Manejo das Doenças Foliares da Soja no Paraná
Causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, aferrugem-asiática é, entre as doenças da culturada soja, a que mais tem causado preocupação devidosua rápida expansão, virulência e ocorrência de perdas.O controle da doença corresponde a uma fatiasignificativa dos custos de produção da cultura,mantendo pesquisadores, técnicos e produtoresem constante estado de alerta visando minimizaros prejuízos.O engenheiro-agrônomo Olavo Corrêa da Silva écoordenador de pesquisa na área de defesa vegetalda Fundação ABC, em Castro (PR) há 10 anos enos concedeu breve entrevista onde fala do manejodas doenças foliares da soja na região dos CamposGerais do Paraná e também da situação daferrugem asiática na área de abrangência daFundação ABC.
Revista Plantio Direto - Como pode ser descrita a evolução dos últimos cinco anos na ocorrência de doenças em soja?
Olavo Corrêa da Silva - A ocorrência e a severidade das doenças da soja nos Campos Gerais do Paraná, tanto foliares, como vasculares e radiculares, variaram de ano para ano nestes últimos 5 anos. Podemos citar como exemplo, safra 03/04 a ferrugem asiática foi severa e representou grande potencial de dano, sendo que na última safra a doença chave foi o oídio e determinou o maior potencial de dano. Sendo assim, as condições climáticas variam de safra para safra e determinam a ocorrência e severidade das diferentes doenças. O outro fator a ser considerado é o potencial de dano que cada doença representa, em anos de ocorrência somente de doenças de final de ciclo (DFC) o dano normalmente fica próximo de 7%, diferentemente das safras com ocorrência severa de ferrugem, onde o dano médio fica em 45%.
RPD – Quais foram as principais mudanças ocorridas a partir da ferrugem-asiática? Outras doenças deixaram de ser importantes?
Olavo - A partir da ocorrência da Ferrugem Asiática a nossa pesquisa comprometeu grande parte de seu tempo e dedicação para buscar medidas de controle, ao mesmo tempo, a assistência técnica e produtores aceitaram essa doença como um dos principais fatores potenciais de redução de rendimento da soja. Um sistema de monitoramento foi criado em todo grupo ABC para que o controle da ferrugem fosse efetivo e ao mesmo tempo sustentável. Os custos de produção também tornaram-se diferentes, houve um aumento de aproximadamente 50% com uso de fungicidas mais específicos, sendo que nossos produtores já utilizaram fungicidas foliares a 4 anos. Em um primeiro momento pensamos que as outras doenças seriam menos importantes, contudo doenças como Mancha Alvo, Oídio e DFC mostraram que também são importantes e decisivas no manejo das doenças foliares da soja.
RPD - A evolução dos fungicidas acompanhou a demanda gerada pela doença, em termos de grupos e produtos específicos eficientes no controle?
Olavo - O grande número de opções de fungicidas para o controle da Ferrugem asiática foi realmente uma das vantagens para combater esta enfermidade, desde o início do seu aparecimento. Nos primeiros anos de seu aparecimento, a pesquisa desenvolveu muito trabalho para definir o potencial de cada fungicida e como utilizá-los no manejo deste fungo. Contudo, nos dias atuais, existe informação muito clara e correta sobre a eficiência e utilização dos fungicidas. O nível de eficiência de alguns fungicidas atuais é muito interessante, o que nos preocupa é o número reduzido de modos de ação, no qual pode-se correr o risco do desenvolvimento de resistência deste fungo aos atuais produtos. Fungicidas protetores ou com modo de ação diferenciado devem fazer parte de futuros programas de controle, a fim de assegurar os mesmos níveis de eficiência obtidos atualmente.
RPD - Na sua opinião, de forma geral, a ocorrência e a severidade da ferrugem-asiática pode ser previsível?
Olavo - Sim, acreditamos na previsibilidade da Ferrugem Asiática, pois o desenvolvimento de uma epidemia depende basicamente da presença do inóculo primário e condições climáticas favoráveis, pois toda a nossa soja é suscetível. A pesquisa relacionada a ocorrência da Ferrugem Asiática baseada nestes dois fatores, tem avançado rapidamente. Hoje já é possível utilizar instrumentos a nível de campo para determinarmos risco de ocorrência da ferrugem, baseados em climática e inóculo, o que representa uma ferramenta na tomada de decisão. Além do que, já podemos definir regiões de maior ou menor risco de epidemias com base no histórico de ocorrência e clima.
RPD - Qual é a relação entre o conhecimento disponível e as possíveis perdas por doenças nas lavouras?
Olavo - Desde o início do aparecimento da Ferrugem Asiática até hoje, muitos trabalhos foram desenvolvidos para o conhecimento desta enfermidade e ferramentas para seu manejo. Atualmente existe uma quantidade suficiente de informações para que a assistência técnica e os produtores possam realizar um controle racional e sustentável desta doença. Aplicando os conhecimentos adquiridos, fica remota a possibilidade de produtores sujeitos a perdas provenientes da Ferrugem.
RPD - É possível quantificar o retorno econômico e os possíveis prejuízos com o uso ou não do tratamento para ferrugem da soja?
Olavo - O controle da Ferrugem Asiática deve ter como base o potencial de dano que esta doença representa para cada regiões do Brasil, sendo que o dano está diretamente ligado a sua ocorrência e agressividade. A ocorrência desta doença nos últimos anos, caracterizou grosseiramente duas regiões distintas no Brasil, região Sul onde a ocorrência varia do nulo ao severo e Norte onde a freqüência e a agressividade são elevadas. No Sul do Brasil o número de aplicações com retorno econômico, pode variar muito. Uma aplicação tem sido suficiente para regiões onde existe a possibilidade a ocorrência de veranicos e seca. Duas a três aplicações tem sido realizadas em anos chuvosos ou regiões de altitude elevada, com longo período de orvalho. Sendo assim, programas de monitoramente baseados no inóculo e condições climáticas são fundamentais para se evitar prejuízos, tanto pelo excesso, como pela falta de controle, principalmente no Sul do Paraná.
RPD - Quais são os riscos e vantagens do tratamento preventivo e curativo?
Olavo - O controle preventivo, baseado no monitoramente do inóculo primário e condições climáticas, representam a opção mais segura e efetiva para o produtor nos dias de hoje. O monitoramente da doença garante o controle racional que pode variar de safra para safra em nossas condições. O controle preventivo com base somente no estádio fenológico da cultura pode gerar prejuízos, principalmente pelo excesso.
O controle curativo, com lesões visíveis, que na verdade deve ser considerado como erradicativo, apresenta uma série de riscos:
a) Somente poucos fungicidas possuem uma ação erradicativa, necessária para esta situação;
b) O residual dos fungicidas é reduzido de maneira significativa;
c) A eficiência dos fungicidas também é reduzida significativamente;
d) Existe um curto espaço de tempo para aplicação, sendo que, em caso de atraso, existe a possibilidade de perda quase que total da eficiência dos fungicidas e prejuízos elevados.
RPD - Na última safra qual foi o custo/ha com uso e aplicação de fungicidas e quais foram às taxas de retorno econômico com o tratamento?
Olavo - Na safra 04/05, nossos produtores realizaram em média 2 aplicações de fungicidas, com custo de 209 kg de soja/ha, com baixa pressão de ferrugem e DFC e oídio severo. Estas 2 aplicações representaram 7% do rendimento total. Para esta safra, com base nas mesmas duas aplicações, tivemos um aumento de custo de 6%, 222 kg soja/ha, ou 7,4% sobre um rendimento esperado. Sendo assim o mesmo quadro de racionalidade deve prevalecer para esta safra, onde a possibilidade de redução no número de aplicações deve ser observada, com base técnica.
RPD - Na sua opinião qual será o cenário de ocorrência e severidade da ferrugem asiática na próxima safra de soja no Estado do Paraná?
Olavo - A severidade da Ferrugem Asiática no Paraná para próxima safra será definida principalmente pelas condições climáticas, em especial, nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. A freqüência de períodos úmidos irá determinar a maior ou menor intensidade da doença. Quanto ao inóculo primário para este inicio de safra, esperamos uma quantidade suficiente para iniciar as epidemias em todo o Estado, pois tivemos um inverno brando, o que possibilitou a sobrevivência de muita soja tigüera em lavouras e estradas.
RPD - O que pode ser sugerido aos produtores e assistentes técnicos visando obtenção de melhores resultados no controle da doença na próxima safra?
Olavo - O controle da Ferrugem Asiática através de sistemas de monitoramento, baseados no inóculo e condições climáticas, garante tanto ao produtor quanto a assistência técnica um controle racional e sustentável da doença. Além do que, as informações geradas pelos sistemas de monitoramento já estão disponíveis para qualquer profissional da agricultura. É importante ressaltar a necessidade de que cada produtor tenha ao seu lado um consultor técnico, como suporte na tomada de decisão de controle, e o consultor esteja qualificado e ligado a pesquisa. O triângulo produtor, assistência técnica e pesquisa, mais do que nunca, é a chave para o manejo racional e sustentável dessa doença.