O Controle Biológico e o Plantio Direto


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Publicado em: 01/06/2007

O controle biológico e o plantio direto

Dirceu GassenEngenheiro-agrônomo, MSc, Gerente Técnico da Cooplantio - Cooperativa dos Agricultores de Plantio Direto, Porto Alegre, RS - E-mail: dirceu@dirceugassen.com

Lagarta falsa-medideira morta pelo fungo Nomuraea rileyi

Em agricultura o controle biológico pode ser definido como supressão natural de populações de pragas, plantas daninhas ou patógenos, por meio de predadores, parasitos e microrganismos.

O estudo e a difusão do controle biológico se desenvolveram com maior ênfase a partir da década de 1970. Nesse período foram iniciados os programas de manejo de pragas em soja, trigo, cana-de-açúcar, pastagens e outras culturas.

O controle biológico de pulgões em trigo resultou na redução de 95% no uso de inseticidas na cultura, a partir de 1978, depois da introdução de parasitos da praga, sendo um exemplo clássico de sucesso citado na bibliografia internacional.

O Baculovirus anticarsia chegou a ser usado em quase 100 % da área de soja em muitos municípios do Rio Grande do Sul e do Paraná, por vários anos, entre o final da década de 1970 e início dos anos 80. Os programas de criação de parasitos da cana-de-açúcar e de fungos da cigarrinha das pastagens contribuíram para o estabelecimento de inúmeros laboratórios de multiplicação desses agentes de controle biológico.

A partir da década de 1980, com a expansão do plantio direto foram desenvolvidos e difundidos estudos sobre a fauna de solo, incluindo aspectos sobre controle biológico e sobre supressão de pragas e de doenças de plantas em lavouras.

Mesmo com as vantagens ambientais e econômicas do controle biológico e do manejo de pragas, alguns fatores levaram ao retrocesso no uso dessas práticas. Entre os mais importantes se destacam a monocultura em áreas extensivas, o preço baixo de inseticidas, a falta de patrocínio na difusão, a redução de pesquisa e valores éticos.

Áreas de monoculturas

Em agricultura, os desequilíbrios, que permitem a explosão populacional de pragas ou de patógenos de plantas estão associados a dois fatores principais. O primeiro é a disponibilidade de alimento representado por monoculturas cultivadas em áreas extensivas. E o segundo fator é perda de um ou mais elementos no controle biológico natural. Isto é, a falta de predador, parasito ou patógeno.

O crescimento da área de soja que chega a 40 milhões de hectares, somando o cultivo no Brasil e na Argentina, é importante fator de seleção de pragas. Essa extensa área contínua, com pouca ou nenhuma rotação de culturas, favorece a seleção de espécies que se alimentam da soja. Isso também desequilibra o ambiente para outras culturas, pela diminuição da diversidade vegetal e animal e pela redução de refúgios para inimigos naturais. A rotação de culturas e a semeadura de plantas entre as safras são importantes e necessárias para melhorar aspectos químicos e físicos do solo, mas também para interromper a seleção de populações de pragas, doenças e plantas daninhas.

Ninfa de percevejo do arroz morto pelo fungo Metarhizium sp.

Larva de Pseudoplusia includens parasitada pelomicrohimenóptero Copisosoma truncatelum

Na natureza as populações diversificadas de plantas e de animais favorecem o equilíbrio, pois sobrevivem as populações de cada espécie, que melhor se adaptam ao meio e são mais competitivas. Desequilíbrios podem acontecer em ambientes nativos, depois de eventos climáticos atípicos, como estiagens ou chuvas exageradas.

Em lavouras são poucas as espécies que aumentam a população, atingindo o limiar de dano econômico, recebendo a denominação de praga, de planta daninha ou de patógeno.

No caso de pragas, mais de uma centena de espécies é citada em soja, trigo, milho ou arroz. Porém, apenas um pequeno número, em torno de meia dúzia de espécies, atinge, efetivamente, o nível de praga. Mais de 90 % das espécies que consomem plantas cultivadas e poderiam desenvolver populações elevadas nas lavouras, tornando-se praga, são mantidas em populações baixas por agentes de controle biológico natural.

Com alimento vegetal disponível em áreas extensivas e a falta de agentes de supressão biológica natural, a população de pragas aumenta rapidamente, causando danos às plantas.

Preço de inseticidas

O uso generalizado e preventivo de inseticidas piretróides e o aumento de uso de fungicidas nas lavouras, certamente, afeta os fatores de supressão biológica natural e a dinâmica populacional de pragas.

O preço muito baixo de inseticidas determina a redução no nível de dano econômico para o controle de pragas e estimula a disseminação do uso preventivo (cheirinho de piretróide) misturado a herbicidas na dessecação ou a fungicidas para controle de doenças.

As doses baixas matam inimigos naturais e tem pouco efeito sobre a população de pragas e as misturas de inseticidas piretróides ou fosforados com fisiológicos ou baculovirus dão a falsa impressão de seletividade e maior persistência. Na realidade, a mistura significa a perda dos benefícios de inseticidas fisiológicos, pois atinge os agentes de controle natural. Por isso o uso de inseticida deve ser feito com base em critérios técnicos, com o objetivo de matar a praga alvo e auxiliar fatores de controle natural. Sempre que se aplicam produtos de amplo espectro de ação, se afeta a cadeia trófica, que resulta em desequilíbrios imediatos, com a ressurgência de pragas.

Em contraste com o preço baixo de inseticidas de amplo espectro de ação, as dificuldades para a adoção do controle biológico estão no investimento relativamente elevado, na dificuldade para obter resultados imediatos e no desconhecimento sobre dinâmica populacional da fauna associada a lavouras.

Patrocínio e apoio

Nas décadas de 1970 e 1980, empresas privadas que comercializavam inseticidas seletivos, como o pirimicarbe, Bacilus thuringiensis e Baculovirus anticarsia, patrocinavam a difusão da teoria e da prática do controle biológico.

Nas últimas duas décadas houve retrocesso nos programas de pesquisa e difusão do controle biológico e acentuada queda na divulgação do manejo integrado de pragas.

A redução do preço de inseticidas sintéticos a níveis que chegam ao valor equivalente a dois litros de combustível por hectare, dificulta o argumento do nível de dano e do uso de práticas de controle biológico, mais caras.

As conseqüências a médio e longo prazos foram evidenciadas nas últimas duas safras com o crescimento das populações da lagarta-preta (Spodoptera cosmioides) da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), da lagarta falsa-medideira (Pseudoplusia includens) e do percevejo-marrom (Euschistus heros). Todas, com necessidade de doses elevadas de inseticidas, chegando a 5 vezes a usada no passado. Com exceção da lagarta preta, as demais já têm populações resistentes a inseticidas, comprovadas pela pesquisa.

Valores éticos

As relações entre as plantas e os animais e o controle biológico são assuntos que sempre despertam interesse do homem. As ações de controle biológico, a preservação de recursos naturais e a produção de alimentos com boas práticas agrícolas estão diretamente relacionadas com a atitude dos envolvidos na atividade. Assim como a adoção do plantio direto foi lenta e gradativa, com base na atitude das pessoas, assim será possível retomar o interesse por uma agricultura com aumento na produção e com menor impacto negativo sobre recursos naturais.

De forma geral, entre agricultores e assistentes técnicos existe grande dificuldade na identificação e a diferenciação de espécies entre as que podem causar danos e as benéficas. Com a dúvida, o risco de perdas causadas por pragas e o baixo desembolso para aquisição de inseticidas, se opta pela adoção do controle. Com isso, se consagra o sentimento de que ”inseto bom é inseto morto”. A prática do ”cheirinho de piretróide”, ou a pequena dose do inseticida adicionada a herbicidas ou fungicidas, por ser barato, é uma prática muito nociva a predadores e parasitos de pragas.

O controle biológico de pragas e doenças está diretamente relacionado com o conhecimento de aspectos da biologia e da adoção de práticas que beneficiam a supressão natural de populações, que podem atingir o nível de dano ou ser consideradas praga.

A criação de inimigos naturais já não é mais realizada e o uso de baculovirus, por falta de estratégia de rotação com outras formas de controle, selecionou populações de lagartas resistentes e está sendo pouco usado nas lavouras.

Favorecer a atividade biológica com base no aumento do volume de biomassa vegetal é a chave para a diversidade de espécies e para o estímulo a competição dos agentes de controle natural. É a interação desses fatores que determinarão a população de organismos consumidores, predadores e decompositores de material orgânico.

Para que isso ocorra é muito importante aumentar a biomassa vegetal, a adubação verde, a produção de carbono e, ao mesmo tempo, retomar a difusão teórica e prática da biologia do solo, além de investir na pesquisa de controle biológico clássico e por inundação. Trabalhar em sistemas de produção envolvendo programas de manejo integrado, combinando formas de supressão de populações de pragas e de estímulo a predadores, parasitos e entomopatógenos.

Aliás, as estratégias de supressão natural e de manejo de pragas devem ser aplicadas em conjunto com os de plantas daninhas e de patógenos.

Larvas de Tiphia sp. sobre o corpo de larvas de Diloboderus abderus

Aranha predando lagarta em girassol

Controle biológico no plantio direto

A base da evolução do plantio direto ocorreu por valores éticos e econômicos de grupos de agricultores, que buscavam a produção com menor impacto negativo sobre o ambiente. Os motivos mais destacados foram a erosão do solo, a contaminação da água e a necessidade cada vez maior de fertilizantes e produtos fitossanitários. As dificuldades na semeadura e no controle de plantas daninhas foram superadas pela oferta de produtos da iniciativa privada, favorecendo a disseminação generalizada do plantio direto, com vantagens econômicas e grandes benefícios ambientais.

Existe semelhança entre o plantio convencional, que por motivos econômicos e ambientais estimulou os movimentos para a adoção do plantio direto e no uso exagerado de inseticidas com a necessidade de retomar o manejo integrado de pragas. Entender a natureza e mudar para plantio direto é semelhante a identificar a fauna benéfica e buscar conhecimento sobre a dinâmica populacional de pragas e doenças associadas ao ambiente de produção de grãos.

Sob plantio direto, a abundância de palha, combinada com a prática de adubação verde, permitiu o restabelecimento de cadeias tróficas que favoreceram o equilíbrio de populações.

Nas últimas safras constatou-se o uso de doses cada vez mais elevadas de inseticidas, o aumento das populações de pragas consideradas secundárias como as lagartas, percevejos e ácaros e a ausência de programas efetivos de difusão de manejo integrado e de controle biológico de pragas.

A ineficiência no controle de pragas com inseticidas também ocorre com fungicidas em ferrugem-do-trigo e herbicidas na dessecação de azevém e plantas daninhas.

Diante disso são necessários investimentos em pesquisa para novas alternativas de controle e estímulo para geração de novos produtos com ação mais seletiva. É necessário pesquisar a dinâmica populacional de pragas, doenças e plantas daninhas, em condições de lavoura sob plantio direto. É urgente retomar e desenvolver programas de manejo integrado de pragas, doenças e plantas daninhas, estimulando os fatores de supressão biológica natural.

Revista Plantio Direto, edição 99, maio/junho de 2007. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.