Manejo e controle das principais doenças da cultura
Ao longo de seu desenvolvimento os cereais de inverno, em especial a cultura do trigo, são afetados por várias doenças causadas por bactérias, vírus e fungos, que muitas vezes resultam em perdas elevadas. A ocorrência dessas doenças está associada à suscetibilidade dos cultivares, ao surgimento de novas raças dos patógenos, ao manejo utilizado e às condições climáticas. Nas três últimas safras a triticultura brasileira sofreu com a incidência de doenças que interferiram na produtividade das lavouras, causando perdas e preocupando produtores.
Segundo Carlos A. Forcelini, fitopalogista e professor da Universidade de Passo Fundo, os problemas com o manejo de doenças em trigo aumentaram nos últimos anos. Em 2004, houve severas epidemias da mancha-amarela, que ocorreu já no perfilhamento. Na safra 2005, confirmou-se a ocorrência de novas raças do fungo P. triticina, agente causal da ferrugem da folha, quando as cultivares Ônix e BRS 194, os mais cultivados na época, foram extremamente afetados. Em 2006, as novas raças detectadas no ano anterior também mostraram menor sensibilidade aos fungicidas triazóis e o clima ameno de julho propiciou o aparecimento da ferrugem um mês mais cedo, determinando aplicações de fungicidas precoces e numerosas.
Para Forcelini o cultivo extensivo de cultivares com genes de resistência semelhantes, a aplicação tardia de fungicidas em doses reduzidas e com equipamentos de pulverização inadequados, são alguns dos fatores que contribuíram para o surgimento de novas raças e para as severas epidemias observadas nos últimos anos.
Viroses
A mais importante virose que ataca a cultura do trigo é o Nanismo Amarelo da Cevada (VNAC). O VNAC ocorre em aveia, cevada e trigo, causando sintomas de sub-desenvolvimento (nanismo) das plantas, com folhas eretas e amarelo-brilhantes, às vezes avermelhadas. O vírus do VNAC é transmitido por pulgões, causa a redução na movimentação de seiva para a espiga e por conseqüência a formação de grãos chochos. A ocorrência dessa virose é maior em invernos amenos, pois os pulgões são mais numerosos. Após a infecção a doença desenvolve sem a presença do vetor e a maioria dos cultivares de trigo é suscetível ao VNAC.
Doenças foliares
A ferrugem da folha, o oídio e as manchas são as principais doenças foliares do trigo. A ocorrência dessas doenças está relacionada às condições climáticas (temperatura e período de molhamento) ao longo do ciclo da cultura. Forcelini destaca que em anos secos há predominância do oídio, já em anos chuvosos a ferrugem e as manchas foliares aparecem de forma mais destacada, embora ambas possam ocorrer simultaneamente, em caso de variações das condições climáticas. Segundo o pesquisador, de forma geral em todos os anos as doenças podem se manifestar requerendo a utilização de medidas de controle.
Horas de molhamento foliar tem influência na ocorrência de algumas doenças do trigo
Plantas de trigo com lesões de ferrugem-da-folha
Ferrugem da folha
Essa doença é causada pelo fungo Puccinia triticina, suas lesões são pústulas amarelo-alaranjadas nas folhas e bainhas. O fungo apresenta grande variabilidade genética o que resulta no surgimento de novas raças capazes de sobrepor (”quebrar”) a resistência dos cultivares desenvolvidos pela pesquisa. Para Carlos A. Forcelini, um dos fatores que contribui para a grande variabilidade de P. triticina nas condições brasileiras é o cultivo contínuo de trigo entre diferentes regiões do país e também nos países vizinhos. ”A sobreposição de cultivos estabelece uma ”ponte verde”, que favorece a sobrevivência, multiplicação, disseminação e as trocas entre regiões”, explica. Segundo o pesquisador, o controle da ferrugem pode ser feito através da semeadura de cultivares resistentes, ou menos suscetíveis, e a aplicação de fungicidas em parte aérea.
Oídio
O oídio tem como agente causal o fungo Blumeria graminis. De acordo com Forcelini, trata-se de uma doença de fácil reconhecimento através das colônias branco-acinzentadas, formadas por estruturas do fungo, sobre as folhas e colmos. O fungo B. graminis sobrevive em trigos voluntários e em invernos mais secos a doença pode aparecer já na fase de perfilhamento da cultura, determinando aplicações precoces de fungicidas. O pesquisador recomenda o tratamento das sementes com fungicidas sistêmicos, cuja movimentação na planta permita proteger os estádios iniciais da cultura, como opção de controle.
Manchas foliares
A mancha-amarela, Pyrenophora tritici-repentis, e a mancha-marrom, Pyrenophora tritici-repentis, são as manchas foliares mais freqüentes na no trigo brasileiro. ”A mancha-amarela predomina no Rio Grande do Sul e a marrom no Paraná e outros estados. Os principais sintomas são lesões retangulares ou elípticas, de cor parda, ou mais escuras. A principal diferença entre elas está no halo amarelado em torno das lesões da mancha-amarela”. Forcelini destaca ainda que a mancha-marrom também afeta as espigas, com lesões elípticas, de bordos escuros, na parte central das glumas. Em ambos os casos os patógenos são transmitidos por sementes e sua sobrevivência no solo está relacionada ao período necessário à completa decomposição dos restos culturais, que dura em média 18 a 19 meses nas condições do Rio Grande do Sul. Segundo ele, o manejo da doença é feito através do uso de sementes menos infectadas, tratadas com fungicida, e a prática da rotação de culturas.
Doenças da espiga
As principais doenças da espiga são a giberela e a brusone, causadas pelos fungos Gibberela zeae e Pyricularia grisea, respectivamente. Carlos Forcelini explica que para seu aparecimento a brusone necessita de temperaturas médias entre 21 e 27 oC. A doença causa escurecimento do ráquis no local de infecção, o branqueamento da parte da espiga e manchas elípticas e acinzentadas sobre as folhas. ”O patógeno da brusone sobrevive em sementes, restos culturais e outras plantas hospedeiras. O controle é difícil e envolve o uso de cultivares menos suscetíveis, semeadura em épocas que reduzam a exposição das espigas a altas temperaturas e a complementação com fungicidas”.
A giberela ocorre pela exposição das anteras do trigo a chuvas que promovam molhamento contínuo por mais de 30 horas com temperatura média de 20 oC. Ela afeta a formação dos grãos tornando-os rosados e chochos, com espiguetas brancas ou de cor palha, e aristas arrepiadas. Outra característica é o micélio rosado e pontos pretos que aparecem entre as glumas. De acordo com o pesquisador, o inóculo vem dos restos culturais presentes na superfície do solo e de outros hospedeiros, como o milho e gramíneas. A disseminação dos esporos ocorre a longas distâncias, o que reduz os benefícios da rotação de culturas no manejo dessa doença. Para ele o manejo da giberela envolve a seleção de cultivares menos suscetíveis, a rotação de culturas e a aplicação de fungicidas que contenham triazóis na sua formulação. Forcelini destaca ainda que a giberela depende de molhamento contínuo durante a floração e por isso a aplicação do fungicida deve preceder a ocorrência de chuvas.
A brusone necessita de temperaturas médias entre 21 e 27 oC para seu aparecimento.
O Oídio é uma doença de fácil reconhecimento através das colônias branco-acinzentadas, formadas por estruturas do fungo Blumeria graminis.
A giberela ocorre pela exposição das anteras do trigo ao molhamento contínuo por mais de 30 horas com temperatura média de 20 oC.
Doenças x danos
Para Forcelini a redução no rendimento final de grãos varia em função da doença, da suscetibilidade dos cultivares, das condições climáticas e da época de sua ocorrência. Portanto, quanto mais cedo aparecem, maiores serão as perdas. ”Pesquisas desenvolvidas pelo Prof. Erlei Melo Reis, da FAMV/UPF, indicam que lavouras de trigo, com potencial de 3.000 kg/ha, podem perder de 12 a 17 kg/ha para cada 1% de incidência. Deve-se lembrar que 1% de incidência é apenas uma folha doente em cem. A ferrugem tem o maior potencial de dano, podendo atingir 80%. As doenças foliares são mais prejudiciais ao rendimento que a giberela, cujo dano médio fica abaixo de 20%”, destaca o pesquisador.
Redução potencial no rendimento de grãos por doenças em trigo
A influência do clima no aparecimento de doenças
O período de molhamento, caracterizado pela presença de água sobre os tecidos é condição fundamental à ocorrência da maioria das doenças. Para Carlos Alberto Forcelini, quanto mais longo o período em que os tecidos ficam expostos à umidade excessiva, maior será a chance da planta ser atingida por ferrugem, manchas foliares e giberela. ”Esse tempo é necessário para que os esporos possam germinar, se fixar superficialmente e se inserir na planta”. O pesquisador lembra que oídio não necessitada de água na superfície foliar, pois ocorre com maior freqüência em períodos de pouca chuva. ”Como a influência do período de molhamento e clima varia entre doenças, sempre haverá condição para alguma delas se manifestar, o que requer atenção constante por parte do produtor”.
Temperatura, horas de molhamento foliar e condição de clima requeridas para ocorrência de algumas doenças em trigo
Epidemiologia
O oídio, a ferrugem e as manchas são doenças que podem completar vários ciclos enquanto a cultura hospedeira estiver no campo, isso ocorre devido a sua natureza policíclica. É a quantidade de esporos produzida ao final de cada ciclo e a sua eficiência de infecção que determinam a intensidade do ciclo seguinte. ”No início de uma epidemia, o número de esporos é pequeno, mas sua eficiência é a máxima possível, pois os tecidos da planta são tenros e os locais de infecção estão 100% disponíveis. Portanto, o primeiro ciclo da doença é que dita o ritmo de toda a epidemia, desde que as condições ambientais permaneçam favoráveis”.
A segunda fase da epidemia se caracteriza pelo aumento acentuado dos sintomas e a fase terminal corresponde ao período de estabilização das doenças, pois a menor quantidade de tecido disponível para infecção diminui o seu ritmo. Segundo o pesquisador, sobrepondo a curva de progresso das doenças foliares sobre os estádios de crescimento do trigo (Figura 1), sob condições de clima favoráveis, a fase inicial da epidemia corresponde ao final do perfilhamento e início da elongação, a fase explosiva ao emborrachamento e a fase terminal à floração. ”Deve-se destacar que, a partir da elongação, não há mais emissão de folhas novas e qualquer perda de tecido será definitiva”, reforça.
Figura 1. Sobreposição a curva de progresso das doenças foliares sobre os estádios de crescimento do trigo.
Para Forcelini as medidas de controle dirigidas ao ciclo inicial da epidemia têm melhor resultado e os fungicidas sistêmicos aplicados na semente ou preventivamente na parte aérea, apresentam três benefícios importantes: atrasam o primeiro ciclo da doença, reduzem a sua intensidade inicial e diminuem o ritmo ou taxa da epidemia.
Para o pesquisador todos eles são efetivos e importantes, mas o primeiro é o que mais impacto causa. Ele explica que na aplicação do fungicida realizada após a constatação da doença, somente a diminuição da taxa será possível. ”A aplicação preventiva utiliza melhor as potencialidades do fungicida, resulta em residual mais longo e evita os danos iniciais pelas doenças, que são significativos”.
Segundo o fitopatologista o acompanhamento das condições climáticas, especialmente a temperatura e o molhamento foliar é que determinam a aplicação. ”Uma aplicação de fungicidas não recupera danos já causados pela doença às plantas. Após a aplicação, alguns dias ainda serão necessários para a estabilização do problema. Usando a ferrugem como exemplo, com ciclo de 7 a 10 dias, a doença só estabiliza 4-5 dias após a aplicação. Se a temperatura for mais baixa, esse período pode ser mais longo. Portanto, deve-se contabilizar os danos que ocorrem antes e logo após a aplicação do fungicida” destaca.
Para ele, a tomada de decisão deve sempre considerar as condições climáticas que antecedem a avaliação na lavoura e também as previsões para os dias seguintes. ”Se as previsões foram favoráveis nos dias anteriores, há muito mais doença incubada na planta do que o expresso pelos sintomas”, ressalta.
Para controle de doenças em trigo os triazóis e suas misturas com estrobilurinas são os mais utilizados, pois agem sobre a formação de componentes da membrana e parede celular dos fungos, enquanto as estrobilurinas atuam sobre a respiração mitocondrial. A ação dos triazóis paralisa crescimento das extremidades da estrutura vegetativa dos fungos (hifas) e interrompe o processo de colonização dos tecidos. Forcelini explica que a interrupção traz conseqüências diferentes, dependendo da idade da infecção. Nas recém estabelecidas, até 3-4 dias antes da aplicação, resulta na morte do fungo. Em infecções mais velhas, 5 a 8 dias, a energia não utilizada para o crescimento é realocada para a reprodução, originando lesões e formando esporos, viáveis ou não. Esse processo perdura por 3-4 dias, às vezes mais se a temperatura estiver baixa. ”O produtor muitas vezes percebe mais lesões após a aplicação do fungicida e interpreta como falha de controle. A causa, no entanto, está no elevado número de infecções incubadas, mas não visíveis, o que reforça a necessidade de se aplicar mais cedo, preventivamente ou, no máximo, quando do aparecimento dos primeiros sintomas”.
Diferença em rendimento de grãos (sacos/ha) com aplicação de fungicidas em cereais de inverno, em diferentes estádios de crescimento, em 2002, 2003, 2005 e 2006, na UPF. Médias de diferentes cultivares e fungicidas
1Maior ocorrência de doenças foliares e giberela.2Menor ocorrência de doenças foliares e giberela.3Média ocorrência de doenças foliares e alta incidência de giberela4Maior ocorrência de ferrugem da folha e média incidência de giberela. Dano maior por geadas.
O pesquisador salienta que após a aplicação do fungicida, a doença permanece estável por alguns dias, período caracterizado como de persistência ou residual. Ele destaca ainda que os fatores que mais encurtam o residual de um fungicida são o uso de sub-doses, aplicações curativas e pulverização inadequada. ”Após o período residual a retomada da doença é acelerada pela maior quantidade de tecido sadio disponível para infecção, sendo esse o momento da reaplicação, que deverá ser identificado pelo monitoramento assíduo da lavoura”.
Manejo
Para manejar as doenças em primeiro lugar deve-se tentar atrasar a sua ocorrência e reduzir a intensidade inicial por meio de medidas preventivas como a escolha de cultivares resistentes, a rotação de culturas e o uso de sementes tratadas. O segundo passo é a aplicação de fungicidas em parte aérea para diminuir a taxa ou ritmo de desenvolvimento da epidemia.
Cultivares com maior disponibilidade de sementes no RS e PR, nas últimas safras, e suas reações às doenças
Resistência genética
Em função das novas raças de P. triticina afetarem vários cultivares, é fundamental a escolha de genótipos que possuam resistência, mesmo que intermediária ou de planta adulta, para reduzir a pressão da doença. Preliminarmente, sabe-se que Avante e Pampeano são resistentes, assim como alguns cultivares Fundacep. Abalone e Taurus apresentam resistência de planta adulta.
Estratégias de controle e sua eficácia para as principais doenças do trigo
Legendas: ***= eficácia alta; **= eficácia média; *= eficácia baixa
Rotação de culturas
Os restos culturais servem de alimento para os patógenos que causam podridões de raízes, manchas foliares, a giberela e a estria bacteriana em trigo. Para as condições do Rio Grande do Sul após 19 a 20 meses o inóculo ainda pode estar presente na lavoura. Em monocultura, é mais elevado o inóculo inicial e a intensidade das doenças, resultando em maiores dificuldades para o controle. Nesse sentido é importante não retornar o trigo a uma lavoura, enquanto os restos da safra anterior ainda estiverem presentes. Segundo Forcelini, no Sistema Plantio Direto um ano de rotação produz resultados significativos no controle de podridões de raízes e manchas foliares. Ele salienta que a rotação deve ser feita em conjunto com o uso de sementes tratadas.
Sementes de qualidade
Através da presença na semente o patógeno permanece junto ao hospedeiro e garante sua distribuição em toda a lavoura. A transmissão a partir da semente se dá tanto para a parte aérea quanto para o sistema radicular da planta sendo que a transmissão de patógenos pela semente tem grande influência nas epidemias.
Carlos Alberto Forcelini orienta que o tratamento de sementes com fungicida tem o objetivo de reduzir ou até mesmo evitar a transmissão dos patógenos para a parte aérea e raiz. Porém, o tratamento será mais eficaz quanto menor for a incidência de fungos na semente. Segundo ele é semente ”boa” que deve ser tratada, pois quando constatado acima de 30% de incidência no lote, o mesmo deve ser descartado. Segundo o pesquisador os fungicidas indicados para tratamento de sementes em trigo permitem controle médio em torno de 90%.
Controle
Forcelini explica que as medidas de controle utilizadas no primeiro ciclo da doença são as que produzem melhores resultados. Para cultivares dos grupos II e III, mais suscetíveis, esperar para iniciar o controle resulta em danos maiores, não recuperáveis pelo tratamento, além de comprometer a logística da aplicação, que pode ser afetada por questões de chuva, disponibilidade de equipamento, mão-de-obra e outros fatores. ”Para esses materiais recomendo associar o monitoramento da lavoura com o acompanhamento do clima. Se esse se mostrar favorável à infecção, a decisão pelo tratamento poderá ocorrer mesmo antes da doença tornar-se visível”, reforça. Segundo o fitopatologista o limite para a aplicação é o aparecimento dos primeiros sintomas e a reaplicação do fungicida não deve basear-se em intervalo fixo, mas no acompanhamento da cultura, posicionando-se o tratamento quando percebida a retomada da doença.
”Já em cultivares do grupo I, menos suscetíveis, o controle satisfatório pode ser alcançado com menor número de aplicações, às vezes apenas uma”. Nesse caso o pesquisador acredita que o produtor possa esperar por um nível pré-determinado de doença, ou mesmo um estádio da cultura onde a aplicação traga maior retorno. ”Em vários experimentos realizados na UPF nos últimos anos, o emborrachamento mostrou-se o estádio mais conveniente para a realização de uma única aplicação. Isso se explica pelo controle mais eficaz das doenças foliares, que causam maiores danos. A mesma aplicação realizada no período de floração apresentou menores resultados, pois não recupera os prejuízos já causados pelas doenças foliares e pela menor eficácia do controle sobre a giberela, cujo potencial de dano também é menor” conclui Forcelini.
Revista Plantio Direto, edição 99, maio/junho de 2007. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.