A rastreabilidade da produção no Sistema Plantio Direto na Palha
A busca de oportunidades de mercado com rastreabilidade foi o motivo que levou a Cooperativa Agropecuária Batavo, de Carambeí (PR) a iniciar, em 1996, um trabalho nessa área, tendo como objeto a cultura da soja. Na época havia uma preocupação geral com a cadeia alimentar, logo após o surgimento da doença da vaca louca na Inglaterra. Preocupada com a polêmica, a cooperativa pensou em fazer algum trabalho de rastreabilidade dentro do Grupo ABC (cooperativas Arapoti, Batavo e Castrolanda), aproveitando a fidelidade dos associados na entrega de seus produtos, o que facilita o controle da cadeia produtiva.
No início não havia qualquer idéia de agregar valor à produção, era apenas uma proposta de rastreabilidade, aproveitando a facilidade para desenvolver o trabalho dada a sinergia existente entre as cooperativas e seus cooperados. Nos primeiros seis anos não foi obtido qualquer prêmio pelo trabalho. Mas a partir do sexto ano algumas indústrias locais começaram a procurar a cooperativa oferecendo prêmio em função da segregação. ”Como toda produção dos associados passa pela cooperativa, ficou mais fácil o trabalho. Começou-se a agregar valor à produção a partir das indústrias locais, e logo outras tiveram seu interesse despertado. Desde então iniciou-se um trabalho mais completo e mais disciplinado de rastreabilidade”, detalhou o agrônomo Antonio Carlos Campos, gerente técnico da Cooperativa Batavo, relatando aos participantes do Simpósio sobre Plantio Direto na Palha o surgimento do projeto de rastreabilidade da cooperativa paranaense.
O programa de rastreabilidade exige comprometimento e responsabilidade, pois a contaminação pode levar a perda de um silo contendo de 5 a10 mil toneladas de grão.
Segundo ele, os prêmios foram gradativamente aumentando e, embora insignificantes, em 2001 já pagavam os custos das empresas contratadas para fazer a certificação. Atualmente, a premiação ultrapassa 1 milhão de dólares por ano. ”Nós não somos contra a soja transgênica, mas aproveitamos uma oportunidade de negócio que o mercado nos oferece, e isso faz com que tenhamos que, cada vez mais, buscar a segregação”, enfatiza Campos.
A Batavo controla hoje 65 mil hectares de lavouras onde são produzidas 200 mil toneladas de grãos. Exceto a área de semente, todo o resto é segregado e rastreado. Da área de cultivo sob controle da cooperativa apenas 8% recebe o plantio de soja transgênica, sendo que a maior parte dessa fatia (cerca de 90%) são áreas onde já existe resistência de plantas daninhas e, nesse caso, a opção pelo transgênico constitui a alternativa mais viável.
Entre os motivos que dão sustentação a esse trabalho há 12 anos, Campos listou a baixa competitividade dos materiais transgênicos comparados aos convencionais em relação à produtividade. ”A nossa área só vai crescer a partir do momento em que tenhamos uma soja transgênica tão produtiva quanto as convencionais que temos hoje”, disse o agrônomo.
Rumo ao ISO
Conforme Campos, a dinâmica do sistema de rastreabilidade da Batavo funciona assim. Uma empresa certificadora foi contratada para orientar e referendar o processo de certificação em suas diversas fases, e preparar a documentação exigida para rastreabilidade dentro de um contexto mundial. A assistência técnica precisou se adequar a um processo sistemático exigido, detalhando histórico de área, localização de glebas, rotação de culturas, formação de plantio e colheita. A logística de transporte passou a ser rigorosa, buscando evitar a contaminação, dada a difusão da soja GM em todo meio agrícola. Todo planejamento de safra passou a utilizar o banco de dados da Fundação ABC, que dispõem de dados geo-referenciados desde o ano 2003, permitindo identificar que material está sendo plantado, o que oferece maior segurança ao projeto de rastreabilidade.
Segundo Campos, o prêmio conquistado é repassado em 100% para o associado, visando mostrar a ele que compensa cultivar soja convencional. Numa análise econômica entre o custo convencional e o direto na estrutura da Batavo, o convencional apresenta ainda um ganho em torno de 50 dólares (por volta de 100 reais) por hectare. Além disso, o mercado está pagando por aquilo que muitos já não tem, e o prêmio está aumentando. Outra condição importante no controle do processo de rastreabilidade: todo produtor é identificado com lote, volume pelo qual está entrando ou saindo da cooperativa, tem produto e variedade nominados, todos pré-requisitos essenciais para que o trabalho seja bem feito.
A cooperativa iniciou há pouco tempo um projeto de rastreabilidade em soja de hilo branco, pelo qual o mercado está pagando prêmio, e um trabalho diferenciado em milho, pelo qual também está sendo agregado valor a produção.
Como produtora de semente a Batavo cuida do processo de produção desde a origem, e como compradora exige de seus fornecedores a comprovação de que se trata de ”soja free”, quer dizer, livre de organismos geneticamente modificados. Todos os materiais produzidos pela cooperativa (cerca de 20 variedades) são amostrados, lote por lote, pela empresa certificadora. Essa mesma empresa faz a seleção de 30% dos produtores de soja convencional, vai às propriedades, colhe amostras e faz o processo de análise. Na fase de cultivo o trabalho consiste especialmente no cuidado que o produtor no plantio, limpeza de lote, limpeza da plantadeira, todos visando minimizar eventual contaminação com outros materiais.
A empresa certificadora exige que todas as amostras permaneçam certo período dentro da cooperativa, identificadas, para que a auditoria possa verificar. Na fase de recepção, a cada cinco toneladas é feita amostragem, e a empresa certificadora faz os testes. O custo de uma certificação, de acordo com Campos, varia de empresa para empresa. No caso da Batavo ele é de 2 centavos de dólar por tonelada produzida, valor que, segundo ele, é insignificante, diante de um processo que tem trazido bons resultados.
A rastreabilidade, defendeu o agrônomo, é um programa muito simples, mas de grande responsabilidade, porque uma vez que se receba toda soja segregada, e na saída haja alguma contaminação, perde-se um silo inteiro, de 5/10 mil toneladas. Campos adiantou ainda que a Batavo é hoje uma das poucas cooperativas brasileiras que caminha para a certificação. Seu processo para obtenção do certificado ISO encontra-se bastante avançado, com auditores internos descrevendo os procedimentos-padrão, e auditores externos com visitas programadas para o próximo ano.
Revista Plantio Direto, edição 101, setembro/outubro de 2007. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.