Trigo e milho em alta no mercado internacional
Flávio R. GassenEngenheiro-agrônomo,Supervisor Técnico Cooplantio E-mail: flavio@agri.com.br
A economia brasileira está se ajus-tando aos novos níveis de conversão cambial, mas continua o hábito de antever qualquer alteração que possa vir a ocorrer. Como dizia o ex-ministro da economia, Pedro Malan, ”o futuro tem por ofício ser incerto”.
Entre os diversos setores da economia, o agronegócio está fortemente exposto ao impacto cambial e ao clima, que é a maior das incertezas, pois estamos ainda distantes de técnicas que possam oferecer previsões de satisfatória confiabilidade a fim de estabelecer estratégias no momento do plantio. Quanto à taxa cambial, temos a necessidade de exercitar os cenários possíveis para o futuro. Muitos são os comentários sobre a necessidade de depreciação (desvalorização) cambial da nossa moeda para estimularmos as exportações. Por outro lado, como explicar o forte aclive no acumulado mensal do saldo comercial brasileiro? (figura 1).
Figura 1. Taxa cambial e saldo comercial brasileiro
Em sentido oposto à apreciação cambial do real, registrado desde 2003, o saldo comercial apresentou forte aumento, passando de aproximadamente 1 bilhão de dólares para quase 5 bilhões. Esta trajetória sempre segue um movimento cíclico anual de saldo positivo no primeiro semestre e retração no segundo, causado pelas exportações do agronegócio que são concentradas no primeiro semestre e tendência de sobressair as importações no segundo. O crescimento da economia internacional, principalmente da China, favoreceu o movimento exportador brasileiro que, mesmo com taxa cambial desfavorável, obteve êxito.
Outro fator pouco considerado foi a necessidade do setor onde concentra a economia exportadora, de reduzir os valores relativos de seus produtos impactando fortemente na queda dos preços no mercado interno. Sem dúvida, a produção de alimentos foi penalizada com a maior influência da perda de seu valor e o maior beneficiado foi o consumidor urbano. Na economia geral houve redução e controle da inflação. Na figura 1, o saldo comercial dos meses do primeiro semestre de 2006 apresentaram desempenho inferior ao esperado e agora inicia-se a pressão sazonal de baixa neste saldo e que poderá voltar aos patamares de 2004 (entre 2 e 3 bilhões de dólares). Uma das estratégias para reduzir este risco é a desvalorização cambial, no entanto, poderia ocorrer a perda do controle sobre o movimento de capitais e conseqüente descontrole sobre o câmbio e inflação. Este é o dilema enfrentado pela Argentina que optou por manter sua moeda depreciada (3:1 Peso Argentino e dólar dos EUA) e agora enfrenta taxas elevadas de inflação, apesar desta estratégia manter estimuladas as exportações e, exatamente por este motivo, a oferta ao mercado externo é maior do que ao interno, gerando inflação.
Segundo o Ministério da Economia do Brasil, para alguns setores a taxa cambial real efetiva deveria estar próxima a 2,5 R$/US$ e outros em 2,3. Sem dúvida, é unânime o desejo de aumentarmos as exportações, mas vale ressaltar que a conversão está abaixo de 2,5 há mais de 1,5 anos e os saldos comerciais não despencaram. Sempre que um país resiste e consegue manter sua conversibilidade alterada e mantida nessa posição pelo período superior ao ciclo produtivo da sua economia, a taxa cambial de paridade é também alterada pois os bens de produção e insumos para o próximo ciclo foram importados à esta taxa cambial. Portanto, não há mais a necessidade de câmbio acima de 2,5. Há outro fator relevante que o pressiona para baixo que é a necessidade dos EUA em manter sua moeda depreciada para estimular suas exportações ou, pelo menos, reduzir o seu desequilíbrio comercial. Nesse sentido foi o pronunciamento de posse do novo Secretário do Tesouro dos EUA que ressaltou a necessidade de manter o dólar fraco. Portanto, mesmo que sejam realizados movimentos para depreciar nossa moeda, os mesmos movimentos realizados nos EUA tornarão inócuas nossas iniciativas.
Figura 2. Cotações dos contratos de primeira posição da Bolsa de Chicago (centavos de dólar/bushel).
Assumindo que a taxa cambial mantenha-se nos patamares atuais, será necessária a queda mais significativa dos custos dos insumos e esta somente virá com a pressão sobre as empresas fornecedoras. O fertilizante foi um dos insumos que registraram maior redução de preço desde janeiro de 2003. O superfostato simples apresentou queda acumulada de aproximadamente 30% no período, para a média do Paraná aos preços deflacionados pelo IGP-M. Outros, como fungicidas e inseticidas, apresentaram queda de 10 a 20% no valor. Já o óleo diesel registrou aumento real de 4% e as máquinas (plantadeira de plantio direto) em 30%. No caso das máquinas, houve aumento das cotações internacionais do aço, mas o aumento de 30% real é exagerado. Causou surpresa o aumento de mais de 20% nos preços reais da semente de milho híbrido de alta tecnologia. Sem dúvida, existem distorções que devem ser corrigidas.
SOJA
O mercado internacional da soja está focado nas lavouras dos EUA e no seu impacto sobre o balanço da oferta mundial do grão. Na intenção de plantio do país havia a projeção de aumento de 6,6% na área, em relação ao ano anterior, gerando o maior estoque mundial da história. Com o ajuste deste aumento para 3,9%, houve redução na projeção da relação de estoque mundial de passagem com o consumo mundial, de 25,1% em 2005/06 para 24,1% na safra 2006;07. Combinada com este ajuste e estiagem em algumas regiões da soja do país, foi gerada forte alta no decorrer de junho/julho no mercado futuro da Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT). Com o retorno das chuvas, as cotações retrocederam no final de julho. Apesar do déficit hídrico no início do desenvolvimento, a soja possui a capacidade de recuperar-se com o retorno da precipitação. Os relatórios semanais da condição da safra apresentam taxa de acerto desprezível até o início de agosto e somente a partir do final de agosto (pleno enchimento de grão) podem ser consideradas. Portanto, os movimentos registrados no mercado de futuros é meramente especulativo e não possuem qualquer vínculo com fundamentos sobre a produção.
Dos fundamentos da oferta mundial, a soja apresenta a projeção do segundo maior estoque em relação ao consumo da história e também nos EUA. Para o mercado investidor norte-americano, a relação estoque final/demanda dos EUA considerada adequada estaria próxima a 10%. Quando as cotações superaram 10 dólares por bushel, a relação estoque final/demanda estava em 4,4% e agora está projetada em 18,9%. No Brasil, há intenção de substituir parte da área de milho pela de menor custo, a soja. Na composição do Complexo-soja, o farelo está gerando pressão negativa e o óleo com forte pressão de alta (figura 3). No movimento do óleo está o momento de forte alta do petróleo e contaminação especulativa sobre as cotações do óleo de soja. É um tanto delicado o equilíbrio das cotações da soja nos patamares atuais, pois os estoques estão elevados e o movimento especulativo amparado somente sobre o óleo. Realmente é uma posição delicada.
Figura 3. Cotações do Complexo Soja na CBOT
Na figura 4 está a representação de um novo canal de variação de preço (pago ao produtor do PR) considerando a estabilidade da taxa cambial e as cotações internacionais nos patamares atuais. No caso de uma grande safra nos EUA, os preços dolarizados no PR atingirão a linha de resistência abaixo de 10 dólares.
Figura 4. SOJA: preços nominais e deflacionados
MILHO
A redução de 2,4% na projeção da área plantada nos EUA, conforme o relatório de julho do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), provoca também queda na expectativa da oferta mundial e pode resultar na menor relação estoque final/consumo mundial da história. Na safra anterior, cerca de 18,3% do consumo mundial foi convertido em estoque de passagem para o ano comercial atual. Agora, a projeção para o estoque de passagem para a safra 2006/07 é de 12,6% e nos EUA em 9,2%. Conforme a figura 5, já há evidente movimento de alta dos preços na Argentina e EUA. A figura 2 apresenta a alta do milho e trigo nas cotações dos contratos de primeira posição da CBOT em relação a média de 16 anos.
Figura 5. MILHO: preços nominais
Como o milho também é influenciado pela paridade cambial, na figura 6 é apresentado um novo canal de variação de preço do grão, considerando a estabilidade do câmbio e as linhas de suporte e resistência das cotações dolarizadas no mercado do Paraná. A possibilidade de redução da área da cultura para a safra 2006/07 no Brasil poderá iniciar-se novo ciclo de alta nos preços, mas dentro dos limites estabelecidos (canal).
Figura 6. MILHO: preço pago ao produtor do PR e RS
TRIGO
As projeções da oferta mundial de trigo para a safra 2006/07 também apresentam um cenário de forte redução no estoque de passagem para 2007/08. O mercado internacional já está sinalizando para cotações elevadas e registra recorde dos últimos anos nos preços praticados nos embarques dos portos do Golfo dos EUA (figura 7). Com esta alta nos EUA, seria razoável esperar preços semelhantes aos praticados na safra 2003, ou seja, ao redor de 10 dólares por 60 kg. Considerando estabilidade cambial, a figura 8 apresenta um canal de variação dos preços onde há um claro movimento de alta com a possibilidade dos preços pagos ao produtor do PR atingir 10 dólares.
Figura 7. TRIGO
Figura 8. TRIGO: preços nominais e deflacionados
Revista Plantio Direto, edição 94, julho/agosto de 2006. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.