A Lagarta (Pragas)


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Publicado em: 01/12/2006

A lagarta-do-cartucho do milho, Spodoptera frugiperda

A lagarta-do-cartucho ou lagarta-militar, Spodoptera frugiperda é considerada a principal praga em milho no Brasil. Ocorre em gramíneas (milho, trigo, aveia, sorgo, milheto...), algodão, feijão, soja, hortaliças outras culturas.

A mariposa desloca-se longas distâncias, podendo chegar a centenas de quilômetros, voa em busca de plantas hospedeiras para a oviposição e o desenvolvimento da prole.

O ciclo biológico se completa em um mês, sob condições favoráveis de clima e de alimento. A oviposição é feita em grupos de 50 a 800 ovos, cobertos por escamas do corpo da mariposa, totalizando até 2.000 ovos por fêmea. O período de incubação dos ovos varia entre 3 a 5 dias. A fase de larva (lagarta) passa por seis estádios e se completa entre 12 e 25 dias. A fase de pupa, no solo, se completa entre 10 e 15 dias. A longevidade dos adultos pode chegar a três semanas.

A lagarta se diferencia de outras espécies pelo destaque da sutura epicranial, na forma de ”Y” invertido na parte frontal da cabeça. Essa sutura existe em todas as lagartas e se abre para iniciar o processo de muda da exúvia quando a larva passa de um estádio para outro. A forma mais prática de diferenciar a lagarta do cartucho, S. frugiperda, é a presença de quatro pontos negros, formando um quadrado, no dorso dos últimos segmentos abdominais.

No campo a postura é aglomerada e a disseminação das lagartas ocorre pelo deslocamento entre as plantas, nas primeiras horas da noite, resultando na distribuição generalizada da praga na lavoura. A presença de cápsulas cefálicas, dentro do cartucho, leva a interpretar que a lagarta matou outras larvas que estariam presentes no mesmo ambiente. Na realidade não é canibalismo, apenas uma das cinco exúvias, ou mudas de pele para os seis estádios de desenvolvimento da lagarta. O canibalismo entre larvas ocorre quando as lagartas são criadas em condições de laboratório.

Danos

A lagarta-do-cartucho é a praga citada com maior freqüência e a que causa maior preocupação aos produtores de milho no Brasil.

As larvas jovens consomem a casca dos ovos e depois raspam um lado do limbo foliar, mantendo a epiderme oposta translúcida, com sintomas característicos, semelhantes a uma ”janela”. A partir do segundo estádio as lagartas desenvolvem-se dentro do cartucho do milho, se alojando em orifícios perfurados nas folhas enroladas.

Postura com eclosão de larvas e dano causado pelas fases iniciais da lagarta-do-cartucho, Spodoptera frugiperda na folha de milho.

O dano ocorre dentro do cartucho da planta de milho, onde a lagarta permanece até completar a fase, diferente do dano da mesma espécie em trigo ou aveia, onde a lagarta consome folhas durante a noite e se protege da radiação solar e desidratação, no solo sob torrões ou palha, durante o dia.

Em milho safrinha, a lagarta ocorre desde a germinação até a fase de maturação, causando danos no cartucho, na base da planta e na espiga, com maior severidade em períodos de estiagem.

As plantas de milho infestadas com a lagarta-do-cartucho, de acordo com estudos de Ivan Cruz, da Embrapa Milho e Sorgo, sofrem injúrias com maior intensidade na fase entre quatro a seis folhas, porém, sem causar redução proporcional no rendimento de grãos. Os danos maiores ocorrem na fase de oito a dez folhas, podendo reduzir 19 % o rendimento. Na fase até seis folhas e a partir de 12 folhas, os danos da lagarta-do-cartucho são inferiores a 9 % da produção de grãos.

Na fase de maior crescimento vegetativo, no período entre os estádios de seis folhas e de pendoamento, as plantas de milho podem crescer 5 cm por dia. O crescimento é maior do que a capacidade de consumo da lagarta. Em conseqüência, a praga penetra mais profundamente, perfurando as folhas em formação, com sintomas característicos de orifícios transversais no limbo foliar.

Planta de milho com danos da lagarta-do-cartucho, Spodoptera frugiperda, detalhe com 4 pontos negros e ”Y” invertido, característicos da espécie.

Estudos realizados no sul do Brasil com plantas de milho marcadas a campo, em períodos de chuvas regulares e em solos férteis, evidenciam que as plantas atacadas pela lagarta-do-cartucho na fase de oito folhas, mostraram produções equivalentes às de plantas sem danos da praga. Dados semelhantes foram obtidos no Uruguai e na Argentina.

Comparando o potencial de produção de milho em diferentes regiões do mundo, pode-se sugerir que os fatores limitantes para a expressão do potencial de produção no Brasil são o menor período diário de radiação solar, os estresses hídricos, a nutrição e depois o índice de área foliar. Portanto, sob condições regulares de chuva, em solos férteis e produções médias, o desfolhamento pela lagarta-do-cartucho pode não ter expressão negativa na produção de grãos. Antes de mudar a estratégia de controle é sempre importante validar, marcando plantas com danos e comparando com plantas normais para tomar a decisão em anos seguintes.

Além do dano característico no cartucho do milho, a lagarta pode broquear a base da planta, causando dano semelhante ao da lagarta-rosca e, também, penetrar na espiga, à semelhança da lagarta-da-espiga.

O dano em espigas é observado com maior freqüência em cultivos de safrinha e na região dos Cerrados. A partir da fase de pendoamento, desaparece o cartucho e a lagarta penetra na espiga, onde busca proteção.

A lagarta-do-cartucho também ataca plântulas de algodão, soja e feijão. Em geral não se alimenta das folhas, mas pode cortar o caule tenro de plântulas, causando danos em áreas extensivas, levando ao replantio.

Também pode consumir a casca na base de plantas de feijão e soja, ou perfurar a base do colmo de milho, com sintomas que podem ser confundidos com os de outras pragas ou com a da lagarta-rosca.

A lagarta-do-cartucho, às vezes é confundida com a lagarta-do-trigo, Pseudaletia sequax, que se alimenta do limbo foliar sem penetrar no cartucho da planta. A diferenciação das duas espécies é importante pela localização na planta, maior dificuldade no controle da lagarta-do-cartucho e pelas diferenças entre inseticidas e doses eficientes para cada uma das lagartas.

Controle

A decisão de controle da lagarta-do-cartucho, em geral, é tomada com base no sintoma externo de folhas perfuradas, sem comprovar a presença de larvas no interior do cartucho da planta de milho.

Entre as dificuldades, para o controle químico, pode-se destacar a localização da lagarta dentro do cartucho do milho, impedindo o contato com o inseticida e a possibilidade de ressurgência de populações da praga devido à morte de inimigos naturais.

Durante períodos com temperatura elevada e baixos teores de água no solo, a planta reduz o crescimento e a possibilidade de tolerar aos danos da praga, enquanto a lagarta consome maior quantidade de alimento e pode causar até a morte de plantas.

A aplicação de inseticidas, via terrestre ou aérea, deve ser feita nas horas de maior teor de umidade relativa no ar, usando-se bicos de gotas grandes. Mesmo com esses cuidados, a possibilidade de atingir a praga com inseticida dentro do cartucho e causar a sua morte é relativamente baixa.

Resultados de experimentos evidenciam que inseticidas, disponíveis no mercado para tratamento de sementes, podem controlar a lagarta-da-aveia ou a lagarta-rosca, na fase de plântula, porém apresentam índices baixos de controle da lagarta-do-cartucho, depois de três semanas das semeadura.

Nas cultivares de milho, com cartucho mais fechado, tem-se observado populações menores da lagarta, provavelmente por beneficiar a ação de patógenos no controle biológico natural da praga.

Os inimigos naturais desempenham importante função no controle biológico natural, especialmente nas fases de ovo e primeiros estádios de larva.

A tesourinha, Doru spp. é um dos principais predadores de ovos e larvas pequenas. Algumas espécies de besouros e percevejos predadores também se alimentam da lagarta-do-cartucho.

Casulo de braconídeo parasito de larvas e tesourinha, Doru sp. predador de ovos e larvas da lagarta-do-cartucho, Spodoptera frugiperda.

Himenópteros da família Braconidae (Meteorus, Exasticolus, Campoletis e outros) são parasitos freqüentes da lagarta-do-cartucho e passam despercebidos dos agricultores e assistentes técnicos. As ”vespas” adultas fazem a postura no corpo de lagartas e alguns dias depois matam o hospedeiro, formando casulo com a pupa do braconídeo. Parasitos de ovos (Trichogramma) matam antes do nascimento das largartas.

Fungos e o vírus Baculovirus spodoptera, também contribuem com a morte natural de populações da lagarta-do-cartucho.

A aplicação de inseticidas de amplo espectro de ação mata a praga e também os seus inimigos naturais, predispondo à reinfestação da lavoura. Também pode favorecer a infestação de outras pragas como pulgões e tripes, pela eliminação de agentes de controle biológico natural.

Por isso deve-se sempre iniciar o controle com inseticidas de ação mais específica, como os de ação fisiológica, que matam a praga e mantém vivos os agentes de controle biológico natural. Se a infestação for elevada e houver a necessidade de controle imediato, pode se aplicar inseticidas fosforados, carbamatos ou piretróides, sempre considerando que é difícil matar as lagartas que estão alojadas dentro do cartucho.

A persistência de inseticidas na lavoura é de aproximadamente uma semana. Nesse período ocorre a decomposição pela radiação solar e a planta emite novas folhas podendo crescer mais de 30 cm de folhas, que ficarão sem a proteção contra pragas.

O milho Bt obtido através da engenharia genética com a incorporação de genes da bactéria Bacillus thuringiensis, que produz cristais de proteínas inseticidas. A planta produz sustâncias tóxicas para lagartas que atacam as folhas e espigas, brocas do colmo e traças em grãos armazenados. O controle dessas pragas, em muitos casos é mais eficiente do que a aplicação de inseticidas, além de manter os inimigos naturais na lavoura. O uso de sementes de milho Bt já é uma prática comum nos Estados Unidos, na Argentina e em outros países. No Brasil a pesquisa e adoção dessa tecnologia ainda estão em fase de estudos e de registros.Revista Plantio Direto, edição 96, novembro/dezembro de 2006. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.