O Desafio da Produtividade com Qualidade (Editorial)


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Publicado em: 01/12/2006

O desafio da produtividade com qualidade

Olavo Corrêa da Silva1 & Carlos André Schipanski21Eng. Agr. MSc. Departamento de Defesa Vegetal, Fundação ABC, Castro, PR, E-mail: olavo@fundacaoabc.org.br2Eng. Agr., Departamento de Defesa Vegetal - Fundação ABC, Castro, PR, E-mail: andre@fundacaoabc.org.br

A cultura do milho ao longo dos anos tem adquirido grande importância dentro do sistema produtivo, não apenas no aspecto econômico, mas como componente no sistema de rotação de culturas. O melhoramento genético tem aumentado os tetos produtivos, tornando a cultura ainda mais exigente no seu manejo, uma vez que as diferentes épocas de semeadura existentes nas diversas regiões produtoras do Brasil, fazem com que haja inóculo dos patógenos que atacam a cultura o ano inteiro, comprometendo a sanidade e conseqüentemente a qualidade do grão.

Sob este aspecto e diante dos padrões de qualidade exigidos pelo mercado consumidor do grão, as doenças do milho tornam-se relevantes dentro do manejo da cultura.

1. Estabelecimento da cultura

Um dos fatores de maior relevância para alcançar altos tetos de produtividade é a população de plantas, sendo assim o estabelecimento da cultura merece cuidados especiais. Podemos citar alguns fatores que propiciam as podridões de sementes, morte de plântulas e doenças de raízes:

I. Qualidade de sementes relacionada a contaminação por patógenos ou dano mecânico. Mesmo em sementes comercializadas por empresas idôneas no mercado é importante a realização de análises de germinação, vigor e patologia, pois pode haver a necessidade a eliminação de lotes ou re-tratamento de sementes com fungicidas.

II. Temperatura de solo. Semeaduras com temperaturas inferiores a 16oC acarretam em aumento do tempo de emergência, expondo a semente por um período mais longo aos patógenos, levando a ocorrência de plântulas mortas ou anormais.

III. Compactação e adensamento do solo. Solos com problemas de drenagem ou compactados estão sujeitos redução do nível de oxigênio e aumento no período de saturação, dos quais resultam em redução do sistema radicular e favorecimento de colonização por patógenos.

2. Principais Doenças Foliares

Ferrugem Comum (Puccinia sorghi): Desenvolve-se com temperaturas diurnas entre 20 ºC e 25 ºC, temperaturas noturnas elevadas e umidade relativa do ar superior a 90%. Estimam-se perdas de produtividade de até 60 Kg/ha para cada 1% de área foliar atacada (Figura 1).

Figura 1. Ferrugem Comum, Puccinia sorghi.

Ferrugem Polissora (Puccinia polysora): As condições de desenvolvimento para esta doença são de temperaturas médias diurnas de 27 ºC, umidade relativa do ar acima de 90% e os danos à produtividade podem chegar à 45% conforme intensidade da epidemia (Figura 2).

Figura 2. Ferrugem Polissora, Puccinia polysora.

Helmintosporiose (Exserohilum turcicum): Desenvolve-se com temperaturas diurnas entre 20 e 25 ºC, temperaturas noturnas amenas e umidade relativa do ar acima de 80%. Fortes epidemias desta doença antes da floração podem reduzir em até 50% a produtividade (Figura 3).

Figura 3. Helmintosporiose (Exserohilum turcicum).

Complexo Mancha Branca (Phaeosphaeria maydis/Phyllosticta sp ./ Pantotea ananas): As condições ótimas para seu desenvolvimento são temperaturas entre 25 e 30 ºC e umidade superior a 60%. Epidemias precoces desta doença encurtam o ciclo da cultura, reduzindo o tamanho e densidade dos grãos, podendo as perdas superar 60% da produtividade (Figura 4).

Figura 4. Complexo Mancha Branca (Phaeosphaeria maydis/Phyllosticta sp./Pantotea ananas)

Cercosporiose (Cercospora zeae-maydis): Desenvolve-se em temperaturas diurnas elevadas entre 22 e 30 ºC e umidade relativa superior a 90%. Os danos são de 48 Kg/ha na produtividade para cada 1% por área foliar atacada. Perdas entre 60 e 80% já foram relatadas no EUA e Brasil (Figura 5).

Figura 5. Cercosporiose, Cercospora zeae-maydis.

Mancha de Diplodia (Diplodia macrospora): Desenvolve-se com temperaturas diurnas entre 26 e 29 ºC e umidade relativa do ar superior a 90%. Não existem estudos detalhados quantificando os danos à produtividade, porém o fungo provoca perda de qualidade dos grãos (grãos ardidos) (Figura 6).

Figura 6. Mancha de Diplodia, Diplodia macrospora.

Quando as doenças do milho são importantes:

• Época de semeadura: Nas semeaduras realizadas dentro da época normal, as doenças têm menor importância, pois a quantidade de inóculo no ambiente é baixa e as doenças só se estabelecem após o período crítico da cultura, no grão pastoso ou ”milho verde”. Nas semeaduras no final ou fora da época recomendada, as doenças passam a adquirir maior importância, devido à alta quantidade de inóculo presente no ambiente, fazendo com que as doenças se instalem na cultura ainda no estádio vegetativo. Neste caso o manejo destas doenças deve ser feito utilizando híbridos resistentes ou controle através da aplicação de fungicidas.

• Híbridos: As diferentes bases genéticas dos híbridos atuais fazem com que existam diversos comportamentos dos mesmos em relação ao complexo de doenças, sendo que cada material apresenta um complexo de enfermidades peculiar. Um determinado híbrido pode estar restrito em determinados locais ou épocas de semeadura pela sua suscetibilidade a um ou mais patógenos.

• Local: A umidade e temperatura são fatores decisivos para o desenvolvimento de epidemias, sendo assim a latitude e altitude de determinados locais irão favorecer ou não a ocorrência de doenças.

3. Qualidade de colmo e espiga

Os fungos que contaminam colmos e espigas são os mesmos, porém a resistência da planta ao ataque do colmo e da espiga são controlados por genes diferentes, isto é, colmos atacados por uma determinada da doença podem não ter a espiga atacada pela mesma e vice-versa.

As principais doenças de colmo são Antracnose (C. graminicola), Diplodia (D. macrospora), Fusarium (F. verticillioides) e Giberela (G. zeae), onde somente a Antracnose não ataca as espigas.

São vários os fatores que influenciam nas podridões de colmo como: injúrias (causadas por insetos, granizo, movimentações de máquinas, etc), genética (os híbridos apresentaram níveis de resistência diferentes), doenças foliares (reduzem o IAF e causam efeitos secundários no metabolismo da planta), uso de elevadas populações de plantas; desiquilíbrio nutricional com relação N/K inadequada e condições ambientais de dias nublados ou chuvosos no período de pré-florescimento.

O manejo para controle das podridões de colmo deve ser feito contemplando todos os itens acima. Ao realizarmos o manejo visando às podridões de colmo, indiretamente estaremos manejando as podridões de espiga, porém para reduzir o percentual de grãos ardidos deve-se evitar atrasos na colheita, manejar adequadamente as lagartas, além de evitar o uso de elevadas populações de plantas.

Atualmente o mercado consumidor do milho tem adotado rigorosos padrões de qualidade, fazendo com que o produtor tenha que produzir de modo a obedecer estes padrões, tornando assim o manejo das podridões de colmo e espigas essenciais para a obtenção de grãos limpos e com qualidade.

4. Nutrição e Doenças

O equilíbrio nutricional de uma planta é um fator importante para a ocorrência ou agressividade de uma epidemia. Na cultura do milho também é notório que o nível de nitrogênio disponível é determinante para atingir altos níveis de produtividade, contudo com o aumento dos teores de nitrogênio na planta favorece fungos biotróficos, como a ferrugem comum. O equilíbrio entre os teores de potássio e nitrogênio tem evitado este favorecimento a fungos biotróficos, e principalmente garantido maior qualidade de colmo. Teores foliares com relação N / K entre 1 a 2 tem proporcionado colmos e folhas mais sadias (Figura 7).

Figura 7. Efeito da relação N/K2O, na adubação de base e cobertura sobre as podridões de colmo (Fundação ABC, Silva O. C. & Schipanski, C. A., 2006).

5. Controle Químico

A utilização de fungicidas na cultura do milho para controle das doenças foliares tem sido utilizada no sistema de produção de sementes, contudo na produção de grãos ainda é um tema contraditório. Como e quando utilizar esta tecnologia é a grande questão, isto é, quando temos um benefício econômico com a técnica. Realmente existem fatores determinantes para uma resposta positiva ao uso de fungicidas, e a decisão de usar o controle químico deve ser baseada na combinação de dois ou mais fatores: época de semeadura, local, híbrido e rotação de culturas. O conhecimento regionalizado da resposta ao uso de fungicidas é o primeiro passo para sua utilização.

O maior índice de área foliar do milho é obtido na fase de pendoamento (VT), onde se inicia o período crítico da cultura, e estende-se até a fase de ”milho verde” ou grão pastoso (R3). A redução de área foliar neste período pode ocasionar queda significativa na produtividade e redução na qualidade de colmo e grãos. A manutenção da sanidade no período crítico do milho é o objetivo principal, sendo que podemos atingi-lo com o uso de resistência genética, época de semeadura, rotação de cultura e controle químico.

Outro tema contraditório quanto ao uso do controle químico tem sido a tecnologia empregada, principalmente quanto ao momento e tecnologia de aplicação. A primeira consideração a ser feita é a possibilidade de utilização de pulverizadores de arrasto, com a limitação de altura da cultura entre 80-100 cm.

Doenças como Ferrugem comum e Diplodia apresentam controles mais efetivos em aplicações realizados com o cultivo entre 80 a 100 cm de altura, uma vez que, estas doenças iniciam seu processo de infecção ainda nos estádios vegetativos. Este tipo de aplicação pode ser feita com pulverizadores montados ou de arrasto sem causar danos à cultura.

Já doenças como a Cercosporiose e o Complexo Mancha Branca têm mostrado resultados consistentes no seu controle com aplicações realizadas com as plantas entre 100 a 120 cm de altura, uma vez que, estas doenças ocorrem com maior freqüência a partir do período de pré-floração. Este tipo de aplicação exige equipamentos de pulverização autopropelidos (Uniport, Parruda e demais) ou aplicação aérea, já que pulverizadores comuns provocam o amassamento da cultura.

Aplicações realizadas com as plantas a 100 cm de altura, além de ótimo controle da Ferrugem Comum e Diplodia, têm apresentado bons resultado no controle de Cercosporiose e do Complexo Mancha Branca, uma vez que, as plantas quando atingem esta estatura já tem as folhas do terço médio (folha da espiga) fora do cartucho, fazendo com o fungicida atinja estas folhas.

Pulverizador de arrasto realizando aplicação à 100 cm de altura (V9) sem causar danos a cultura do milho.

A Helmintosporiose tem apresentado difícil controle com o uso de fungicidas, onde os melhores resultados estão entre 50-60% de controle, principalmente com aplicações seqüenciais.

As aplicações seqüenciais de fungicida (80-100 cm/120 cm) apresentam nível de controle superior as aplicações únicas, porém nem sempre são a opção mais econômica, devendo ser utilizadas em situações de monocultura ou safrinha, onde a ocorrência das doenças é mais precoce e severa.

Após tomar a decisão de utilizar o controle químico devemos escolher que fungicida vamos utilizar. De maneira geral, dentro dos grupos de fungicidas, as misturas prontas dos Triazóis + Estrobilurinas têm apresentado excelentes resultados no controle das doenças pelo seu amplo espectro de ação.

Portanto, o uso de fungicidas na cultura do milho ainda é um paradigma e cabe a pesquisa juntamente com assistência técnica auxiliar o produtor no uso racional desta ferramenta, de modo a trazer o maior retorno econômico possível ao produtor. Revista Plantio Direto, edição 96, novembro/dezembro de 2006. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.