Irrigação do Tomateiro para Processamento em Sistema de Plantio Direto


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Publicado em: 01/12/2005

Irrigação do tomateiro para processamento em Sistema de Plantio Direto

Waldir A. Marouelli; Nuno R. Madeira &Henoque R. SilvaPesquisadores da Embrapa Hortaliças - Brasília - DF - Fone: (61) 3385 9068 - E-mail: waldir@cnph.embrapa.br

Introdução

Os sistemas de plantio direto (SPD), baseados no revolvimento mínimo do solo, na rotação de cultura e na manutenção da cobertura do solo com resíduos vegetais, apresentam como vantagens a redução no uso de máquinas, a melhoria da estrutura do solo, o aumento da infiltração e da retenção de água, a redução das perdas de água por evaporação e escoamento superficial, a melhoria do desenvolvimento do sistema radicular das plantas, a melhoria no controle de plantas invasoras, a redução da erosão e do impacto da chuva ou da irrigação por aspersão, e o aumento da eficiência no uso de água pelas plantas.

Com uma área cultivada de 17 mil hectares, o tomateiro para processamento é a hortaliça de maior importância econômica na região do Cerrado goiano e mineiro. A irrigação é realizada predominantemente por aspersão, sendo o pivô central o sistema mais frequente. Diante dos benefícios que oferece, o plantio direto vem sendo adotado nesta região para a produção de tomateiro para processamento. Todavia, devido à escassez de pesquisas específicas, as práticas utilizadas têm sido por vezes as mesmas normalmente recomendadas para o sistema de plantio convencional (SPC). Isto se aplica à irrigação, já que as freqüências de rega e as lâminas de água utilizadas pelos produtores têm sido basicamente as mesmas do SPC, o que tem minimizado os benefícios que o sistema oferece e comprometido sua efetiva adoção.

Desde 2003, estudos vêm sendo conduzidos pela Embrapa Hortaliças com o objetivo de avaliar o efeito de níveis de palhada no solo sobre o uso de água e a produção de tomateiro para processamento cultivado em SPD, comparativamente ao SPC.

Estudos Realizados

Os estudos têm sido conduzidos no campo experimental da Embrapa Hortaliças, Brasília - DF, em área destinada ao manejo de SPD, em solo classificado como latossolo vermelho, textura argilosa.

Durante os anos de 2003 e 2004, avaliou-se o SPD com níveis de palhada no solo de até 9 t ha-1 de matéria seca, utilizando-se sempre o SPC como controle. No SPD, as mudas foram transplantadas em sulcos com cerca de 5 cm de largura e 8 cm de profundidade, onde foram incorporados os fertilizantes. O SPC utilizado consistiu de aração, duas gradagens, sulcamento, incorporação do adubo e transplante. As adubações e demais tratos culturais, exceto pela irrigação, foram similares em ambos os sistemas.

Visando determinar a necessidade real de água nas diferentes condições de cultivo, o controle das irrigações foi realizado de forma independente para cada condição avaliada. Assim, as regas por aspersão convencional, a partir do pegamento das mudas, somente foram realizadas quando a tensão de água no solo atingia o limite crítico recomendado para a cultura (cerca de 100 kPa durante os estádios vegetativo/maturação e 30 kPa durante o estádio de frutificação). A lâmina de água aplicada por irrigação foi aquela necessária para elevar o teor de água no solo até a capacidade de campo. Durante a fase de pegamento de mudas, as irrigações foram realizadas a cada 1-2 dias.

Paralelamente aos ensaios realizados na Embrapa Hortaliças, foram acompanhadas unidades de observação em áreas comerciais irrigadas por pivô central.

Necessidade de Irrigação e Produção do Tomateiro

Comparativamente ao SPC, a redução média no consumo de água em plantios de tomateiro realizados em SPD tem variado entre 5-10%, podendo chegar a 15% em lavouras onde as plantas não ultrapassam 80% de cobertura do terreno e onde a cobertura do solo pela palhada seja bastante espessa. A maior conservação de água no SPD está relacionada, principalmente, com a palhada que permanece na superfície do terreno e reduz a evaporação de água. Adicionalmente, o acúmulo de matéria orgânica e as melhorias físicas na estrutura do solo proporcionam maior capacidade de retenção de água e, conseqüentemente, maior disponibilidade de água às plantas.

Considerando apenas a primeira metade do ciclo da cultura, quando a cobertura do solo pelas plantas é inferior a 75%, a lâmina de irrigação no SPD chega a ser, em média, até 25% menor que no SPC. Por outro lado, como conseqüência do maior crescimento das plantas, condicionado pela melhoria das condições físico-hídricas, químicas e biológicas do solo, a lâmina de água necessária na segunda metade do ciclo no SPD pode ser ligeiramente superior àquela requerida no SPC. Tais diferenças se devem ao fato de que durante o estádio inicial, quando a fração de cobertura do terreno pelas plantas é pequena, a evaporação representa a maior parte da evapotranspiração. Por outro lado, à medida que as plantas se desenvolvem, a transpiração passa a ser predominante.

Para fins de estimativa da evapotranspiração da cultura do tomateiro, os valores de coeficiente de cultura (Kc) normalmente recomendados para o SPC (0,65 para o estádio inicial; 0,55 para o vegetativo; 0,95 para o de frutificação; 0,65 para o de maturação) devem ser reduzidos em até 25% durante a primeira metade do ciclo do tomateiro cultivado em SPD e acrescidos em até 5% durante a segunda metade do ciclo. Assim, os valores de Kc médio para SPD devem ser em torno de: 0,50 para o estádio inicial; 0,45 para o vegetativo; 1,00 para o de frutificação; e 0,65 para o de maturação.

Em razão das melhores condições do solo, o SPD pode proporcionar maior crescimento de plantas que no SPC e, conseqüentemente, aumento no número de frutos por planta. Em SPD, os frutos se desenvolvem sobre a palhada, estando menos sujeitos às doenças (podridões), quando comparados a frutos em contato direto com o solo. Todavia, a taxa de frutos podres pode aumentar em SPD com elevado nível de palhada, especialmente se ocorrerem precipitações no final do ciclo da cultura. Isto provavelmente ocorre em razão da formação de um micro-ambiente mais úmido no interior do dossel, favorecido pela palhada muito espessa e expressivo crescimento vegetativo das plantas.

Os incrementos de produtividade de frutos no SPD devem-se, sobretudo, à redução na taxa de frutos podres e ao maior crescimento das plantas, o que acarreta maior número de frutos comercializáveis por planta. Contudo, cabe citar que quando ocorreram chuvas no estádio de maturação de frutos, observou-se redução de produtividade para níveis elevados de palhada em função da maior taxa de frutos podres.

Quando as irrigações são realizadas de forma adequada, a eficiência do uso de água pelas plantas no SPD chega a ser 15-30% maior que no SPC, proporcionando maior produtividade de frutos com menor quantidade de água aplicada. Isto significa que para produzir uma tonelada de frutos no SPD são necessários cerca de 80% da água requerida no SPC.

Além de não reduzir o uso de água, o manejo de irrigação no SPD, adotando-se as mesmas freqüências de regas e quantidades de água daquelas normalmente recomendadas para SPC, acarreta considerável aumento na incidência de doenças e podridão de frutos. Tal fato faz com que a produtividade seja reduzida em até 25%, comprometendo a rentabilidade da cultura. Ademais, perde-se a oportunidade de usufruir de um dos principais benefícios do SPD: a maior eficiência no uso de água. Assim, a viabilidade do SPD de tomateiro para processamento está condicionada a um manejo criterioso da irrigação durante todo o ciclo da cultura.

Conclusões e Recomendações Preliminares

• O SPD do tomateiro para processamento, quando as irrigações são realizadas de forma adequada, proporciona maior produtividade de frutos com menor quantidade de água aplicada; portanto, com maior eficiência no uso de água.

• A redução na necessidade de irrigação no SPD ocorre, basicamente, durante a primeira metade do ciclo do tomateiro, quando a economia de água pode chegar a 25%. A redução na quantidade de água aplicada durante todo o ciclo do tomateiro está em torno de 10%.

• Para estimativa da evapotranspiração do tomateiro cultivado em SPD, considerar os seguintes valores de Kc médio: 0,50 para o estádio inicial; 0,45 para o vegetativo; 1,00 para o de frutificação; 0,65 para o de maturação.

• Para fins de manejo de irrigação em SPD, com base na avaliação da tensão de água no solo, considerar as mesmas tensões-limites indicadas para SPC, ou seja, 100 kPa durante os estádios vegetativo e de maturação e 30 kPa durante o estádio de frutificação.

• A adoção em SPD de mesmas freqüências e lâminas de irrigação similares àquelas utilizadas em SPC acarreta considerável redução na produtividade de frutos devido à maior incidência de frutos podres.

Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição número 90, novembro/dezembro de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo.