Petróleo definirá a oferta soja/milho mundial
Flávio GassenEngenheiro Agrônomo, Supervisor Técnico Cooplantio - E-mail: flavio@agri.com.brSOJA
A incerteza na economia é o estímulo do ser humano a estabelecer diferentes estratégias para a sua sobrevivência. Conhecer a estratégia adotada pelos principais atores da economia é um dos trunfos perseguidos pelo mercado para alcançar resultados de sucesso por meio da redução de riscos. Atualmente, o mercado internacional está atento à tomada de decisão do agricultor norte-americano sobre a área de plantio e projeção da próxima da safra do maior produtor de soja e milho do planeta. Para surpresa geral, o relatório de intenção de plantio dos EUA, publicado pelo USDA (abril/2006), apontou aumento acima do esperado para a área de soja e redução significativa no plantio do milho. A área de soja projetada está em 31,1 milhões de hectares (figura 2) e 31,6 no milho, representando aumento de 6,7% na primeira e queda de 4,7% na segunda. Considerando que ambos estão com os preços próximos à média histórica no mercado internacional, o produtor escolheu ampliar o plantio da cultura com menor custo de produção e nesta composição está o petróleo como ator principal e com influência sobre a maioria dos componentes do custo dos insumos, particularmente no combustível e na fonte de nitrogênio. O elevado preço do petróleo tem impacto maior no custo do milho e expectativa de lucro menor. A área de milho na safra 2005/06 foi recorde, superando 33 milhões de ha, onde a cultura foi implantada com os preços do petróleo entre 45 e 50 dólares/barril e na safra atual os preços já atingem 70 dólares/barril (figura 1). Sem dúvida, o preço do petróleo será o principal agente no que poderá representar a maior safra de soja da história dos EUA e estoque num nível elevado a ponto de provocar a derrocada nos preços do grão para a próxima safra sul-americana.
Considerando um rendimento médio de 2.755 kg/ha, a produção dos EUA poderá atingir 85 milhões de toneladas e resultar no estoque final 2006/07 de 19 milhões de toneladas. Este estoque representaria 23,3% da demanda do país (figura 3) e somente abaixo do registrado na safra 1985/86 (28,5%), onde os preços mantiveram-se abaixo de 5 dólares por bushel. A figura 3 apresenta uma série de 30 anos da relação estoque final/demanda dos EUA e seu efeito sobre os preços. Somente condições desfavoráveis à produção nos EUA poderá reduzir o impacto negativo dos elevados estoques do grão e sustentar os preços para a próxima safra sul-americana. Já há comentários de analistas norte-americanos sobre provável redução da área de soja para a próxima safra brasileira devido a problemas financeiros e baixos preços do grão, no entanto, é muito cedo para qualquer conclusão. Por outro lado, as informações do momento apontam para esse cenário. No Brasil, a alteração da taxa cambial, supondo-se desvalorização, seria um componente crucial para reduzir qualquer restrição financeira para o estabelecimento da próxima safra e, se assim ocorresse, haveria estímulo no plantio da soja. Mas se ocorrer significativo aumento na produção dos EUA, a queda da cotação internacional do grão seria inevitável e o efeito cambial inócuo. Em posição privilegiada está o produtor argentino, que registra desvalorização cambial desde meados de 2003, onde a taxa estava em aproximadamente 2,8 Pesos/US$ e agora supera 3 Pesos/US$. Sem dúvida, esta condição é muito melhor do que a registrada no Brasil, onde passou de um patamar de 2,9 R$/US$ para 2,13 R$/US$ no mesmo período. Na figura 5 está representada a forte queda no valor da soja (preços deflacionados pelo IGP-M) no PR desde o final de 2004, os preços atualizados indicam uma linha de suporte em cerca de 28 reais/60kg e agora está em cerca de 21 reais.
MILHO
A produção mundial de milho poderá apresentar comportamento oposto ao da soja e também dirigido pelo estabelecimento da atual safra de verão dos EUA. Se for confirmada a redução de 4,7% na área do cereal nos EUA, considerando rendimento de 9.533 kg/ha, a produção do país deveria atingir 278 milhões de toneladas, sendo inferior à demanda e resultando na queda do seu estoque final. Assim, a relação estoque final/demanda dos EUA passaria de 21% (figura 6) para 20% e iniciaria um movimento de recuperação das cotações internacionais. Outro fator importante está relacionado com a implantação de várias indústrias para produção de etanol a partir de milho que aumentará o consumo do grão e reduzirá ainda mais o estoque. Sendo assim, o elevado preço do petróleo resultará no estímulo da produção de etanol e conseqüente elevação da cotação do milho. Na figura 6, ao contrário do movimento de alta dos preços da Argentina e EUA, os preços do RS e PR registram forte queda. Na figura 7 também é mostrada esta queda, onde foi salientado como efeito da redução da demanda internacional de carne de frango causada pela gripe aviária. Como o Brasil é tradicional exportador de carne e não de milho, o corte na exportação de franco provocou forte recuo na demanda das indústrias de ração e conseqüente queda nas cotações do grão, apesar da estiagem na região sul do país. Quando comparados os preços dolarizados do grão desde 2003 com os preços em reais e deflacionados pelo IGP-M, torna-se evidente a significativa perda de valor do produto. Se for mantida a redução na demanda mundial de frango e possibilidade de redução na demanda interna no caso da gripe aviária ser detectada no Brasil, a pressão de baixa nos preços do grão deverá continuar.
A safra brasileira 2005/06 de milho atingiu 40,8 milhões de toneladas e demanda de 40,1 milhões de toneladas, conforme relatório da Conab de abril/2005. Na safra 2004/05, a produção alcançou somente 35 milhões de toneladas, contra demanda de 40,2 milhões de toneladas, resultando em pressão de alta nos preços no decorrer de 2005 que foram os mais elevados desde 1997 (figura 7). No entanto, os preços elevados foram somente observados no grão dolarizado, já que a apreciação cambial provocou queda nos preços em reais.
TRIGO
A produção mundial de trigo da safra 2005/06 deverá atingir 619,3 milhões de toneladas e o consumo superior a 626 milhões de toneladas, conforme estimativa do USDA, abril/2006. A queda na produção resultará em menor estoque final mundial e conseqüente movimento de alta nas cotações internacionais do grão. Este movimento já é notado nos preços praticados nos EUA, tanto nos portos do Golfo, como ao produtor (figura 8). O estoque final/consumo mundial está estimado em 22,9% para a safra 2005;06 (figura 4). Os preços atuais praticados no PR estão acima da média histórica dolarizada (figura 9), mas os preços argentinos estão sensivelmente abaixo (figura 8) e poderão restringir elevações maiores. Como o trigo é produto de importação no Brasil, os preços no mercado interno são fortemente influenciados pela paridade cambial do país de origem, gerando queda nos preços domésticos na conjuntura atual. Considerando os preços dolarizados, a conversão em reais e deflacionados pelo IGP-M, os preço deveriam estar acima de 25 reais por saca. A continuidade da política cambial apreciada está retirando a possibilidade do triticultor em usufruir dos preços favoráveis que vigoram no mercado internacional.