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Publicado em: 01/10/2007

(Re)conhecendo a precisão na agricultura - II

Álvaro Vilela de Resende & Luciano Shozo ShiratsuchiPesquisadores da Embrapa Cerrados, nas áreas de Fertilidade do Solo e Agricultura de Precisão, respectivamente.E-mails: alvaro@cpac.embrapa.br, shozo@cpac.embrapa.br

No que se refere à fertilidade do solo, a agricultura de precisão tem grande potencial de desenvolvimento, mas ainda envolve elevados custos com análises de solo. Esse tem sido um fator de desestímulo para os agricultores e vem demandando pesquisas que possam indicar alternativas de redução desses custos, sem prejuízo da eficiência. Nesse aspecto, é necessária a definição de técnicas de amostragem otimizadas, que permitam reduzir o número de amostras a serem analisadas, mas mantendo-se a confiabilidade para recomendação de fertilizantes de forma diferenciada dentro do talhão.

Na pesquisa em agricultura de precisão, têm-se empenhado grande esforço em caracterizar a variabilidade espacial dos atributos do solo, visando estabelecer procedimentos amostrais que garantam a representatividade das amostras coletadas numa área. Estudos empregando geoestatística tem sido muito utilizados com essa finalidade. Tais estudos têm indicado a necessidade de grades amostrais relativamente densas (coleta e análise de grande número de amostras) para que se possa captar a variabilidade do solo nas lavouras e caracterizar sua estrutura espacial.

A geoestatística parece ser uma abordagem eficiente para descrever atributos cujo comportamento espacial depende essencialmente de processos naturais (ex: aqueles associados às características de formação do solo, como a textura e a mineralogia) e que tendem a permanecer estáveis ao longo do tempo. Na prática, existem complicadores que distorcem ou tornam mais complexa a caracterização da variabilidade espacial do solo em áreas agrícolas, especialmente no caso dos atributos químicos (ex: teores dos nutrientes). A distribuição espacial de subáreas que foram alteradas por falhas ou desuniformidade no manejo nutricional (calagem, adubação) das culturas é aleatória, implicando em descontinuidade no padrão de variabilidade dos atributos e mascarando a variabilidade que seria devida aos condicionantes naturais. Assim, dificilmente os padrões espaciais encontrados para os atributos de fertilidade do solo numa área são extrapoláveis para outras ou se mantém inalterados com o passar do tempo. Com as intervenções a cada cultivo, acumulam-se interferências que levam à modificação dos padrões de variabilidade numa mesma área ao longo do tempo.

Via de regra, a quantidade de amostras que seria satisfatória estatisticamente costuma ser inviável nas condições de lavouras comerciais, sobretudo na região do Cerrado, em que as grandes dimensões das áreas de cultivo acarretam numa escala incompatível com a idéia de monitoramento detalhado das lavouras. Em outras palavras, quanto maiores as áreas de plantio, menos intimamente se conhece o solo, suas potencialidades e limitações.

A divisão do talhão em grade com quadrículas de tamanho variável, normalmente entre 2 e 10 hectares, vem sendo empregada para amostragens de solo pelas empresas prestadoras de serviços em agricultura de precisão. A adequação desse dimensionamento de grades amostrais para fins caracterização da fertilidade do solo e definição dos locais da lavoura que devem receber tratamento diferenciado na adubação é um aspecto questionável. Portanto, estão ainda por ser indicados critérios para melhor caracterizar espacialmente a fertilidade do solo numa lavoura.

É interessante relembrar que os métodos tradicionais de avaliação da disponibilidade de nutrientes (análise de solo) e dimensionamento da adubação (interpretação da análise) pressupõem um processo de amostragem baseado na identificação de subáreas homogêneas de um talhão e para cada uma delas se faz uma amostragem em separado. Critérios subjetivos e até empíricos são usados para essa separação em glebas homogêneas. O conhecimento do histórico de uso e eventuais variações no manejo do solo em diferentes pontos do talhão é um aspecto fundamental nesse processo.

Na agricultura de precisão, pode-se trilhar o mesmo caminho, associando esses critérios à rotina de procedimentos para mapear a fertilidade do solo. É preciso ter em mente que a ocorrência de diferenças de produtividade em subáreas dentro de um talhão é o que justifica o uso de técnicas de agricultura de precisão e, por isso, essas diferenças devem ser detectadas in loco, por meio de pesagens dos grãos colhidos ou pelo uso de colhedora equipada com sensor de produtividade. A maioria dos agricultores não atenta para detecção de zonas de variação de produtividade dentro das lavouras.

Sem acompanhamento e bom senso, a automação da amostragem e da interpretação dos mapas de fertilidade e de produtividade, poderá resultar em esforço inócuo e até ser prejudicial, levando apenas ao aumento de gastos, sem aumento de eficiência no sistema de produção. Intervenções localizadas equivocadas, ao invés de permitirem melhor controle do suprimento de nutrientes às culturas, poderão originar mais fatores de interferência e aumentar heterogeneidade do solo, o que seria pior que o manejo pela média com doses padronizadas para o talhão inteiro.

No caso de fazendas que já fazem uso das recomendações agronômicas preconizadas para lavouras de alta produtividade, é uma utopia pensar que apenas o fato de se ”mapear” o solo e variar as taxas de aplicação de nutrientes vai fazer com que sejam atingidos tetos de produtividade muito superiores àqueles obtidos com o manejo convencional. A partir de certo nível tecnológico, os ganhos decorrentes de refinamentos na condução das lavouras são discretos. Em áreas de sequeiro, quase sempre, maiores ganhos em produtividade são limitados por fatores relacionados ao clima (ex: época de início e regularidade das chuvas, períodos de veranico).

Somente dispor de um ferramental sofisticado não é suficiente para auferir o máximo benefício da agricultura de precisão. Na prática, é preciso associar uma escala de trabalho viável com um mínimo de (re)conhecimento das características do talhão (variações visuais de solo, drenagem, topografia, mudanças nos padrões de produtividade) para se identificar zonas com maior probabilidade de resposta ao manejo diferenciado da adubação. O maior esforço nesse sentido deve ser direcionado para a identificação de zonas homogêneas dentro de um talhão e para isso é fundamental a interação com o produtor ou a pessoa que está diretamente ligada ao dia a dia da condução das lavouras. Mesmo a partir de observações empíricas, as pessoas que lidam e observam constantemente as lavouras podem auxiliar muito na interpretação de mapas de produtividade e na tomada de decisão para o manejo localizado de diferentes partes da lavoura. Esse enfoque pode contribuir para a otimização de custos e aumento das chances de sucesso da agricultura de precisão.

Revista PLantio Direto, edição 101, setembro/outubro de 2007. Aldeia Norte Editora Ltda., Passo Fundo, RS.