O Sistema Plantio Direto presente na maior feira agrodinâmica do Rio Grande do Sul
Aconteceu de 13 a 17 de março a 5a edição da Casa do Plantio Direto, um projeto intitucional promovido pela Revista Plantio Direto durante a Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque, RS, em parceira com instituições e empresas ligadas ao segmento agrícola.
Em 2006 a Casa do Plantio Direto contou com o apoio da Fundação Agrisus, John Deere, Pioneer Sementes e Roundup e recebeu mais de 2,3 mil pessoas em 5 dias de evento. A Casa do Plantio Direto contempla em sua programação palestras técnicas e mostra de pôsteres com resultados de pesquisa e experiências práticas sobre plantio direto. Neste ano a Casa apresentou na sessão de pôsteres a Mostra Histórica do Plantio Direto, uma retrospectiva dos principais fatos dos 30 anos do plantio direto no Sul do Brasil. A Mostra foi organizada pelo Clube Amigos da Terra de Cruz Alta e pela Revista Plantio Direto, tendo como base arquivos de material impresso e fotográfico de pessoas e empresas ligadas ao Sistema Plantio Direto.
Na programação técnica foram debatidos assuntos como doenças em milho sob plantio direto, qualidade de semeadura, espaçamento e população de plantas de milho, milho transgênico, formas de ajudar as plantas a produzirem mais, controle de pragas, fertilidade do solo, riscos e vantagens dos cereais de inverno na rotação de culturas, mercado de grãos, entre outros. Sob a coordenação da Revista Plantio Direto aconteceu na manhã do dia 14 de março um debate sobre compactação de solos em plantio direto, com a participação de pesquisadores, técnicos e produtores rurais. O debate comprovou a necessidade de definir parâmetros que determinem de forma prática o nível de compactação do solo e seu efeito sobre a produtividade das culturas. Segundo os assistentes técnicos, existe a demanda por uma metodologia que possa ser utilizada diretamente no campo.
Palestras técnicas
O professor da Universidade Federal de Rio Grande do Sul, Luiz Carlos Federizzi, abordou o milho transgênico. Segundo ele, se utilizássemos hoje a mesma tecnologia disponível em 1960, seria necessário cultivar 1 bilhão de hectares a mais, por isso a biotecnologia é a alternativa mais eficiente para aumentar a produtividade das culturas sem o aumento de área.
Atualmente 21 países cultivam transgênicos no mundo. Houve entre 2004 e 2005 um incremento de 11% na área plantada, percentual significativo que corresponde a 9 milhões de hectares. O Brasil cultiva 9,4 milhões de hectares de soja transgênica e a Argentina é o país com maior volume de área de OGMs no mundo, com 17,1 milhões de hectares distribuídos nas culturas de soja, milho e algodão, conforme levantamento realizado em 2005.
Plantio direto é arte
Uma das atrações da Casa do Plantio Direto foi o painel elaborado pelo engenheiro-agrônomo Dirceu Gassen. Nele foram expostas galerias de insetos de solo. Obras de arte que agregam em seus contornos grande valor técnico, pois possibilitam a visualização do que ocorre sob o solo no plantio direto. Mesmo em um ambiente de feira, onde a concorrência de atrações é imensa, muitas pessoas pararam para ver e aprender um pouco mais sobre a fauna presente sob a palha. Produtores e técnicos tiveram acesso a informações sobre a biologia dos corós, grilos, formigas e outros habitantes desse ambiente pouco explorado pelos agricultores nas lavouras.Dirceu Gassen merece reconhecimento pela percepção da necessidade, pela iniciativa, pela didática e pelo esforço em realizar este trabalho. Com certeza foram várias hora dedicadas a produzir esculturas em ambiente natural, formas que possibilitaram relacionar com eficiência a teoria e a prática em um espaço de pouco mais de 3 m2.
Ricardo Trezzi Casa, fitopatologista e professor da Universidade Estadual de Santa Catarina, falou sobre as doenças na cultura do milho sob plantio direto. Segundo ele os fungos que sobrevivem na palha são os causadores das manchas foliares, podridões do colmo e da espiga.
A semente infectada introduz o fungo que sobrevive na palha e a monocultura é a garantia de permanência do inóculo na lavoura. O tempo de decomposição dos restos culturais é um dos fatores que favorecem a sobrevivência e a disseminação do patógeno, por isso a rotação de culturas é tão importante no plantio direto. Casa foi enfático ao afirmar que as doenças do milho não são controladas somente por meio da resistência genética e que o aumento da produtividade e a redução dos custos de produção da cultura podem ser obtidos pelo uso integrado de todas as estratégias de controle disponíveis.
Cláudio Mundstock, da UFRGS, abordou em sua palestra os riscos e vantagens dos cereais de inverno nos sistemas de rotação/sucessão. Segundo ele, nas décadas de 50 e 60 a cultura de inverno era considerada a de maior rentabilidade e o sistema de produção contemplava trigo, cevada e aveia branca, com pousio durante o verão. Nos últimos 20 anos o quadro se inverteu. Os sistemas de produção mais utilizados contemplam trigo, cevada, veia branca com soja no verão ou aveia preta, ervilhaca e o nabo forrageiro com milho no verão. Hoje os esforços dos produtores se concentram nas culturas de verão, que oferecem maior rentabilidade.
Para Mundstock, entre as vantagens da utilização da aveia preta estão o alto rendimento de massa seca, a baixa taxa de decomposição, a rápida cobertura e melhor proteção do solo, maior eficiência no controle de plantas daninhas e ciclo adequado para o cultivo de milho no cedo. Como desvantagens pode-se destacar o uso de semente de má qualidade, menor disponibilidade de N no sistema plantio direto (alta relação C/N), deficiência de N nos estádios iniciais do milho, sendo uma fonte de inóculo para outra cultura de grãos.
A ervilhaca possui elevada quantidade de N na fitomassa, rápida liberação de N (60% do N liberado até 30 dias após manejo) e aumento no rendimento de grãos do milho em sucessão. Porém a cultura tem o desenvolvimento inicial lento, com o máximo de acúmulo de MS final setembro/outubro, significando alto risco para semeadura do milho. Além disso, apresenta rápida decomposição dos resíduos, dificulta semeadura do milho no cedo e elevada incidência de percevejos e lagarta-rosca.
Outra cultura utilizada como cobertura, é o nabo forrageiro. O nabo apresenta rápido crescimento inicial, alta capacidade de ciclagem de nutrientes, ciclo curto (semeadura precoce do milho) e alta produção de massa seca. Como desvantagens dessa cultura Mundstock, relaciona a rápida decomposição de resíduos (baixa relação C/N), pouca proteção para o solo e maior incidência de plantas daninhas, quando mal manejado.
A semeadura como precursora de altas produtividades foi o tema abordado pelo engenheiro-agrônomo Cláudio Serafini, da John Deere. Em sua apresentação Serafini citou alguns princípios que devem ser observados para uma semeadura de qualidade: perfeita formação de leito de semeadura, deposição de sementes no sulco de semeadura de forma uniforme e eqüidistante, contato positivo entre solo e semente, profundidade de semeadura e deposição de adubo na profundidade e quantidade recomendada.
Segundo ele, para que ocorra a germinação das sementes é necessário que essas absorvam a água que existe no solo para que sejam ativadas suas funções fisiológicas, acelerando o processo.
Serafini explicou que a profundidade inadequada de semeadura pode prejudicar formação do stand de plantas, causar a desuniformidade de profundidade de plantio, prejudicar o desenvolvimento da cultura, gerar plantas submissas, com menor desenvolvimento devido ao sombreamento de outras. As plantas também podem ficar maior tempo sobre pressão de inóculo, podendo assim estar suscetíveis ao ataque de patógenos.
O engenheiro-agrônomo Dirceu Gassen, abordou a atividade biológica como base do plantio direto e formas de ajudar as plantas a produzirem mais, nos dias 16 e 17 de março respectivamente.
Segundo Gassen, as principais mudanças aconteceram no processo de adoção do plantio direto foram a forma de pensar de produtores e técnicos, o surgimento de herbicidas e semeadoras eficientes, o uso de coberturas verdes, e também a percepção da importância da matéria orgânica e da atividade biológica no sistema. Para ele o plantio direto é muito mais do que plantar sem lavrar, é preciso conhecer agronomia e biologia, saber como manejar a natureza para ajudar as plantas a produzirem mais.
A Casa do Plantio Direto acontece todos os anos durante a Expodireto Cotrijal, sua programação é aberta ao público e gratuíta. O programa de palestras é elaborado em parceria com as empresas apoiadoras e privilegia temas realcionados ao plantio direto na palha.