Ferramentas para o Manejo Racional da Ferrugem Asiática no Brasil


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Publicado em: 01/02/2008

Ferramentas para o manejo racional da ferrugem asiática no Brasil

Emerson Del Ponte11Prof. Adjunto, Dr. em Fitopatologia, Depto. de Fitossanidade,Faculdade de Agronomia, Universidade Federal do Rio Grande do SulE-mail: emerson.delponte@ufrgs.br

A ferrugem asiática da soja, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, é uma doença que causa severas perdas na produção quando as condições ideais para seu desenvolvimento ocorrem. O conhecimento acerca destas ”condições ideais” é o que embasa qualquer análise, seja qualitativa ou quantitativa, visando à previsão de risco da doença. No início da safra é comum ouvir opiniões de especialistas acerca das tendências da doença na safra, os quais embasam estas na sua experiência prática, a situação atual, conhecimento científico e avanços na pesquisa. Tem sido papel da pesquisa de base epidemiológica identificar os fatores mais importantes que predispõe a sérias epidemias. Idealmente, a informação deve ter utilidade prática no manejo, como prever cenários de risco tanto no curto como no longo prazo, usualmente através de modelos.

No curto prazo, uma análise de risco embasa a tomada de decisão pelo técnico ou agricultor quanto à necessidade e o momento de aplicação de um fungicida. Normalmente esta é feita com auxílio de sistemas de alerta ou de previsão e sua escala é no nível de lavouras em uma pequena região e deve levar em conta a situação local. No médio a longo prazo, usando modelos matemáticos, análise de risco pode ser útil para: determinar áreas e épocas de maior risco às epidemias em uma região ou país; estimar tendência de comportamento regional da doença com base em previsões climáticas sazonais; verificar a influência de fenômenos extremos como El Niño e La Niña no comportamento sazonal da doença; até mesmo fazer projeções de padrões futuros da doença com base em mudanças climáticas globais. Em cada situação, a incerteza da previsão aumenta quanto mais longo é o prazo das previsões.

Conhecendo os fatores de risco

Estudos de base epidemiológica e de modelagem da ferrugem para previsão de curto e longo prazo tem tido certo avanço no Brasil, assim como tem se aprendido com os padrões da doença a cada safra que passa. Três fatores são considerados chave na definição desses padrões: 1) a presença do inóculo em uma região; 2) o regime de chuvas; e 3) o manejo da doença com fungicidas. Tem se tornado evidente a importância desses fatores combinados, uma vez que, muitas vezes, epidemias se iniciam e são mantidas sob controle seja devido ao manejo adequado e/ou uma condição (normalmente climática) desfavorável para a explosão da doença. Por outro lado, aplicações de fungicidas podem não ser suficientes para frear a doença quando o clima é extremamente favorável (por exemplo, chuvas freqüentes e abundantes) ao ataque pelo fungo, somado ao prejuízo na qualidade da aplicação sob tais condições. Portanto, na matemática da previsão deve-se levar em conta, além da presença do inóculo na região, o monitoramento e previsão de clima na safra, os quais, somados, definirão o número de aplicações, custo e impacto da doença.

Monitorando o inóculo

Quanto à determinação do risco relacionado ao inóculo, uma metodologia confiável é o monitoramento da doença na região. Uma ferramenta conhecida são as parcelas sentinelas, porém o esforço e investimento é alto e parece ser insustentável no longo prazo, tanto que o número de sentinelas tem diminuído a cada safra. Embora existam certas armadilhas para detectar o esporo do fungo disperso pelo vento, a metodologia pode deixar dúvidas quanto a real identidade do esporo, uma vez que esporos de fungos causadores de ferrugens têm forma similar. Além disso, esporos capturados vindos de regiões mais distantes, pelo vento, podem ter perdido a capacidade de causar a doença, sendo mortos pela radiação solar, por exemplo. Esse caso tem sido muito comum nos Estados Unidos, onde apenas esporos, e não a doença, foram encontrados em vários locais no norte do país. Pode-se dizer que ainda é inconsistente, de maneira geral, a relação entre o momento da detecção de esporos e se e quando exatamente a doença terá início, e mais estudos são necessários.

Considerando as dificuldades para se estimar com acurácia a presença de inóculo e o fato de que, no Brasil, este não parece ser o fator mais limitante, exceto talvez algumas regiões ou situações, ainda são imprescindíveis as atividades de monitoramento e relato da dispersão da doença, como informação de risco. O monitoramento exige um esforço extra e, muitas vezes, sem garantia de eficiência pois exige treinamento para reconhecimento da doença no seu início de desenvolvimento, quando há maiores possibilidades de sucesso no controle. Recentemente, foram lançados kits na forma de tiras absorventes que reagem com o extrato da planta e permitem a detecção rápida da doença ainda no campo, em sua fase inicial, os quais podem dar segurança no diagnóstico. Há, contudo, a necessidade permanente de treinamento da assistência técnica e expansão da rede de laboratórios credenciados no Brasil para a confirmação da doença, para onde devem ser enviadas amostras suspeitas.

O mapa da ferrugem

Disponibilizado desde a safra de 2004/05, o mapa de focos de ferrugem é a principal ferramenta para monitorar a dispersão da doença. A informação gerada deve ter contribuído significativamente para a redução do impacto da doença na produção, uma vez que aplicações devem ter sido feitas de forma preventiva com os relatos de focos em uma região. Por outro lado, embora a decisão de aplicar um fungicida possa eventualmente prevenir perdas aumenta consideravelmente o custo de produção, o qual pode exceder ao custo que se teria se a medida não tivesse sido tomada. Isso pode ocorrer porque a presença de um foco em uma região não significa que epidemias generalizadas irão ocorrer. Mesmo que se detecte a doença na lavoura, em baixos níveis e em função do estágio da cultura, não significa que perdas consideráveis irão ocorrer e que se devem fazer aplicações calendarizadas. É nesse ponto que entra na equação de risco o monitoramento e a previsão do tempo e clima.

No decorrer da safra atual, o novo mapa de focos da ferrugem (Figura 1) agilizou sobremaneira os registros e a forma de visualização da dispersão da doença, através das novas ferramentas interativas e atualizações no banco de dados. Nele é possível filtrar registros por safra, estados e período de ocorrência, acompanhando a evolução da doença no país.

Figura 1. Tela de visualização do mapa de focos do Consórcio Antiferrugem, mostrando um total de 1182 focos até 13 de fevereiro de 2007. Fonte: Consórcio Antiferrugem - http://www.consorcioantiferrugem.net

A previsão com base no clima

Uma previsão das mais difíceis de se fazer acertadamente é dizer quando exatamente a doença irá aparecer em uma determinada lavoura ou região, pois depende quando e quanto de inóculo chega na lavoura e do fator climático que governa o processo de infecção do fungo na planta. Por outro lado, uma vez que a doença está instalada na lavoura é possível se prever com relativa acurácia o comportamento da doença em função das chuvas e assim ajustar o manejo com fungicidas de ação curativa de acordo com o período residual dos mesmos. Por esse motivo é fundamental monitorar e acompanhar as previsões de chuvas no decorrer da safra, como informação chave para o sucesso da lavoura e do manejo de risco da ferrugem asiática, no curto prazo. No médio prazo, previsões sazonais de clima na safra podem ser úteis para se planejar atividades de manejo de acordo com a situação de risco, como por exemplo compra de fungicidas.

Ajustando o manejo da doença

Segundo recomendações do Consórcio Antiferrugem, a decisão do momento de aplicar e reaplicar fungicidas deve ser técnica considerando, além do monitoramento e previsões com base no clima, a logística de aplicação, presença de outras doenças e o custo de controle. Duas situações são possíveis de acordo com a percepção e aversão ao risco de quem toma a decisão: aplicar preventivamente ou esperar a doença aparecer na lavoura para fazer a aplicação quando da detecção dos primeiros sinais da doença. A observação empírica e os estudos de modelagem têm demonstrado que existem situações regionalizadas segundo as características climáticas das áreas produtoras no Brasil. É mais provável que produtores da região do Mato Grosso estejam em uma situação de maior risco climático para a ferrugem do que produtores no Estado do Rio Grande do Sul, onde chove menos no verão. Uma vez que ocorra descuido no monitoramento e atrasos sucessivos nas aplicações e reaplicações, a ferrugem se dissemina rapidamente na região em períodos chuvosos e há um alto risco de insucesso e perda de controle, com sérios prejuízos. Já em regiões de mais baixo risco histórico e onde as epidemias tem se apresentado de forma bastante irregular, em função de estiagens na safra, não se pode descuidar e baixar a guarda uma vez que situações de alto risco podem ocorrer.

A experiência tem demonstrado que, para a maioria das regiões, a detecção da ferrugem é apenas uma questão de tempo pois há fontes de inóculo permanentes durante todo o ano na América do Sul. No entanto, casos de alto risco tendem a ser esporádicos e localizados. Um complicador do meio para o final da safra é o aumento do inóculo em lavouras a serem colhidas já que há perda do residual, as quais passam a ser fonte de inóculo para lavouras vizinhas em estágio mais retardado. Por isso o risco aumenta sempre nos plantios mais tardios.

Análise preliminar da safra 2007/08

As previsões do início da safra apontavam para um possível atraso na entrada da ferrugem devido às condições de seca e alta temperatura no inverno na região central do Brasil, afetando a sobrevivência do inóculo. Soma-se a isso a expansão de adoção do vazio sanitário, atraso no plantio e tendências de chuvas ligeiramente abaixo do normal, principalmente no Sul do Brasil, sob influência do fenômeno La Niña. Até a segunda semana de fevereiro, o panorama mostra um claro atraso no início das detecções em lavouras comerciais comparado com as safras anteriores, de maneira geral, localizados em algumas regiões com alta concentração de focos como o estado do MS e do PR, com grande número de relatos desde o final de dezembro. Estas regiões são mais próximas do Paraguai, onde a ferrugem se mantém o ano inteiro. No MT, o vazio sanitário e as chuvas irregulares de novembro e dezembro provocaram atraso da entrada da doença, porém seguida de rápida dispersão no final de janeiro, com as chuvas voltando aos níveis normais e causando perdas na colheita. O mesmo foi verificado em GO, mas não em MG, onde condições de seca foram verificadas. No RS, as chuvas abaixo da normal em janeiro atrasaram a entrada da doença, mas não evitaram a sua ampla disseminação nas principais regiões produtoras. De maneira geral, no RS, PR e MS, segundo relatos de membros do Consórcio Antiferrugem, a doença está menos agressiva talvez pela dispersão lenta em lavouras protegidas, embora amplamente disseminada. Nos estados do MA poucos focos estão relatados, contrastando drasticamente com a safra passada. Na BA, até 10 de fevereiro não existem relatos da ferrugem, devido a severa estiagem.

Uma vez que a dispersão da doença pode ser rápida nas regiões onde está estabelecida, os plantios mais tardios exigirão maior atenção e proteção uma vez que o inóculo aumenta na região e o clima tende a ficar mais favorável no final da safra, principalmente no Sul do Brasil. Parcelas experimentais em Londrina, no plantio mais tardio, apresentam bom desenvolvimento da ferrugem, contrastando com os plantios antecipados, praticamente sem ferrugem (Cláudia Godoy, comunicação pessoal). A análise dos padrões de dispersão da doença, que se mostra distinto a cada safra, é de extrema importância para se conhecer os fatores de risco e melhorar a nossa capacidade de prever a doença de forma mais acertada. O processo é dinâmico e medidas de manejo, como o vazio sanitário, podem estar afetando os padrões de dispersão na escala regional e deve ser levado em conta nas análises.

A Figura 2 mostra o progresso da dispersão da doença no Brasil, na forma de número cumulativo de relatos de ocorrência, em três safras consecutivas. O clima mais seco na safra atual somado ao efeito do vazio sanitário e possivelmente ao plantio mais tardio, provocou uma entrada mais tardia da doença em lavouras comerciais, porém com similar taxa de aumento no número de focos nos locais onde o clima favoreceu a sua dispersão como no PR e MS. Na safra passada, somente no estado da Bahia foram registrados 740 focos em lavouras comerciais, contribuindo com o alto número final da safra (2719 focos em lavouras comerciais). A previsão para a safra atual é mais otimista considerando que as previsões para fevereiro, no RS e na BA são de continuidade de clima seco. Os números talvez fiquem mais próximos da safra 2005/06 que teve um clima menos favorável à ferrugem, comparado à safra 2006/07.

Figura 2. Progresso temporal da ferrugem asiática da soja no Brasil, em número cumulativo de relatos, em lavouras comerciais no período de novembro a março em três safras. A área sombreada em vermelho após o dia 11 de fevereiro é uma projeção para o progresso provável do número de relatos até o final da safra de 2007/08. Fonte: Consórcio Antiferrugem.

Oportunidades e caminhos a percorrer

Considerando a importância e a perspectiva de um longo convívio com a ferrugem asiática no Brasil, ainda que cultivares mais resistentes à doença estejam disponíveis no futuro, torna-se imperativo que o manejo da ferrugem e outras doenças da doença seja feito de forma mais racional e coordenada possível. As características distintas, e variáveis a cada safra, entre as diferentes regiões produtoras do sul ao norte do país não permitem a adoção de um modelo único de manejo.

Quanto ao uso de modelos para previsões sazonais orientadas diretamente ao manejo, as iniciativas ainda são limitadas no Brasil, porém promissoras. Um exemplo em uso na safra 2007/08 é a expansão do sistema desenvolvido pela Fundação ABC, para outras regiões no PR e parte do RS. O sistema tem base em uma rede de estações automáticas para coleta de dados meteorológicos, os quais são enviados para um banco de dados, sendo processados e disponibilizadas na Internet para uma rede de técnicos. Os modelos calculam a probabilidade de estabelecimento da doença na lavoura, sugerindo a intensificação do monitoramento. É importante destacar que o sistema também inclui intenso monitoramento em áreas fixas visando à detecção do inóculo e o progresso da doença.

O potencial de uso de modelos no manejo racional é grande e ainda não devidamente explorado no Brasil. Há necessidade de se utilizar o leque de recursos meteorológicos cada vez mais em crescimento no país e já disponíveis por instituições públicas e privadas da área de meteorologia. Ferramentas de agricultura de precisão (GPS), sistemas de informações geográficas, sensoriamento remoto e previsão de tempo e clima numérica e estatística, se apresentam como de grande utilidade para a geração de previsões e tendências regionais do risco da doença que embasam as decisões técnicas de planejamento e ação imediata. Pesquisas em andamento em nosso grupo de pesquisa, com algumas dessas metodologias, têm mostrado resultados interessantes, porém a operacionalização dessas atividades em larga escala exige um maior esforço, com equipes multidisciplinares e maior investimento, que ainda são escassos no Brasil.

Além da pesquisa básica, é importante desenvolver tecnologias de apoio às decisões de manejo racional da cultura, idealmente na forma de plataformas de informação e de suporte à tomada de decisão no manejo de pragas e doenças. O mapa do Consórcio Antiferrugem já fornece a base para tal, na escala do país, e há muito ainda a ser melhorado. Uma inevitável comparação é com os Estados Unidos, onde plataformas informatizadas de monitoramento e modelagem de risco da ferrugem já são bastante evoluídas, cujos pesados investimentos públicos e da iniciativa privada foram retornados e preveniram enormes perdas com aplicações desnecessárias de produtos, uma vez que a doença não teve o mesmo impacto no território americano, comparado ao Brasil. O caminho a ser percorrido ainda é longo e a chave é a integração rápida de informações e modelos confiáveis somados a uma efetiva comunicação do risco. Assim espera-se que as previsões da ferrugem, embora com suas incertezas inevitáveis, sejam embasadas em argumentos científicos e não apenas em exercícios de futurologia.

Revista Plantio Direto, edição 103, janeiro/fevereiro de 2008. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.