Carta Aberta aos Agrônomos (Editorial)


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Publicado em: 01/04/2007

Carta Aberta aos Agrônomos

Prezados Colegas:

Pela segunda vez dirijo-me à classe dos engenheiros agrônomos e convido-os a refletir sobre o mesmo assunto: A Agricultura Conservacionista Baseada no Plantio Direto.

Em Abril de 1993, quase 15 anos atrás, lancei um apelo veemente a todos os meus colegas da pesquisa, da divulgação e do assessoramento rural, dizendo: ”Estudem esse assunto sem preconceitos, com interesse e com senso de responsabilidade para o problema. Os solos se formaram ao longo de milhares de anos pelo acúmulo superficial de resíduos. Sua estrutura e vida biológica se baseiam na deposição do material orgânico, camada sobre camada, por tempos imemoriais. Não há o que temer em retornar às regras da natureza”.

Em Abril de 2001 organizamos a Fundação Agrisus-Agricultura Sustentável com a missão de ”Estimular a capacitação e o aperfeiçoamento profissional, bem como incentivar a pesquisa agronômica e a extensão rural, com a finalidade de gerar, desenvolver e difundir tecnologias destinadas a otimizar a fertilidade da terra de forma sustentável e favorável ao meio ambiente”.

Por ocasião do Dia do Agrônomo em Outubro de 2006, ao comemorar na ESALQ meus 70 anos de formatura rememorei de improviso minha longa carreira, destacando fatos notórios por mim testemunhados, dentre eles ”o advento dos herbicidas que permitiram a instalação do sistema do plantio direto que é a maior garantia até hoje inventada de manter a fertilidade do solo”.

Estamos diante de fato recente, que é mais que uma tecnologia, pois se trata de um novo ambiente agrícola quando adotamos o sistema do ”solo imperturbado recoberto de resíduos” sobre 22 milhões de hectares.

Urge aceitar e acreditar nesse novo ambiente agrícola que representa, na realidade, uma involução tecnológica ao retornar às condições primitivas quando a serapilheira recobria a superfície do solo.

Agora, as operações mecanizadas não destroem mais a rede fasciculada de canalículos deixada tanto pelas raízes em cabeleira como pela variada fauna multiplicada em novo ambiente, mais propício por menores oscilações da temperatura e umidade.

Não mais destruímos por gradagens sucessivas a estrutura granulosa do solo, dissociando grumos e liberando argilas que, ao migrarem para o subsolo, formam camadas adensadas impermeáveis, os incômodos ”pés de grade”.

Grades e arados não misturam mais com a terra os adubos fosfatados, quimicamente imóveis no solo, deslocando-se apenas por efeitos biológicos ou quando arrastados pela água através das galerias deixadas pela bio-atividade. Formam-se sítios de alto P, assim alterando a dinâmica da assimilação pelas raízes, bem como atenuando o problema da fixação.

Ao facilitar sua penetração, não se perde mais água por escorrimento, evitando-se a erosão com suas danosas conseqüências. Infiltrando-se, as águas alimentam os lençóis freáticos e, em seqüência, os aqüíferos mais profundos. Aumenta a vazão dos olhos d’água, crescem os estoques subterrâneos e evitam-se os assoreamentos dos mananciais, dos córregos e dos rios.

A manta orgânica em decomposição renova continuamente o húmus e os ácidos húmicos que permeiam pelos interstícios da porosidade, com seus efeitos benéficos sobre as propriedades físicas e químicas do solo.

As culturas comerciais, desde o estágio de plântulas, não mais são submetidas ao estresse causado pelas altas temperaturas do solo e pelas oscilações extremas da umidade.

Estamos frente a um novo e diverso ambiente agrícola com relação ao solo cultivado, o qual nem sempre vem sendo devidamente reconhecido. A tradição do preparo mecanizado da terra, com a percepção visual pictórica da terra lavrada colorida, ainda está gravada em nosso inconsciente.

Cumpre ter a coragem de mudar os conceitos, de renovar o inconsciente, de reformular as apostilas, de ousar eliminar a imagem da aração anual da terra. Estamos em uma nova fase da agricultura tropical, em um país privilegiado onde não há preocupação com o aquecimento rápido de um solo ainda gelado pelo inverno.

Estamos ainda aprendendo essa nova agricultura em ambiente de solo imperturbado recoberto de resíduos. Há muito que pesquisar ainda para gerar tecnologias adequadas e para conhecer os fenômenos que regulam essas tecnologias.

Vamos definir regras para renovar satisfatoriamente a manta em contínua decomposição. Vamos investigar as condições ótimas para as bactérias e fungos fixadores de N ainda que não simbióticos. Vamos determinar as plantas de cobertura que melhor reestruturam o solo. Vamos pesquisar espécies, como as Brachiarias, que deprimem fungos e nematóides prejudiciais às lavouras. Vamos inventar nova amostragem de terra que identifique os sítios de alto P.

Vamos difundir o novo ambiente de produção agrícola. Vamos praticar eficientemente uma agricultura tropical onde faz calor e chove, com estiagem para as colheitas. Vamos, enfim, tornar sustentável o muito que já se fez, como indicam os 130 milhões de toneladas de grãos estimados para este ano, ao lado de recordes da cana, dos citros, do café, das carnes, das demais frutas, das hortaliças e das flores.

No dia do 6º. aniversário da Agrisus, mês de abril, proclamo estes convites a meus colegas, que tanto têm feito pela nossa agro-pecuária, congratulando-me com todos.

Fernando Penteado CardosoEngenheiro Agrônomo Sênior, ESALQ-USP, 1936Presidente da Fundação Agrisus - Agricultura Sustentável