Ferrugem “Asiática” da soja: um desafio permanente
José Tadashi Yorinori11Embrapa Soja, Caixa Postal 231, 86001 970, Londrina, PR. - Fone: (43)3371 6000E-mail: tadashi@cnpso.embrapa.br; yorinori@sercomtel.com.br
Introdução
A cultura da soja [Glycine max (L.) Merrill] é atacada por duas espécies do fungo pertencente ao gênero Phakopsora, as quais, causam a doença denominada ferrugem: P. meibomiae (Arth.) Arth.(fase anamorfica: Malupa vignae) e P. pachyrhizi Sydow & P. Sydow (fase anamorfica: Malupa sojae). A P. meibomiae, causadora da ferrugem ”americana” (denominação dada para diferenciar da ”asiática”) (Yorinori & Morel Paiva, 2002) ocorre naturalmente no Continente Americano. A ferrugem ”americana” (P. meibomiae), raramente causa perdas, ocorre em condições de temperaturas amenas (média abaixo de 250 C) e umidade relativa elevada, estando localizada desde as regiões altas (com altitudes superiores a 800m) dos Cerrados e na Região Sul. O único registro de perdas causadas pela ferrugem ”americana” foi feita na safra 1987/88 em São Gotardo, MG (Yorinori, 1989). As lesões produzidas por P. meibomiae são caracteristicamente do tipo castanho-avermelhada (”reddish-brown” – RB)(Bromfield, 1984), esporulam menos o que, entre os tipos de lesões causadas por P. pachyrhizi, representam reação de tolerância ou resistência (Figuras 1A e 1B). A doença ocorre desde Porto Rico, no Caribe (Vakili & Bromfield, 1976), até o sul do Estado do Paraná (Ponta Grossa) (Deslandes, 1979; Yorinori, 1989; Yorinori & Deslandes, 1984). Atualmente, com a ocorrência das duas espécies a distinção entre elas só é possível através de técnicas moleculares (análise do DNA) e através da morfologia dos uredosporos e das télias (Ono et al., 1992).
A P. pachyrhizi, nativa do Oriente (China) e causadora da temida ferrugem ”asiática” (denominação dada para diferenciar da ferrugem ”americana”) (Yorinori & Morel Paiva, 2002), presente na maioria dos países que cultiva a soja na Ásia e Austrália, foi detectada pela primeira vez fora desses países no Hawaii, em 5 de maio de 1994 (Killgore, 1996). A primeira constatação no Continente Africano foi feita em Uganda, em 1996, em uma área experimental de soja, causando severos danos (Kawuki et al, 2003). Em 1998 foi detectada causando severos danos no Zimbabwe e Zâmbia (Levy, 2004) e, em 2001, na África do Sul (Caldwell & McLaren, 2004; Pretorius et. al., 2001). No Continente Americano, a primeira constatação da ferrugem ”asiática” foi feita no Paraguai, em 5 de março de 2001 (Morel Paiva, 2001; Morel Paiva et al., 2004) e no Oeste e Norte do Paraná (Londrina) (Figuras 2A e 2B), em 25-28 de maio de 2001 (Yorinori & Morel Paiva, 2002), em soja guaxa e lavouras ”safrinha”.
Por ser causada por um fungo disseminado pelo vento, a ferrugem ”asiática” não encontra barreiras que impeça sua dispersão. Tudo que necessita para seu estabelecimento são plantas suscetíveis, ambiente favorável e esporos (uredosporos) que seguem a direção do vento.
A importância da ferrugem ”asiática” no Brasil pode ser avaliada pela sua rápida expansão, virulência e pelo montante de perdas que tem causado (Yorinori et al., 2003; Yorinori, 2004; Costamilan et al., 2002; Yorinori et al., 2005), atingindo níveis de redução de rendimento que, frequentemente, inviabilizam a colheita. Essa situação é mais comum nos Cerrados onde o clima é geralmente mais favorável à doença e a grande extensão das propriedades dificulta o seu controle. Em 2001 a área afetada no Brasil e no Paraguai, somadas as de inverno e de verão, foi estimada em cerca de 10.000 ha. Na safra 2001/02, a doença havia se expandido para quase toda região produtora de soja do Paraguai e em cerca de 60% do Brasil. Até 2004, foi registrada em praticamente todos os países e regiões produtoras de soja do Hemisfério Sul (Navarro et al., 2004; Rossi, 2003; Yorinori, 2004).
No Brasil, em 2004/05, as regiões mais atingidas foram o Centro-Oeste e Norte, enquanto que o restante do País sofreu grandes perdas devido à seca. O total de perdas de grãos atribuído à ferrugem, no período de 2001/02 a 2004/05 atingiu mais de 12,4 milhões de toneladas ou o equivalente a US$5,14 bilhões (Tabela 1). Nesse cálculo não estão incluídos os gastos com controle da ferrugem durante a entressafra. O que não se pode calcular é o efeito dominó da conseqüência dessas perdas ao País e, principalmente, nas cidades do Centro-Oeste e Norte cujas economias dependem quase que exclusivamente da renda da soja. Atualmente (novembro de 2005), o único Estado brasileiro onde a doença não foi registrada é Roraima, no Hemisfério Norte, com cerca de 13.000ha de soja.
Nos Estados Unidos os primeiros focos de ferrugem foram detectados em 6 de novembro de 2004 pelo Prof. Dr. Raymond Schneider, em parcelas experimentais da Universidade Estadual de Louisiana (Louisiana State University), Baton Rouge, e áreas comerciais vizinhas (R. Schneider, comunicação pessoal, 2005). Posteriormente a doença foi identificada nos Estados da Florida, Mississippi, Georgia, Tennessee, Carolina do Sul, Arkansas e Alabama (www.sbrusa.net/). Em 2005, no período de 24 de fevereiro a 16 de novembro, foram totalizados 129 focos envolvendo os seguintes Estados: Alabama (30 locais), Carolina do Norte (15), Carolina do Sul (23), Florida (23), Georgia (34), Louisiana (1), Mississippi (2) e Texas (1) (www.sbrusa..net). Provavelmente, em função das tormentas (furacões) no Sul, altas temperaturas e pouca chuva nas principais áreas de produção de soja do País, a ferrugem teve expansão limitada na safra 2005, não atingindo níveis epidêmicos. A irregularidade da severidade da doença ao longo dos anos, devida a variações climáticas, tem sido uma característica da ferrugem ”asiática” no mundo, podendo ainda vir a ser um problema sério nos Estados Unidos, em anos normais.
”Ponte verde” para ferrugem
O cultivo da soja, irrigada ou não, e as plantas guaxas que permanecem no campo durante a entressafra favorecem a sobrevivência do fungo da ferrugem e servem de elo (”ponte verde”) entre uma safra e a seguinte. Essa situação tem antecipado o surgimento da doença a cada safra. O problema é mais sério em Mato Grosso, notadamente na região de Primavera do Leste onde, além do clima favorável à ferrugem durante o verão, há grande concentração de áreas irrigadas por pivô central que permite o cultivo da soja durante todo o ano. Em 2003, a grande redução da produção de semente causada pelo excesso de chuvas e a expectativa de alto preço em Mato Grosso, estimulou a multiplicação de semente na entressafra sob irrigação. Em 2004, o grande motivador do plantio na entressafra foi a alta recorde do preço de grãos. Tanto em 2003 como em 2004, a preocupação com o controle da ferrugem na entressafra não foi levada com a devida seriedade, permitindo que o fungo sobrevivesse e multiplicasse nos plantios mais tardios. Isso fez com que a safra 2004/05 sofresse pesadas perdas e custos exagerados para o controle da ferrugem.
Com o cultivo da soja transgênica RR aumenta a possibilidade de sobrevivência do fungo da ferrugem nas plantas guaxas RR nas áreas dessecadas com o herbicida gliphosate para plantio da safra seguinte. Portanto, é importante que a dessecação das plantas daninhas seja feita com herbicidas que também eliminem a soja guaxa RR.
Situação em 2005
Na entressafra de 2005, os fatores que motivaram o plantio da soja foram a multiplicação de sementes das novas cultivares convencionais e das cultivares transgênicas, finalmente liberadas para cultivo comercial no País. Com o baixo preço do grão, principalmente pela valorização do real frente ao dólar, o que resultou em elevado endividamento do setor produtivo da soja, diversos produtores de grãos e semente que dispunham de sistema de irrigação decidiram fazer uma segunda safra, na esperança de obter um retorno econômico para as perdas da safra 2004/05. Novamente a maior concentração de áreas irrigadas ocorreu na região de Primavera do Leste, repetindo a situação da ”ponte verde” para a ferrugem desde 2003. Em 2005, a semeadura da soja continuou desde a pós-colheita da soja normal (2004/05) até final de agosto. Nessa situação, até o início de novembro, quando já havia soja em semeadura antecipada da safra 2005/06, sob irrigação, a última soja da ”ponte verde” ainda permanecia no campo com folhas verdes e com presença da doença. Apesar do baixo nível de infecção na ”ponte verde” e após três a sete aplicações de fungicidas durante o ciclo da cultura, em diferentes propriedades, era visível a presença de lesões com esporos viáveis. Os primeiros plantios da nova safra (18 a 24 de setembro) começaram a apresentar sintomas iniciais de ferrugem aos 25-35 dias após a emergência (V3/V4) e receberam a primeira aplicação de fungicida. No final de outubro, lavouras mais adiantadas que estavam no estádio R2/R3, já haviam sido pulverizadas pela segunda vez. Em nenhuma das áreas pulverizadas o controle da ferrugem foi total. Essas lavouras, provavelmente, persistindo um clima favorável, terão que receber quatro a cinco aplicações, tornando a produção economicamente inviável. A interrupção do controle nos últimos 35-40 dias que antecedem o início da maturação poderá colocar em situação de alto risco os plantios feitos posteriormente. As plantas não protegidas até o final do ciclo poderão perder o efeito residual do fungicida e serem infectadas, multiplicando o fungo para lavouras semeadas mais tarde.
O cultivo contínuo da soja na entressafra e a presença permanente de plantas guaxas, somada à antecipação do plantio de verão, praticamente, não deixa intervalo sem ferrugem no campo. Com isso, a cada safra, observa-se uma antecipação no início da ocorrência da doença. Portanto, são de extrema importância a diminuição do período de cultivo da entressafra, a redução da perda na colheita e a eliminação das plantas guaxas. Nas regiões onde a soja é cultivada na entressafra, com ou sem irrigação, é importante que seja mantido um intervalo entre a última colheita da soja da entressafra e o primeiro plantio de verão. Um intervalo de, pelo menos, 60 dias (de meados de julho a meados de setembro) deverá ser suficiente. Nesse período, a ausência de chuvas e as altas temperaturas devem manter baixa a umidade relativa do ar impedindo o desenvolvimento da ferrugem em plantas guaxas. Porém, sob irrigação, embora a pressão da ferrugem seja menor, qualquer sobrevivência do fungo irá favorecer a antecipação da doença na safra de verão, dificultando o seu controle.
Plantas hospedeiras da ferrugem ”asiática”
Apesar da gama de plantas hospedeiras mencionadas na literatura, o cultivo ininterrupto da soja em áreas irrigadas ou não e a constante presença de plantas guaxas, fazem com que a própria soja seja a principal fonte de inóculo a cada safra. No Paraguai e no Paraná (Palmeira), a presença da leguminosa kudzu (Pueraria lobata) (Morel Paiva et al., 2004; Yorinori, 2004) altamente suscetível à ferrugem, aumenta o potencial de risco e torna o controle da ferrugem mais difícil.
Sintoma
Os primeiros sintomas da ferrugem são caracterizados por minúsculos pontos (no máximo 1mm de diâmetro) mais escuros do que o tecido sadio da folha, de uma coloração esverdeada a cinza-esverdeada. Para melhor visualização, deve-se tomar uma folha suspeita e observá-la, pela página inferior ou superior, contra um fundo claro (o céu, por exemplo). Uma vez localizado o ponto suspeito, deve-se confirmar, observando o ponto escuro pelo verso da folha, verificando se há formação da(s) estrutura(s) de frutificação do fungo (urédia), com uma lupa de 10x a 30x de aumento (Figuras 3A e 3B) ou sob um microscópio estereoscópico. No local correspondente ao ponto escuro observa-se, inicialmente, uma minúscula protuberância, semelhante a uma ferida (bolha) por escaldadura, sendo esta o início da formação da estrutura de frutificação (urédia) do fungo.
Para facilitar a visualização das urédias (sob a lupa ou o microscópio) fazer com que a luz incida com a máxima inclinação sobre a superfície da face inferior da folha, de modo a formar sombra de um lado da(s) urédia (s). Esse procedimento permite a observação das urédias, a campo, mesmo sem o auxílio de uma lupa de bolso (a olho nu). Progressivamente, as urédias, também chamadas de ”pústulas”, adquirem cor castanho-clara a castanho-escura, abrem-se em um minúsculo poro, expelindo os uredosporos. Os uredosporos, inicialmente de coloração hialina (cristalina), tornam-se bege e acumulam-se ao redor dos poros ou são carregados pelo vento. O número de urédias (ou pústulas) por ponto, pode variar de uma a seis. À medida que prossegue a esporulação, o tecido da folha ao redor das primeiras urédias, adquire coloração castanho-clara (lesão do tipo ”TAN”) a castanho-avermelhada (lesão do tipo RB: ”reddish-brown”) (Bromfield, 1984) formando as lesões que são facilmente visíveis em ambas as faces da folha. As urédias que deixaram de esporular apresentam as pústulas, nitidamente, com os poros abertos, o que permite distinguir da pústula bacteriana (Xanthomonas axonopodis pv. glycines), comum nas cultivares transgênicas não oficiais.
A ferrugem pode também ser facilmente confundida com lesões iniciais de mancha parda (Septoria glycines) que forma um halo amarelo ao redor da lesão necrótica, angular e castanho-avermelhada.Outras doenças com as quais a ferrugem tem sido confundida são os estádios iniciais da mancha alvo (Corynespora cassiicola), e o crestamento bacteriano (Pseudo- monas savastanoi pv. glycinea). Para distinguir estas doenças da ferrugem, basta observar a ausência das urédias nas lesões necróticas na face inferior das folhas.
Condições predisponentes
P. pachyrhizi, está adaptado a temperaturas que variam de 150C a mais de 300C e pode causar perdas em soja em todas as regiões onde ocorra molhamento de folha acima de seis horas (Bonde et al., 1997; Bromfield, 1984; Marchetti et al., 1976; Melching et al., 1979). Os uredosporos germinam em uma hora à temperatura ambiente de 250 - 270 C (Yorinori, 2004), porém, a penetração no tecido da folha pode ocorrer à temperatura variando de 80C a 280C (Bonde et al., 1997; Marchetti et al., 1976; Melching et al., 1979; Sinclair & Hartman, 1999). A doença ocorre com maior severidade sob condições de prolongado período de molhamento foliar e temperaturas médias abaixo de 280C. Períodos prolongados com temperaturas acima de 280C reduzem o desenvolvimento da ferrugem. Sob condição favorável, as primeiras lesões podem ser visíveis 4-5 dias após a inoculação e as primeiras frutificações (urédias) e esporulações aparecem aos 6-7 dias após a inoculação (Yorinori, 2004).
Estratégias de controle
O fato de ser uma doença de ocorrência relativamente recente e as irregularidades das condições climáticas, de um ano para outro, das distintas zonas de cultivo da soja no Brasil, torna difícil, senão impossível, fazer uma recomendação genérica de controle que satisfaça a todas as regiões. Não é possível elaborar uma ”receita de bolo” que facilite o controle da ferrugem. Portanto, é fundamental acompanhar as condições climáticas e as informações sobre as primeiras ocorrências da doença em cada região de cultivo. Embora as plantas sejam infectadas desde a fase cotiledonar, a evolução da doença é mais lenta em cultivares mais tardias do que em precoces. Todavia, a severidade em um mesmo estádio, em plantas de diferentes ciclos cultivadas no mesmo ambiente, poderá ser a mesma (Tchanz et al., 1985). Ao nível de campo, as observações mostraram que a doença evolui mais rapidamente e atinge o pico de severidade a partir do estádio inicial de enchimento das vagens, podendo resultar em perda total do rendimento.
A falta de informação adequada sobre as variações dos fatores que favorecem a ocorrência da ferrugem, a cada safra e ao nível regional, a falta de experiência sobre a ferrugem de muitos produtores e de profissionais da assistência técnica, as grandes extensões de cultivos contínuos que, frequentemente, inviabilizam a adoção da medida correta no momento adequado, fazem prever que muitas perdas ainda ocorrerão nos próximos anos. O manejo integrado da cultura, a adequação da área à capacidade de pulverização e o controle das demais doenças devem ser sempre considerados como complementares e indispensáveis para o controle econômico da ferrugem.
Desde a primeira detecção da ferrugem ”asiática” no Paraguai e no Brasil, em 2001, a Embrapa Soja, juntamente com todas as demais instituições de pesquisa, órgãos da defesa sanitária estadual e federal, assistência técnica pública e privada, empresas de insumos, cooperativas e produtores, tem-se empenhado no acompanhamento da evolução da doença, pesquisando e difundindo as medidas de controle. Como conseqüência dessa atividade cooperativa a nível nacional, foi estabelecida, em 2004, o ”Consórcio Anti-Ferrugem”, com o objetivo de gerar e difundir informações que melhorem a eficiência do controle da ferrugem. As informações estão disponíveis através da internet: www.cnpso. embrapa.br/alerta.
Apesar de todo esforço desenvolvido, a ferrugem tem causado perdas significativas de rendimento nas regiões onde o controle tem sido dificultado pelas grandes extensões das lavouras e chuvas que impedem a aplicação de fungicida no momento mais adequado.
Manejo da cultura
Principalmente nas regiões mais favoráveis à ferrugem (precipitações elevadas ou formação abundante de orvalho) e em propriedades extensas, as seguintes estratégias de controle ou manejo devem ser adotadas com o objetivo de reduzir o risco de perdas pela doença:
1. aumentar a área de rotação com milho, arroz ou algodão (nos Cerrados) a fim de adequar a capacidade de tratamento químico com a área de plantio;
2. semear cultivares mais precoces, concentrando as semeaduras no início da época indicada para cada região: semeaduras antecipadas normalmente desenvolvem sob condições menos favoráveis à ferrugem;
3. evitar a semeadura em várias épocas, especialmente na entressafra, e cultivares tardias, pois a soja semeada mais tardiamente (ou de ciclo longo) sofrerá mais dano por receber a carga de esporos multiplicados nas primeiras semeaduras e,
4. semear com densidade de plantas que favoreça bom arejamento foliar com o objetivo de otimizar a penetração e a cobertura foliar pelos fungicidas.
Resistência varietal
No momento, praticamente todas as cultivares em produção comercial são suscetíveis a altamente suscetíveis (Figuras 4A e 4B; Figura 6A) e não se dispõe de nenhuma cultivar que possibilite dispensar o uso de fungicida (Yorinori et al., 2002). Todavia, pesquisas realizadas pela Embrapa Soja permitiram identificar fontes de resistência que estão sendo utilizadas no desenvolvimento de novas cultivares (Figuras 5A e 5B). O objetivo mais imediato é desenvolver cultivares que possibilitem a redução do número de pulverizações, o que já é possível com cultivares como BRS MS Bacuri e BRS Tianá (Figura 6B). Essas cultivares apresentam lesões do tipo castanho-avermelhadas (RB) com redução da taxa de esporulação e, conseqüentemente, evolução mais lenta da ferrugem.
Controle químico
Na falta de cultivares resistentes/tolerantes à ferrugem, no momento, só resta o controle químico. Todavia, para que esse método seja eficiente, é fundamental que a aplicação do fungicida seja baseada em um levantamento criterioso e no conhecimento da ocorrência da doença na região e/ou na lavoura. O uso indevido ou aplicação em momento inadequado poderá resultar em aumento do custo de produção ou controle ineficiente.
Em virtude da existência de plantas de soja infectadas durante todo o ano, cultivadas ou não, em alguma parte do Brasil, da Bolívia e do Paraguai, e de outros hospedeiros como o kudzu (Pueraria lobata) (Palmeira, no Paraná; Carazinho e Ijuí, no Rio Grande do Sul), a ocorrência das primeiras infecções depende apenas das condições climáticas de cada safra.
Portanto, o momento da primeira aplicação do fungicida e o intervalo da reaplicação dependem das condições climáticas, da presença e/ou da severidade da doença na propriedade ou na região, da idade das plantas, da extensão da área a ser tratada e, principalmente, da eficácia do fungicida escolhido. Havendo a ocorrência da ferrugem, quanto mais tardia a semeadura e mais longo o ciclo da cultivar, quanto mais favorável a condição climática para o desenvolvimento da doença e mais prematuro o estádio da cultura na primeira aplicação, poderá haver necessidade de repetir a aplicação por várias vezes.
Em Primavera do Leste, MT, na safra 2004/05 foram feitas até sete aplicações. Em qualquer das situações, o levantamento e a constatação da doença na lavoura ou na região são fundamentais para a tomada de decisão do momento da primeira pulverização. O nível de eficiência de controle irá depender da situação da doença no momento da aplicação, da sistemicidade e eficácia do fungicida, do equipamento de pulverização, da escolha dos bicos, do volume da calda, do tamanho de gotas, da densidade de plantas que favoreça a máxima cobertura foliar pelo fungicida e das condições meteorológicas no momento da aplicação. Os fungicidas recomendados para a safra 2005/06 estão na Tabela 2.
Perspectiva para doençasa safra 2005/2006
A ferrugem é uma doença imprevisível, cuja ocorrência inicial e a maior ou menor severidade dependem das condições climáticas e da proximidade da fonte de inóculo, podendo variar grandemente de um ano para outro e de uma região para outra. Portanto, é fundamental que cada produtor e técnicos da assistência estejam continuamente atentos, realizando o levantamento/monitoramento da lavoura para a detecção dos primeiros sintomas.
Na safra recém iniciada, as primeiras ocorrências em Mato Grosso, Goiás e Paraná indicam a possibilidade de grandes perdas ou um custo elevado do controle da ferrugem. Em Primavera do Leste (MT), lavouras semeadas entre 18 a 24 de setembro e irrigadas sob pivô central, já receberam de uma a duas aplicações de fungicidas. Faltando ainda 30% a 40% da área a ser semeada, em 11 de novembro, essa ocorrência prematura torna a soja da região de Primavera do Leste potencialmente vulnerável à ferrugem. Essa situação exige também que o controle químico seja feito com a máxima eficiência desde o primeiro momento da constatação da doença. Além do risco de grandes perdas, o custo do controle químico poderá atingir níveis economicamente inviáveis.
Nas áreas de soja que se estendem do sudoeste de Goiás e Sul de Mato Grosso ao Rio Grande do Sul, a pouca experiência dos produtores com relação ao controle da ferrugem, poderá torná-los mais vulneráveis na situação de uma epidemia de ferrugem, caso a distribuição de chuvas seja normal. Nos últimos três anos, essas áreas onde se cultiva cerca de 60% da soja brasileira, foram castigadas pela estiagem nos últimos anos e as perdas foram causadas pela falta de chuva e altas temperaturas e menos pela ferrugem.
Caso as condições climáticas sejam favoráveis para uma boa safra na região compreendida entre o Sul de Mato Grosso e Sudoeste de Goiás e estendendo-se até o Rio Grande do Sul, a falta de adequada experiência no convívio com a ferrugem, somada à atual crise financeira da agricultura, a doença poderá causar perdas significativas na produção. Nessa região, onde a seca tem sido o fator mais limitante nos últimos três anos, o desafio da ferrugem na safra 2005/06 torna-se potencialmente mais grave.
Na safra 2005/06, a ameaça da ferrugem é agravada pela dificuldade financeira que os produtores estão enfrentando em razão do baixo preço da soja, valorização do real em relação ao dólar, inadimplência e falta de crédito para aquisição dos insumos, principalmente de fungicidas e adubos. Somado a isso, a greve dos funcionários da Receita Federal está dificultando a importação das matérias primas de grande parte dos fungicidas que são formulados no Brasil. Essa situação poderá acarretar falta de fungicidas no mercado.
Essa complexa situação no início da safra vai exigir muito mais competência e responsabilidade da assistência técnica e dos produtores em seguir as recomendações para maximizar a eficiência do controle da ferrugem. Acima de tudo, nesse momento de crise por que passa a sojicultura, é fundamental a colaboração de todos os envolvidos nos mais diversos seguimentos da produção, comercialização e apoio financeiro aos produtores. Sem isso, a produção de soja brasileira corre sérios riscos de frustração de safra, com conseqüências imprevisíveis para o ano de 2006. As regiões mais afetadas serão aquelas mais chuvosas e onde a comunidade depende quase que exclusivamente do cultivo da soja
A forma mais eficiente de controle no momento é o controle químico, porém, seu uso eficaz e econômico, de forma permanente, depende:
a. do levantamento, da vistoria contínua das lavouras, do mapeamento e acompanhamento das primeiras ocorrências;
b. da capacidade de identificar a doença na fase inicial, sem confundir com outras doenças similares;
c. da eliminação da soja guaxa na entressafra e de um período mínimo de 60 dias de intervalo entre a última colheita da soja de entressafra, irrigada ou não, principalmente nos Cerrados e o início da semeadura da safra de verão;
d. da redução do período (janela) de semeadura na propriedade ou na região;
e. da adequação da densidade de semeadura que permita a penetração do fungicida no interior do dossel foliar atingindo, inclusive, as folhas do terço inferior das plantas;
f. da escolha correta do(s) fungicida(s), em relação ao estádio de desenvolvimento da soja, das condições climáticas e da severidade de infecção, principalmente, na primeira aplicação;
g. da observação das condições climáticas no momento da aplicação;
h. da adoção de equipamento e tecnologias corretas de aplicação, tanto para tratamentos aéreo como terrestre;
i. da adequação da capacidade operacional de aplicação do fungicida no momento correto, principalmente, em períodos chuvosos e grandes extensões de cultivo; e
j. do nível de fertilidade do solo: solos com baixa fertilidade ou desequilíbrios nutricionais tornam as plantas mais suscetíveis à ferrugem.
Agradecimento
o presente trabalho não teria sido realizado sem a colaboração de inúmeros colegas dos órgãos de pesquisa de todo o Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina e da assistência técnica, produtores, cooperativas e empresas privadas. A todos, o autor expressa o mais profundo agradecimento.
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Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição número 90, novembro/dezembro de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo.