Bicho-Papão (Editorial)


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Publicado em: 01/06/2007

Bicho Papão

Fernando Penteado Cardoso Engenheiro Agrônomo Sênior, ESALQ-USP, 1936 eprodutor de cana em Mogi Mirim/SP

A queima de menos de 10% da fitomassa da cana de açúcar representada pelas folhas secas foi elevada à categoria de bicho papão quando na realidade não é.

Queimam-se as folhas secas para facilitar a colheita manual, dando trabalho a centenas de milhares de cortadores ganhando o dobro do que perceberiam em outras lides rurais. Trabalham em ambiente saudável, esterilizado horas antes pelo fogo. Labutam em ambiente seguro, livre de répteis e de insetos peçonhentos.

O gás carbônico liberado pela queima foi retirado da atmosfera poucos meses antes pelo crescimento da cana. Trata-se de uma reciclagem de ”C”, não de emissão nova como no caso dos combustíveis fósseis.

A fumaça dissipa-se na atmosfera podendo às vezes ser incômoda, jamais tóxica. Ademais contem aerossóis refletores dos raios solares, reduzindo sua incidência capaz de aquecer a superfície da terra.

A combustão quando incompleta pode resultar em partículas de carvão por vezes inconfortáveis, tintureiras, nunca contaminadas. O estudo sobre tosse e bronquite nos meses de queima não distingue o hipotético efeito dos particulados daqueles causados pela baixa temperatura no inverno.

O aquecimento do solo agrícola é passageiro e não danoso, haja visto a comprovada estabilidade da cultura da cana por anos e anos seguidos. Os efeitos do fogo sobre a fauna são por vezes exagerados, mesmo porque o canavial não oferece bom abrigo e alimentação para a maioria dos animais. Alem do mais, a queima bem conduzida pode proporcionar corredores de fuga.

Três grupos de interessados interferem sobre a colheita manual após queima. Um grupo forte representado pelos fabricantes de colhedoras de cana crua e pelos distribuidores comerciais de notícias alarmantes, zelosos por seus mercados. Outro representado pelos buliçosos caçadores de manchete ciosos de autopromoção, ao lado de políticos sagazes que cortejam a opinião pública mistificada pela turba ecológica inconseqüente.

O terceiro grupo compreende os trabalhadores, alguns do local outros migrantes, que ganham o pão com o suor em seu rosto, cortando cana livre se folhas secas para facilitar e aumentar o rendimento do trabalho e, assim, poder ganhar mais. Mal representados, humildes, pacíficos e ordeiros, são incompreendidos pela parte da sociedade que só se preocupa com eles quando, desempregados, comportam-se como agitadores ”sem terra”.

Queimam-se folhas secas da cana nos Estados Unidos, no Hawai, na Austrália e na África dó Sul, mesmo para colheita mecanizada, a fim de reduzir custos. Essa prática é igualmente adotada no Brasil, principalmente quando são utilizadas colhedoras mais leves de menor preço.

Em todos os países há correntes de opinião contrárias a essa queima, porem somente por aqui se tenta uma proibição vacilante, questionável por anti-social e anti-econômica. Ás vezes a queima é regulamentada, como na Flórida que só a permite nas horas quentes para facilitar a dissipação da fumaça.

A colheita mecanizada de cana crua deve ser uma livre opção do produtor sem o constrangimento da obrigação. A queima das folhas secas para facilitar a colheita, reduzir custos e criar empregos deve ser aceita como uma tolerável técnica de trabalho, cujos inconvenientes são exacerbados por alguns interessados.

O bicho papão não é tão feio assim.