Milho Transgênico


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Publicado em: 01/04/2006

Milho Transgênico

Apesar de ser cultivado em diversos países o milho transgênico ainda não foi legalizado no Brasil. Mesmo assim, cresce a demanda por informações e muitos produtores acreditam que a lógica do cultivo da soja transgênica se repete no milho. O Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Luiz Carlos Federizzi, foi um dos palestrantes da 5a edição da Casa do Plantio Direto, durante a Expodireto Cotrijal 2006. Aproveitamos sua presença para realizar uma entrevista que trata das principais dúvidas sobre transgênese no milho, tema de suas palestras.

Revista Plantio Direto - O que é e como funciona a transgênese?

Luiz Carlos Federizzi - Por definição, plantas transgênicas são aquelas que receberam um ou poucos genes escolhidos, identificados e com função conhecida de outro organismo vivo da mesma espécie ou de espécie diferente através de métodos não tradicionais de reprodução da espécie. Em plantas existem dois sistemas de introdução de genes: a) o sistema desenvolvido naturalmente pelas bactérias (Agrobacterium tumefaciens); ou b) através de aceleradores de partículas.

A bactéria de solo (A. tume- faciens) desenvolveu um sistema de passar parte de seus genes (DNA) para algumas plantas superiores que consegue infectar. A expressão dos genes da bactéria em plantas leva a formação de calos (tumores) e a produção de compostos metabólicos (opinas). Assim é possível colocar um fragmento de DNA (gene) na bactéria que o leva para dentro das células da planta;

Para as plantas que não são infectadas pela Agrobacterium foi desenvolvido um sistema utilizando um acelerador de partículas (biobalística ou gene gun). O DNA que vai ser introduzido na planta é adsorvido a superfície de partículas metálicas (ouro ou tungstênio) com diâmetro conhecido. As partículas são aceleradas em alta velocidade em direção dos tecidos alvos (células vegetais) e espera-se que parte delas consiga penetrar no núcleo das células e liberar o DNA que pode se integrar com o DNA das células gerando uma célula transgênica, que pode ser regenerada em planta adulta fértil. Esta planta passa a conter um gene novo que pode ser transferido via as técnicas convencionais de melhoramento para outras variedades.

RPD - Qual é a diferença entre o melhoramento genético tradicional e a transgênese?

Federizzi - No melhoramento genético as novas variedades são o resultado do cruzamento artificial ou natural entre duas variedades ou duas linhagens e muitos anos de seleção a campo. A variedade/linhagem resultante possuiu uma combinação de genes dos dois genitores que lhe deram origem. A variabilidade explorada é aquela contida nos pais que deram origem a variedade. O método de cruzamento envolve o conhecimento do modo de reprodução da espécie. Somente é possível a transferência de genes de espécies que cruzam naturalmente entre si ou através de técnicas especiais entre espécies aparentadas.

Na transgênia somente um pedaço de DNA (um ou poucos genes) são introduzidos numa variedade ou linhagem já existentes. Este gene pode ser proveniente de qualquer organismo vivo e não depende da compatibilidade sexual entre as espécies envolvidas.

RPD - Como foi criada a soja transgênica?

Federizzi - A soja RR foi criada através da introdução por biobalística de um gene de uma enzima (EPSPS) proveniente de uma bactéria de solo (Agrobacterium tumefaciens).

A enzima EPSPS é parte de uma importante rota bioquímica que resulta na produção dos amino ácidos aromáticos. Esta enzima esta presente em plantas, fungos e bactérias, mas não esta presente em animais. Normalmente todas as plantas morrem quando é aplicado o herbicida glifosato porque este inibe a ação da EPSPS e os amino ácidos aromáticos não são produzidos. A enzima EPSPS presente na Agrobacterium tumefaciens cepa CP 4 era tolerante ao glifosato. Este gene foi modificado e introduzido na soja por biobalística. Posteriormente o mesmo foi passado para outras variedades de soja através das técnicas normais do melhoramento de plantas.

RPD - Por que a soja RR se tornou tão popular?

Federizzi - A soja RR se tornou tão popular por vários fatores:

a) Simplicidade da técnica e eficácia do controle das ervas daninhas, não dependia do clima e de momento preciso da aplicação;

b) Chegou num momento que os custos de produção estavam altos, reduzindo-os consideravelmente;

c) Os agricultores não pagaram pela tecnologia e faziam sementes e vendiam para seus vizinhos, o que proporcionou boa renda para os pioneiros;

d) Safras com boa precipitação sem problemas de secas prolongadas;

e) Facilidade para a implantação de lavouras em semeadura direta;

f) Melhor limpeza e melhor teor de umidade na colheita (menores descontos na hora da venda);

RPD - O milho transgênico tem a mesma lógica da soja RR?

Federizzi - O milho transgênico não tem a mesma lógica da soja RR. Primeiro existem no mercado mundial quatro tipos de milhos transgênicos: milho com resistência ao glifosato (RR), milho com gene BT (resistência a lagarta), milho com RR e BT (resistência ao glifosato e a lagarta juntos) e milho com alto teor de lisina.

Em segundo lugar, as variedades de milho na sua grande maioria são híbridas e apresentam uma grande uniformidade por terem a mesma constituição genética. A semente é originária do cruzamento entre duas linhagens e só pode ser utilizada na primeira geração e por isso os agricultores têm que comprar sementes todos os anos. Se utilizada como semente os grãos provenientes de uma lavoura de milho híbrido vai provocar na lavoura uma desuniformidade muito grande com plantas altas, baixas, mais precoces, tardias, etc. com reduzido vigor híbrido e com conseqüente baixo rendimento. Assim um agricultor não poderá vender os grãos de suas lavouras como semente, como foi feito com a soja. Além disso, o agricultor terá que comprar sementes clandestinas todos os anos. Portanto, é importante que o agricultor espere que seja legalizado o plantio e possa comprar sementes legais no Brasil.

A evolução do milho transgênico foi mais lenta que a da soja, pelos fatores discutidos acima. Também cabe salientar que onde não há problemas de lagartas o milho Bt com resistência a lagarta não tem vantagem nenhuma sobre os híbridos normais. Mesmo assim, tem crescido de ano para ano a adoção de milho transgênico e em especial do milho com os dois genes juntos (resistência ao herbicida e resistência a lagarta). No Brasil neste ano de 2006 com a formação da nova Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) os trabalhos a campo com milho transgênico deverão ser reiniciados. Portanto, no Brasil ainda não existe milho transgênico com sementes legalizadas para plantio.

RPD - Quais são os riscos ambientais e de saúde pública já comprovados com plantas OGM?

Federizzi - Os OGM estão no mercado de plantas há mais de 10 anos e foram cultivados em mais de 400 milhões de hectares (desde 1996), por mais de 8.5 milhões de agricultores, sem riscos de saúde e danos ambientais comprovados maiores do que aqueles das variedades convencionais. Aqueles riscos alardeados como possíveis no início do cultivo dos transgênicos não se confirmaram, e alguns transgênicos trouxeram benefícios para o ambiente com a redução do uso de pesticidas nas lavouras.

RPD - Quais são as principais linhas de pesquisa e perspectivas para milho OGM?

Federizzi - O milho, pelo potencial que possui devido a área cultivada e produção, faz com que um grande número de empresas privadas e públicas façam pesquisas com a cultura. Em trabalho recente foram apontados mais de 30 genes diferentes que estão sendo testados a campo. Os principais são: resistência a insetos (BT) e a herbicidas, qualidade do produto (amido, proteínas e aminoácidos alterados), proteínas farmacêuticas, produção de polímeros, etc.

Outra importante linha de pesquisa com milho OGM trata dos estudos da coexistência de lavouras de milho transgênico, milho híbrido convencional e milho orgânico. Isto porque o sistema de reprodução do milho é por fecundação cruzada e o pólen pode ser levado pelo vento e contaminar lavouras próximas. Estudos recentemente publicados na Europa demonstram que para aqueles ambientes a adoção de técnicas agronômicas simples permite a coexistência de todos os tipos de lavouras (resultados no site: www. coexistence.ethz.ch).

RPD - Quais são os empecilhos legais ou dificuldades para a legalização de milho OGM no Brasil?

Federizzi - No Brasil, antes da atual Lei de Biossegurança, aprovada em 2005, as principais dificuldades legais eram a morosidade e necessidade de entrar com processo em vários Ministérios para a obtenção de licença para realizar os testes a campo, o que de fato provocou uma moratória nos trabalhos por vários anos. Com a instalação da nova CTNBio poderão ser finalmente autorizadas a realização dos testes de campo necessários para a aprovação do milho transgênico no Brasil.