Algumas dúvidas sobre a amostragem de solo e a interpretação dos resultados em sistema de semeadura direta no cerrado
Anderson Lange(1) & Eurípedes Malavolta(2)(1) Doutorando do CENA-USP, Piracicaba-SP. Bolsista CNPq. Fone (19) 8124-0713; E-mail: alange@cena.usp.br(2) Pesquisador do CENA-USP, Piracicaba-SP. Fone: (19) 3429-4695; E-mail: mala@cena.usp.br1. Introdução
Apesar do sistema plantio direto ou sistema semeadura direta (SSD), como corretamente deve ser chamado; pois coloca-se dentro do solo sementes e não plantas; ter uma história de aproximadamente 30 anos no país, ainda existem muitas dúvidas a serem esclarecidas sobre seu correto manejo. Esse sistema apresenta comportamento diferenciado em relação ao preparo convencional (PC) e também de região para região, já que as condições em que ele é conduzido muitas vezes no Cerrado diferem das da região Sul.
Neste contexto, a amostragem de solo tem demandado informações. No PC recomenda-se a coleta de 15-20 amostras simples por gleba homogênea para compor uma amostra composta (Raij, 1991), informação esta derivada de uma série de estudos feitos sobre a variabilidade das propriedades químicas do solo (Mac Cormack & Wilding, 1969; Oliveira & Menk, 1974). Esta amostragem, resumidamente, consiste em coletar porções do solo com trado ou pá de corte, na profundidade de 0-20 cm, em número de 15-20 subamostras por área uniforme, homogeneizá-las, sendo que deste total deve-se retirar uma amostra de aproximadamente 0,5 kg a qual será enviada ao laboratório para análise. Com base nos resultados da análise, é recomendada a calagem para corrigir a acidez da camada de 0-0,2 m, pois o método de recomendação é calibrado para esta camada do solo. Da mesma forma, a adubação também possui parâmetros interpretativos para esta camada, a qual é aplicada na linha de semeadura ou em área total. Entretanto, isto não se aplica em SSD, pois nesse sistema ocorre variabilidade nos atributos do solo, tanto horizontal quanto vertical.
No SSD, a concentração dos nutrientes, principalmente do P tende a elevar-se na camada superficial do solo ano após ano. Isto ocorre porque o processo de fixação de P é reduzido, em virtude do não revolvimento e o mesmo fica concentrado na superfície em bandas no fundo do risco de adubação, onde foi colocado, formando um horizonte saturado em P. Além disso, a decomposição gradual dos resíduos proporciona a liberação e redistribuição de formas orgânicas de P mais estáveis e menos susceptíveis às reações de adsorção (Sá, 1999). Alguns trabalhos desenvolvidos tanto na região Sul (Sá, 1999) como no Cerrado documentam a concentração de P na camada superficial do solo (Lange, 2002). Desse modo, a disponibilidade de P tende a ser maior em SSD, podendo inclusive influenciar na nutrição das culturas (Muzilli, 1983).
Neste sentido, a metodologia de amostragem do solo preconizada por alguns boletins consiste em abrir uma trincheira abrangendo linha mais metade do espaçamento da entrelinha da cultura anterior para ambos os lados, na profundidade desejada e coletar a amostra no sentido perpendicular a última linha de semeadura, conforme indica a Figura 1, utilizando a pá de corte. Este procedimento é indicado para diminuir o efeito residual da adubação utilizada na cultura anterior, realizando um processo de diluição do fertilizante que, possivelmente, ainda esteja acumulado na última linha de semeadura. Entretanto, a principal dificuldade encontrada e discutida entre os produtores e que motiva também a execução deste pequeno estudo é a dificuldade para se realizar este tipo de amostragem, por ser um método muito trabalhoso.
Nicolodi et al. (2002) com o objetivo facilitar a amostragem em áreas de SSD desenvolveram um trabalho com as culturas do trigo, soja e milho em lavouras sob SSD consolidado. Utilizaram a amostragem com pá de corte (padrão) e o trado calador, no qual variaram o número de amostras simples para compor uma subamostra. Como alternativa à coleta com pá de corte, na largura da entrelinha, o trado calador pôde ser utilizado coletando em torno de 15 subamostras, ao acaso, dentro da gleba. Os autores recomendam para culturas de pequeno espaçamento (~17 m), para cada subamostra, coletar um ponto no centro da linha de adubação, mais uma de cada lado (total de três pontos). Para culturas de médio espaçamento (~40 cm), coletar uma amostra no centro, mais três pontos de cada lado (sete pontos) por local amostrado. Nas culturas de grande espaçamento, como o milho (~60 a 80 cm), coletar uma amostra no centro, mais seis de cada lado (total de 13 pontos). Porém, este procedimento ainda é questionado pelos produtores, por haver a necessidade da coleta de um grande número de furos, de 45 a 105 furos, dependendo da cultura anterior.
Schlindwein & Gianello (2004) relatam uma série de dúvidas e questionamentos com relação às novas calibrações que devem ser redimensionadas para o cultivo em SSD. Muitas dúvidas, porém, existem entre produtores e pesquisadores que se utilizam do SSD. Qual a profundidade ideal a ser amostrada (0-10 cm ou 0-20 cm), uma vez que a influência de adubos nitrogenados e do Al tóxico não se restringe à superfície do solo, principalmente na região do Cerrado? Qual a posição no solo dentro da cultura anterior e, qual o número de sub-amostras para compor uma amostra? Com relação ao uso do P, sabe-se que a concentração deste nutriente aumenta na camada superficial e a disponibilidade para a planta através da absorção é facilitada. Será que as doses de P podem ser reduzidas em SSD consolidado, após o solo ter sido ”alimentado”? Uma possibilidade, após a estabilização do sistema, seria aplicar P conforme a taxa de exportação pela cultura? Ainda mais, existe correlação dos dados de amostragem com os teores foliares das culturas e, principalmente com a produtividade alcançada? Pode-se omitir-se a aplicação de P em alguma safra, utilizando-se apenas as reservas do solo? Esta última foi constatada em uma lavoura de soja no Estado do Mato Grosso pelo produtor Guerino Ferrarin (30.000 ha de soja) onde o mesmo deixou de aplicar P em um talhão e observou que a produtividade da soja foi a mesma (comunicado pessoal: Fernando Penteado Cardoso, dados não publicados).
Uma possibilidade que pode ajudar a responder parte destes questionamentos é amostrar o solo em camadas, evitando a ”diluição” da camada superficial e revelando a existência do horizonte rico em P, que tenha capacidade de suprir as plantas. Esta amostragem diferenciada além de identificar a camada rica em P, pode também ser adotada, caso ela evidencie a fertilidade do solo, pois facilitaria o procedimento de campo, uma vez que há redução na profundidade de amostragem.
2. Material e métodos
As amostras foram obtidas na fazenda Floresta do Lobo, Rodovia BR - 050, km 93, município de Uberlândia (MG), em junho 2005. Selecionaram-se três áreas distintas, com diferentes tempos de adoção do SSD. Todas as áreas foram, em anos anteriores, cultivadas com Pinus sp. Após a derrubada da mata, as áreas da fazenda são gradativamente inseridas como áreas de agricultura, onde se cultivam o milho e a soja como culturas de verão. A caracterização das áreas são apresentadas nas figuras 2, 3 e 4.
Metodologias de amostragem de solo adotadas:
Método da trincheira: Para formar cada repetição, foram abertas 3 trincheiras de aproximadamente 50-60 cm de largura, nas entrelinhas de semeadura das últimas culturas (Figura 5). As amostras foram coletadas nas camadas de 0-5, 5-10, 10-15 e 15-20 cm, sendo determinado apenas o teor de P (mg kg-1), pelo método de Mehlich-1, já que este é o nutriente que apresenta a maior variabilidade no SSD. Foram coletadas 3 repetições por área. Para obtenção dos teores de P na camada de 0-20 cm, foram separadas subamostras de igual volume de solo em cada uma das camadas acima citadas, misturadas e nelas determinou-se o teor de P.
Método dos furos (sondagem): Para formar cada repetição, foram coletados 15 furos com auxílio de sonda, nas entrelinhas de semeadura da última cultura, na camada de 0-20 cm, conforme ilustra a figura 5.
O Quadro 1 apresenta resumo com a interpretação dos teores do P no solo conforme a porcentagem de argila.
3. Resultados e discussão
Os resultados confirmam a tendência das áreas com maior tempo de adoção de SSD concentrarem o P na superfície do solo (Tabela 1). A área com apenas 2 anos de adoção do SSD apresenta uma distribuição mais uniforme do P no perfil, concentrando 67% do P disponível na camada de 0-10 cm e o restante abaixo desta. Já as áreas submetidas a 4 e 10 anos de SSD apresentam, respectivamente, 90 e 79% do P disponível na camada de 0-10 cm. A melhor distribuição do P no perfil para a área de 10 anos em relação a de 4 anos pode estar relacionada ao acúmulo de raízes decompostas das culturas anteriores em profundidade, além de uma possível aplicação de P em maior profundidade em alguma das safras anteriores, já que o sulco de aplicação do fertilizante pode chegar até 16 cm de profundidade (Casão Jr. & Siqueira, 2003).
Entretanto, os resultados mais interessantes referem-se à interpretação dos teores de P para a camada de 0-10 cm ou para a camada de 0-20 cm. Para a amostragem de solo na camada de 0-10 cm, a média dos teores de P das áreas de 2 e 4 anos teriam seus valores classificados como médios e a área de 10 anos como muito bom (Tabela 1). Neste contexto, como exemplo, recomendar-se-ia aplicar nas áreas de 2 e 4 anos, respectivamente, 80 e 100 kg ha-1 de P2O5 para a cultura da soja e do milho e, para a área de 10 não existe recomendação quando os teores são classificados como muito bons. Ainda, em virtude de a recomendação basear-se no teor de argila do solo, observa-se que a área de 2 anos apresenta 57% de argila (% próxima da interface de classificação), a qual, com apenas 3% de argila a mais, alteraria a recomendação para 40 kg ha-1 de P2O5, ou seja, metade da dose inicial.
Quando se verifica os resultados médios da camada de 0-20 cm, os teores são classificados como baixos nas áreas de 2 e 4 anos e bons na área de 10 anos. Esta interpretação implicaria na aplicação de 120 kg ha-1 de P2O5 para a soja e milho nas duas áreas mais novas e na área de 10 anos, aplicar-se-ia 40 e 70 kg ha-1 de P2O5 para a cultura da soja e do milho, respectivamente. Este exemplo simples mostra como são complexas as interpretações de adubação a serem adotadas pelo produtor, conforme os boletins de recomendação, salientando ainda, que estas recomendações foram tomadas com base no sistema de preparo convencional do solo. Acentua-se a necessidade da comprovação ou validação das tabelas opções de adubação baseadas nas análises de solo.
É importante ainda chamar a atenção para os resultados da tabela 2. Estes demonstraram não haver grande variação nos teores e na interpretação dos resultados entre a amostragem utilizando a trincheira ou furos nas entrelinhas da cultura anterior para as áreas de 2 e 4 anos de SSD. Para a área onde o SSD é adotado já a 10 anos, foram observadas as maiores variações nos resultados, tendo o método da trincheira acusado os maiores valores. Esperava-se na área de 10 anos de SSD maior uniformidade na distribuição do P na superfície do solo, obtendo-se resultados semelhantes entre a amostragem através da sonda ou pela trincheira ou apenas um pouco superiores pelo uso da trincheira, em função da amostragem da linha de semeadura; os resultados, porém, mostraram-se discrepantes.
Salienta-se que para o mesmo método de amostragem (trincheira) existe também variação dos resultados, como pode ser observado nos teores de P apresentados na tabela 1 (0-20 cm), os quais apresentam pequenas diferenças em relação aos apresentados na tabela 2, para a mesma camada de solo, sendo a única diferença para a obtenção dos resultados da tabela 2, a união das camadas de solo das profundidades de 0-5, 5-10, 10-15 e 15-20 cm, em proporções idênticas, para obtenção de uma amostra de 0-20 cm.
4. Conclusões
Os resultados acima expostos confirmam que o P concentra-se na superfície do solo em áreas de SSD e, que a camada de 0-10 cm pode ser tomada para caracterizar os teores deste nutriente, a qual apresenta um horizonte rico em P, em torno de 70% do P disponível. Igualmente, que o uso da trincheira pode apresentar resultados semelhantes à sonda amostradora de solo e que, no presente estudo, para áreas de SSD mais recentes, a utilização de 15 furos aleatórios no meio da entrelinha apresentou resultado similar ao uso da trincheira, o que não foi observado para a área com 10 anos de adoção do SSD.
Os resultados deste estudo conduzem a dúvidas em relação à interpretação dos resultados das análises, pois quando apenas a camada superficial do solo é amostrada, os resultados apresentados demonstram altos teores de P em relação a amostragem em profundidade (0-20 cm). Neste sentido, novos estudos devem ser conduzidos buscando saber qual o teor de P adequado na camada superficial do solo em SSD capaz de suprir as reais necessidades das plantas cultivadas neste sistema e, se os teores considerados como ideais para o preparo convencional podem ainda ser adotados quando se pensa no uso do sistema semeadura direta.
5. Agradecimentos
Os autores agradecem a fundação Agrisus pelo apoio financeiro concedido para execução deste estudo e aos proprietários da fazenda Floresta do Lobo – Uberlândia (MG) por disponibilizarem as áreas para as amostragens de solo. Ressalta-se a importância que os proprietários da referida fazenda oferecem à pesquisa, estando sempre dispostos a auxiliar no estudo de novas tecnologias, as quais beneficiam a sociedade e os próprios campos da fazenda, através dos resultados obtidos. Isto ficou evidente na grande quantidade de material vegetal sobre o solo observada na área com 10 anos de SSD (figura 3), onde se utilizou a semeadura conjunta de braquiária e milho, tendo a primeira função de produzir palha para o SSD, uma das grandes dificuldades do sistema no Cerrado.
6. Bibliografia
COMISSÃO DE FERTILIDADE DO SOLO DO ESTADO DE MINAS GERAIS. Recomendação para o uso de corretivos e fertilizantes em Minas Gerais: 5ª Aproximação. Viçosa: EMBRAPA/UFV/SBCS, 1999.
LANGE, A. Palhada e nitrogênio afetando propriedades do solo e rendimento de milho em sistema plantio direto no cerrado.2002. 148 p. Dissertação (Mestrado em Solos e Nutrição de Plantas) Universidade Federal de Lavras, Lavras - MG.
MAC CORMACK, D.E., WILDING, L.P. Variation of soil properties within mapping units of soils with contrasting substrata in North Western Ohio. Proc. Soil Sci. Soc. Am., 33:587-593, 1969.
MUZILLI, O. Influência do sistema de plantio direto, comparado ao convencional sobre a fertilidade da camada arável do solo. R. Bras. Ci. Solo, Campinas, 7:95-102, 1983.
NICOLODI, M., ANGHINONI, I. & SALET, R.L. Alternativa à coleta de uma secção transversal, com pá de corte, na largura da entrelinha, na amostragem de solo em lavouras com adubação em linha no sistema plantio direto. R. Plantio Direto, Ano XII, Edição 69, Passo Fundo-RS mai/jun 2002.
OLIVEIRA, J.B., MENK, J.R.F. Variabilidade de características químicas e físicas em duas áreas homogêneas de Oxissolo. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIA DO SOLO, 14, Santa Maria, 1973. Anais... Campinas: SBCS, 1974. p.359-377.
RAIJ, B. Fertilidade do solo e adubação. Piracicaba: Ceres/POTAFOS, 1991. 343 p.
RUY CASÃO JR, R. & SIQUEIRA, R. Dinâmica de semeadoras-adubadoras diretas em Entre Rios do Oeste-PR: Resultados de Avaliação. Revista Plantio Direto, nº 77, setembro/outubro de 2003.
SÁ, J. C. M. Manejo da fertilidade do solo no sistema plantio direto. In: SIQUEIRA, J. O.; MOREIRA, F. M. S.; LOPES, A. S.; GUILHERME, L. R. G.; FAQUIN, V.; FURTINI NETO, A. E.; CARVALHO, J. G. (Ed.). Inter-relação Fertilidade, Biologia do Solo e Nutrição do Solo Lavras MG, 1999, p. 267-310.
SCHLINDWEIN, J.A. & GIANELLO, C. Necessidade de novos estudos de calibração e recomendação de fertilizantes para as culturas cultivadas sob Sistema Plantio Direto Revista Plantio Direto, nº 79, Janeiro/Fevereiro de 2004.
Revista Plantio Direto, edição 92, março/abril de 2006. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo, RS.