O Percevejo Barriga-Verde (Pragas)


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Publicado em: 01/10/2005

O percevejo barriga-verde no milho e no trigo em plantio direto

Rodolfo BiancoPesquisador na Área deProteção de Plantas, IAPAR - Caixa Postal 481 - 86001-970, Londrina-PR - Telefone: (43) 3376 2307- E-mail: rbianco@iapar.br

No sistema de cultivo convencional, a prática de aração e gradagem, teria também o intuito de eliminar ou minimizar os problemas causados por certas pragas, que passam pelo menos uma fase de seu ciclo biológico no solo ou na superfície deste.

A não movimentação do solo, no sistema de plantio direto, pode favorecer o desenvolvimento e a sobrevivência de algumas pragas, entretanto pode propiciar, também, um ambiente vantajoso para a persistência de fungos, bactérias e vírus entomógenos, além de outros inimigos naturais de pragas. Como se vê, nem tudo é desvantagem, o que torna o sistema perfeitamente viável, pois por maiores que sejam os problemas causados pelas pragas, não são mais importantes do que preservar e melhorar a qualidade do solo. O plantio direto com qualidade pressupõe justamente alcançar esses objetivos, onde o planejamento das sucessões de culturas não busca exclusivamente a sustentabilidade econômica, mas também propiciar a sustentabilidade do agroecossistema.

Quando se deseja aliar desenvolvimento com sustentabilidade dos sistemas de produção, o Manejo Ecológico de Pragas (MEP) passa a ser fundamental na exploração agropecuária. O desenvolvimento e implantação do MEP requerem avanços no conhecimento técnico-científico. Conhecimentos estes que devem ser repassados a técnicos e produtores, de modo a capacitá-los sob a ótica da preservação e melhoria dos recursos naturais. Assim, o MEP deverá estar perfeitamente integrado ao manejo do agroecossistema como um todo, onde informações sobre o tipo de preparo do solo, as cultivares mais indicadas para a região, a melhor época e densidade de semeadura, a rotação, consorciação e diversificação de culturas, que somadas à conservação e melhoria da fertilidade do solo, sejam utilizadas, também, com o propósito de conferir às plantas maior tolerância às pragas, facilitando seu manejo. No MEP, deve-se dar prioridade a ações agroecológicas, que propiciem a manutenção e incremento dos agentes naturais de controle populacional das pragas. Neste contexto é que o uso adequado dos produtos químicos, dando preferência para os seletivos, passa a ser condição primordial, sem o que não se conseguiria atingir plenamente os objetivos de uma agricultura sustentável e ecológicamente correta. Para tanto, técnicos e produtores devem estar conscientes de que, a base para a tomada de decisões de controlar ou não as pragas, está no monitoramento criterioso destas e de seus inimigos naturais, procurando abolir as aplicações pré-agendadas, os famosos calendários e as aplicações ”carona”, bastante comuns na dessecação de infestantes, quando se junta um inseticida ao herbicida, sem motivo aparente justificável.

Manejo das pragas no campo

De acordo com BIANCO (1991, 1997), o manejo de pragas não deve ser praticado isoladamente, é preciso inserí-lo no contexto geral do manejo da cultura e do agroecossistema como um todo. Vários fatores concorrem para que os insetos atinjam o status de praga na cultura. Dentre eles pode-se citar a disponibilidade de alimento, proporcionada pelo monocultivo em grande escala, condições climáticas favoráveis à praga e o desequilíbrio biológico, agravado pelo uso inadequado ou por produtos químicos não seletivos.

A manipulação desse conjunto complexo de fatores não é tarefa fácil, requer planejamento agrícola adequado, exige observações diretas na lavoura e fundamentalmente, exige a aplicação integrada dos princípios fitotécnicos com métodos de controle às pragas. Portanto, dentro do possível, deve-se evitar a utilização de métodos isolados, que ofereçam somente soluções transitórias e que promovam o desequilíbrio.

Os princípios fitotécnicos compreendem as informações referentes ao tipo de preparo do solo, a indicação das melhores cultivares/região, época e densidade de semeadura, sucessão de culturas, consorciação e diversificação de cultivos, conservação do solo, e melhoria e manutenção da fertilidade do solo, através das plantas de cobertura. Assim, busca-se, através do manejo adequado da lavoura, conferir às plantas maior tolerância, facilitando o manejo das pragas.

Na implantação do manejo das pragas é necessário que técnicos e produtores obtenham conhecimentos fundamentais sobre a biologia, hábitos e a maneira de quantificar as pragas ou os danos que estas provocam. Para tanto, metodologias de amostragem das pragas e seus inimigos naturais são de relevada importância.

Outro fator importante é saber o nível de dano tolerado pelas plantas, e entender que medidas de controle somente serão necessárias, se forem alcançados os níveis de ação. Também, que se dê preferência a medidas de controle que não interfiram na ação dos insetos benéficos. É importante relembrar que a utilização de produtos não seletivos, via de regra, resulta em desequilíbrio, resistência e ressurgência de pragas, com conseqüente necessidade de novas aplicações. Utilizando-se produtos seletivos, com o tempo, pode-se chegar ao equilíbrio entre pragas e seus inimigos naturais, dispensando as aplicações sucessivas. A manutenção e o incremento dos inimigos naturais depende diretamente da diversidade da flora e fauna do agroecossistema.

A manutenção de áreas de pousio e mesmo pequenos bosques são de relevada importância para se obter boa diversidade florística. Estas áreas cumpririam a função de atuar como áreas de atração, refúgio e reservatório de insetos benéficos. Resultados semelhantes poderiam ser obtidos com a implantação de multiconsórcios de plantas de cobertura, também denominados de ”coquetel” de plantas, muito particularmente aquelas que produzem boa quantidade de pólen e néctar, que servem de atrativo e alimento para muitos inimigos naturais. Dessa forma garanteria-se a diversidade florística tão almejada.

Danos e manejo do percevejo barriga-verde no milho

O percevejo barriga verde, tido como praga secundária na cultura da soja, vem nos últimos anos crescendo em importância na cultura do milho. Duas espécies têm sido encontradas no Paraná, o Dichelops furcatus, mais ao sul do Estado, e o D. melacantus, no oeste, centro e norte do Estado. Esta última se diferencia por apresentar os espinhos do pronoto negros, enquanto que na outra são amarronzados. As duas espécies são igualmente daninhas e injetam toxinas no colo das plântulas durante o processo de alimentação. Sendo uma praga inicial tem prejudicado significativamente o milho na implantação da cultura, seja reduzindo o estande ou prejudicando o vigor das plântulas, provocando inclusive o perfilhamento exagerado das plantas. Quando o milho é atacado pelo percevejo na primeira e segunda semana de sua emergência, os danos provocados pelo inseto são mais intensos (Figura 1). Também, maiores danos têm sido verificados quando coincidem alta incidência da praga, com períodos de estiagem. Essa praga utiliza a palhada como local de abrigo, sobrevivência e multiplicação. Por isso, maior população é encontrada em plantio direto, comparado com o plantio convencional. A sucessão continuada de soja/milho ou soja/trigo favorece o desenvolvimento da praga. Durante a colheita da soja, os grãos caídos ao solo, associado à presença de ervas daninhas, particularmente a trapoeraba, têm favorecido o aumento de populações do percevejo, por constituírem excelente alimento na entressafra. Portanto, reduzir as perdas na colheita da soja também será fator relevante na regulação da população da praga.

Os carbamatos, via tratamento das sementes, não tem proporcionado controle suficiente. Por isso produtos via pulverizações vêm sendo utilizados, mas estes, por serem geralmente de largo espectro, podem significar risco, para a fauna benéfica e com isso comprometer o Manejo Ecológico das Pragas do milho (MEP-milho).

Produtos novos para o tratamento de sementes, os neonicotinóides, vêm apresentando bons resultados no controle desse percevejo, além de possibilitar o aparecimento de um efeito positivo no crescimento inicial do milho e conseqüentemente na produção. Entretanto, a boa eficiência desses produtos está condicionada à utilização correta da dose recomendada. Considerando que a dosagem, no tratamento das sementes, é geralmente praticada para 100 kg de sementes. No caso de sementes pequenas, gasta-se 12 a 13 kg de sementes/ha, com as 60000 sementes, ao contrário dos 20 kg normalmente considerados, quando as sementes são grandes. Com isso a dosagem do produto químico é reduzida por unidade de semente, e conseqüentemente pode haver redução na eficiência. Isto indica que a dosagem deverá ser recomendada por sacos de semente (60000 sementes), independente do peso.

Quanto ao controle do percevejo via pulverizações, é preciso estar atento ao momento mais adequado para efetuá-las. Pulverizações atrasadas, ou seja, depois dos 10 – 15 dias da emergência da planta, podem resultar em controle ineficaz. Neste caso, mesmo havendo o controle do percevejo, não impede o aparecimento do dano, pois a toxina que o inseto injetou anteriormente já está na planta, por isso o dano aparece depois. O ideal é que o controle seja iniciado logo nos primeiros dias da emergência do milho. Comparando-se os dois sistemas de controle, o tratamento das sementes, com os neonicotinóides, leva vantagem por ser mais eficiente e por ser seletivo aos inimigos naturais.

A tomada de decisão de controlar ou não a praga deve se basear no histórico de ocorrência do inseto e no monitoramento pouco antes da semeadura do milho.

Monitoramento do percevejo barriga-verde

Existem duas maneiras distintas de avaliar o percevejo na palhada. A primeira através da contagem direta dos percevejos por unidade de área (m2). Esta metodologia geralmente exige muito tempo para ser executada, particularmente se existir muito palha no local, e por isso tem sido mais utilizada em levantamento para fins de pesquisa. A segunda maneira de monitorar o percevejo barriga verde é mediante o uso de uma isca atrativa (soja umedecida), desenvolvida por R. Bianco (não publicada). A isca é de fácil preparo e utilização, exige pouco tempo e fornece informações que podem subsidiar técnicos e os produtores no momento de classificar a infestação da praga, associando-a com diferentes níveis de risco para a lavoura (baixo, moderado e alto), por isso muito mais factível de ser adotada em grande escala. Dependendo da condição de risco, recomenda-se diferentes ações (Tabela 1).

Preparo das iscas para um talhão

1º - Medir 500 ml (± 300 g) de grãos de soja

2º - Colocar num recipiente com água limpa e deixar por 10 – 15 minutos

3º - Escorrer a água

4º - Adicionar ½ colher (café) de sal de cozinha e misturar

Obs.: não colocar o sal na água, pois exigiria maior quantidade.

Medir novamente o volume dos grãos já umedecidos e dividir esse volume em 10 partes (iscas) iguais. Se possível preparar um ”copo” dosador com volume equivalente a uma isca. Esse copo dosador será de grande utilidade, quando for preparar mais iscas.

Colocação das iscas no campo

Dividir a área a ser cultivada com milho em diversos talhões e avaliar separadamente cada um deles (avaliação de uma única área não deve ser extrapolada para toda a propriedade). Em cada talhão são colocadas 10 iscas, dispostas em linha e cobrindo a extensão da maior diagonal do talhão. As iscas preparadas num dia deverão ser colocadas no campo naquele mesmo dia, sendo a avaliação realizada no dia seguinte ou dois dias após. É importante sinalizar com estacas ou varetas (Figura 2) o local onde foi deixada a isca, facilitando sua localização. Essas iscas deverão ser cobertas com palha, para tornar o ambiente mais propicio para a permanência dos percevejos atraídos. Amostras ”deixadas” por mais de dois dias no campo, já não são ”confiáveis” para esse tipo de avaliação. Durante a avaliação são contados os percevejos na amostra, ou simplesmente é verificada a presença ou não de percevejo em cada amostra (isca), anotando-se quantas amostras continham percevejos.

Danos e manejo do percevejo barriga-verde no trigo

Diferentemente do que ocorre com a cultura do milho, que é suscetível ao ataque da praga até o surgimento da 5ª / 6ª folha (± 15 dias da emergência), no trigo o percevejo barriga verde causa danos desde a emergência até a fase do espigamento (± 50 dias), conforme Tabela 2 (Chocorosqui, 2001).

No trigo é possível identificar quatro tipos de danos causados pelo percevejo, durante o processo de alimentação do inseto, que ao introduzir o estilete na base da planta, injeta saliva tóxica para facilitar a extração do alimento. Quando o estilete atinge o meristema apical da planta, causando danos severos, as folhas centrais chegam a secar, causando o sintoma típico denominado ”coração morto”. Um segundo dano observado, em decorrência da reação da planta aos distúrbios fisiológicos, é a produção exagerada de perfilhos, conferindo a planta aspecto de ”touceira”, sendo esses perfilhos geralmente improdutivos. O terceiro tipo de dano refere-se ao comprometimento da fenologia natural do trigo, havendo um atraso no ciclo da cultura, que varia entre 10 - 15 dias, com conseqüente desumiformidade na maturação das espigas, ocasionando perdas na colheita, seja quando a opção for pelo atraso na colheita, com riscos de ocorrer degrana e/ou germinação na espiga, ou quando da colheita na época normal, com conseqüente perda de qualidade, pela presença de grãos não plenamente maduros. O quarto tipo de dano observado, principalmente se o ataque da praga for mais tardio (emborrachamento - espigamento), é o surgimento de espigas não granadas (secas).

O manejo do percevejo poderá ser realizado mediante tratamento das sementes com os inseticidas do grupo dos neonicotinóides. No entanto, a proteção do cultivo não tem sido suficiente para o período total em que o percevejo é daninho, sendo por isso necessário que as vistorias na lavoura sejam realizadas até a fase do ”emborrachamento”. Se constatado nível populacional entre 2 - 3 percevejos por metro linear (média), nas entrelinhas do trigo, a pulverização com produtos específicos deverá ser recomendada, atendendo sempre os preceitos do receituário agronômico. Literatura citada

BIANCO, R. Pragas do milho e seu controle. In: A CULTURA DO MILHO NO PARANÁ. Circular 68. IAPAR 1991. pg. 187-221.

BIANCO, R. Ocorrência e Manejo de Pragas em Plantio Direto. In: Plantio Direto: o caminho para uma agricultura sustentável, Ricardo Trippia dos Guimarães Peixoto, Dirk Cláudio Ahrens e Michel Jorge Samaha, ed. Ponta Grossa, PR: IAPAR, PR / PG, 1997. pg 238-244.

CHOCOROSQUI, V. R. Bioecologia de Dichelops (Diceraeus) melacanthus (Dallas, 1851) (Homóptera: Pentatomidae), Danos e Controle em soja, milho e trigo no norte do Paraná. 2001. 160 p. Tese (Doutorado em Ciências) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR.

Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição número 89, setembro/outubro de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.