Ferrugem da folha de trigo: condições climáticas podem definir o aparecimento e a intensidade da doença
Em 2005, o excesso de chuvas favoreceu o desenvolvimento da ferrugem da folha de trigo, Puccinia triticina , sendo constatado, inclusive, o surgimento de novas raças da doença que causaram danos supreendentes em cultivares sucetíveis e altamente sucetíveis nas lavouras do norte do Rio Grande do Sul. Este ano, as previsões meteorológicas apontam menor intensidade de chuvas durante a safra, fator que pode colaborar para o manejo da maioria das doenças foliares. Carlos Alberto Forcelini, Fitopatologista e Professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo, entrevistado dessa edição, fala sobre a ferrugem da folha de trigo. Segundo ele, as lavouras estabelecidas com cultivares suscetíveis a doença devem receber maior atenção no monitoramento e, havendo ocorrência de doenças, seja oídio, ferrugem ou manchas, o tratamento com fungicidas deve ser realizado quando do aparecimento dos primeiros sintomas.
Revista Plantio Direto - A ocorrência da ferrugem da folha de trigo foi preocupante em 2005. A situação pode se repetir nesta safra? Quais os fatores que influenciam no surgimento da doença?
Carlos Alberto Forcelini - Três fatores contribuíram para a maior intensidade da ferrugem da folha em 2005: o aparecimento de pelo menos duas raças novas do fungo, que ”quebraram” a resistência de cultivares como Ônix e BRS 194; a ocorrência de condições climáticas favoráveis (chuvas freqüentes e orvalho) por vários dias seguidos, principalmente em setembro e outubro; manejo inadequado da doença, com a aplicação de fungicida após a ferrugem estar instalada na cultura. O principal fator que favorece a ferrugem é a continuidade da água sobre as folhas, o que está diretamente relacionada à chuva e ao orvalho. A expectativa é de que a safra de trigo de 2006 seja menos chuvosa que a do ano passado, o que deverá ajudar no manejo da ferrugem.
RPD - A ferrugem da folha, pode ocasionar perdas severas?
Forcelini - Em cultivares bastante suscetíveis, os danos pela ferrugem podem comprometer até 80% do rendimento de grãos. Na safra 2005, o impacto da grande ocorrência de ferrugem foi no sentido de determinar mais aplicações de fungicida para seu controle. Houve casos de três ou quatro tratamentos. Em lavouras bem manejadas, com aplicações de fungicidas posicionadas antes ou nos estágios bem iniciais da ferrugem, o dano foi mínimo.
RPD - Entre as doenças da cultura de trigo como pode ser classificada a ferrugem da folha?
Forcelini - Pelos danos que pode causar, a ferrugem é a doença da parte aérea do trigo com maior relevância, embora o oídio, as manchas foliares e a giberela também sejam importantes. Sua ocorrência se dá a partir de esporos do fungo, provenientes de plantas voluntárias de trigo (guachas ou tigüeras) e de lavouras cultivadas mais cedo, em regiões mais quentes. Esses esporos são disseminados pelo vento a centenas de quilômetros, o que permite sua ampla distribuição entre lavouras, estados e países vizinhos. Uma vez estabelecido um foco na lavoura, este passa a contribuir para o aumento do problema.
RPD - Os resíduos culturais, no caso do plantio direto, podem ser fonte de inóculo? O sistema pode influenciar no desenvolvimento da doença?
Forcelini - Não. Os restos culturais do trigo ou de outro cereais de inverno não permitem a sobrevivência do fungo e não contribuem para a ocorrência da ferrugem.
RPD - Como o produtor e/ou técnico deve fazer o monitoramento da lavoura? Em que momento deve ser iniciado o tratamento com fungicidas?
Forcelini - Recomenda-se o monitoramento assíduo da lavoura, pelo menos duas vezes por semana, especialmente a partir do final do perfilhamento. Os fungicidas devem ser aplicados quando da constatação dos primeiros sintomas da doença, ou até mesmo antes, quando houver previsão de chuvas seguidas para os próximos dias. Deve-se considerar que a ferrugem possui um ciclo médio de uma semana, período no qual as infecções existentes na planta ainda não são visíveis. Portanto, quando se detecta, visualmente, a ferrugem, pode-se assumir que planta possui uma quantidade maior de doença, ainda não visível, que pode causar mais e dano e comprometer o controle. Outros dois aspectos importantes, que devem ser considerados pelo produtor são os seguintes: o fungicida não recupera o dano já ocorrido às folhas; a doença ainda aumenta e causa dano por mais alguns dias após a aplicação. Por isso é importante controlar cedo e bem. Os fungicidas triazóis e as misturas prontas de triazóis + estrobilurinas controlam a ferrugem.
RPD - Quais medidas podem ser tomadas para amenizar os prejuízos causados pela ferrugem da folha do trigo caso as condições climáticas sejam favoráveis ao surgimento da doença em 2006?
Forcelini - Os prejuízos uma vez ocorridos são irreversíveis. O manejo da ferrugem e das demais doenças deve ser no sentido de controlar o seu início. Por isso o monitoramento freqüente da cultura e a atenção às condições climáticas são muito importantes.
RPD - A quebra de resistência de cultivares é comum? O surgimento de novas raças pode dificultar ainda mais o controle?
Forcelini - O surgimento de raças novas, e a conseqüente ”quebra da resistência”, são fatos normais na natureza, mas sua velocidade e freqüência dependem muito das condições de clima e de manejo da cultura. A população de um fungo pode ser composta de várias raças, algumas delas com uma freqüência muito baixa. Com o cultivo sucessivo e em grande área de cultivares com a mesma base genética para resistência, essas raças pouco freqüentes aumentam seu número e passam a predominar na população, causando a doença em cultivares que antes eram resistentes. Normalmente quando isso ocorre, as ”novas raças” são virulentas (agressivas) à cultura, promovendo aumento mais rápido da doença e dificuldades maiores para seu controle. Já houve casos, no passado, de perda da resistência logo nos primeiros anos de uso comercial de algumas cultivares. Diversificar o uso de cultivares (com diferente base genética para a doença) e realizar bem o controle retardam ou evitam a ”quebra” da resistência.
A ferrugem da folha de trigo, Puccinia triticina, se caracteriza pelo surgimento de pústulas marrom-alaranjada contendo massa de uredosporos, que ficam expostos após o rompimento da epiderme.
RPD - De forma prática, como funciona a Resistência de Planta Adulta (RPA)?
Forcelini - Esse tipo de resistência atua reduzindo a velocidade com que a doença aumenta, ou seja, diminui o seu ritmo, na fase adulta da cultura. Cultivares com RPA terão uma menor quantidade final de doenças que os materiais mais suscetíveis e podem dispensar uma segunda aplicação de fungicida.
RPD - No caso da ferrugem como funciona a relação tratamento ”preventivo” x ”curativo”?
Forcelini - Na teoria, o termo preventivo ou curativo, respectivamente, significa antes ou após a ocorrência da infecção (estabelecimento do patógeno no interior da planta). Na prática de campo, preventivo ou curativo tem significado antes ou após o aparecimento dos sintomas. Nesse sentido, o tratamento curativo é possível sim, porém deve ser efetuado logo que detectada a doença, especialmente se as condições climáticas forem favoráveis ao seu aumento. Com a evolução da doença na lavoura, os danos aumentam, a eficácia do tratamento é menor e o período de proteção mais curto.
RPD - A preservação de folhas verdes (saudáveis) na planta para garantir o enchimento de grãos, precisa ser observado pelo produtor. Que tipo de monitoramento deve ser feito a campo para definir o índice de área foliar adequado para uma lavoura de alta produtividade?
Forcelini - Uma lavoura com bom número de plantas sadias, com as folhas verdes da base até a extremidade, é sinal de alto potencial de rendimento de grãos. Isso é possível com uma boa semeadura e com o controle das doenças foliares que afetam a cultura durante o seu desenvolvimento. Não adianta se preocupar com o controle das doenças que afetam a espiga da cultura, especialmente a giberela, ou proteger apenas a folha bandeira, se as demais já estão comprometidas pelas doenças. Deve-se ter em mente que o controle da giberela somente contribui se o controle das doenças foliares, que ocorrem antes, foi bem realizado. Por isso, a lavoura deve ser acompanhada desde cedo, sendo tratada tão logo detectados os primeiros sintomas das doenças foliares.
RPD - A suscetibilidade da cultivar a ferrugem deve ser considerada no momento de iniciar o tratamento?
Forcelini - Com certeza, pois a velocidade, a intensidade e os danos provocados pela doença serão maiores em cultivares mais suscetíveis. Nesses casos, a atenção deve ser redobrada, com monitoramento mais assíduo, a fim de identificar o início da doença e o momento da primeira aplicação com maior precisão. Deve-se observar também o comportamento da doença após o tratamento, para determinar o intervalo entre aplicações, o qual deve ser considerado com base na retomada de crescimento por parte da doença (aparecimento de lesões novas).
RPD - O uso de doses reduzidas de fungicidas possibilita a reinfestação?
Forcelini - A utilização de doses reduzidas de um fungicida pode permitir o controle da doença, porém o período de proteção será curto e determinará uma reaplicação em menor espaço de tempo, especialmente se já haviam sintomas visíveis quando o tratamento foi realizado.
RPD - Quais são as outras doenças foliares que precisam ser monitoradas pelo agricultor? A lógica de monitoramento é a mesma que da ferrugem?
Forcelini - Além da ferrugem, o oídio, as manchas foliares e a giberela são doenças que causam danos e que podem ser manejadas através do uso de fungicidas. Oídio e manchas foliares são monitoradas de forma semelhante à ferrugem, ou seja, o controle deve ser realizado no máximo quando verificados os primeiros sintomas. As manchas foliares apresentam um agravante. Além de formas novas lesões, a doença aumenta pela expansão das lesões já existentes e pela produção de toxinas. Os fungicidas pouco ou nada atuam sobre esses dois processos, o que reforça que o controle das manchas deve ser feito bem no início do problema.
RPD - Qual o comportamento que os produtores e técnicos devem adotar para diminuir os danos causados pela ferrugem da folha e outras doenças na cultura do trigo na safra 2006.
Forcelini - As previsões indicam uma menor ocorrência de chuvas na safra de inverno 2006, condição que diminui o risco de manchas foliares e ferrugem, mas que é mais favorável ao oídio. Lavouras estabelecidas com cultivares suscetíveis a essa doença devem receber maior atenção no monitoramento. Havendo ocorrência de doenças foliares, seja oídio, ferrugem ou manchas, o tratamento com fungicidas deve ser realizado quando do aparecimento dos primeiros sintomas.
Cultivares e lavouras com maior potencial de rendimento de grãos poderão viabilizar mais de uma aplicação. Nesse caso, melhores resultados tem sido obtidos com um tratamento no início da elongação e outro na floração. Em caso de menor pressão de doença, um tratamento único no emborrachamento pode ser a melhor alternativa. Em nossos experimentos realizados na UPF, esperar até a floração para realizar a aplicação traz menor impacto no controle das doenças e pequeno resultado econômico, devendo ser antecipado.
Revista Plantio Direto, edição 94, julho/agosto de 2006. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.