Alerta Laranja (Mercado/Análise)


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Publicado em: 01/12/2005

Alerta laranja

Por Marcelo Sampaio PimentelVivendo realidades distintas, o cerrado brasileiro se prepara para enfrentar a ferrugem asiática da soja. As principais entidades regionais prevêem uma provável redução de tecnologia, que pode redundar em aumento do risco para as lavouras. A orientação é clara: apesar das dificuldades econômicas, não se pode relaxar no controle da doença sob o risco de piorar ainda mais a situação

A aftosa da agricultura. Há quem diga que os efeitos da ferrugem na safra que se inicia este ano serão tão ou mais duros para a sojicultura brasileira que os da aftosa para a pecuária. A razão é uma conjunção de fatores capazes de dar à doença dimensões nunca antes experimentadas. Dentre os quais, descapitalização e forte endividamento do produtor, limitações na obtenção de crédito para a aquisição de insumos, elevação dos custos de produção e um ano sem grandes perspectivas de preços no mercado.

Levantamento do Departamento da Economia da Embrapa Soja mostra que em casos como o de Primavera do Leste, MT, onde na última safra os produtores fizeram em média 3,5 aplicações de fungicida para controlar a ferrugem, a se repetir a mesma média de aplicações nesta safra, o custo de produção por hectare sairia a quase R$ 1.500,00. Um valor que obrigaria o produtor a ter uma produtividade média de 61,8 sacas por hectare para tão somente empatar custos e receita.

Para o secretário executivo da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja), Luiz Nery Ribas, a situação é extremamente difícil em regiões como a de Primavera do Leste e Campo Verde, pois já no mês passado foram encontrados focos de ferrugem em soja com 28 dias de plantada. ”Se com menos de um mês já foi necessário fazer uma aplicação, muito provavelmente, até o final do ciclo os produtores locais terão de fazer ao menos cinco pulverizações de fungicida”.

Bola de neve

Temendo essas dificuldades, muitos produtores não vão plantar tanto quanto nos últimos anos. Em Mato Grosso, a estimativa inicial é de que haja uma redução de 10% na área de soja plantada, o que representa 600 mil hectares a menos em relação à safra 2004/2005. Como boa parte dos produtores vai reduzir tecnologia por não estar tendo acesso aos insumos, o indicativo é de que ocorra uma retração ainda maior na produção.

”Neste momento de início de safra, estamos muito preocupados, pois em algumas regiões o produtor, que já atravessa um momento difícil, terá que produzir ainda mais para pagar os custos. Mas como atingir isso com redução de tecnologia? É uma bola de neve. E o produtor passa por uma fase de descapitalização crescente, que mais à frente terá forte impacto na balança comercial brasileira”, diz Ribas.

Atenção

Nem todo o cerrado vive situação semelhante à da região de Primavera do Leste, onde o fungo está presente quase o ano todo em função da grande concentração de lavouras de soja irrigada para a produção de sementes, gerando um ciclo que nunca é interrompido. Por isso, é preciso ter muito cuidado com a doença.

A falta de recursos força o produtor a reduzir tecnologia, e entre eles há quem esteja disposto até mesmo a economizar na aplicação de fungicidas. É por isso, que além das questões técnicas da lavoura, a Fundação Mato Grosso, nos ciclos de palestras que promove por todo o estado, insiste tanto na questão de que o produtor não pode se descuidar nem relaxar. Uma tendência até natural em função do controle relativamente bem sucedido que tem promovido nos últimos anos.

”Em oportunidades como nas palestras da Fundação MT - Hora de Cuidar da Soja, reforçamos que mesmo com a descapitalização, não adianta o produtor reduzir tecnologia em pontos como a economia de fungicida. Nos momentos em que for necessário, ele terá de aplicar e na quantidade recomendada; nada de usar meia dose. Nossa experiência nos últimos anos mostra que há produtores que esperam a ferrugem avançar com o intuito de economizar uma aplicação. O resultado disso é muito pior, porque ele acaba tendo que fazer mais uma ou duas além do que seria necessário só para apagar o incêndio”, explica a fitopatologista Márcia Yuyama, da Fundação MT.

A mesma estratégia contra um provável esmorecimento do controle da ferrugem está sendo adotada em quase todo o cerrado, principalmente no Centro-Oeste e no oeste baiano. Nesses lugares há, em comum, uma mobilização em torno da necessidade da transmissão da informação. As entidades têm se esforçado para alertar os produtores da necessidade do controle bem feito da doença.

Nos últimos dois anos, o programa de controle da ferrugem no oeste da Bahia não tem sido apenas bem sucedido, tem se tornado verdadeira referência nacional e adotado pelo próprio Ministério da Agricultura como modelo a ser seguido. Além de controlar a doença, por obrigar a revisão de pontos deficientes do sistema de produção, o programa tem feito a produtividade regional crescer acima da média.

De tão bem sucedido o controle na região é comum pensar que no oeste baiano a ferrugem foi erradicada. Contudo, segundo a fitotecnista da Fundação Bahia e coordenadora do Programa Estratégico de Manejo da Ferrugem Asiática da Soja no Oeste da Bahia, Mônica Martins, a doença tem estado muito presente, mas o controle feito pelos produtores mantém longe das lavouras os prejuízos com o fungo. ”Na safra passada, vimos ferrugem apenas onde houve falha na pulverização dos fungicidas e nas áreas de testemunha. Houve produtores que conseguiram controlar com duas pulverizações, outros com apenas uma. Mas houve também quem não precisasse aplicar”.

Monitoramento

A ferrugem asiática sempre provoca preocupação, em algumas regiões mais e em outras menos. Contudo, no discurso de técnicos e especialistas envolvidos o controle bem sucedido da doença começa no monitoramento cuidadoso da lavoura. Para Mônica, o acompanhamento eficiente da plantação é uma das principais razões da evolução produtiva das lavouras baianas.

”Além de evitar os danos causados pela ferrugem o produtor passou a detectar também outras doenças e pragas na soja, controlando-as de modo mais eficiente. Enfim, passou a observar e conhecer melhor a sua plantação”, diz ela.

O monitoramento é fundamental para que a lavoura se desenvolva como deve. O produtor não pode se furtar a essa obrigação. Tem que examinar todos os talhões pelo menos uma vez a cada sete dias, já que o ciclo da ferrugem é de onze dias, para que, aos primeiros sinais, as medidas de controle sejam tomadas.

Aliás, melhorar ainda mais esse monitoramento é fator decisivo para manter os custos de produção dentro do que a saúde financeira do agricultor, em tempo de falta de recursos e com perspectivas de preços não muito favoráveis, permite. É importante monitorar cuidadosamente a lavoura para que, em primeiro lugar, não se perca a hora certa de agir contra o fungo; mas também para que não se aplique o defensivo sem necessidade.

Hora certa

”Agindo na hora certa é onde o produtor vai verificar a diferença financeira, ao gastar o mínimo e obter o melhor resultado produtivo. Com a aplicação no momento ideal, o residual de proteção do fungicida pode chegar a 32 dias, entrando na hora errada, o residual cai para 15 dias, diminuindo a cobertura da lavoura”, lembra Edson Borges, diretor da Fundação Mato Grosso do Sul.

Márcia Yuyama destaca ainda que se a ferrugem for controlada no momento correto, o produtor não tem perdas; pelo contrário, passa a ter ganhos produtivos porque controla outra doenças ao mesmo tempo. Perdendo o timing, ele tem que fazer mais aplicações e certamente terá prejuízo, podendo chegar a ponto de ter que abandonar a lavoura.

Alfredo Horn, agricultor da região de Nova Mutum, MT, com 380 hectares de soja, acompanha com atenção o movimento da ferrugem em outras regiões, apenas aguardando a hora certa de agir. ”Todo mundo na região está preparado para fazer duas aplicações. Para obter o melhor resultado o mais importante é estar atento ao momento exato da primeira aplicação. Acertando essa, se a ferrugem voltar, vem bem mais fraca e com maior facilidade no controle também. Se eu aplicar errado, meu gasto que, no controle da ferrugem com apenas duas pulverizações, já é de 10 ou 12 sacas por hectare, pode subir ainda mais”, destaca Horn.

Borges exemplifica a importância desses cuidados com o caso de Mato Grosso do Sul. Na última safra, a média de aplicações em todo o estado foi de 1,2 aplicação. ”O clima seco também favoreceu, já que o fungo da ferrugem prefere ambiente úmido. Contudo, muitos produtores, de posse das informações repassadas, cessaram as aplicações. A chuva parou no dia 5 de fevereiro e a partir do dia 12 eles não aplicaram mais. Isso permitiu que economizassem em defensivo e mesmo assim mantivessem a produtividade”.

Uma importante recomendação está sendo feita pela Fundação MT para esta safra. Em geral, sabe-se que a ferrugem deve ser controlada até o fim da maturação fisiologia (fase R-7.1). Para esse ano, os técnicos orientam que o controle nos materiais precoces seja mantido até próximo à colheita. Mesmo que o tratamento até o término do enchimento dos grãos já seja suficiente para garantir a boa produtividade, o fato de a planta ainda possuir muitas folhas verdes representa uma ameaça direta às lavouras com variedades de ciclo mais tardio, pois servem como fonte de inóculo.

Outras doenças

Mas nem só a ferrugem representa ameaça à sanidade das lavouras no cerrado brasileiro. Na Bahia, por exemplo, a antracnose tem aparecido com mais força nos últimos anos. Algumas doenças de final de ciclo também têm aparecido na região oeste do estado, como a septória e cercóspora, ambas quase sempre controlada pelos produtos contra a ferrugem.

Já em Mato Grosso, os nematóides (cisto e galha) têm aumentado. Outras doenças como o fusarium, a mancha-alvo e a mela também têm se manifestado. A mela, em especial, é um problema até mais sério que a ferrugem por ser capaz de destruir completamente uma lavoura.

Consórcio Anti-Ferrugem

Introduzida no Brasil na safra 2001/2002, a ferrugem asiática da soja, ainda é considerada um problema novo para sojicultura nacional, no que diz respeito à sua identificação, aos aspectos de manejo e, principalmente, de controle. Para propor soluções a este grande desafio, foi criado o Consórcio Anti-Ferrugem, coordenado pelo Ministério da Agricultura. Essa verdadeira cruzada contra a ferrugem tem ainda agentes como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), fundações de apoio à pesquisa, empresas estaduais de pesquisa, de transferência de tecnologias, cooperativas, universidades e Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), Associação Brasileira dos Defensivos Genéricos (AENDA).

O Consórcio atua na capacitação de técnicos, produtores e empresários do setor que compõem a cadeia produtiva da soja, por intermédio de palestras, materiais áudio-visuais, impressos e serviços de internet. A primeira ação do Consórcio foi a padronização das informações sobre o manejo da doença, por intermédio da formação de uma rede de 60 especialistas em ferrugem de todo o Brasil. Na safra 2004/05, foram treinados mais de 5600 Agentes da Assistência Técnica e realizadas palestras que atingiram mais de 38 mil produtores.