Pontas de pulverização com indução de ar
Luiz H. Imai 1 & Walter Boller 21 Eng.-Mec. Diretor da Empresa Pulsar Tecnologia Indústria e Comércio Ltda. Rua Amaro Leite, 160 CEP 04763 São Paulo – SP. E-mail: pulsar@terra.com.br2 Eng.-Agr. Dr. Professor das disciplinas de Máquinas e mecanização agrícola e Tecnologia de aplicação de defensivos agrícolas da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo C.P. 611 CEP 99001-970 Passo Fundo – RS. E-mail: boller@upf.brAs aplicações de tratamentos fitossanitários estão entre as práticas mais utilizadas para a proteção dos cultivos agrícolas contra plantas daninhas, pragas e doenças. Estes tratamentos, via-de-regra, são aplicados, através da pulverização de herbicidas, inseticidas ou fungicidas, diluídos em água. As gotas produzidas no processo de pulverização estão sujeitas à deriva, que consiste no deslocamento das mesmas para fora da área em que se encontra o alvo do tratamento fitossanitário. A deriva é considerada um dos principais problemas decorrentes das aplicações de produtos fitossanitários, podendo resultar em danos a culturas suscetíveis em áreas vizinhas da lavoura a ser tratada e contaminação do ambiente. Também causa prejuízos econômicos pela redução da dose de ingrediente ativo que atinge o agente a ser controlado, diminuindo a eficácia dos tratamentos ou implicando em reaplicações de produtos que tiveram a sua eficácia reduzida.
Uma das formas de controlar a deriva nas pulverizações agrícolas é a utilização de pontas de pulverização que geram baixas percentagens de gotas muito finas (menores que 119µm). No entanto, a utilização de gotas classificadas como grossas e muito grossas, que apresentam resistência à deriva, podem resultar em baixos níveis de cobertura e elevado risco de escorrimento da superfície do alvo biológico (LANDERS, 2005 a).
Para enfrentar estas situações antagônicas, foram desenvolvidas as pontas com indução ou inclusão de ar, também conhecidas como pontas tipo venturi.
Estas pontas reduzem a deriva da pulverização, mesmo quando são operadas com níveis de pressão de 80 a 90 libras/pol² ou 5,5 a 6,0 bar (LANDERS, 2005 b). Existem relatos dando conta de que a utilização de pontas com indução de ar possibilita a obtenção de menos de 5% de gotas menores de 100 µm e menos de 2 % quando a pressão é de 2,0 bar. A Figura 1 mostra uma situação em que as gotas produzidas por pontas convencionais sofrem intensa deriva, enquanto que aquelas oriundas de pontas de indução de ar, de mesma vazão, operadas à mesma pressão, são depositadas no local desejado, mesmo com a velocidade do vento em 10,6 km/h.
As pontas com indução de ar são pontas de jatos planos simples ou duplos, com ângulo de abertura de 110o, ou maiores, onde internamente no seu corpo, existe uma espécie de venturi, que origina uma câmara de pressão negativa. Através de dois orifícios laterais, esta câmara de pressão negativa recebe ar, que se mistura com o líquido de pulverização, originando gotas de tamanho grande, porém ocas, à semelhança de bolhas e virtualmente não se formam gotas finas. As gotas geradas pelas pontas de indução de ar apresentam elevada resistência à deriva, porém ao impactarem sobre as folhas das plantas rompem-se e proporcionam níveis de cobertura do alvo biológico semelhantes às gotas convencionais (sem ar), de menor tamanho, conforme ilustram as Figuras 2 e 3 (LANDERS, 2005 b e LOBO JÚNIOR, 2005).
Trabalhos conduzidos por FAGGION & ANTUNIASSI (2003), avaliando a percentagem de ar incluído nas gotas geradas por diferentes pontas de indução de ar, com vazão de 0,76 L/min, evidenciaram que a percentagem de ar capturado com o líquido aspergido variou entre 13,4 a 23,4 %, sendo crescente com o aumento da pressão de operação. Cabe, portanto, chamar a atenção para a importância de operar este tipo de ponta com níveis de pressão superiores às demais pontas de jato plano, obtendo maior percentagem de inclusão de ar e maior capacidade de penetração das gotas no interior do dossel das culturas.
Buscando ressaltar estes aspectos, realizou-se uma série de aplicações com água, sobre cartões sensíveis, utilizando dois tipos de pontas com indução de ar, operadas com diferentes níveis de pressão e com velocidade de caminhamento ajustada para distribuir 150 L/ha (Figura 4). Observa-se como a cobertura dos cartões responde positivamente ao aumento da pressão de operação, o que deve ser considerado por ocasião da regulagem do pulverizador, quando se utiliza este tipo de pontas.
Para melhor informar aos usuários dos seus produtos, o fabricante das pontas de indução de ar Micron das séries AIR e DB AIR, submeteu os seus produtos a testes em laboratório, sendo obtidos os gráficos das Figuras 5 e 6, onde é mostrado o comportamento do tamanho das gotas (diâmetro mediano volumétrico - DMV, expresso em µm), quando a pressão de pulverização varia de 2 até 7 bar/pol².
Tendo em vista as características das gotas produzidas pelas pontas com indução de ar, os seus fabricantes, via-de-regra, recomendam a sua utilização preferencialmente para aplicações de herbicidas sistêmicos.
Trabalhos conduzidos por MACHRY (2002) mostraram que na aplicação de um herbicida graminicida pós-emergente sistêmico, na cultura da soja, as pontas com indução de ar apresentaram eficácia semelhante às pontas de jato plano de uso estendido e à outras pontas de jato plano de deriva reduzida. No entanto, quando foi aplicado herbicida com ação de contato, as pontas com indução de ar proporcionaram níveis de controle de plantas daninhas inferiores às demais pontas. Este trabalho evidenciou ainda, que na aplicação de herbicida de contato, o aumento da pressão de pulverização de 2,0 bar para 3,0 bar, nas pontas com indução de ar e de 1,0 bar para 2,0 bar nas demais pontas, contribuiu para aumentar significativamente os níveis de controle das plantas daninhas.
Por sua vez, DALA LANA (2003) verificou que na aplicação de um herbicida pós-emergente de contato, na cultura da soja, diferentes pontas de jato plano e jato plano duplo com indução de ar apresentaram níveis de controle de guanxuma (Sida rhombifolia) inferiores à aplicação do mesmo herbicida com outras pontas de deriva reduzida. Já, para o controle de nabiça (Raphanus raphanistrum), não houve diferenças entre as pontas, o que pode estar associado ao tamanho das folhas das plantas daninhas alvos deste estudo.
Nos anos de 2002, 2003 e 2004, foram conduzidos experimentos na Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da UPF, comparando a eficácia de pontas de pulverização, incluindo pontas com indução de ar, nas aplicações de fungicidas, em cereais de inverno (aveia-branca e trigo) e na cultura da soja. Para os cereais de inverno, ora observaram-se níveis de controle da ferrugem da folha semelhantes entre pontas de jato cônico vazio, jato plano duplo, jato plano de uso extendido, jato plano de deriva reduzida e jato plano com indução de ar, ora as pontas com indução de ar foram inferiores. No entanto, quando se avaliou o rendimento e a qualidade dos grãos, não houve diferenças significativas entre as pontas. Para a cultura da soja, somente foi possível avaliar a eficácia das pontas de pulverização no controle do oídio, sendo que, em um trabalho, as pontas com indução de ar propiciaram níveis de controle menores que as pontas de jato plano de uso extendido e de jato plano duplo. Em outro trabalho, a utilização das pontas com indução de ar igualou-se às pontas de jato cônico vazio, sendo superior às pontas de jato plano de uso extendido e de jato plano de deriva reduzida. Outro trabalho ainda, mostrou que pontas de jato plano duplo com indução de ar proporcionaram melhor controle de oídio do que pontas de jato plano simples com indução de ar, as quais, por sua vez foram, semelhantes às pontas de jato plano de uso extendido. Em nenhum dos experimentos as diferenças induzidas pelas diferentes pontas de pulverização no controle do oídio afetou o rendimento de grãos da soja.
Na safra de verão 2004/05, THEISEN (2005) avaliou a cobertura de papéis hidrosensíveis, colocados na porção superior e no nível das folhas do terço inferior das plantas de soja, proporcionada por diferentes pontas de pulverização (jatos cônicos vazios, jatos planos de grande ângulo, jatos planos duplos e jatos planos duplos com indução de ar). Os tratamentos foram aplicados quando a soja, com espaçamento de 0,40 m entre linhas, encontrava-se na fase de enchimento de grãos, com dossel vegetativo cobrindo completamente o solo, apresentando índice de área folhar próximo a 4,0. Os resultados indicaram que as pontas de jato plano duplo proporcionaram maior área folhar coberta na parte superior das plantas e que as pontas de jato plano duplo com indução de ar foram semelhantes às pontas de jatos cônicos vazios. Já, no terço inferior das plantas de soja, a maior cobertura dos cartões foi obtida com as pontas de jato plano duplo com indução de ar, evidenciando a habilidade das gotas produzidas por estas pontas em depositar-se no interior do dossel das plantas de soja. Da mesma forma, as pontas de jato plano duplo com indução de ar proporcionaram maior volume de calda coletado no terço inferior das plantas, quando comparado às demais pontas.
Trabalho conduzido por CUNHA et al. (2005), avaliou a eficiência de três pontas de pulverização (jato cônico vazio da série ATR, jato plano padrão da série API 11002 e jato plano com indução de ar da série ADI 11002, todas fabricadas pela Albuz, Ceramiques Techniques, França), operadas, respectivamente, às pressões de 4 bar, 2 bar e 1 bar, com volume de aplicação ajustado para 125 L/ha, em aplicações do fungicida protetor clorotalonil na cultura do feijoeiro. Os resultados evidenciaram que as pontas de jato cônico vazio, jato plano padrão e jato plano com indução de ar proporcionaram gotas com DMV de 90 µm, 164 µm e 322µm, correspondendo a 54,9%, 15,7 % e 6,9% do volume de gotas menores que 100 µm, respectivamente. A densidade de cobertura do alvo foi de 232, 114 e 62 gotas por cm², respectivamente, para as pontas de jato cônico, jato plano padrão e jato plano com indução de ar. Os resultados biológicos mostraram níveis de controle de 86% a 88% para antracnose e mancha angular e de 52 a 54 % para ferrugem, sendo que não foram observadas diferenças significativas entre as pontas, ao nível de 5% de probabilidade de erro. Da mesma forma, não foram evidenciadas diferenças entre as pontas, sobre o rendimento de grãos, o número de vagens por planta, o número de grãos por vagem e a massa de 100 grãos. O rendimento de grãos nas parcelas tratadas foi, em média 76% superior ao obtido na testemunha sem aplicação de fungicidas, evidenciando o efeito do controle das doenças pelo fungicida, independentemente da ponta de pulverização utilizada.
A título de conclusão, cabe destacar que as pontas com indução de ar, além de contribuir de forma efetiva para o aumento da segurança nas aplicações de defensivos, pela redução da deriva que oportunizam, mesmo com velocidades de vento superiores àquelas ideais para pontas tradicionais. As pontas com indução de ar adaptam-se a uma variada gama de situações, podendo ser utilizadas com sucesso para as pulverizações da maioria dos produtos fitossanitários, desde que sejam corretamente reguladas. Neste sentido, cabe especial destaque à regulagem da pressão de operação, que deve ser seguida criteriosamente para obterem-se os melhores resultados no campo.Referências Bibliográficas
CUNHA, J. P. A. R.; TEIXEIRA, M. M.; VIEIRA, R. F. Avaliação de pontas de pulverização hidráulicas na aplicação de fungicida em feijoeiro. Ciência Rural, Santa Maria, v.35, n.5, p.1069-1074, set-out, 2005.
DALA LANA, J. B. Eficácia da aplicação de herbicidas na presença e na ausência de orvalho. 2003. 122 f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós Graduação em Agronomia, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, 2003.
FAGGION, F.; ANTUNIASSI, U. R. Método das gotas para avaliar o ar induzido por pontas de pulverização com indução de ar. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA AGRÍCOLA, 32., 2003, Goiânia. Anais . . . Goiânia: Sociedade Brasileira de Engenharia Agrícola / Universidade Federal de Goiás, 2003. 1 CD-ROM.
LANDERS, A. Minimizing pesticide drift. Disponível em: http://www.nyases.cornell.edu/ent/faculty/landers/pestapp/vegetable.htm. Acesso em: 11 mai. 2005a.
LANDERS, A. Selecting the correct nozzle to reduce drift. Disponível em: http://www.nyases.cornell.edu/ent/faculty/landers/pestapp/vegetable.htm. Acesso em: 11 mai. 2005b.
LOBO JÚNIOR, M. I. Tecnologia de aplicação de defensivos agrícolas. A Granja, Porto Alegre, n.674, p.34-38, fev. 2005.
MACHRY, M. Desempenho de pontas de pulverização na aplicação de herbicidas pós-emergentes. 2002. 102 f. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós Graduação em Agronomia, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, 2002.
THEISEN, G. Avaliação da eficiência de cobertura de bicos aspersores para a aplicação de fungicida em soja. Cruz Alta: Fundacep, 2005. 7p. (Relatório Técnico).
Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição número 90, novembro/dezembro de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo