Manejo integrado de doenças em plantio direto
Maria Paula Nunes1; Yeshwant Ramchandra Mehta21Bolsista do convênio Itapu/Iapar/Fapeagro, Especialista em manejo de doenças2Pesquisador do Iapar, PhD em Fitopatologia
Doenças de plantas causam perdas no rendimento de grãos no sistema plantio direto
Existem várias doenças fúngicas, bacterianas e viróticas que atacam diversas culturas utilizadas no sistema plantio direto, tanto no cultivo orgânico como não orgânico. Algumas delas atacam todas as partes das plantas e outras apenas a parte aérea, causando necrose e desfolhamento precoce e, em conseqüência, afetam negativamente a produção de grãos. Algumas doenças, como a mancha amarela de trigo, são mais severas no sistema plantio direto do que no sistema de preparo convencional do solo.
Como se inicia o ataque das doenças
A maioria das doenças é transmitida por sementes e restos culturais. Os agentes causadores das doenças fúngicas, principalmente aqueles que sobrevivem na ausência da planta viva, são chamados necrotróficos porque sobrevivem nos restos culturais mortos de um ano para outro. Assim, servem como fonte de infecção primária para as plântulas. Por outro lado, os agentes causadores que necessitam plantas vivas para sua sobrevivência são chamados parasitos obrigatórios (biotróficos), como a ferrugem da soja e do feijoeiro. Estes são trazidos do ar de outros campos e regiões, e podem atacar as folhas em qualquer fase da cultura dependendo das condições climáticas.
Importância do uso de semente sadia e livre de doenças
Como a maioria das doenças é transmitida por sementes (exceto ferrugens e carvões), o uso de semente sadia e livre de doenças é de fundamental importância, pois contribuirá para atrasar o início da epidemia da doença. Quanto mais tarde a doença iniciar, menor será a perda no rendimento de grãos. Por estas razões o uso de grãos como semente não é aconselhável.
Importância da rotação de culturas no manejo de doenças
No cultivo orgânico, nosso desejo é manejar as doenças em níveis os mais baixos possíveis, pois o controle total das doenças é quase impraticável. O uso de diferentes espécies de plantas na rotação é muito importante, pois a maioria das doenças é específica, isto é, atacam uma espécie, mas não atacam outras espécies de plantas. Assim, o uso apropriado de rotação de culturas, ou seja, o uso de culturas não hospedeiras de doenças das culturas sucessoras, ajuda a quebrar o ciclo das doenças, principalmente daquelas causadas por agentes necrotróficos. Cuidados especiais devem ser tomados na escolha de espécies de plantas para rotação de culturas. Triticale e centeio, por exemplo, não são ideais para a rotação com trigo, pois são sucessíveis à maioria das doenças que atacam o trigo, que é uma cultura de alta importância econômica e, portanto, podem contribuir para manutenção do ciclo das doenças. A cultura da moha, por ser altamente suscetível à brusone não deve anteceder as culturas de trigo, triticale centeio e cevada. As ferrugens são causadas por parasitos obrigatórios, e estes não sobrevivem nos restos culturais, portanto, não podem ser controladas através de rotação de culturas.
O esporo inocula inicial da ferrugem, são disseminados pelo ar
No Brasil, ainda não são conhecidos os hospedeiros nos quais a completa seu ciclo sexual. Por esta razão, acredita-se que os esporos da ferrugem asiática da soja são trazidos, pelo ar, de campos vizinhos, outros estados, ou outros países, como o Paraguai. Os esporos também são trazidos por ventos, a partir de plantas voluntárias da soja infectadas pela ferrugem. Acredita-se que existem mais de 40 espécies de plantas (hospedeiras intermediárias) para a ferrugem asiática da soja, incluindo a cultura do feijoeiro. No entanto, não há confirmação de que o feijoeiro comum seja hospedeiro da ferrugem asiática da soja no Paraná..
As condições climáticas do Paraná são favoráveis ao desenvolvimento da ferrugem asiática da soja
As condições climáticas de todo o Estado do Paraná são favoráveis ao desenvolvimento da ferrugem da soja e do feijoeiro. Essas ferrugens se desenvolvem plenamente entre 15 e 30ºC.
Outros meios de manejo de doenças, além do uso de sementes sadias e da rotação de culturas
a) A resistência varietal possui um papel muito importante no sistema de manejo de doenças. Sempre dar importância ao uso de cultivares resistentes às principais doenças. Quanto à ferrugem da soja, infelizmente, ainda não há disponibilidade de cultivares altamente ou completamente resistentes. Após a colheita da soja, deve-se eliminar plantas voluntárias de soja e, também, evitar o plantio da ”safrinha” da soja, respeitando o vazio sanitário.
b) Semeadura escalonada dentro da propriedade, ou seja, nunca semear toda a área em uma só época (data);
c) Diversificação de cultivares da mesma espécie da planta, ou seja, semear mais de uma cultivar e nunca cobrir toda a propriedade com uma só cultivar.
Manejo da brusone de cereais de inverno
A brusone ataca diversos cereais de inverno como o trigo, triticale, cevada e aveia, além de moha e outras gramíneas. É uma doença de alta importância econômica para o Brasil e especialmente para o Paraná, pois o Paraná é o maior produtor de trigo do país. Além disso, a cultura de trigo ainda é a melhor opção para o inverno. Em anos recentes, a resistência de cultivares da aveia preta foi quebrada. No entanto, existem cultivares de trigo e de aveia que são resistentes ou menos suscetíveis a esta doença. Portanto, ao fazer a escolha, preferência deve ser dada a cultivares mais resistentes. De maneira geral, as cultivares de aveia branca, tanto as forrageiras como as comestíveis, são resistentes (Tabelas 1 e 2).
Tabela 1. Resposta diferencial das cultivares de aveia branca a brusone causada por Pyricularia grisea sete dias após a inoculação em casa de vegetação.
* Escala visual de severidade, onde: 0= nenhuma infecção ou pequenas pontuações marrom-esbranquiçada; 0,25= pequenas manchas circulares ou elípticas com centro acinzentado, capaz de esporulação, normalmente espalhadas na folha e cobrindo <5% da área foliar infectada (AFI); 0,5= manchas tipicamente elípticas com esporulação cobrindo 25% da AFI; 0,75= manchas tipicamente elípticas cobrindo 25-50% da AFI; 1= manchas tipicamente elípticas cobrindo >50% da AFI. A reação 0 foi considerada resistente; 0,25 como moderadamente suscetível e entre 0,25 e 1 suscetível (Mehta & Baier, 1998). Tukey (5%).
Tabela 2. Resposta diferencial das cultivares de aveia preta a brusone causada por Pyricularia grisea sete dias após a inoculação em casa de vegetação.
* Escala visual de severidade, onde: 0= nenhuma infecção ou pequenas pontuações marrom-esbranquiçada; 0,25= pequenas manchas circulares ou elípticas com centro acinzentado, capaz de esporulação, normalmente espalhadas na folha e cobrindo <5% da área foliar infectada (AFI); 0,5= manchas tipicamente elípticas com esporulação cobrindo 25% da AFI; 0,75= manchas tipicamente elípticas cobrindo 25-50% da AFI; 1= manchas tipicamente elípticas cobrindo >50% da AFI. A reação 0 foi considerada resistente; 0,25 como moderadamente suscetível e entre 0,25 e 1 suscetível (Mehta & Baier, 1998). Tukey (5%).
Diferença entre a brusone e a giberela do trigo
A brusone ataca uma região da espiga, acima da qual a espiga se torna estéril, enquanto a giberela ataca espiguetas individuais provocando sua esterilidade. A brusone pode atacar toda a parte aérea da planta, enquanto a giberela ataca apenas as espigas. Ambas as doenças são de difícil controle pois, os seus patógenos sobrevivem nos restos culturais, nas sementes, e em outros hospedeiros. Por isso, todo e qualquer esforço para minimizar o inóculo inicial deve ser realizado conforme dito anteriormente.
Figura 1. Comparação de sintomas da brusone e da giberela de trigo. A esquerda – espiga de trigo com sintoma de giberela. Nota-se espiguetas individuais infectadas; a direita – espiga de trigo com sintoma de brusone. Nota-se espiga branca acima do ponto de infecção.
Controle da helmintosporiose do trigo
A helmintosporiose do trigo é causada por duas espécies do patógeno; o Bipolaris sorokiniana (comumente chamada helmintosporiose) e o Drechslera tritici-repentis (comumente chamada mancha amarela). Ambos os patógenos atacam toda a parte aérea da planta e são transmitidos por sementes, restos culturais e pelo vento. Entre as duas helmintosporioses, a mancha amarela é a mais problemática, pois ela sobrevive nos restos culturais na forma de frutificação sexual e ataca as plântulas de trigo logo após a sua emergência e continua liberando altas quantidades de esporos durante todo o ciclo da cultura. Atualmente, existem cultivares mais resistentes às duas helmintosporioses.
Controle das doenças bacterianas do trigo, da soja e do feijoeiro
As doenças bacterianas são transmitidas quase que exclusivamente por sementes infectadas e/ou contaminadas. As bactérias que atacam essas três culturas são diferentes. A bacteriose do trigo e o crestamento bacteriano comum do feijoeiro são doenças tradicionais destas culturas. Recentemente, a bacteriose da soja causada por Pseudomonas é a doença que está chamando a atenção dos produtores, pois ela nunca atingiu níveis prejudiciais à soja no Paraná. Atualmente a produção e o uso de sementes sadias e livres da bactéria, aliado ao uso de cultivares menos suscetíveis, são as medidas mais apropriadas de manejo dessas doenças.
Figura 2. Sintomas de Crestamento bacteriano comum (Xanthomonas axonopodis) do feijoeiro nas vagens.
Figura 3. Sintomas de Crestamento bacteriano comum (Xantho-monas axonopodis) do feijoeiro nas vagens
Figura 4. Sintomas de Pseudomonas syringae pv. glycines nas folhas de soja.
Sistema de plantio direto orgânico: produtos não sintéticos que podem ser utilizados para manejar as doenças
Neste sistema de cultivo, infelizmente, ainda não há produtos não sintéticos, que proporcionem um êxito desejável. Em certas situações, a calda bordaleza é utilizada. A pesquisa tem o desafio de verificar a eficiência de produtos naturais e não sintéticos para manejar as doenças, minimizando o custo de produção e ao mesmo tempo aumentando a lucratividade dos produtores. Atualmente, esforços máximos neste sentido são feitos pelos pesquisadores para que o cultivo orgânico seja sustentável e eco-amigável no Estado do Paraná.
Revista Plantio Direto, edição 101, setembro/outubro de 2007. Aldeia Norte Editora Ltda., Passo Fundo, RS.