Avaliação de danos do Vírus do Nanismo Amarelo da Cevada (VNAC) em trigo
Tiago Rafael Bokorni; Sergio Schneider e Dirceu N. Gassen
Os pulgões ou afídeos (Hemip- tera, Aphididae) são insetossugadores, de tamanho pequeno (1,5 a 3,0 mm), de corpo mole e piriforme. Possuem aparelho do tipo picador-sugador. Reproduzem-se por viviparidade e partenogênese telítoca, ou seja, fêmeas geram ninfas fêmeas, sem a participação de machos.
Apresentam ciclo de vida curto, podendo iniciar a reprodução em 4 ou 5 dias e originar até 10 ninfas/fêmea/dia. Desenvolvem-se e multiplicam-se melhor em temperaturas amenas (18 a 25°C) e em períodos de pouca chuva.
Os pulgões causam danos diretos sugando a seiva, enfraquecendo as plantas, reduzindo o número de afilhos e a população de espigas . Danos indiretos ocorrem pela transmissão de doenças, principalmente o VNAC. Danos maiores são verificados nas infestações durante o estabelecimento ao afilhamento da cultura.
O vírus do nanismo amarelo da cevada (VNAC) vem aumentando sua severidade no Sul do Brasil, sendo que o vírus pode ser transmitido pelos pulgões (Rhopalosiphum padi, metopolophium dirhodum, Sitobion avenae e Schizaphis graminis). A transmissão pode ocorrer na picada de prova do inseto ou durante a alimentação. Os sintomas podem ser observados a partir da elongação, com maior freqüência a partir do emborrachamento, na folha bandeira, quatro semanas depois da inoculação. As plantas com sintomas caracterizam-se por apresentar folhas eretas, lanceoladas, coloração amarelo-brilhante ou avermelhadas conforme a suscetibilidade da cultivar. A caracterização de tolerância dos materiais não pode ser dada somente em função dos sintomas visuais.
Grãos de trigo colhidas de espiga normal (esquerda) e infectada com VNAC (direita)
Mancha de plantas trigo infectadas com VNAC.
A multiplicação do vírus na planta interrompe ou dificulta a circulação de seiva nos vasos condutores, comprometendo o enchimento de grãos, resultando em espigas mal formadas, grãos chochos e redução de peso. Estes sintomas são, muitas vezes, confundidos com problemas de nutrição ou de doenças causadas por fungos.
O controle dos pulgões é realizado com o uso de inseticidas em pulverizações ou tratamento de sementes, com o uso de produtos sistêmicos do grupo dos neonicotinóides, controlando pulgões nas primeiras fases depois da emergência das plantas.
As regiões de clima com temperaturas mais elevadas no período de outono e inverno, com semeadura de trigo em maio, têm ocorrências freqüentes de pulgões nas últimas safras e danos de VNAC.
Com o objetivo de testar a reação de cultivares de trigo ao dano de pulgões foram usadas 10 cultivares mais freqüentes na área de abrangência da Cooperativa Mista São Luiz (COOPERMIL) em Santa Rosa, RS, a 270 metros de altitude, na Mesorregião noroeste, em Latossolo Vermelho distroférrico típico (LVdf) nos meses de maio a novembro de 2005.
Foram semeadas parcelas de 6,6 m de largura e 70 m de comprimento de cada cultivar, com inseticida neonicotinóide, Thiamethoxam (Cruiser WS), na dose de 28 g i.a./ha e comparada com parcela sem tratamento. As demais práticas culturais foram de acordo com as recomendações técnicas usuais.
Depois do florescimento de todos as cultivares foram marcadas 15 a 20 plantas com fio de lã de cor roxa, amarrado abaixo da espiga nas plantas com sintomas de VNAC (folha bandeira amarela) e fio verde em plantas sem sintomas visuais (foto 4). Foram avaliados o índice de espigas com sintomas de VNAC, o número de espigas por metro quadrado, o número de grãos por espiga, o peso de grãos por espiga, o peso de mil grãos e a produção por hectare.
Todas as cultivares apresentaram sintomas de VNAC (Figura 1). Nas parcelas tratadas com inseticidas na semente constatou-se a média foi de 9,6 % de espigas com danos de VNAC, enquanto nas testemunhas chegou a 24,7 %. O inseticida não impediu a presença de espigas com os sintomas do VNAC mas reduziu a disseminação da virose na lavoura entre 50 e 75 % (Figura 1).
O índice de espigas com sintomas de VNAC variou com as cultivares testadas, mostrando que existe diferença em relação a classificação de reação de cultivares feita pelos obtentores (Tabela 1).
Tabela 1 . Informações sobre ciclo, altura, reação a VNAC das cultivares de trigo utilizadas no experimento
Adaptado DETEC (2005) e INDICAÇÕES, 2005.R = Resistente; MR = Moderadamente resistente; MS = Moderadamente suscetível.
As cultivares BRS-208 e BRS-Guabiju, com TS e sem TS apresentaram o maior índice de espigas com sintomas de VNAC (Figura 1).
Figura 1. Índice de espigas de 10 cultivares de trigo com sintomas de VNAC
A população de espigas foi pouco afetada pelo tratamento de sementes com inseticidas, evidenciando que o momento da inoculação do VNAC pode não ter afetado o número de afilhos ou espigas (Figura 2).
Figura 2. Número de espigas de 10 cultivares de trigo por metro quadrado.
As variações no número de espigas foram associadas mais a características de cultivares ou a população inicial de plantas, do que ao tratamento de sementes.
O número de grãos por espiga foi reduzido pela dano de pulgões e VNAC. As cultivares Fundacep-47, Fundacep-50 e Fundacep-51, apresentaram diferenças maiores no número de grãos por espiga nas parcelas com TS em relação a testemunha (Figura 3). As demais cultivares não apresentaram grande variação em relação ao número de grãos por espiga, comparando-se as parcelas tratadas com as testemunhas.
Figura 3. Número de grãos por espiga de 10 cultivares de trigo
O peso de grãos por espiga evidenciou as maiores diferenças e maior consistência nas parcelas tratadas com inseticidas na semente (Figura 4).
Figura 4. Peso de grãos por espiga de 10 cultivares de trigo
O VNAC se caracteriza por reduzir e dificultar a circulação de seiva, impedindo o pleno enchimento de grãos, porém mantendo o número grãos por espiga. O VNAC pode causar até a morte de plantas e o escurecimento característico das espigas, sem sintomas de doenças causadas por fungos.
O peso de mil grãos foi o componente de produção mais afetado, com 47 % de diferença entre as parcelas tratadas com inseticidas e a testemunha, na média das 10 cultivares testadas (Figura 5). A proteção do inseticida no tratamento de sementes resultou em perdas de até 40 % nas cultivares BRS Louro, BRS 194 e Fundacep 52. As perdas foram superiores a 60 % nas cultivares BRS 179 e BRS Guabiju, sugerindo maior suscetibilidade ao VNAC.
Seguindo a mesma tendência de resultados do peso de grãos por espiga, o enchimento de grãos foi diretamente afetado pela redução na circulação de seiva, causada pelo VNAC.
Figura 5. Peso de mil grãos de 10 cultivares de trigo
A produção total de grãos por unidade de área mostrou diferenças menores do que as constatadas no peso de grãos por espiga ou peso específico, evidenciando mecanismos de compensação das plantas. Nas parcelas sem tratamento de sementes, as perdas causadas por VNAC foram de 17 % na média das 10 cultivares (Figura 6). Diferenças inferiores a 5 % na produção foram constatadas nas cultivares BRS-194, Fundacep 47, Fundacep 50 e Fundacep 51. Diferenças maiores na produção de grãos foram constatadas nas cultivares BRS 179 (33 %), BRS Timbauva (27 %), BRS Guabiju (25 %) e BRS Louro (20 %).
Figura 6. Produção de grãos de 10 cultivares de trigo
Com base nos dados obtidos no experimento pode-se concluir que os sintomas de VNAC foram constatadas a partir da elongação do trigo, com variações de sintomas entre as cultivares. Caracterizando que a inoculação ocorreu até a fase de início de afilhamento do trigo. Demonstrando que em situações de infestações elevadas no período de estabelecimento ao afilhamento, o tratamento de sementes é uma ferramenta eficiente de proteção de trigo contra o dano de pulgões e de disseminação de VNAC.
As maiores variações entre o tratamento de semente foram observadas em relação ao peso de grãos por espiga e o peso de mil grãos.
Não se constatou relação direta entre o índice de plantas com sintomas de VNAC e a produção para as diferentes cultivares testadas.
Constatou-se que o tratamento de sementes com inseticidas não impede a transmissão do vírus e o aparecimento dos sintomas em plantas, porém reduz a severidade de VNAC a um nível aceitável. O pulgão necessita sugar a planta para morrer com o inseticida aplicado na semente e nesse processo pode transmitir o vírus. Porém o TS com inseticidas impede a proliferação do pulgão e a disseminação da virose na lavoura.
Parcela de trigo tratada com inseticida na semente (metade esquerda) e testemunha, com manchas de plantasinfectadas com VNAC (metade direita)
Espiga de trigo normal (esquerda) e infectada com VNAC (direita)
De modo geral conclui-se que as cultivares respondem de forma diferente em relação ao VNAC, tanto em sintomas como em produção, necessitando de maiores estudos e indicação de reação de cultivares ao VNAC, pelos obtentores da semente.
Pela ocorrência e severidade de danos causados por pulgões em trigo e pelo risco de transmissão de VNAC é muito importante ter informações mais seguras sobre as características de cada cultivar e a necessidade de proteção com inseticidas no tratamento de sementes.
Revista Plantio Direto, edição 99, maio/junho de 2007. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.