Os relatórios de safra dos EUA são confiáveis?
Flávio R. GassenEng.-agr., Supervisor Técnico Cooplantio - E-mail: flavio@agri.com.br
Aprovocação exposta no título desse artigo é uma indagação que todos fazemos a cada safra dos Estados Unidos, onde o seu Departamento de Agricultura (USDA) publica, todas segundas-feiras, relatórios semanais sobre a situação das culturas naquele país. Não podemos ser injustos sobre um possível viés no que se refere à índole do conteúdo dos relatórios, pois as publicações do USDA são as mais transparentes e abrangentes na história contemporânea.
Os antigos egípcios e romanos já realizavam o censo de alimentos para reduzir os riscos de desabastecimento e também recolhimento de tributos. Hoje, os levantamentos realizados pelas instituições públicas e privadas são meros aperfeiçoamentos das metodologias antigas. Na era digital e na rápida evolução das tecnologias de comunicação, os referidos levantamentos apresentam maior número de pontos amostrados e precisão, com resultados disponibilizados em prazos antes inimagináveis.
O relatório de acompanhamento semanal de safra dos EUA é publicado durante o desenvolvimento das culturas e resume os dados levantados por mais de 5 mil questionários preenchidos semanalmente a partir do início do mês de abril até o final de novembro, compreendendo o período de safra das culturas de verão. Os questionários são enviados nas sextas ou segundas-feiras pela manhã para o Serviço Nacional de Estatística Agrícola (NASS) de seu estado por correio, telefone, fax, e-mail ou por meio de um site de internet seguro. No final do ano-safra de 2001, quase 2/3 dos questionários foi enviado pelo site de internet seguro. Pequeno número de questionários é enviado na quinta-feira, sábado e domingo. Considerando a preocupação sobre a representatividade dos questionários, é solicitado que sejam respondidos considerando a semana encerrada no domingo. As informações são sumarizadas por município e ponderadas com a sua participação na área estimada em nível estadual e nacional. Os indivíduos que respondem os questionários estão envolvidos na assistência técnica ou estão em contato com as áreas de produção e representam as melhores opiniões sobre as condições da cultura. Das informações fornecidas, as que mais utilizamos estão relacionadas com o estádio fenológico em que as culturas se encontram na semana e os 5 níveis das condições de produção: muito ruim, ruim, regular, bom e excelente. O nível considerado ”bom” indica que a safra atingirá o rendimento projetado e ”excelente” indica que será superior. É usual utilizar a soma dos percentuais de lavouras consideradas no nível ”bom” e ”excelente” para estimar uma possível variação na produção, sendo esta informação acompanhada pelos negócios realizados nas operações de mercado futuro, como as da Bolsa de Comércio de Chicago (CBOT – Chicago Board of Trade).
Figura 1. Percentual das lavouras de soja consideradas boas e excelentes nos EUA.
Considerando a descrição da metodologia para a elaboração dos relatórios podemos concluir que estes representam as melhores informações e com atraso de no máximo uma semana. No entanto, o percentual de acerto dos relatórios é significativamente baixo em grande parte do período de desenvolvimento da cultura e pode levar à conclusões sem a menor consistência. No caso da soja, o primeiro relatório é publicado na semana de 28 de maio e o último na semana 8 de outubro. A figura 1 mostra a evolução semanal da participação das lavouras consideradas no nível ”bom” e ”excelente” desde a safra 1996/97 com seu respectivo rendimento obtido após o consolidado da colheita. A safra 2005/06 resultou no rendimento recorde (2.910 kg/ha) e, por incrível pareça, apresentou o segundo nível mais baixo de áreas consideradas ”boas” e ”excelentes” dos últimos 10 anos para a semana de 23 de julho, inclusive, coincide com a participação da safra atual. Esta incongruência é um alerta para a confiabilidade dos referidos relatórios que está relacionada ao melhor conhecimento sobre em que momento a avaliação apresenta real correspondência com o rendimento esperado e que está exclusivamente relacionada com a fase crítica em que se encontra a cultura e não com a metodologia ou ”intenção” do USDA. Sendo assim, somente a partir dos relatórios da semana de 20 de agosto, que apresentam correspondência com o rendimento, e somente a partir de 3 de setembro a taxa de acerto supera 50% (53,8%) na avaliação dos relatórios semanais desde 1996 (figura 2).
Figura 2. Previsão de rendimento sobre os relatórios semanais da USDA.
Além de identificar o período onde os relatórios são bons indicadores, o surpreendente foi constatar que o relatório da semana de 23 de julho apresentou correlação negativa, isto é, quando havia indicação de queda de rendimento, na realidade, ocorreu aumento, e vice-versa. Este paradoxo está vinculado com a identificação do período crítico da cultura em relação às intempéries (estiagem). Exemplificando, os resultados de 10 anos indicam que a evolução da qualidade das lavouras de soja publicadas no relatório da semana de 25 de junho apresentam taxa de acerto de -39%, isto é, em 39% dos casos o rendimento foi oposto ao esperado (porque é negativo) e nos demais 61% não existe qualquer correlação. Já nos relatórios publicados na semana de 3 de setembro, a taxa de acerto é de 53,8%, ou seja, existe quase 50% de chance da estimativa não corresponder com o resultado da safra. Até o início da floração a correlação é negativa e somente a partir plena emissão das vagens o índice torna-se positivo e, a partir de setembro, pode ser considerado relevante.
No caso do milho, a correlação é significativamente superior ao da soja, sem índices negativos. Do relatório de 23 de julho até 8 de outubro, a taxa de acerto supera 50% e atinge 96%. Nesta cultura, a participação do estádio fenológico correspondente ao pendoamento possui elevada correlação com o acerto das previsões.
Revista Plantio Direto, edição 94, julho/agosto de 2006. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo - RS.