Como Obter Melhor Aproveitamento da Pulverização na Cultura


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Publicado em: 01/08/2006

Como obter melhor aproveitamento da pulverização na cultura

Walter Boller é professor das disciplinas de Máquinas e Mecanização Agrícola e Física Aplicada à Agronomia, Tecnologia e Técnicas de Aplicação de Defensivos Agrícolas e Mecanização e Energia na Produção Vegetal na Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo.

Garantir o potencial produtivo das culturas é preocupação do agricultor desde a fase de planejamento da lavoura. O monitoramento, manejo e controle de doenças são, em particular, atividades importantes em qualquer propriedade e tem como principal objetivo, junto a outras ações de rotina, garantir boa colheita em qualidade e volume de produção. Contudo, em alguns casos o resultado final pode não ser o esperado devido a problemas que ocorrem durante a aplicação de produtos fitossanitários. Nesse sentido, a tecnologia de aplicação, muitas vezes, otimiza o trabalho da fitopatologia, no que se refere ao controle de doenças. Quanto mais precisa e eficaz, melhores resultados econômicos e técnicos ela trará para o agricultor.

Para Walter Boller, professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo, as dúvidas começam durante a escolha de pontas mais adequadas para a aplicação de produtos na lavoura. Uma alternativa, segundo ele, é observar o dossel de plantas, caracterizando a formação da parte aérea da cultura. ”Quando o dossel de plantas é muito ”fechado”, as gotas que penetram melhor são as gotas finas e as médias. As gotas grossas deslocam-se em linha reta e na maioria das vezes são interceptadas pelas folhas da parte superior das plantas, mas quando não existem obstáculos, as gotas grossas apresentam boa capacidade de penetração no dossel, o que pode ser o caso do trigo até o estádio de emborrachamento”, comenta.

Volume, pressão e tamanho de gota

Em alguns casos gricultores e mesmos os técnicos ficam indecisos quando o assunto é volume, pressão e tamanho da gota, pois não sabem definir qual desses itens deve ser priorizado no momento da aplicação. Para o Professor Boller, esses elementos estão interligados. Ele explica que o tamanho das gotas e a vazão dependem da pressão. ”Aumentando a vazão, aumenta-se o volume aplicado e a cobertura do alvo (número de gotas por cm²)”. Segundo Boller, diferentes produtos requerem diferentes densidades de cobertura (gotas por cm²).

A relação entre regulagem e o porte de cultivares (>100 ou 75 cm de altura) também deve ser considerada no momento de aplicar o fungicida na cultura do trigo. Para Walter Boller, plantas mais altas têm maior área foliar e, portanto, deve-se ampliar a cobertura por meio do aumento do volume de calda ou com a redução do tamanho das gotas.

Nesse sentido, cultivares de trigo com elevada capacidade de afilhamento e grande volume de massa verde (área foliar a ser tratada), necessitam de adequada densidade de gotas por cm². ”Por isso o aumento do volume da calda é importante para garantir a quantidade de gotas úteis, que são aquelas depositadas no alvo desejado”, reforça Boller.

Escolha de pontas

Critérios práticos para escolha de pontas são sempre demanda entre agricultores. Boller explica que as pontas de jato plano oferecem maior uniformidade na distribuição da calda ao longo da barra, resultando em coeficiente de variação mais baixo do que pontas de jato cônico. ”No que se refere à capacidade de penetração das gotas em culturas com grande massa verde, as pontas de jato cônico vazio são consideradas mais eficientes, desde que seja possível a utilização em condições ideais de temperatura, umidade relativa do ar e velocidade do vento. Como estas condições ocorrem apenas em um curto período de tempo durante o dia, a utilização de pontas de jato cônico vazio somente pode ser pensada em condições de acompanhamento técnico total. Por outro lado, as pontas de jato plano já são oferecidas em versões de jato plano duplo, que formam ângulos em torno de 30º para frente e 30º para trás, em relação à vertical. Elas são recomendadas para utilização em condições de difícil penetração do jato plano vertical. Além da angulação dos jatos, estas pontas geram gotas mais finas do que as de jato plano simples de mesma vazão. Cada um dos orifícios apresenta a metade da vazão, com isso, as gotas também são mais finas do que aquelas de jato plano simples”. Para o professor, isso explica a melhor cobertura proporcionada pelas pontas de jato plano duplo. ”No caso do trigo, experimentos conduzidos durante vários anos não mostraram superioridade das pontas de jato plano duplo sobre as de jato plano simples. No entanto, quando se trata de soja, as aplicações de fungicidas têm apresentado melhores resultados quando são utilizadas pontas de jato plano duplo. Isso pode ser justificado pela forma e pelo ângulo das folhas, o que afeta a sua capacidade de interceptação das gotas nas camadas mais altas das plantas”, complementa.

Imagem que mostra claramente, em situação de lavoura, a necessidade de melhorar a qualidade da aplicação de fungicidas. Em uma das metades da folha de trigo houve cobertura durante a aplicação, com conseqüente controle da doença. Na outra, o produto não atingiu o alvo e a doença avançou.

Uso de indução de ar

Quando questionado se as pontas com indução de ar resultam em melhor penetração no dossel das plantas, Boller explica que pontas com indução de ar produzem gotas de categorias mais grossas, com elevada resistência a deriva e evaporação. Como conseqüência o número de gotas depositadas por cm² é menor do que para pontas sem indução de ar de mesma vazão. ”Apesar da menor densidade, as gotas com indução de ar promovem cobertura considerável das folhas atigidas, pois ao impactar no alvo ”explodem”. Mas para obter esse efeito, as pontas precisam ser operadas com pressão entre 3 e 8 bar (45-120 lb/pol2). Quando o dossel das plantas não oferece resistência à penetração das gotas, o seu comportamento é muito bom”, ressalta. Segundo o professor, experimentos com aplicação de fungicidas em trigo mostram que para volumes da ordem de 100 até 200 L/ha, pontas de jato plano simples e duplo, com ou sem indução de ar e pontas de jato cônico vazio apresentam resultados de controle, de rendimento e de qualidade dos grãos semelhantes.

”Quando o dossel das plantas dificulta a penetração das gotas, isto é, em culturas muito enfoliadas ou ”fechadas”, as gotas que penetram melhor são as finas e as médias. As gotas grossas são interceptadas pelas folhas da parte superior das plantas e somente ”penetram” quando há espaços vazios. Já as gotas muito finas (menores de 100 µm) normalmente não apresentam bom resultado, pois são muito suscetíveis à deriva” explica.

Espaçamento entre-linhas

Segundo o Professor Boller o espaçamento entre-linhas pode influenciar na penetração dos fungicidas no dossel das plantas. ”Essa influência é real, pois a maior proximidade reduz o espaço entre as linhas e com isso ocorre o conhecido ”efeito guarda-chuva” das folhas da parte superior das plantas, aumentando a dificuldade de penetração das gotas e a cobertura das folhas mais baixas”, explica.

Uso de aditivos

Durante a aplicação de fungicidas o uso de aditivos de calda é muito comum, mas segundo Walter Boller é necessário tomar cuidado, pois a sua utilização pode alterar drasticamente as características da pulverização. ”Alguns aditivos, em determinadas condições até podem melhorar a cobertura do alvo, outros facilitam a penetração, outros ainda são anti-evaporantes e assim por diante, mas recomenda-se que o usuário consulte o fabricante do produto fitossanitário que pretende aplicar para saber se este aconselha ou não o uso de aditivos. A princípio, os produtos comerciais já são formulados com os aditivos necessários, porém para algumas situações específicas o uso desses produtos pode melhorar o desempenho do agroquímico”. Segundo Boller, para ter segurança em relação a este tema é importante fazer testes rigorosos. ”No caso dos fungicidas, após realizarmos vários experimentos, podemos afirmar que foi raro observar algum tipo de ganho no controle das doenças. Por este motivo, nossa posição é somente utilizar aditivos quando o fabricante do produto constata a necessidade e indica o produto a ser adicionado. Isso não descarta a possibilidade de que alguns aditivos possam trazer vantagens importantes na melhoria da aplicação, mas, em todos os casos, é importante ter como base a indicação dos resultados de pesquisa”, reforça.

Índice de área foliar

Walter Boller considera o ajuste do volume de calda ao índice de área foliar importante, pois as bases da tecnologia de aplicação determinam um número mínimo de gotas por cm² a ser aplicado sobre as folhas, conforme o tipo de produto e o seu modo de ação. ”Produtos com ação de contato requerem maior cobertura (densidade de gotas/cm²) do que produtos sistêmicos. Ainda, neste sentido, convém lembrar que os herbicidas apresentam maior translocação dentro das plantas, ao passo que inseticidas e fungicidas, mesmo quando classificados como sistêmicos, apresentam pouco movimento e apenas no sentido da base para o ápice, necessitando que as aplicações alcancem a parte baixa das plantas”, explica.

Aplicação noturna de fungicidas

À noite o clima é, geralmente, mais favorável para diminuir perdas por evaporação e deriva durante a pulverização, por isso alguns agricultores optam por realizar os tratamentos nesse período do dia, visando garantir a aplicação do produto no prazo adequado ao controle da doença. Segundo Boller, à noite as condições atmosféricas costumam ser mais favoráveis para a aplicação da maioria dos produtos. Porém, no caso dos herbicidas, deve-se considerar a necessidade de luz para a ativação do produto dentro das plantas. ”No caso de fungicidas, aplicação noturna não apresenta problemas de desempenho na cultura do trigo”. Uma variável importante nas aplicações noturnas, segundo Boller, pode ser o orvalho, cuja presença sobre as folhas pode retardar os efeitos do herbicida sistêmico, mas não afeta o herbicida de contato. ”No caso dos fungicidas, não têm sido observados efeitos adversos do orvalho em trigo, no entanto, em soja, fungicidas formulados com o princípio ativo Tebuconazole podem causar fitotoxicidade se aplicados sobre a cultura com orvalho abundante”, ressalta.

A temperatura é outro fator que pode influenciar no sucesso da pulverização, pois muitos produtos fitossanitários apresentam melhor desempenho quando a temperatura se encontra entre 15 ºC e 25 ºC. Temperatura abaixo de 15 ºC implica em reduzida atividade das plantas afetando o desempenho de alguns produtos e acima de 25ºC, comprometendo a absorção, pois as plantas se protegem contra a perda de água, dificultando penetração das gotas na lâmina foliar e aumentando o risco de evaporação das mesmas.

Escolha de bicos

Quanto as possíveis vantagens dos bicos Twin Cap ou Turbo Teejet Duo sobre as pontas de jato duplo, Boller considera que as duas alternativas têm o mesmo princípio das pontas de jato plano duplo e sua indicação é direcionada para culturas como a soja e o feijão, devido à forma e a posição das folhas e também para a dessecação de culturas como o nabo-forrageiro. Ele explica que experimentos conduzidos na Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo, com aplicações de fungicidas em trigo, não mostraram vantagens para este tipo de bico, quando comparados com pontas de jatos planos simples posicionados na vertical. ”De qualquer modo, caso o usuário pense em optar por bicos Twin Cap ou Teejet Duo, ele obterá dois jatos planos com ângulos de 60º e de 90º entre si. Os jatos podem ser produzidos por pontas da escolha do usuário, podendo, inclusive, variar o tamanho das gotas entre as duas pontas utilizadas. O aproveitamento de pontas existentes nas propriedades pode ser uma alternativa para baratear o custo, porém deve-se lembrar que para cada bico Twin Cap ou Teejet Duo, são necessárias duas pontas. Talvez o uso destes bicos seja uma boa alternativa para o controle químico da giberela, pois o aumento do volume de calda de 150 L/ha para 200 L/ha e o uso de pontas de jato plano duplo ou bicos Twin Cap com pontas de jato plano XR 11001, resultou em maior nível de cobertura de anteras de trigo com um corante, em experimento conduzido em vasos”, exemplifica.

O mercado oferece inúmeros modelos de bicos para pulverização que são adequados ao uso, quando seguidas as indicações do fabricante, nas diversas situações de lavoura e tipos de cultura.

Segundo Walter Boller, o uso de tamanhos diferenciados de gotas por meio do uso de bicos duplos tem vantagens e pode ser adotado como estratégia para evitar que o jato direcionado para frente se ”quebre” produzindo gotas maiores direcionadas para frente e gotas menores para trás. ”Dessa forma as gotas maiores teriam melhores condições de penetrar entre as folhas e as mais finas poderiam cobrir as plantas pelo outro lado, mas não tenho experiência prática neste sentido”, afirma Boller.

Pulverização com assistência de ar

Quando o assunto é aplicação com pulverizadores assistidos por cortina vertical de ar e as pontas consideradas mais adequadas para essa situação, jato leque plano ou jato duplo, o Professor explica que, a princípio, o dispositivo da cortina de ar ao encontrar as gotas de um jato plano duplo poderá gerar desuniformidade ao longo da barra. Por isso a indicação é utilizar pontas de jato plano simples. ”Temos conhecimento de um produtor que utiliza pontas de jato plano duplo 11002, em uma barra assistida com cortina de ar aplicando fungicidas em soja e trigo com volumes inferiores a 100 L/ha, com sucesso. Neste caso, a velocidade da cortina de ar deve ser apenas o suficiente para evitar que as gotas finas, formadas pelas pontas de jato plano duplo, fiquem pairando no ar”.

Aplicação aérea

No caso da aplicação aérea, professor Boller considera que essa alternativa pode apresentar resultados tão bons ou até melhores do que a realizada por via terrestre e deve ser vista como uma aliada e não como concorrente. ”A oportunidade de fazer o tratamento fitossanitário no melhor momento e a ausência de perdas por amassamento, podem significar uma importante diferença em favor da aplicação por meio de aeronaves agrícolas”.

Para Boller, a utilização de volumes reduzidos nas aplicações aéreas baseia-se em três aspectos fundamentais: primeiro, as gotas são geradas por bicos rotativos, que apresentam uniformidade bem maior do que as pontas de energia hidráulica (a variação do tamanho das gotas é muito pequena); segundo, as gotas produzidas são finas e para não evaporar (quando houver condições favoráveis para a evaporação) são envolvidas por óleo; e terceiro, ao voar, as asas da aeronave produzem um deslocamento de ar de cima para baixo, efeito semelhante a uma cortina de ar favorecendo o movimento das gotas de cima para baixo, forçando-as a penetrar no dossel das culturas”, conclui Walter Boller.

Revista Plantio Direto, edição 94, julho/agosto de 2006. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.