A Experiência da Fazenda Boa Fé


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Publicado em: 01/10/2007

A experiência da Fazenda Boa Fé

A sustentabilidade da atividade agropecuária na experiência do Grupo Ma Shou Tao, que controla a Fazenda Boa Fé, de Uberaba (MG), está fundamentada em quatro pontos estratégicos fundamentais: diversificação de culturas, integração lavoura e pecuária, verticalização da produção e profissionalização da gestão. A eles, o empresário Jônatan Min Ma acrescenta um quinto item, que considera igualmente importante, a adesão de parcerias técnicas e comerciais.

Nesse contexto, a integração lavoura/pecuária tem origem num trabalho iniciado nos começo dos anos 90, onde se destacam a atuação da Federação Brasileira do Plantio Direto, Associação do Plantio Direto no Cerrado, Embrapa Arroz e Feijão, Clubes dos Amigos da Terra e produtores. Uma das experiências mais bem sucedidas resultante dessa conjugação de forças foi o Sistema Santa Fé, cujo princípio era introduzir o consórcio de uma gramínea juntamente com a cultura de verão, visando o pastejo e a produção de carne na entressafra, que ocorre de maio a setembro, no Brasil Central.

”São cinco a seis meses de período seco, que no sistema convencional dificultam a produção de alimentos, a manutenção de uma cobertura, ou de uma safra de inverno, que possa manter uma rentabilidade por unidade de área”, detalhou Jônadan Hsuan Min Ma, diretor executivo do Grupo Ma Shou Tao, durante palestra aos participantes do Simpósio sobre Plantio Direto na Palha, realizado de 29 a 31 de agosto, em Ponta Grossa, Paraná.

Jônatan Min Ma falou aos participantes do Simpósio sobre os benefícios da ILP e da experiência da Fazenda Boa Fé

Com o Sistema Santa Fé, que permitiu uma plena integração lavoura/pecuária passou-se a ter uma safra de verão (soja ou milho), e na cultura do milho consorciou-se a espécie Brachiaria, que pode ser ruzizhiensis, quando visa-se apenas a produção de fito-massa e uso como cobertura verde durante o período de outono/inverno, ou Brachiaria brizantha, que além de produzir uma grande quantidade de matéria seca por hectare vai permitir também o pastoreio após a colheita do milho.

Como o sistema funciona

Quinze a 20 dias após o plantio do milho introduz-se a Brachiaria brizantha juntamente com a adubação de cobertura, semeada na entrelinha. Essa Brachiaria vai germinar cerca de 15 a 20 dias depois de plantada, sem competir e sem interferir na produtividade do milho, e vai permanecer subdesenvolvida, de certo modo suprimida, no meio da cultura, que deve se desenvolver normalmente no verão.

Quando chegar em março/abril, o milho vai ser colhido e a Brachiaria que estava subdesenvolvida passa a receber toda luz solar, expressando todo seu potencial de crescimento e desenvolvimento, com muita agressividade. Então em 30 dias, essa cultura estará fechando o solo, gerando uma massa de cobertura capaz de permitir a lotação de pelo menos duas ou até três unidades de animais (UA) com 450 kg de peso cada uma, por hectare. Podem ser garrotes, bezerros, bois magros para engorda, que vão crescer e se desenvolver de maio a setembro.

Esse trabalho, segundo o executivo do Grupo, permite duas coisas principais. No aspecto econômico gera uma produção agropecuária que vem pela produção do milho, seguida de uma produção de carne, o que aumenta a renda agrícola por unidade de área. Em segundo lugar, do ponto de vista técnico-agronômico, a produção de massa, de cobertura para o solo, vai enriquecê-lo com matéria orgânica, seqüestrar carbono, reciclar nutrientes, conservar a umidade do solo, e outros benefícios igualmente importantes.

Na experiência do Grupo Ma Shou Tao, no primeiro ano de trabalho, uma sociedade foi estabelecida onde um parceiro entrava com os bois, e do ganho de peso obtido por unidade de área 55% ficou para o Grupo e 45% para o parceiro, respectivamente. Com essa parceria, investindo por volta de 270 a 300 reais por hectare em semente, construção de cercas, manejo de gado, sal mineral, mão-de-obra, conseguiu-se aumentar o equivalente a 13% líquido do equivalente em milho. ”Digamos que eu colhi 100 sacos de milho; é como se eu tivesse colhido 113 sacos, ou 13% a mais na minha renda com milho. Se fosse equivalente em soja, seria o equivalente a 20% da renda líquida. Então isso já provou a alta viabilidade desse sistema”, garante Jônadan.

No segundo e terceiro anos o sistema de parceria apontou resultados ainda melhores, saltando de 780 gramas de ganho de peso/dia, para 890 gramas de ganho de peso diário, com produção de 10 toneladas de matéria seca por hectare, no período de maio a setembro. No último ano a agropecuária já introduziu bois próprios, mas manteve ainda uma porcentagem em parceria, obtendo uma receita líquida de 1.005,00 reais por hectare (fechada em maio de 2007), o que equivale a uma produção de 145 sacas de milho naquela gleba, cotada a 18 reais a saca.

Além dos benefícios de produzir na entressafra, de gerar resultados econômicos e agronômicos, e de permitir maior flexibilidade ao produtor na tomada de decisões com a manutenção da renda ou eventualmente com renda até maior, a integração lavoura/pecuária, na análise de Jônadan, também liberta o agropecuarista, da pressão de se ver obrigado a plantar, podendo simplesmente continuar com o boi, sem queda na renda.

Para ele trata-se de uma tecnologia que existe desde a década de 90, e que só agora está em evidência porque a crise mostrou que a diversificação é importante, a integração é fundamental para o sistema de plantio direto e para a sustentabilidade da agricultura, a verticalização é importante, e a profissionalização da gestão é algo que não pode mais ser ignorado. ”Hoje eu não sou mais pecuarista ou lavourista, eu tenho que me auto-intitular empresário do agronegócio. Eu tenho que plantar soja se ela for importante para o sistema. Eu posso produzir boi porque ele é importante para o sistema. Então, hoje eu não penso mais em lavoura sem pecuária, ou pecuária sem lavoura, os dois tem que conviver pacificamente e integrados”, disse o diretor do Grupo Ma Shou Tao aos participantes do Simpósio sobre Plantio Direto na Palha.

Embora a pecuária de leite não tenha sido arrolada no relato, o empresário adverte que ela também participa da integração. A agropecuária mantém confinamento e trabalha em cima de uma área de pasto irrigado. A integração se dá na utilização dos resíduos de soja, no processamento da semente de soja, do milho que é produzido na fazenda e utilizado tanto na forma de grãos quanto de silagem.

Resultados técnicos e econômicos da Integração Lavoura-Pecuária (ILP) na Fazendo Boa Fé

• Lotação média por hectare: 2 U.A.• Ganho de peso diário (GPD) médio do rebanho: 780 g/dia• Produção média de matéria seca total da forragem: 10 ton/ha• Número de ciclos de pastejo: 3,33 ciclos• Número de dias de pastejo por piquete: 11 dias• Número de dias de descanso por piquete: 44 dias• Custo de implatação anual do sistema (sementes de brachiária e mão-de-obra de construção do sistema de contenção com cerca elétrica com dois fios): R$ 11,16/ha• Custo de investimento do sistema (com vida útil de cinco anos amortização anual) incluindo o sistema total de contenção e bebedouros adaptados: R$ 63,76/ha (valor amortizado anual)• Custeio do rebanho com medicamentos e sal proteinado: R$ 165,00/ha• Custo total anual do projeto por hectare: R$ 228,76• Ganho de peso total/ha, considerando-se a lotação média X GPD x 150 dias: 312 kg/ha (14,4@líquida/ha)• Valor médio da @ na venda dos lotes: R$ 50,00 ou R$ 1,66kg peso vivo• Receita bruta/ha: R$ 519,68• Lucro líquido/ha: R$ 291,22• Preço da soja em outubro 2005: R$ 25,00/saca• Preço do milho em outubro 2005: R$ 15,00/saca• Equivalência do lucro líquido do sistema em sacas de soja: 11,65 sacas• Equivalência do lucro líquido do sistema em sacas de milho: 19,41 sacas

A consolidação dos resultados comprova a eficiência e a rentabilidade técnica-econômica da ILP em SPD, o que está permitindo a ampliação do projeto para a área total da propriedade cultivada com grãos na safra 2006/2007.

Revista PLantio Direto, edição 101, setembro/outubro de 2007. Aldeia Norte Editora Ltda., Passo Fundo, RS.