Pontos estratégicos no manejo do arroz irrigado para altas produtividades
Luciano Carmona1, Edward Pulver1, Felipe Carmona1 e Gilberto Dotto21Consultores técnicos do CFC, FLAR e CIAT; 2Extensionista do IRGA - Restinga Seca (RS)A realização do trabalho informado neste documento foi parcialmente financiado por uma contribuição feita pelo Fundo Comum para Comodites (CFC) ao Fundo Latinoamericano para Arroz Irrigado (FLAR) e pelos aportes do Instituto Rio-grandense do Arroz (IRGA). O conteúdo deste documento representa estritamente as opiniões e interpretações dos autores e não foi endossado por nenhuma das instituições colaboradoras, incluindo CFC, FLAR ou IRGA.
Nas últimas duas safras, os técnicos e extensionistas do projeto de transferência de tecnologia ”Sistema Produtor a Produtor”, identificaram e validaram seis pontos estratégicos no manejo de cultivo do arroz irrigado no RS. Manejando estes seis pontos de forma integrada e precisa, o produtor obterá altos rendimentos com menores custos unitários, conseqüentemente com maior rentabilidade. O que segue é a discussão destes seis pontos estratégicos.
1- Época de Semeadura
A época de semeadura é um fator que influi diretamente na produtividade da lavoura. A radiação solar durante o período reprodutivo (iniciação do primórdio até a floração) determina o tamanho da panícula e esterilidade, conseqüentemente a produção final. Para as principais variedades em uso no RS, a fase que requer a máxima radiação solar ocorre entre 50 e 100 dias após a emergência. A alta radiação solar durante o período crítico permitirá que a cultura expresse seu rendimento potencial, desde que os demais pontos estratégicos de manejo sejam cumpridos.
No RS, informações de longo prazo indicam que o pico de radiação solar ocorre nos meses de dezembro e janeiro. A partir de fevereiro, há uma alta probabilidade de ocorrer uma drástica redução da quantidade de energia solar disponível. Semeando a lavoura no período apropriado, o cultivo provavelmente receberá radiação solar suficiente para produzir de 10–12 t/ha.
Considerando as médias de radiação solar a longo prazo, a semeadura deve ser realizada nos seguintes períodos:
- Variedades de ciclo precoce: 15/10 a 15/11
- Variedades de ciclo médio: 05/10 a 05/11
- Variedades de ciclo tardio: até 10/10
O período ideal de semeadura é bastante curto, devido à ocorrência de precipitações abundantes e freqüentes nesta época. Tendo em vista as condições ambientais desfavoráveis, o produtor deve priorizar ações de manejo que permitam a instalação da lavoura dentro da melhor época. Dentre estas, o preparo do solo com antecipação (preparo de verão), adequação do sistema de drenagem, e a adubação de base antecipada, são ferramentas indispensáveis, pois maximizam a eficiência da semeadura.
2- Densidade de Semeadura
O uso de sementes de alta qualidade é um componente importante no manejo para altas produtividades. No RS os produtores estão acostumados a utilizar altas densidades de semeadura (150 a 200 kg/ha). Altas densidades produzem plantas sem vigor, suscetíveis à acamamento e doenças, principalmente bruzone e rizoctônia. Em contraste, densidades adequadas produzem plantas mais vigorosas, mais resistentes à doenças fúngicas e capazes de responder a fertilização nitrogenada.
Nas variedades modernas, populações de 150 a 250 plantas/m2 são suficientes para alcançar altos rendimentos e isto só é possível quando utilizamos densidades de semeadura de 60 - 90 kg/ha. Estas densidades reduzem os custos de semeadura, viabilizando economicamente o tratamento de sementes com inseticidas e fungicidas, possibilitando o estabelecimento de uma lavoura sadia, sem a formação de um ambiente propício para o estabelecimento e desenvolvimento de doenças fúngicas.
Um fator importante para o bom estabelecimento da lavoura é a profundidade de semeadura. Semeaduras realizadas no mês de outubro devem ser efetuadas o mais raso possível (até 2 cm de profundidade). Nesta época o solo ainda encontra-se frio, sendo que semeaduras superficiais permitirão uma germinação mais uniforme. Para semeaduras do cedo, o tratamento de sementes com fungicidas tem mostrado boa eficiência, pois nesta época a velocidade de emergência é lenta. Estes produtos previnem o ataque de fungos de solo, auxiliando na germinação uniforme das sementes.
Em contraste, nas semeaduras de novembro, o solo já encontra-se mais aquecido, porém com maior risco de déficit hídrico para germinação. Neste caso, semeaduras um pouco mais profundas são desejáveis.
3 - Sementes Tratadas
A bicheira da raiz é a principal praga da lavoura orizícola no RS. Em situações onde o produtor conduz o manejo de sua lavoura para altas produtividades, o inseto pode causar danos irreversíveis.
Em zonas onde a infestação por este inseto é crônica, os produtores realizam uma ou duas aplicações de carbofuran sobre a lâmina d‘água, para o controle de ”bicheira da raiz”. Esta prática é realizada de maneira curativa, quando já esta ocorrendo dano a cultura. Além disso, este produto não é seletivo e, quando aplicado sobre lâmina d‘água, apresenta elevado potencial poluente.
Os orizicultores também costumam fazer 1 a 2 aplicações de inseticidas foliares. A primeira geralmente é de um piretróide, juntamente com os herbicidas. Esta prática não leva em conta a existência de insetos causando danos ao cultivo, o que acaba eliminando um grande número de aranhas e insetos benéficos, que realizam o controle biológico. Aplicações precoces de inseticidas não seletivos ocasionam infestações posteriores de pragas prejudiciais ao cultivo.
Uma forma eficaz e econômica de prevenir o aparecimento da bicheira da raiz é a prática do tratamento de sementes com inseticidas a base do ingrediente ativo fipronil. Com a adoção desta medida, somente os insetos que alimentam-se das plantas de arroz são controlados, preservando-se os inimigos naturais. e reduzindo a subseqüente aplicação de inseticidas.
O tratamento das sementes pode ser realizado pelo produtor, ou por técnicos das empresas que vendem o produto. O importante é que as sementes recebam o produto de maneira uniforme e que a dosagem do produto seja respeitada. Geralmente 0,2 – 0,3 gramas de ingrediente ativo (fipronil) por quilograma de sementes é adequada para as condições do RS.
4 - Nutrição Para Altas Produtividades
Para o cultivo expressar seu potencial genético é indispensável que suficiente quantidade de nutrientes seja disponibilizada ao cultivo de maneira balanceada. Os nutrientes mais importantes para a lavoura de arroz no RS são N, P, K e S.
Fósforo: O arroz irrigado não requer alto aporte de adubo fosfatado. Uma vez que o cultivo está inundado, grande parte do fósforo do solo estará liberado e disponível para o cultivo. Por este motivo, a análise de solo não é um bom parâmetro para definir de quantidade de P disponível no solo. De forma geral, só é necessário repor o P que está sendo removido via colheita de grãos. Geralmente 40 - 50 kg/ha de P2O5 são suficientes para todas regiões arrozeiras do RS.
Potássio. O arroz requer grande quantidade de potássio para altas produtividades. A análise de solo produz uma apurada estimativa da quantidade disponível deste nutriente no solo. As experiências em muitas lavouras, indicam que há uma grande variação de K2O entre as regiões produtoras do Estado e até mesmo dentro da propriedade. Devido à este fato, os produtores devem conhecer a riqueza natural de seus diferentes talhões para fazer a calibração adequada da quantidade de adubação potássica requerida para cada situação em particular.
Uma lavoura de arroz com potencial de produção entre 10-12 t/ha absorve aproximadamente 180 kg/ha de K2O. Assim, este valor deve ser utilizado como base para estimar a quantidade de adubo necessário para altos rendimentos. A informação contida na análise de solo em mg/dm3 (ppm) multiplicada por 2 indica com relativa precisão a quantidade de K2O disponível na zona de absorção radicular. A quantidade de K2O disponível no solo deve ser subtraída da quantidade requerida pelo cultivo (180 kg/ha de K2O) , sendo que o déficit deve ser aplicado na forma de fertilizante. Este processo esta descrito na sequinte equação:
Fertilizante (K2O) requerido (kg/ha)= 180 – (2 x mg de K2O no solo/dm3)
Para a maior eficiência da adubação o P e K, devem ser incorporados ao solo no sistema convencional antes da semeadura. Nos sistemas de cultivo mínimo ou plantio direto, a distribuição destes elementos pode ser feita a lanço, sendo que a semeadeira fará a incorporação ao solo no momento da semeadura. Adubações a lanço em pré plantio (até 30 dias antes da semeadura) são adequadas e permitem uma significativa melhora na eficiência dos equipamentos, especialmente as semeadeiras.
Enxofre: No RS, grande parte dos solos arenosos (menos de 15% de argila) apresenta deficiência de enxofre. Na Depressão Central, onde se realiza o cultivo intensivo com arroz irrigado há muitos anos, esta condição é mais evidente. O sintoma visual de deficiência deste nutriente é muito similar a deficiência de N e se caracteriza pelo amarelecimento total da planta alguns dias após a irrigação permanente
A melhor forma de detectar deficiência de enxofre é através de análise de solo completa. O nível crítico deste nutriente estimado em outras regiões da América Latina é de aproximadamente 12 ppm. Logo, quando o solo apresentar valores abaixo deste nível, deve-se providenciar o complemento da adubação com enxofre. Este problema pode ser prevenido com a aplicação de 100 -150 Kg/ha de sulfato de amônio (21% de N e 24% de S) juntamente com a adubação de cobertura, complementando a necessidade de N com a aplicação de uréia.
Nitrogênio: O elemento mais importante para obter-se altas produtividades em arroz irrigado é o nitrogênio. A fonte mais comum deste elemento é a uréia (45% de N). A uréia é de difícil manejo em arroz irrigado devido às grandes perdas pelo manejo inadequado. Nunca aplicar uréia sobre lâmina de água nas fases iniciais do cultivo, evitando assim grandes perdas de nitrogênio por volatilização.
O manejo ideal do N ocorre quando este é aplicado sobre o solo seco. Depois da aplicação da uréia, deve-se estabelecer uma lâmina permanente o mais rápido possível (3-5 dias). Sendo que após a aplicação o produtor não deve permitir que o solo seque até a etapa de grão leitoso (20 dias antes da colheita).
Nas variedades modernas, uma aplicação de todo N requerido para altas produtividade antes do estabelecimento da lâmina permanente produz os melhores resultados. Geralmente, se a primeira aplicação de N for adequada, não serão necessárias aplicações posteriores. Contudo, se a primeira aplicação de N for insuficiente, aplicações posteriores não serão eficientes para a recuperação de parte do rendimento perdido por falta de N durante o desenvolvimento das plantas.
Em variedades de ciclo longo, uma segunda aplicação pode ser necessária quando forem observadas deficiências durante a diferenciação do primórdio floral (DPF). Neste caso, recomenda-se aplicar de 25-50 kg de N/ha. Esta última aplicação pode ser realizada sobre lâmina d‘água, uma vez que a absorção é rápida devido ao grande volume de raízes superficiais.
Na Tabela 1, é ilustrada uma orientação geral de como estimar a quantidade total de N requerida pela cultura para altas produtividades. A quantidade de N requerida só poderá ser aplicada se o produtor executar os outros pontos de manejo com precisão. Por fim, o produtor deve ajustar a quantidade de N tomando em conta o sistema de cultivo e a fertilidade natural do solo.
Lavouras com densidades adequadas e fertilização balanceada terão como resultado folhas bandeiras grandes, sadias e com coloração verde intensa. Uma lavoura bem nutrida continuará verde até a maturação, apresentando panículas grandes e rendimentos elevados.
5 - Controle de Plantas Daninhas
Para alcançar altos rendimentos, os produtores devem evitar a competição entre as plantas daninhas e o arroz por luz, nutrientes e espaço.
O processo de controle integrado de plantas daninhas começa com o uso de sementes de qualidade, livres de arroz vermelho e outras invasoras. Outro aspecto importante é a adequação da área para que a irrigação seja bem executada, fator fundamental para um adequado controle das invasoras. Feito isso, o manejo dos herbicidas é facilitado, aumentando sua eficiência. Existem no mercado uma grande quantidade de herbicidas, que quando manejados corretamente, são eficientes.
As plantas daninhas são mais fáceis de controlar nas etapas iniciais, quando têm de 2 a 3 folhas. Neste período, misturas de herbicidas de pré e pós emergência apresentam excelentes níveis de controle. Aliado ao maior efeito residual dessas misturas um bom manejo da irrigação permite melhor controle das principais plantas daninhas evitando reinfestações e diminuindo os custos. No RS, são comuns aplicações tardias com produtos específicos que são caros e geralmente demonstram boa eficiência. Porém, as plantas daninhas já estão competindo com o cultivo, fato que inevitavelmente diminui a produtividade.
A recente introdução de variedades resistentes a herbicidas cria a oportunidade para os produtores cultivarem campos infestados com arroz vermelho. Contudo, os altos níveis de fitotoxidade observados nas lavouras que utilizam esta tecnologia comprometem o manejo para altas produtividades. A experiência adquirida na safra 2005 indica que duas aplicações do herbicida (only) nas dosagens de 0.5 l/ha (pré-emergente) e 0.5- 0.7 l/ha (pós-emergência inicial) são mais efetivas que apenas uma aplicação. Porém, na segunda aplicação é fundamental que o produtor observe as condições do tempo, principalmente temperatura e radiação solar, pois quando estas condições são desfavoráveis, a detoxificação do herbicida pelas plantas de arroz é muito lenta, comprometendo o rendimento potencial da variedade.
6 - Manejo da Irrigação
A chave para o êxito na produção de arroz irrigado depende do bom manejo da irrigação, o que proporciona uma alta eficiência da adubação, principalmente a nitrogenada. Além disso, há um eficaz controle de plantas daninhas e redução dos problemas com doenças e insetos.
Para atingir boas produtividades é necessário que á lâmina d‘água seja estabelecida o mais cedo possível, levando em conta a declividade da lavoura e fatores externos, como a presença de algas na água de irrigação. O produtor deve identificar o momento em que as plantas de arroz podem suportar lâmina d‘água. Neste momento, a adubação nitrogenada deve ser executada e o campo inundado o mais breve possível (até 3 dias) para garantir a eficiência do N. Feito isso, deve-se evitar que a lavoura seque até o início da maturação. Em campos bem nivelados, sem a presença de algas, deve-se estabelecer a lâmina d‘água quando as plantas de arroz tiverem 3-4 folhas. Ao contrário, em campos com pendente acentuada ou com presença de algas, a irrigação deve ser iniciada quando o arroz tiver de 4 a 6 folhas no máximo.
Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição número 89, setembro/outubro de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.