Safra de Soja dos EUA Surpreende e Mantém os Preços abaixo do Esperado


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Publicado em: 01/12/2005

Safra de soja dos EUA surpreende e mantém os preços abaixo do esperado

Flávio GassenEngenheiro-agrônomo, Supervisor Técnico CooplantioE-mail: flavio@agri.com.br

SOJA

A safra de soja dos EUA surpreendeu a todos que esperavam redução da produção causada pela estiagem que assolou grande parte das regiões produtoras do país. As expectativas geraram forte pressão especulativa (fig. 1) no decorrer do desenvolvimento vegetativo da cultura, mas com o retorno das chuvas e o avanço da colheita, resultou no rendimento recorde na ordem de 2.869 kg/ha (USDA, nov/2005), superando a marca de 2.836 kg/ha da safra anterior, onde totalizou na produção de 85 milhões de toneladas. Apesar do excelente rendimento obtido pelos norte-americanos, o resultado da produção total está estimado em 82,820 milhões de toneladas devido a redução da área de 30,46 para 29,24 milhões de ha. Mesmo considerando a crescente demanda da China, o consumo mundial está projetado em 216,1 milhões de toneladas (USDA, nov/2005), contra produção de 221,6 milhões de toneladas e que resulta no aumento da relação estoque final/consumo mundial de 20,4 para 21,6%, conforme USDA. Do ponto de vista do especulador do mercado futuro de grãos da Bolsa de Chicago, o fato de maior relevância é a relação de estoque/demanda dos EUA, pois este determina seu estímulo ao investimento. Neste aspecto, a estimativa dos norte-americanos aponta para 11,9% do estoque final em relação a demanda da safra 2005/06, contra 8,6% da safra anterior e 4,5% da safra 2003/04, onde houve forte pressão especulativa no mercado e levou as cotações do grão a superarem 10 dólares/bushel na Bolsa de Chicago (fig. 1) e acima de 7,35 na média anual. Sem dúvida, o indicador do estoque dos EUA é o fator de maior importância sobre os estímulos dos grandes fundos de investimento do país. Considerando que a safra foi quase recorde e que não há evidências de choque de consumo mundial, a relação de 11,9% de estoque final/consumo sinaliza para cotações abaixo de 5,5 dólares/bushel. Conforme a figura 2, as safras 1996/97 e 2003/04 foram as que apresentaram esta relação extremamente atrativa para o investidor, pois apontava para níveis críticos na oferta do grão.

Na figura 4, os preços pagos ao produtor em dólar ainda não atingiram a linha de suporte para condições normais de estoque mundial, mas na análise dos preços deflacionados praticados no estado do Paraná indicam que estão abaixo da linha de suporte para as mesmas condições. Nesta comparação estão evidentes as perdas provocadas pela forte apreciação cambial do Real sobre a soja e também o risco dos preços caírem para próximo de 20 reais no caso de safra normal para as regiões produtoras sul-americanas. A projeção de 221,6 milhões de toneladas para a produção mundial 2005/06 considera 82,82 milhões de toneladas para os EUA, 58,5 para o Brasil, 40,5 para a Argentina e 17 para a China. Tanto para o Brasil, como para a Argentina, a expectativa de produção é tangível e, se assim ocorrer, os preços para o período de safra sul-americana dificilmente serão mantidos acima de 11 dólares/60 kg (para o PR).

Assumindo que os preços pagos em dólar estarão próximos à média histórica, resta a conversão cambial para melhor remunerar a soja. Nos últimos meses, a moeda nacional está num ritmo constante de valorização, afastando-se significativamente da taxa cambial de paridade, considerando as transações com os demais países, exemplificando, a Argentina que está com taxa cambial entre 2,90 e 3,0. Após período considerável de apreciação cambial que superou um ciclo completo abaixo da taxa de paridade, há um movimento de ajuste da própria taxa de paridade, pois a economia realizou o pagamento dos seus insumos à taxa apreciada, com isso reduzindo seus custos, considerando a paridade internacional. Nesse aspecto, a taxa cambial ajustou-se e já não há mais necessidade de forte depreciação, pois o global da economia brasileira está com seus custos estabelecidos num patamar abaixo de 2,50 R$/US$. Este ajuste ocorrido na moeda nacional somente foi possível com a combinação de um cenário de crescimento internacional favorável, onde investimentos foram destinados ao Brasil, e com o sacrifício de alguns setores que tiveram a capacidade de absorver a forte distorção cambial na primeira fase do ajuste. Entre os setores citados, a agricultura de exportação foi a mais penalizada e somente manteve-se devido a sua grande capacidade de absorver choques econômicos.

MILHO

A produção mundial de milho para 2005/06 está projetada em 671,9 milhões de toneladas, contra 708,57 milhões de toneladas das safra anterior, representando redução de 5,18%. Já o consumo esperado indica aumento de 0,35%, passando de 681,78 para 684,15 milhões de toneladas e conseqüente redução de 9,7% no estoque. Ao contrário da soja, os norte-americanos registraram redução de 7,5% no rendimento do milho na safra 2005/06, repercutindo na produção mundial, pois o país é responsável por 41% da produção mundial. Mesmo com a redução da produção dos EUA, a relação estoque final/demanda do país estimada está em 21,4%, considerado o mais elevado dos últimos 10 anos e terá conseqüente redução os preços pagos ao produtor que está estimado em US$ 4,25/60kg. Os elevados preços da safra 1995/96 (fig 5) foram causadas pela relação estoque final/demanda de 5% e outro pico na estiagem de 2003/04, onde a relação atingiu 9,4%. Nos anos de relação estoque final/demanda acima de 18%, os preços pagos ao produtor mantiveram-se abaixo de US$ 4,50/60kg e a safra 2005/06 aponta para os mais baixos preços dos últimos 10 anos.

Já para o Brasil, a relação estoque final/demanda projetada para 2005/06 é a terceira mais baixa dos últimos 15 anos e, numa situação oposta ao dos EUA, aponta para preços elevados. No entanto, os atuais preços dolarizados no mercado doméstico já estão elevados, onde atinge cerca de 7,8 dólares/60kg no RS, contra média histórica de aproximadamente 6 dólares/60kg. Por outro lado, o aumento da área de milho está sinalizando para uma produção de 40,9 milhões de toneladas, contra 35 da safra anterior e demanda de 40,8 milhões de toneladas para 2005/06. A expectativa de boa safra já pressiona negativamente os preços do Paraná que atingiu US$ 5,44/60kg em nov/2005 (12 reais/60kg) (fig. 6). A forte queda no Paraná sinaliza a resposta do mercado para expectativas de aumento de área e possibilidade de clima favorável à cultura e alerta às demais regiões, como do RS, que ainda operam com preços dolarizados muito elevados e poderão causar uma queda significativa quando retornar ao nível razoável.

Na figura 6, os preços do grão no PR em dólar estão numa posição intermediária entre a linha de suporte e de resistência (nov/2005), onde houve o movimento de sazonalidade normal entre estes limites desde 2002. A linha de suporte foi atingida no final da safra de 2002 e 2003. Atingiu também no final de 2004, onde a primeira safra do estado foi normal e a safrinha foi penalizada pela estiagem com pronta resposta do mercado e forte elevação dos preços em plena colheita. Deve-se salientar a importância desse fato, pois ao atingir a linha de resistência em dólar, é remota a possibilidade de ganhos maiores, de outra forma somente combinada com desvalorização cambial.

TRIGO

A produção mundial de trigo projetada para a safra 2005/06 está 10 milhões de toneladas abaixo da expectativa de consumo e proporciona a menor relação estoque final/consumo mundial dos últimos 15 anos, coincidindo com o da safra 2003/04, onde os preços foram os mais elevados desde o último pico cíclico de 1996/97 (fig. 7). O movimento de apreciação cambial da moeda nacional tornará pouco remunerador o trigo, apesar dos preços internacionais que estão em patamar razoável. Os preços dolarizados praticados no PR estão pouco abaixo da posição intermediária entre a linha de suporte e de resistência (fig. 8) e há indicativos que não atingirá a linha de suporte nesta safra devido aos baixos estoques internacionais. Por outro lado, os preços em reais deflacionados estão abaixo da linha de suporte devido ao ajuste cambial. Do ponto de vista do ciclo sazonal de produção, a recuperação dos preços em dólar somente ocorrerá a partir de março, mas com possibilidade de ocorrer antes em função da baixa qualidade do grão da safra atual. Se for considerado os baixos estoques internacionais que estão na relação estoque final/consumo mundial na ordem de 22,5% (fig. 3) para a safra 2005/06, inclusive abaixo da safra 1995/96 que atingiu 24,9% e as maiores cotações dos últimos 10 anos, esta safra teria forte pressão de alta nos preços. No entanto, atualmente a economia mundial permite níveis de estoque inferiores aos registrados no passado e não mais responde com mesma intensidade a esse estímulo. Sendo assim, seria razoável assumir que os preços dolarizados já estão no mínimo, considerando a baixa qualidade da safra atual.

Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, número 90, edição novembro/dezembro de 2005, Aldeia Norte Editora Ltda. Passo Fundo.