Lançamento do Primeiro Híbrido de Milheto do Brasil


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Publicado em: 01/06/2007

Lançamento do primeiro híbrido de milheto do Brasil

A Sementes Adriana em parceria com a Bonamigo Melhoramentos realizou de 21 a 25 de maio, em Campo Grande (MS), o 1o. SuperCampo, evento que reuniu consultores, engenheiros-agrônomos e pesquisadores ligados ao setor agrícola. Em cada um dos dias visitaram o SuperCampo representantes de cooperativas e fundações de pesquisa do Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso e Goiás.

O ADR 7010 foi lançado no 1o SuperCampo, em Campo Grande, MS

No programa, além do lançamento do primeiro híbrido de milheto brasileiro, foram tratados temas como mercado, pirataria, futuro e pesquisa, o cultivo do milheto como opção no controle de nematóides e usos e manejo do ADR500 no sul do Brasil. O evento também estimulou a reflexão sobre os problemas que interferem no trabalho de agricultores e pecuaristas, como pragas, doenças, custos de produção, técnicas de plantio, cobertura de solo, entre outros.

A Sementes Adriana, presente no mercado há 26 anos, é uma empresa que investe em pesquisa e utiliza alta tecnologia e rigoroso controle de qualidade em seus produtos. Desde 2002 estabeleceu parceria com a Bonamigo Melhoramentos para o desenvolvimento da linha de milheto ADR que contempla as variedades ADR 300 direcionada a cobertura de solo em Sistema Plantio Direto, ADR 300 e 500 recomendadas para forragem, para elaboração de silagem o ADR 500 e o híbrido de duplo propósito ADR 7010. Para 2009 está previsto o lançamento híbridos de potencial granífero.

Caravana gaúcha que visitou a Bonamigo Melhoramentos para participar do SuperCampo e conhecer a linha ADR.

O milheto é conhecido desde 1929, mas a pesquisa brasileira sofreu descontinuidade devido à falta de lei de proteção de cultivares e a prática da pirataria que resultou no definhamento das variedades existentes. Como o principal uso do milheto é na cobertura do solo no Sistema Plantio Direto, e as variedades disponíveis já não atendiam a necessidade de formação de palhada, principalmente para o plantio direto do cerrado, o trabalho de Luiz Albino Bonamigo em parceria com a Sementes Adriana foi um marco que resultou nas variedades ADR 300 e 500 cultivares que oferecem o dobro de produtividade de matéria seca que aquelas comumente utilizadas pelos agricultores. Inovando sempre, em 2007 a empresa lançou o híbrido de duplo propósito (grão e palha) ADR 7010, primeiro desenvolvido no país, com potencial produtivo de 30 a 40 sacos de grão/hectare.

Um apaixonado pelo milheto

Durante o SuperCampo, enquanto falava de sua trajetória de pesquisador e melhorista e do lançamento do primeiro híbrido de milheto brasileiro, fruto do trabalho que desenvolve há mais de 25 anos, Luiz Albino Bonamigo expressou entusiasmo e paixão pelo milheto, cultura para a qual destinou vários anos de trabalho e muita dedicação.

Bonamigo iniciou o programa de melhoramento de milheto em 1982. O principal objetivo era encontrar alternativas de cobertura para o cerrado. Segundo ele, na época não se trabalhava de forma específica o melhoramento da cultura no Brasil, existiam alguns trabalhos do IPA, em Pernambuco e no Rio Grande do Sul, na Universidade Federal, em Porto Alegre, que eram conduzidos sem um processo sistemático de melhoramento.

Luiz Albino Bonamigo, pesquisador e melhorista, responsável pelo desenvolvimento do primeiro híbrido de milheto brasileiro.

Na época o milheto chegou até Luiz Bonamigo pelas mãos do já falecido técnico agrícola Juarez Gutierrez, da Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul. ”Como o milheto é uma planta que faz reprodução cruzada, foi aumentando sua variabilidade e nós selecionamos opções de materiais para o cerrado. No início conseguimos ampliar a variabilidade da cultura de forma aleatória, deixando cruzar e separando as plantas com características desejadas e a partir disso, preservando cada uma. Durante 25 anos trabalhamos sistematicamente, utilizando padrões de observação que nos levaram progressivamente até os resultados de hoje”.

Para Luiz Bonamigo a Sementes Adriana tem o mérito de acreditar no projeto, de investir em pesquisa e no desenvolvimento variedades e híbridos de milheto muito mais produtivos. ”Isso precisa ser valorizado pelos agricultores, a pesquisa precisa ser incentivada e valorizada. O agricultor deve se conscientizar que o desenvolvimento de tecnologias tem um custo, que garantir a sustentabilidade e lucratividade das propriedades tem valor. A Sementes Adriana soube fazer diferente, inovou e acreditou no trabalho da Bonamigo Melhoramentos e hoje está estabelecida uma parceria que possibilita apresentarmos uma gama de opções para os agricultores de todo o país”.

A parceria consiste na união das especialidades de duas empresas.O banco de germoplasma é da Bonamigo Melhoramentos e todos os materiais que são lançados comercialmente são da Sementes Adriana, um modelo que pode servir de exemplo e impulsionar a pesquisa agropecuária no país.

Para Luiz Bonamigo o lançamento do primeiro híbrido de milheto brasileiro é resultado do trabalho enriquecido pela experiência de várias pessoas. ”Não se desenvolve um híbrido sem acesso aos vários resultados de pesquisa que estão disponíveis na bibliografia, sem a troca de informações, não é uma atividade isolada, é o ajuste do conhecimento existente a realidade de uma região, visando atender demandas reais”.

Segundo ele, desenvolver um híbrido intervarietal é bem mais complexo do que o melhoramento de variedades, chegar ao ADR 7010 foi um desafio. ”O que nos deu a segurança foi a experiência e a manutenção do programa de melhoramento por longo tempo aqui na região. A cada lançamento da Sementes Adriana e da Bonamigo Melhoramentos alcançamos novo patamar de qualidade, e a busca por melhores resultados é constante. Quando comparada ao milheto comum, que rende aproximadamente 700kg/ha, a linha ADR é uma evolução surpreendente, pois o ADR 300 e 500 produzem 1500kg/ha em média e o Híbrido 7010, fica entre 1900 a 2100kg/ha. Certamente quando chegarmos aos graníferos teremos faixas ainda melhores de produtividade”.

A agilidade no melhoramento dos materiais é outro motivo de orgulho para Luiz Bonamigo. ”Um processo que demora em torno de 6 anos nós estamos fazendo em 3. Conseguimos fazer até três ciclos/ano para chegar aos resultados dentro do prazo esperado. Isso é mais um diferencial”, considera.

Quatro milhões de hectares no cerrado utilizam milheto para formação de palhada

O milheto tem qualidades e características intrísecas que são reconhecidas de forma imediata pelos produtores que utilizam a cultura como opção de cobertura no cerrado. ”É uma planta rústica, com baixa necessidade de água, adaptável a todos os tipos de solo, excelente opção para formação de palhada, além de ser uma ferramenta para descompactação e estruturação de solo”, explica Bonamigo.

É uma cultura vantajosa, seus os benefícios são atestados pela adoção como cobertura de solo em cerca de 4 milhões de hectares no cerrado. ”Nosso agricultor só muda quando é obrigado, quando não tem opção, se está ganhando dinheiro ele não vai mudar. Aqui no cerrado na década de 1990 havia muita dificuldade em fazer palhada para o plantio direto e o milheto em 30-40 dias ofereceu 40 toneladas de massa. Outro motivo para a rápida adoção da cultura é o sistema radicular que pode chegar a 3 metros. Esse talvez seja o principal motivo para a ampla adoção do milheto no cerrado. Hoje está sendo estudado seu uso no controle de nematóides, um grande problema para os agricultores. Então, as possibilidades são fantásticas, é uma cultura extremamente versátil”.

O trabalho de Luiz Bonamigo sempre foi direcionado para o aprimoramento e viabilidade do plantio direto no cerrado através de uma planta de cobertura viável para a região, inicialmente uma demanda da Sementes Adriana e que evoluiu para a linha comercial ADR. ”Sempre que se planta um híbrido se está trabalhando com outro nível de cultura, explora-se muito mais o potencial da planta. Perto do híbrido ADR 7010 as variedades o ADR 300 e o 500 que são maravilhosas ficam até ”feinhas”. A partir do híbrido temos como trabalhar níveis de produtividade ainda melhores, mantendo o foco em uma cultura rústica, barata, que proporcione lucratividade para o produtor. Procuramos preencher janelas entre as culturas comerciais, favorecendo a formação de palhada e a diversidade de cultivos na propriedade”.

O trabalho de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos busca soluções aplicáveis às necessidades dos agricultores em todo o Brasil. ”Já estamos fazendo a seleção de linhagens com tolerância a solos mais frios para que os agricultores da região sul possam plantar em setembro. Nosso foco é trabalhar para suprir necessidades específicas das diversas regiões agrícolas do país, pois temos a convicção que o milheto é uma cultura possível de ser aproveitada de forma ampla em todas as situações de clima e solo”, conclui Luiz Bonamigo.

Milheto ajuda no controle dos principais nematóides que atacam a soja

A discussão sobre nematóides nas culturas do algodão e soja foi um dos destaques do 1o. SuperCampo. Na Região Centro Oeste os agricultores têm enfrentado dificuldades em controle das infestações e segundo o Prof. Pedro Luiz Martins Soares, da Unesp de Jaboticabal (SP), a maior parte dos produtores, por falta de informação, ignoram os danos causados por nematóides em suas lavouras.

Para Soares, entre os nematóides mais importantes em termos de danos e perdas econômicas estão o Meloidogyne javanica, que pertence ao grupo de formadores de galhas. ”Em lavouras infestadas por esse nematóide é possível observar caroços nas raízes das plantas que muitas vezes assustam os agricultores, pois eles não sabem que se trata de nematóides”.

A rotação soja-algodão pode ser uma boa opção para o controle dessa espécie. A Crotalária espectabilis também pode ser usada em áreas de reforma de canaviais, pois além de ajudar no controle do nematóide auxilia na fixação de nitrogênio e na melhoria da estrutura de solo. Pedro Soares alerta que plantas como corda de viola, leiteiro, caruru e picão-preto são os principais hospedeiros do javanica. ”É importante destacar que a semente de crotalária não dissemina o nematóide, pois apenas o nematóide de cisto pode ser transmitido pela semente de soja, caso ela seja mal beneficiada apresentando aderências de terra que contenham ovos, por exemplo”.

Algodão

Segundo a apresentação do Professor da Unesp, são três as espécies de nematóides-chave para a cultura do algodão: o nematóide das galhas (Meloidogyne incognita), que causa baixo desenvolvimento e queda das folhas do algodoeiro. Caracteriza-se pela deformação das raízes e aparecimento de células gigantes que interrompem a translocação de água e nutrientes.

O Rotylenchulus renififormis é o principal nematóide que ataca a cultura do algodão e no passado levou produtores a abandonar de áreas de plantio devido ao alto grau de infestação. O nematóide reniforme tem ampla gama de hospedeiros, sendo que a mamona é o principal, e não existe algodão resistente a esse nematóide até o momento, caracterizando um grande problema para os produtores. O reniforme não forma galha, mas é possível perceber a infestação através da aderência de pequenos torrões de terra presos às raízes que caracterizam a presença da fêmea. O professor explica que sobre o corpo da fêmea morta se forma uma substância gelatinosa na qual a terra fica aderida.

Já o nematóide das lesões radiculares, Pratylenchus brachyurus, migra dentro da raiz da planta, por isso é conhecido como um endoparasito migrador. Caso a planta morra ele migra para a raiz de outra planta, sendo essa uma das características que torna seu controle difícil. Segundo o Professor, dependendo da densidade populacional, qualquer um deles pode causar grandes danos ao algodoeiro, e também a cultura da soja em rotação.

Soja

Em sua palestra Pedro Soares explicou que o nematóide de cisto da soja, Heterodera glycines, apareceu no Brasil pela primeira vez em 1992, e especula-se quanto a sua introdução criminosa no país, pois o aparecimento do nematóide de cisto ocorreu em três Estados diferentes em uma mesma safra, reforçando a tese de introdução nas lavouras brasileiras. O nematóide de cisto tem grande variabilidade genética, existem 16 raças conhecidas. A fêmea depois de se desenvolver forma com o seu corpo um cisto que irá proteger os ovos por longo tempo, podendo chegar a 12 anos. O cisto é a estrutura de resistência do nematóide que vai liberando os ovos de acordo com as condições para o seu desenvolvimento.

Porém, mesmo tendo essa característica o nematóide do cisto é fácil de ser manejado porque ataca quase que exclusivamente a soja e já existem cultivares resistentes ao Heterodera glycines. O primeiro sintoma óbvio de infestação pode ser a presença de plantas bem menos vigorosas, amareladas e raquíticas. As fileiras de soja em lavouras infestadas freqüentemente demoram para fechar as entre-linhas e as plantas que crescem em solos altamente infestados podem permanecer raquíticas durante o período de crescimento.

Entre os agricultores e também para a pesquisa, há o consenso de que o Pratylenchus brachyurus é o principal problema da Região Centro Oeste na produção de soja sob plantio direto. A ocorrência significativa desse nematóide está relacionada à ausência de rotação de culturas no sistema, além da formação da palhada com gramíneas que são excelentes hospedeiras. Alguns produtores registraram perdas de até 50% da produção de soja em áreas com infestação de pratylenchus. Pedro Soares explica que para o manejo do nematóide são indicados a brachiaria ruziziense, Crotalária espectabilis, pois na juncea o nematóide se multiplica, e o milheto ADR 300. Estudos já realizados indicam que os nematóides que atacam a soja: Meloidogyne javanica, Meloidogyne incógnita, Rotylenchulus renififormis e Pratylenchus brachyurus não se multiplicam no ADR 300 e trabalhos de pesquisa da Embrapa e Universidades do Centro Oeste mostraram que o milheto no sistema de rotação é uma ótima opção para o controle desses nematóides.

”A Unesp de Jaboticabal está realizando estudo em 17 genótipos da Sementes Adriana/Bonamigo Melhoramentos nas quais foram inoculados Meloidogyne javanica e Meloidogyne incógnita. No caso do Meloidogyne javanica os 17 genotipos se comportaram como resistentes a esse nematóide e para o Meloidogyne incógnita apenas um dos genótipos se comportou como suscetível, permitindo que o nematóide se multiplicasse nas raízes do milheto”, relata.

É provável que o controle do nematóide através do milheto ocorra através da exudação de substâncias pelas raízes que matam o nematóide ou pela inabilidade da planta ser hospedeira. Trabalhos de pesquisa estão sendo conduzidos para avaliar o uso de milheto no controle de nematóides nas lavouras de soja e resultados preliminares apontam que os nematóides de cisto e de galha não se estabelecem na raiz do milheto, pois na cultura não há a formação das células gigantes necessárias à alimentação do nematóide como ocorre na planta hospedeira.

Segundo Prof. Soares é importante ficar alerta pois o uso do milheto em uma safra apenas pode não ser suficiente para o controle, existem áreas em que foi feita a rotação com plantas não hospedeiras e no caso do nematóide de cisto, uma safra não foi suficiente. ”Como opção deve-se usar sempre variedades de soja resistentes além do milheto, para favorecer a supressão em áreas infestadas”, reforça.

A forma de disseminação de nematóide é básicamente através da movimentação de veículos, máquinas e equipamentos agrícolas, pois ele não se locomove em longas distâncias por meios próprios, diferentes de outras pragas e doenças. A rotação de culturas, a eliminação de hospedeiros e também o uso de variedades resistentes diminuem a infestação. ”No caso dos nematóides Meloidogyne javanica e Meloidogyne incógnita existem mais de 80 variedades de soja resistentes. Para o nematóide do cisto existem cerca de 40 variedades resistentes. O uso de culturas antagonistas como a crotalária também é recomendado. Existem produtos para o controle químico do nematóide somente para a cultura do algodão, para a soja ainda não existem opções no mercado”, explica. Ele ainda destaca que aumento do volume de palhada na cobertura do solo favorece o surgimento de inimigos naturais dos nematóides, colaborando para a supressão.

Revista Plantio Direto, edição 99, maio/junho de 2007. Aldeia Norte Editora Ltda.