidas é a base para a decisão mais econômica de controle de pragas. O pano desenvolvido na Cooplantio foi adaptado de modelos usados nos Estados Unidos e na Argentina, modificado com a impressão de imagens das principais espécies de pragas mais freqüentes em soja.

O pano deve ser colocado entre fileiras com a parte superior sobre as plantas de uma fileira (Figura 5). As plantas da fileira lateral ao pano devem ser batidas sobre o pano. Os insetos cairão no tubo de PVC, facilitando a contagem e a identificação das espécies, por comparação, com as fotos impressas (Figura 6). Na parte inferior do tubo existe uma língua de plástico, que deve ser aberta para manter o tubo de PVC na posição mais adequada para a contagem de insetos.

Figura 5. Manuseio do pano de batida que deve ser colocado entre fileiras com a parte superior sobre as plantas de uma fileira.

Figura 6. Os insetos cairão no tubo de PVC, na base do pano, facilitando a contagem e a identificação das espécies, por comparação com as fotos impressas (detalhe).

Revista Plantio Direto, edição 103, janeiro/fevereiro de 2008. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.