Ferrugem Asiática
Detectada pela primeira vez no Brasil na safra 2001/2002 a ferrugem asiática da soja, doença causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi resultou em perdas econômicas aos produtores rurais e a economia do país. No Brasil o custo de controle da doença chegou em média a 8% do total investido na produção. Contudo, o valor desembolsado pelos agricultores vem diminuindo progressivamente em decorrência do maior conhecimento da doença e também diminuição da intensidade com que as lavouras são atacadas.
O clima é um dos fatores que mais influenciam na incidência da ferrugem asiática, praticamente já disseminada em todas as regiões agrícolas brasileiras, em diferentes graus de potencial de dano. As chuvas bem distribuídas que favoreceram a soja, também favoreceram o progresso da doença e o agricultor, apesar de estar preparado para o combate, muitas vezes não tem condições climáticas adequadas para a aplicação de produtos destinados ao controle.
Segundo dados levantados junto às fundações de pesquisa, cooperativas, universidades, órgãos de assistência técnica e extensão rural pela Embrapa Soja, de Londrina, PR, as perdas causadas pela ferrugem na última safra ficaram ao redor de 2,67 milhões de toneladas, o que representa 4,5% da produção nacional e U$ 615,7 milhões. Somando o valor do custo do controle ao valor da perda em toneladas, chega-se ao total de U$2,19 bilhões. Embora as aplicações de fungicidas sejam direcionadas também a outras doenças fúngicas, sabe-se que o maior volume tem o objetivo de controle da ferrugem.
Nesse cenário, empresas e instituições trabalham na busca de ferramentas que auxiliem no controle da doença que já chegou a assustar agricultores e técnicos quanto à agressividade. Esse trabalho, realizado muitas vezes em parceria contribuiu na difusão de informações, treinou técnicos e agricultores, divulgou alertas e criou mecanismos de monitoramento e controle que trouxeram resultados positivos para a área agrícola e para a economia do país. Há seis safras o sistema produtivo convive com a ferrugem asiática e encontra caminhos para minimizar as perdas na soja, cultura de grande importância econômica.
Ações e parcerias
Com o apoio de instituições representantes dos diversos segmentos como fundações, universidades, institutos de pesquisa, entidades representantes de fabricantes de insumos e cooperativas de produtores, atua desde 2004 o Consórcio Antiferrugem.
O Consórcio teve, desde o seu início, o objetivo de levar ao agricultor as informações disponíveis sobre a doença, capacitá-lo ao manejo, além de cadastrar laboratórios habilitados para auxiliar na correta identificação da doença. As informações coletadas são repassadas ao mapa de dispersão da ferrugem, como forma de alertar a cadeia produtiva para a presença da doença em determinada região.
Entre as ferramentas de manejo e controle da ferrugem asiática, também pode ser destacado um programa que soma serviços capazes de oferecer soluções adequadas às peculiaridades de cada região produtora e o uso de produtos de alta performance. O Programa SOS Soja é um conjunto de ações e técnicas desenvolvidas por iniciativa da Bayer CropScience, com o apoio de algumas instituições, com o objetivo de amenizar perdas causadas especialmente pela ferrugem em lavouras de soja.
O SOS Soja oferece soluções e apoio técnico necessários para o manejo de pragas e doenças nas lavouras. Os pontos de apoio do programa são o ”SOS Diagnóstico”, composto por centros de análise montados a cada safra em parceria com institutos de pesquisa e universidades, para receber amostras das lavouras encaminhadas por responsáveis técnicos ou pelo próprio agricultor e o ”SOS Monitoramento”, acompanhamento técnico realizado por uma equipe de campo.
Por meio do SOS Soja são realizadas análises minuciosas das folhas coletadas e, em caso de constatação de doenças, a empresa oferece suporte ao produtor e auxilia na tomada de decisão sobre a melhor forma de manejo. O SOS é o único programa privado que, além da ferrugem asiática, auxilia no diagnóstico de outras doenças e pragas que podem prejudicar o potencial produtivo das lavouras de soja, como oídio e doenças de final de ciclo.
Histórico
Iniciado como serviço de monitoramento pioneiro para controle da ferrugem asiática nas principais regiões produtoras do Brasil em 2003, o SOS Soja contribui para o abastecimento de informações sobre a incidência da doença no Sistema de Alerta da Embrapa Soja. Na safra 2006/2007, informa Anildo Betencourt, da Bayer Cropscience, o programa analisou aproximadamente 50 mil amostras nos 56 centros de diagnósticos montados no Brasil, registrou o atendimento de 12 mil fazendas e envolveu cerca de dois mil engenheiros agrônomos, além de monitorar mais de seis milhões de hectares de área plantada (o que corresponde a 20% da área de soja plantada no Brasil).
Na Região Sul o SOS Monitoramento foi liderado pela Regional Curitiba da Bayer CropScience e é desenvolvido em parceria com a Fundação ABC, de Castro (PR). A tecnologia foi gerada pela Fundação, com base no Sistema de Informação de Doenças (SID), e oferecida aos clientes Bayer. ”Para esta safra o trabalho será expandido para as demais regionais da empresa no sul do país, e passará a monitorar uma área de aproximadamente cinco milhões de hectares de soja. O Programa é importante porque as detecções rápidas e precisas são fundamentais para o controle mais adequado da ferrugem asiática”, destaca Betencourt.
Dinâmica do Programa
O funcionamento do Programa envolve 12 agrônomos de campo ligados à Fundação ABC. Esses profissionais monitoram lavouras e disponibilizam informações on-line para área técnica, detalha o pesquisador Olavo Corrêa da Silva, coordenador do programa na ABC. ”Coletamos os dados de doença a campo correlacionamos com informações de clima, interpretamos e enviamos uma mensagem para o consultor, ajudando na tomada de decisão”.
Uma vez aproveitado pelo SOS Soja, lembra Olavo, o Sistema de Informação de Doenças que a ABC oferecia às três cooperativas mantenedoras (Arapoti, Batavo e Castrolanda), foi incorporado às tecnologias Bayer e recebeu o mesmo nome. O levantamento de informações, entretanto, permaneceu sob a responsabilidade da Fundação ABC.
Olavo Corrêa da Silva, da Fundação ABC: ”É necessário ser muito preciso no trato com da doença, o agricultor não pode errar”.
O SID foi concebido há cinco anos, quando a ferrugem asiática chegou no país e foi caracterizada como uma doença de dispersão a longa distância, através do vento, não sendo, portanto, um problema isolado. Ao contrário, evidenciava-se como uma doença de caráter epidêmico e de grande dano. ”Percebemos a necessidade de auxiliar o engenheiro-agrônomo por se tratar de uma doença de difícil visualização, pois quando a visualização se torna fácil, o produtor já perdeu, não adianta mais controlar, e por isso nós tínhamos necessidade que o assistente técnico estivesse seguro no diagnóstico”, esclarece. Em função disso, no ano passado houve uma epidemia de ferrugem em todo o Paraná, com registro de danos superiores a 15 % da produção, mesmo com o uso de fungicidas. No Grupo ABC as condições de ferrugem foram muito severas, e mesmo assim tivemos um dos melhores anos de produtividade na cultura da soja. Não se perdeu porque seguimos o programa junto com a área técnica, não erramos”, relata Olavo Corrêa.
Em termos práticos, o SOS Soja tem como objetivo informar a rede cadastrada no programa (agrônomos, pesquisadores, cooperativas e consultores técnicos) sobre a incidência da ferrugem asiática nas lavouras, e a possibilidade de propagação da doença. Estes alertas são emitidos após o levantamento das informações pelas equipes de campo que transmitem todos os dados por meio de Palm Tops para o centro de pesquisa da Fundação ABC. Cada agrônomo ou consultor cuida de uma área que abrange em torno de seis ou sete municípios. Realizam visitas semanais para monitorar a existência de focos de ferrugem, verificam se houve aumento da incidência, se a doença está disseminada em toda área e monitoram a eficiência do fungicida. Ao sair da propriedade, o técnico transmite os dados obtidos para um software apropriado na Fundação, que armazena os informes. Já os pesquisadores da instituição realizam análises e cruzam as informações com dados adicionais (altitude das lavouras, disponibilidade de água no solo, pluviosidade e previsão do tempo).
Com estes resultados os técnicos podem auxiliar os agricultores a definir o melhor momento para aplicação dos fungicidas. O programa utiliza a tecnologia como ferramenta para traçar possíveis curvas de tendências da doença, em diversos pontos de monitoramento, com a emissão de alertas para a rede cadastrada por meio de mensagens de celular (SMS), e-mails e pelo site do SOS Soja. Além disso, o programa também conta com parceria da Google Earth, navegador que possibilita a visualização do local monitorado por meio de imagens capturadas via satélite, e que ficam disponíveis no site SOS Soja.
Custos x resultado
Exceto a região das cooperativas ABC, todo uso do sistema SOS Soja nas demais regiões sojicultoras do país é custeado pela Bayer CropSience, que investiu em torno de 600 mil reais na Fundação ABC para que seu cliente pudesse dispor do serviço. Esses recursos foram direcionados à montagem e treinamento de uma grande equipe de apoio, formada por agrônomos, técnicos em informática, geração de software, interpretação de clima e outros profissionais, responsáveis pelo recebimento de demandas, processamento de dados e retorno das informações aos técnicos de campo com um prazo máximo de seis horas.
Com tecnologia genuinamente brasileira, de acordo com Olavo Corrêa, o programa não encontra similar em outra parte do mundo. Para sua formatação a Fundação utilizou modelos para interpretação de clima do pesquisador Erlei Melo Reis, da Universidade de Passo Fundo, RS, e para interpretação dos dados de desenvolvimento de epidemias valeu-se de uma função gerada pelo Professor Emerson Dal Ponte, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Pelos cálculos de Olavo Corrêa da Silva, se o produtor fosse pagar pelo uso do sistema SOS Soja, o custo seria de aproximadamente R$ 1,00 por hectare, contra os R$ 45,00 por hectare de uma única aplicação de fungicida. Se o agricultor adquirir o fungicida e não usá-lo na hora certa, vai perder, pois no caso de ocorrência de epidemia severa o atraso de poucos dias na aplicação pode resultar em quebra de produção de 200 a 300 kg de soja por hectare, pois o produto não vai funcionar. ”É necessário ser muito preciso no trato com da doença, o agricultor não pode errar. Se deixar à ferrugem se instalar na sua lavoura, vai perder”, enfatiza o pesquisador.
Para o engenheiro-agrônomo Anildo Betencourt, o SOS Soja está funcionando ”redondo”, mas ele ressalta que nada é definitivo, e que o sucesso não impede o seu aperfeiçoamento no futuro, pois a evolução tecnológica é permanente.
Teste rápido para ferrugem da soja
A identificação da ferrugem asiática na fase inicial do desenvolvimento é fundamental para definir o momento de aplicação do fungicida. Para facilitar a identificação da doença no campo a Milênia Agrociências importou e está realizando testes do QuickStix (www.envirologix.com), equipamento que identifica antígenos de uredinosporos, teliosporos e micélio do fungo Phakopspra sp., presentes nas folhas de plantas infectadas. O método é considerado eficiente e rápido para detectar a presença da ferrugem antes da formação de pústulas.De acordo com os estudos de inoculação controlada utilizando um nível baixo de esporos de 100.000 esporos/ml, este kit demonstrou ser capaz de detectar a infecção das folhas antes do aparecimento dos sintomas visuais, fator importantíssimo no controle da doença de forma eficiente.
Revista Plantio Direto, edição 103, janeiro/fevereiro de 2008. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.