Plantio Direto e agricultura na Comunidade Européia
Dirceu GassenEngenheiro-agrônomo, Gerente Técnico da Cooplantio - Porto Alegre (RS). E-mail: dirceu@agri.com.br
Os europeus valorizam a agricultura e protegem a produção de alimentos como nenhuma outra região no mundo. No meio rural, as vilas e as construções têm histórias de centenas de anos e referências de idade desde Antes de Cristo, com invasões e domínios de diferentes povos, que ensinaram a importância estratégica dos alimentos.
Os agricultores da França vivem fase de apreensão com as mudanças de subsídios determinadas pela Política Agrícola Comum (PAC) da Comunidade Européia. Onde se percebe que as indicações da pesquisa e a assessoria técnica desempenham papel secundário em relação ao poder econômico dos subsídios da PAC. Constata-se que a continuidade da produção de alimentos e a sobrevivência da agricultura é uma preocupação geral. Diante desse cenário os agricultores afirmam que para continuar na lavoura necessitam ampliar a área e melhorar significativamente a eficiência na produção.
Além das características de riqueza da cultura e da política de proteção através de subsídios, existem diferenças acentuadas de clima entre as regiões de produção de grãos do Brasil com as da Comunidade Européia.
As temperaturas baixas nos meses de inverno (Figura 1), sem atividades nas lavouras, permitem o planejamento das culturas para o curto período de verão, quando as plantas se desenvolvem. Diferente do Brasil, eles produzem uma cultura por ano e com elevados rendimentos.
A quantidade de chuvas nas regiões de produção de grãos da França é de aproximadamente 50 mm mensais e a cobertura de solo com palha é um fator de conservação de umidade. Enquanto no Brasil o plantio direto é adotado para evitar a erosão de solos pelo excesso de chuvas (Figura 2).
Plantio direto
O plantio direto é considerado pelos agricultores europeus uma prática adequada para atender as demandas da sustentabilidade da produção de alimentos. Por outro lado, os levantamentos realizados pela ECAF (Federação Européia de Agricultura de Conservação) indicam que a adoção de plantio direto ainda é muito reduzida, ocupando em torno de 1,1 % da área de lavouras anuais. A Grécia, a Finlândia e a Espanha são os países com maior proporção de área sob plantio direto (Figura 3), enquanto a França tem menos de 1 % da área de lavouras sob plantio direto.
As razões apresentadas pela Ecaf para a reduzida adoção de plantio direto destacam aspectos relacionados com atitude dos agricultores, elevados subsídios, clima favorável às plantas, ausência de pressão econômica para mudanças, falta de máquinas adaptadas para plantio e a ocorrência de pragas de difícil controle como lesmas e ratos.
Nos contatos com lideranças da agricultura conservacionista percebe-se a falta de informação e de motivação de pesquisadores e de professores das universidades. Também se nota o posicionamento das indústrias de tratores e de implementos de preparação de solo, que mostram restrições ao PD por sentirem seu mercado de máquinas, arados e peças ameaçado.
A cultura tradicional de arar o solo e de ocupar o tempo preparando a terra são fatores que limitam a mudança de mentalidade do agricultor europeu. Alguns chegam a comentar que ”não agüentariam estar na atividade sem lavrar e gradear o solo”. Essa necessidade de ocupar o tempo arando conflita com o sentimento de ociosidade e também com a necessidade de dominar a natureza como está sendo feito a centenas de anos.
Na França, depois da colheita de verão o agricultor tradicional passa a grade duas vezes e, antes do inverno, tomba a camada arável do solo com arado de aiveca. Depois passa um rolo compactador para nivelar a superfície do solo.
Lesmas e ratos
O aumento de populações de lesmas e de ratos, combinado com a falta de alternativas práticas de controle limitam a ampliação da área cultivada sob plantio direto.
As lesmas são nativas e se adaptam ao ambiente de palha, protegidas da radiação solar, causando danos severos em crucíferas (nabo, canola ou mostarda), milho e outras culturas.
A presença de lesmas e a dificuldade no controle da praga é o argumento mais forte de resistência à adoção do plantio direto na França. Para amenizar o problema, os agricultores usam iscas granuladas contendo lesmicidas, com controle satisfatório, porém considerado oneroso. Constata-se que há falta de informação básica sobre a dinâmica populacional das diferentes espécies de lesmas e também sobre estratégias de manejo desse grupo de pragas.
Os ratos também desenvolvem populações que atingem o nível de praga em lavouras sob plantio direto. Eles cavam galerias no solo, onde estabelecem ninhos, consumindo sementes e plântulas, causando danos caracterizados por manchas nas lavouras.
Entre as alternativas de manejo de ratos se destacam a colheita com o corte das plantas junto à superfície do solo e a roçada de restos culturais para baixar o volume de palha. Essas práticas são adotadas para facilitar a ação de predadores (gaviões e mamíferos). Os agricultores reclamam que a caça autorizada de javalis e de mamíferos predadores dificulta a supressão natural de ratos-praga.
O controle com iscas contendo rodenticidas pode causar a morte de outros mamíferos ou de predadores que consomem as presas envenenadas.
Subsídios
A agricultura da Comunidade Européia é regida pela política de subsídios, cujo processo apresenta regras e normas, aparentemente, complexas, mas com resultados práticos e simples. Em maio, início da primavera, o agricultor preenche formulários e elabora projetos de atividades com base nos rendimentos e áreas cultivadas em anos anteriores e encaminha para entidades equivalentes ao Ministério da Agricultura. Em outubro, depois da colheita, o dinheiro é depositado na conta bancária do agricultor. Além do subsídio direto, o agricultor recebe o valor da venda dos grãos produzidos, de serviços prestados e de outras fontes de rendas ou benefícios.
Na safra de 2005 os subsídios para oleaginosas como o girassol, a soja e a canola foram de aproximadamente E$ 600,00/ha. Para cereais (trigo, milho, cevada...) os subsídios foram de E$ 450,00/ha. Esses valores são depositados na conta bancária, além de outros benefícios de empréstimos, descontos em impostos de renda etc.
Trazendo a lógica de subsídios da PAC pagos ao agricultor na Comunidade Européia, para o Brasil, com base no câmbio e nos preços grãos em agosto de 2005, teríamos o seguinte cenário: o produtor brasileiro de soja receberia R$ 1.800,00/ha (60 sacos de soja) e os produtores de trigo e de milho receberiam em torno de R$ 1.300,00/ha (mais de 70 sacos de trigo ou milho), depositados em suas contas bancárias, além de outros benefícios. Além do subsídio, o agricultor recebe os valores dos produtos comercializados como qualquer atividade normal.
A partir de setembro de 2005 estão sendo introduzidas mudanças mantendo subsídios para 70 % da área cultivada no período entre 2001 e 2003, mas com outros benefícios que compensam a redução estabelecida. Os agricultores, aparentemente, têm certa dificuldade para explicar os mecanismos de compensação financeira pela complexidade de normas para a obtenção dos benefícios da PAC. Todos argumentam que as mudanças são grande ameaça para a sobrevivência dos agricultores da Comunidade Européia.
Tamanho das propriedades
Na Comunidade Européia existem diferenças culturais acentuadas e estrutura fundiária variada entre os países que se destacam na produção de alimentos. Mas, de forma geral, pode se agrupar os produtores de grãos em pequenas propriedades de até 50 ha e unidades maiores em torno de 200 ha, considerados grandes produtores.
No leste da França, na localidade de La Touche, Montelimar, o agricultor Jean Pierre Russier planta 108 ha, em sociedade com seu primo. A área é dividida em 44 lotes que variam entre 1 e 7 ha. Isso exige tempo para deslocamentos e execução das atividades.
Na região central da França, na localidade de Amblainville, próximo a Paris, o agricultor Alfred Gässler é considerado um grande produtor de grãos, plantando em torno de 400 ha em 20 lotes com área entre 1,2 e 40 ha.
A divisão de terras em pequenas parcelas exige do agricultor máquinas e equipamentos adaptados para os freqüentes deslocamentos nas estradas. A legislação francesa limita a largura máxima de 3 m para deslocamento em estradas e as indústrias brasileiras de semeadoras, como a Semeato, desenvolvem semeadoras com tamanho e características que atendem as demandas dos agricultores e da legislação local.
O custo da mão-de-obra é fator limitante, pela falta de qualificação em agricultura e pelo elevado salário dos trabalhadores rurais. Para 35 horas semanais o desembolso para manter um empregado, incluindo impostos e custos sociais, é de aproximadamente E$ 2.800,00 por mês. Isso equivale a pouco mais de R$ 8.000,00 mensais.
Os agricultores franceses expressam certa preocupação com o futuro da agricultura. Eles deixaram de ter o controle das estratégias de subsídios em função do direcionamento comum determinado pelas políticas da Comunidade Européia. Também entendem que há necessidade de adotar práticas de conservação dos recursos naturais e de aceitar parte das exigências do mercado.
Nos últimos anos o Brasil e a Argentina tornaram-se referência de conhecimento em plantio direto e de tecnologia através da indústria de semeadoras. Por isso, com orgulho pode-se afirmar que a criatividade e a garra do agricultor brasileiro resultaram na liderança de exportação de proteína vegetal (soja) e animal (bovinos, aves e suínos) e levaram à evolução da indústria de semeadoras de plantio direto, desejados por agricultores de países desenvolvidos da Comunidade Européia.
Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, número 90, novembro/dezembro de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo