Redução do Espaçamento entre Linhas na Cultura


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Publicado em: 01/04/2006

Redução do espaçamento entre linhas na cultura

Itavor Nummer Filho & Carlos W. HentschkeEngenheiros-Agrônomos, Departamento de Produto e Tecnologia Dupont do Brasil S/A - Divisão Pioneer Sementes,E-mail: itavor.nummerfilho@pioneer.com

Para a obtenção de elevadas pro-dutividades em milho deve-se maximizar a interceptação da radiação solar pelas estruturas fotossiteticamente ativas das plantas (folhas) e garantir a distribuição do produto da fotossíntese (fotoassimilados) as diversas partes da planta com a maior eficiência possível e ao menor dispêndio de energia.

Para interpretar a vantagens da redução do espaçamento entre linha na cultura do milho, é necessário comparar a planta com uma fábrica.

Nesta fábrica, o número de funcionários é constante, mas a matéria prima (luz, água e nutrientes) e a demanda pelos produtos fabricados (fotoassimilados) variam de acordo com as condições do ambiente e fase de desenvolvimento da planta. Em períodos de baixa demanda, (durante o crescimento vegetativo, por exemplo), e quando as condições do ambiente encontram-se favoráveis ao desenvolvimento da cultura, ha disponibilidade de produtos acabados e o estoque aumenta.

Como os funcionários dessa fábrica trabalham em período integral, nestas condições de baixa demanda e alta disponibilidade de matéria prima, o estoque aumenta cada vez mais.

Em condições de estresse ambiental, períodos de seca, por exemplo, combinados com períodos de alta demanda por produto (fase de pendoamento e enchimento de grão) acontece uma situação inversa, ou seja, baixa disponibilidade de matéria prima (água, neste caso), alta demanda (alta translocação de fotoassimilados para estruturas de reprodução) e por conseqüência uma redução no estoque.

O enfrentamento de períodos de estresse pelas plantas se dará de forma menos intensa e com menores prejuízos a produção, a medida que estas plantas tiverem melhores condições de crescimento no início da safra, e que chegarem com maior estoque acumulado, suportando melhor a condição de stress na fase final do desenvolvimento, período de alta demanda.

Nestes fatos resume-se a importância das práticas de manejo que favoreçam a cultura principalmente nas fases iniciais, tais como população adequada de plantas, redução de espaçamento entre linhas, uniformidade na distribuição espacial das plantas na linha e a melhoria na uniformidade de emergência (redução da variabilidade entre indivíduos).

A redução do espaçamento entre linhas, possibilita o acúmulo de fotoassimilados pela planta, nos primeiros estádios de crescimento, assim como o melhor aproveitamento e utilização dos recursos disponíveis (água, luz e nutrientes).

Maior interceptação de luz solar – o principal fator

O maior benefício alcançado com o espaçamento reduzido é o aumento da interceptação da luz solar no início do desenvolvimento da cultura devido ao melhor arranjo espacial das plantas. Ou seja, para uma mesma população de plantas, a redução do espaçamento entre linhas melhora a distribuição de plantas na mesma área, facilitando a penetração da luz solar. Pode se observar na Figura 1, que no espaçamento convencional, ocorre o sombreamento das plantas na mesma linha enquanto que grande quantidade de luz solar é perdida uma vez que atinge o solo e não as plantas. Já no espaçamento reduzido, a luz solar atinge um maior numero de plantas, e não ocorre o sombreamento entre plantas da mesma linha. Isso resulta em um maior índice de fotossíntese durante o período total de crescimento. A quantidade de fotossíntese realizada pela planta, é diretamente proporcional à produtividade alcançada. Até que a planta atinja um ponto máximo de utilização, quanto mais luz solar for interceptada pela cultura, maior será a sua produtividade.

Além do aumento de interceptação da luz solar, essa interceptação é antecipada nos espaçamentos reduzidos, o que faz com que a cultura se desenvolva mais rapidamente. O desenvolvimento antecipado da cultura, além de aumentar a produtividade através do aumento da fotossíntese, também torna a cultura mais resistente a possíveis estresses ambientais e ataques de pragas e doenças que possam acontecer no futuro.

Abaixo, mostramos dois esquemas que ilustram a distribuição de plantas nos espaçamentos convencional e reduzido para a mesma população. Observe a melhor distribuição de plantas no espaçamento reduzido.

Melhor aproveitamento dos recursos disponíveis

Devido à maior uniformidade na linha de plantio, o aproveitamento do solo pelo sistema radicular das plantas de milho é maior, e o sombreamento entre plantas da mesma linha, menor. Isso diminui a competição entre plantas e possibilita um maior aproveitamento de água, luz e nutrientes. Em anos em que a média de precipitações é menor, a diminuição da competição entre plantas e a maior disponibilidade de umidade do solo para cada planta, é um fator que irá contribuir para o aumento da produtividade final.

Aumento da vantagem competitiva

Outra vantagem do plantio em espaçamento reduzido, é o aumento da habilidade competitiva do milho em relação às plantas daninhas. O aumento da quantidade de luz que é interceptada pela cultura do milho nas fases iniciais de crescimento, juntamente com o aumento da taxa de crescimento, faz com que o milho ”saia na frente”, sofrendo menos com a competição nos estádios iniciais da cultura. Além disso, como as plantas de milho crescem mais rápido e como o espaço entre as linhas é menor, o fechamento da cultura também é mais rápido, o que pode reduzir a emergência tardia de algumas plantas daninhas. Os resultados são a diminuição de perdas por competição e a possível redução nos gastos com herbicidas.

Maior eficiência na utilização da água disponível

O maior e mais rápido sombreamento das entrelinhas também diminui a proporção da água perdida através da evaporação do solo. Existe uma proporção entre a perda de água por evaporação, e a perda pela transpiração das plantas. No caso do plantio em espaçamento reduzido, a maior parte da água deixa o sistema através da transpiração, o que juntamente com a maior incidência de luz solar, assegura taxas de fotossíntese mais altas e um maior aproveitamento da água absorvida.

O espaçamento reduzido e o aumento da população de plantas

A redução do espaçamento não implica necessariamente em aumento da população.

Por si só, o incremento da densidade de plantas (plantas/m2) é a forma mais fácil e mais eficiente de aumentar produtividade sob uma mesma tecnologia, desde que este seja o maior gargalo técnico.

Por outro lado, o uso de densidades de plantas não compatíveis com a tecnologia empregada na cultura (fertilização, espaçamento, etc..) pode inibir a fotossíntese e a adequada partição de seu produto (fotoassimilados) na produção de grãos, reduzindo o numero de grão por espiga, induzindo a esterilidade feminina e aumentando a dessincronização entre emissão de pendão e espiga.

Contudo, resultados de pesquisa e de lavouras tem mostrado que o aumento da população juntamente com a redução do espaçamento, é fator importante para o aumento da produtividade. Veja os resultados da média de produtividade de vários híbridos avaliados de 1997 a 2001 em vários locais em diferentes espaçamentos e populações.

Antes de decidir sobre a população de plantas desejada, recomenda-se que o produtor busque informações a respeito dos híbridos existentes, uma vez que as recomendações de população variam para cada híbrido e dependem do nível de fertilidade do solo, nível de adubação praticado pelo produtor, nível tecnológico adotado, histórico de chuvas da área, disponibilidade de irrigação, altitude e época de plantio. É esse conjunto que irá determinar a população ótima de plantas.

Comparativamente

Já a necessidade de aumento de adubação em um sistema de produção em espaçamento reduzido deve ser calculada com base na meta de produtividade a ser atingida, da mesma maneira como é feito no espaçamento convencional. Desta forma, caso a expectativa de aumento de produtividade decorrente do aumento de população e redução do espaçamento seja de 15%, o aumento na adubação deve seguir a mesma proporção, levando-se em conta, aspectos como o nível de fertilidade do solo, e a cultura utilizada na rotação.

Aspectos a serem observados antes da adoção da prática:

A redução de espaçamento somente trará algum benefício, quando outras práticas já estiverem sendo utilizadas na propriedade, e deve ser considerada como um ajuste fino no manejo da cultura. Fatores como a correção do solo, o controle eficaz de pragas e plantas daninhas e uma boa qualidade de plantio são essenciais para que a redução de espaçamento traga o resultado desejado. Da mesma forma, a utilização de híbridos com elevado potencial produtivo, que estejam adequadamente posicionados e semeados em populações mais altas, proporcionarão melhores resultados.

O produtor deve também ter em mente que haverá custos adicionais com a compra e/ou adaptação dos equipamentos de manejo e colheita. A aquisição de uma plataforma de colheita adequada, e a utilização de pulverizadores e tratores com rodados estreitos que permitam a entrada na lavoura de espaçamento reduzido sem causar danos às plantas, são premissas básicas para a implantação do sistema. Antes que se adote a prática da redução de espaçamento em área total recomenda-se que seja feito um pequeno teste na propriedade, com o objetivo de assegurar que todos os detalhes sejam observados. Áreas vizinhas ou ensaios de outros produtores, associações de produtores ou órgãos de pesquisa também são importantes como fonte de informação e recomenda-se que estes sejam visitados pelo produtor.

Vale a pena lembrar que, o manejo da lavoura, os fatores de produção e as médias de produtividades alcançadas nos últimos anos, devem ser bem analisados para ver se a adoção da redução do espaçamento e o aumento da população de plantas são, no momento, os aspectos prioritários. Não podemos esperar milagres tão somente mexendo nestes dois itens.

Qualidade de plantio: fator determinante

Para que se consiga os benefícios da redução do espaçamento, e do aumento da população de plantas, é muito importante que o produtor se atente para a importância do plantio.

Um plantio de qualidade, e consequentemente a uniformidade de emergência das plântulas, é fator determinante na produtividade.

Para se atingir essa qualidade, existem alguns procedimentos básicos que devem ser adotados:

1. Recomenda-se que a velocidade de semeadura não ultrapasse os 7,0 Km/h, independentemente do sistema de distribuição da semeadora (pneumática ou disco). Velocidades acima da indicada podem determinar uma grande variabilidade na profundidade e deposição das sementes, o que pode determinar uma emergência desuniforme, principalmente nos plantios do cedo.

2. A semeadura no pó, ou semeaduras muito rasas ou muito profundas, determinam, em função da variabilidade de umidade do solo, ou da profundidade, um maior dispêndio de energia na emergência da plântula.

3. A qualidade da semente, principalmente vigor e poder germinativo, são extremamente importantes na determinação do estande, principalmente nas semeaduras do cedo no Sul do país.

4. A temperatura, e a umidade do solo no momento desde o momento da semeadura até a emergência das plântulas também são fatores que influem na germinação e na determinação do estande. Dessa forma, a determinação do momento de plantio é fator crucial para o estabelecimento de uma lavoura de sucesso.

Observadas todas essas condições, e feita uma criteriosa análise de custos levando-se em conta o tamanho da área, o custo de aquisição e modificação dos equipamentos, o período de amortização e a produtividade esperada, a adoção do plantio em espaçamento reduzido, e o aumento da população de plantas, só tem vantagens a trazer para o produtor.

Revista Plantio Direto, edição 92, março/abril de 2006. Aldeia Norte Editora, Passo Fumdo, RS.