O milho nas condições de clima da região Noroeste do Rio Grande do Sul
Sérgio Schneider1 e Dirceu N. Gassen21Eng.Agr°; Gerente Técnico da Coopermil – Santa Rosa-RS; 2Eng.Agr°; Gerente Técnico da Cooplantio – Porto Alegre-RS
1. Introdução
A cultura do milho é importante no sistema de rotação com a da soja, para diminuir problemas com doenças, plantas daninhas e pragas. É a cultura com maior volume de palha para cobertura de solo sob plantio direto. Também é utilizada como estratégia de redução de azevém e outras plantas daninhas para cultivo de trigo ou cevada em sucessão.
A região Noroeste do Rio Grande do Sul já foi a capital nacional de suínos, com a produção local de milho. Ainda hoje é o grão básico para suínos e aves e silagem para bovinos de leite.
A tradição de semeadura antecipada, em julho e agosto, se mantém há décadas. Essa tendência de semear mais cedo se estabeleceu como estratégia para superar os riscos de períodos de estiagem e de calor que ocorrem em novembro e dezembro, fase de floração e de enchimento de grãos.
Com as mudanças na política agrícola e a redução gradativa do valor real do milho está sendo cada vez mais importante aumentar a produção por unidade de área e adotar estratégias para manter a rentabilidade da lavoura.
Nesse trabalho serão apresentadas informações sobre diferentes épocas de semeadura de milho, com base em pesquisa realizada no município de Santa Rosa, região Noroeste do Rio Grande do Sul e considerando aspectos de ciclo da cultura, fatores climáticos e rentabilidade.
2. Lei do milho
O potencial de produção genética do milho é muito superior aos melhores rendimentos constatados nas lavouras. Os resultados de experimentos conduzidos sob condições de lavoura atingem 9 t/ha, também muito acima dos rendimentos médios históricos de aproximadamente 4 t/ha, na Região Noroeste do Rio Grande do Sul.
O ambiente é fundamental para a expressão do potencial genético de elevados rendimentos de milho. A disponibilidade de água, a elevada radiação solar, e maiores amplitudes térmicas são componentes tão importantes quanto os aspectos técnicos na cultura do milho, podendo ser definidos como a ”lei do milho”.
A época de semeadura com o prognóstico de melhor produção pode ser estabelecido com base em informações históricas de clima e combinadas com práticas de manejo para superar fases adversas.
3. Práticas culturais
A participação do produtor na definição do potencial de produção na lavoura de milho é definida no primeiro mês de desenvolvimento da cultura. A ênfase na tecnologia de produção de milho deve ser concentrada na preparação do sulco de semeadura para garantir a germinação e ambiente para desenvolvimento de raízes, na população e distribuição uniforme de plantas, na nutrição equilibrada, na aplicação de nitrogênio para garantir o suprimento adequado do nutriente e nas práticas culturais combinando clima e sucessão de culturas.
A combinação da tecnologia de produção com as características regionais de clima, com as características genéticas de cada híbrido é necessária para estabelecer a estabilidade no rendimento de grãos de milho.
4. Fatores climáticos
Os fatores climáticos de maior relevância para o milho são a temperatura de solo, a disponibilidade de água, radiação solar e a amplitude térmica.
A combinação desses fatores climáticos resulta na projeção de expectativas de frustrações e no estabelecimento de elevados rendimentos de grãos.
Os fatores climáticos devem ser compreendidos e incorporados no planejamento das lavouras para a adoção de práticas culturais objetivando superar adversidades e auxiliar a planta na expressão do potencial de produção.
As informações sobre clima foram obtidas na Estação Meteorológica de Santa Rosa, pertencente à rede estadual meteorológica do Oitavo Distrito de Meteorologia.
Para embasar a discussão serão utilizadas informações sobre temperatura de solo, precipitação pluviométrica, radiação solar, temperatura do ar e amplitude térmica diária.
4.1. Temperatura de solo
O limiar de temperatura consagrado em publicações, para a germinação de milho é de 15 oC. As temperaturas de solo abaixo de 10 oC e acima de 42 oC prejudicam sensivelmente a germinação (Fancelli e Dourado-Neto, 2000).
As cultivares de milho disponíveis no mercado são adaptadas para semeadura sob com limiar de temperatura mínima de 10 ºC.
A temperatura de solo também determina a velocidade de emergência e desenvolvimento inicial das plantas. Sob temperaturas médias de solo de 15 ºC o processo de germinação ocorre entre 10 e 12 dias. Sob temperaturas médias acima de 25ºC, a germinação ocorre em 5 dias.
Períodos prolongados de exposição da semente e da plântula no solo, sob estresse de temperaturas baixas, aumentam a probabilidade de ataque de pragas e de patógenos. O desperdício de energia resulta em plântulas enfraquecidas, diminuindo o desenvolvimento de raízes e de crescimento da planta.
A temperatura média de solo na Região Noroeste do Rio Grande do Sul, com base em informações a partir de 1 de julho (Figura 1), não é limitante para a germinação de milho. Entretanto podem ocorrer períodos com temperaturas baixas, negativas, que impedem a germinação e até causam a morte de plantas se ocorrer o congelamento do ponto de crescimento.
As temperaturas mínimas médias de solos cobertos por grama e determinadas em estações meteorológicas (Figura 2) indicam níveis semelhantes aos de solo nu.
A partir de setembro constata-se diferenças com temperaturas máximas de solo. Os solos nus apresentam temperaturas médias máximas, maiores do que os solos cobertos por grama.
Não há informação disponível de temperatura de solos sob plantio direto, coberto de palha ou de vegetação. Mas se essas diferenças de temperatura média diária entre solo nu e coberto por grama (Figura 2), forem inferidas para plantio direto, continuam não sendo limitantes para a germinação e desenvolvimento de milho.
4.2. Temperatura do ar
As temperaturas médias da massa de ar afetam, diretamente, o crescimento das plantas de milho. Temperaturas abaixo de 10 oC paralizam o crescimento das plantas de milho.
A temperatura média considerada ideal para o desenvolvimento vegetativo de plantas de milho está em torno de 25 oC.
Estudos indicam que temperaturas médias diárias abaixo de 20 ºC reduzem a eficiência de conversão da energia solar interceptada em biomassa vegetal do milho .
Cada grau de temperatura média diária da massa de ar acima de 21,1 oC, até 60 dias depois da semeadura pode acelerar o florescimento até três dias (Fancelli e Dourado-Neto, 2000).
Plantas de milho germinadas em início de agosto terão temperaturas médias diárias inferiores a 20 ºC até o fim desse mês (Figura 3). Os resultados de experimentos indicam que intervalos de três semanas na data de semeadura de milho em julho e agosto resultam em menos de uma semana na data de maturação de colheita.
A semeadura em julho e agosto resulta em períodos prolongados de exposição da cultura do milho ao dano de pragas, doenças e maior competição de plantas daninhas.
A época mais adequada de semeadura para o crescimento vegetativo de plantas de milho, com base em temperaturas médias diárias, situa-se a partir de meados de agosto. Esse período, entretanto, apresenta o risco de elevado teor de umidade no solo e freqüentes precipitações que poderão comprometer a qualidade de semeadura ou retardar a data planejada.
A época ideal de semeadura de milho, com base em temperatura média da massa de ar é no início de setembro. Entretanto, a semeadura nesse período resulta na floração em fim de novembro e no início de dezembro, quando ocorrem estiagens, comprometendo a formação do grão e o potencial de produção.
A antecipação de semeadura para agosto resulta em maior risco no desenvolvimento inicial mas diminui a probabilidade de estiagem na floração e enchimento de grãos em novembro e dezembro.
As semeaduras a partir de meados de dezembro ocorrem sob temperaturas de solo e do ar adequadas para rápida germinação e maior velocidade de crescimento das plantas.
Híbridos com mesmo ciclo de desenvolvimento, semeados em agosto florescem aos 75 a 80 dias. Enquanto semeaduras em dezembro, resultam em florescimento aos 55 a 60 dias.
4.3. Temperatura noturna
O milho é uma espécie de elevado potencial de rendimento de grãos, que responde a combinação de temperaturas médias diurnas elevadas e temperaturas médias noturnas amenas.
As temperaturas médias noturnas acima de 24ºC aumentam taxa de respiração das plantas e o consumo de energia nas células, resultando em menor saldo de substâncias armazenadas para o enchimento de grãos.
As regiões de clima com maior potencial de rendimento de grãos de milho apresentam maior amplitude de variação entre as temperaturas do dia e da noite.
As regiões com temperaturas noturnas elevadas resultam em menor potencial de rendimento de milho.
O balanço positivo de energia produzida na fotossíntese durante o dia (temperaturas elevadas e tempo de insolação) e a respiração noturna determina o armazenamento de matéria seca e o potencial de enchimento dos grãos.
A semeadura em agosto, inicia com temperaturas médias noturnas baixas e aumento gradativo até atingir temperaturas acima de 24 ºC na fase de floração em novembro (Figura 4). A planta consome parte da energia armazenada no processo respiratório, reduzindo o enchimento de grãos.
Na semeadura em dezembro verifica-se a combinação inversa de temperaturas médias diurnas e noturnas (Figura 4). Ou seja, temperaturas diurnas e noturnas elevadas, rápido crescimento inicial, com maior produção de biomassa vegetal. A partir do florescimento, em fevereiro, com as temperaturas médias noturnas abaixo dos 24 ºC, resultando em respiração reduzida e máximo aproveitamento da energia para o enchimento dos grãos.
A combinação de temperaturas diurnas de aproximadamente 30 ºC e noturnas de 15 ºC são ideais para o máximo potencial de produção de milho.
4.4. Precipitação pluviométrica
A disponibilidade constante de água, sem encharcamento de solo, é fundamental em todo o ciclo da cultura. Nas fases de floração e de enchimento de grãos a disponibilidade de água é muito importante para garantir elevados potenciais de rendimento de grãos de milho.
Vários autores demonstraram que no período entre o pendoamento e a florescimento a falta de água por período de 10 dias poderá determinar até a perda total de produção.
No período que antecede ao pendoamento ao enchimento de grãos a necessidade diária de água varia entre 5 e 7 mm.
A precipitação média mensal no período entre 1976 e 1990 evidencia que o mês de dezembro apresenta a menor precipitação com 100 mm. As semeaduras em julho ou agosto resultam no florescimento em novembro, com chuvas abundantes, 175 mm.
A semeadura em setembro resulta no florescimento em dezembro, com maior risco de perdas na produção de grãos.
A semeadura no inverno apresenta o inconveniente de temperaturas baixas, retardando a germinação e o desenvolvimento vegetativo das plantas. A umidade elevada do solo, nesse período, resulta em dificuldades para a semeadura e o desenvolvimento de raízes.
A semeadura de milho no mês de dezembro, quando a temperatura do solo e do ar é mais elevada resulta em rápido crescimento inicial das plantas. A floração ocorrerá a partir de março quando as precipitações e a amplitude térmica são maiores.
4.5. Radiação solar
O tempo diário de radiação solar determina a taxa de crescimento da cultura, afetando diretamente o armazenamento de elementos para o enchimento de grãos de milho.
Os maiores períodos diários de radiação solar ocorrem no período entre novembro e fevereiro, com mais de 14 h diárias (Figura 6).
A semeadura de milho em julho ou agosto, com temperaturas baixas e radiação solar de 8 h em agosto e 10 h em setembro, limitam o desenvolvimento vegetativo inicial da cultura.
A semeadura em dezembro, quando há umidade adequada para a germinação, resulta em rápido desenvolvimento inicial das plantas por causa da temperatura e da radiação solar elevadas. Na seqüência dos meses de verão com maior produção de matéria seca estabelece maior potencial de produção de grãos de milho.
A estabilidade no rendimento de grãos e o potencial de produção, com base em fatores climáticos é maior na semeadura de dezembro do que na semeadura de fim de inverno.
5. Caracterização da época de semeadura
A cultura do milho pode ser semeada no inverno, principalmente em agosto ou no fim da primavera, em dezembro. As duas épocas apresentam características na condução da cultura de milho.
5.1. Semeadura de agosto
O clima no inverno, especialmente em agosto apresenta temperaturas e radiação solar baixas, reduzindo a velocidade de germinação e de crescimento inicial das plantas.
Nesse período a umidade de solo é desfavorável para a preparação e fechamento do sulco de semeadura. Em geral a semeadura é realizada sob condições de barro. Isso prejudica a germinação e o desenvolvimento inicial das plantas.
Estes fatores determinam taxa de crescimento inicial lenta, atrasando o desenvolvimento das plantas e retardando o florescimento, que sob condições normais ocorre em 75 a 80 dias da emergência, dependendo do ciclo do híbrido.
Depois do florescimento em novembro ocorrem temperaturas noturnas elevadas, maior radiação solar e menor disponibilidade de água. A combinação desses fatores resulta em menor tolerância da cultura ao estresse hídrico, causando secamento rápido de folhas e afetando drasticamente o potencial de produção.
5.2. Semeadura de dezembro
A semeadura em dezembro apresenta a combinação de fatores climáticos favoráveis. Temperaturas elevadas resultam em germinação rápida e intenso crescimento vegetativo.
Os períodos de maior radiação solar determinam maior armazenamento de elementos para o enchimento de grãos.
Estes fatores determinam taxa de crescimento inicial rápida, diminuindo consideravelmente o período para florescimento, o qual ocorre em 55 a 60 dias da emergência, de acordo com o ciclo do híbrido.
Nestes plantios constata-se maior (em torno de 20 cm) altura na inserção de espigas e 25 a 30 % maior índice de área foliar.
A partir do florescimento ocorre redução na temperatura noturna, reduzindo a respiração, menor radiação solar e aumento na disponibilidade de água. O conjunto destes fatores determina maior estabilidade da cultura em relação ao enchimento de grãos e menor estresse hídrico.
Nas lavouras e nos experimentos constata-se melhor desenvolvimento das plantas semeadas em dezembro, com melhor aparência visual na coloração das folhas.
O fator adverso da semeadura de dezembro é o risco de períodos de estiagem que podem afetar a germinação do milho.
6. Produção em relação à época de semeadura
A definição tradicional da época de semeadura de milho era determinada pelo risco de déficit hídrico em dezembro.
Associando os fatores climáticos acima discutidos, podemos traçar um gráfico do potencial e estabilidade de produção em relação à época de plantio.
Este gráfico é resultado da média de 5 anos de plantios quinzenais a partir de 15 de julho.
Observa-se que nos plantios de agosto o potencial produtivo não supera as 5 toneladas/ha, com pouca estabilidade de produção. Os fatores limitantes neste período são as baixas temperaturas e pouca radiação, determinando um índice foliar abaixo do desejado, e também baixa tolerância a estresse hídrico, normalmente ocorridos em final de novembro e dezembro.
Nos plantios de setembro a novembro o potencial produtivo é baixo, sendo o fator limitante a disponibilidade de água.
Nos plantios de dezembro a 10 de janeiro observa-se potencial produtivo acima de 6 toneladas/ha, com estabilidade, em função do somatório positivo dos fatores da lei do milho.
Plantios a partir de 15 de janeiro, comprometem o potencial produtivo, bem como aumentam as despesas operacionais, além de aumentarem os grãos ardidos, bem como a incidência de toxinas, que prejudicam a alimentação dos animais.
7. Rentabilidade econômica do milho em relação a época de plantio
Os plantios antecipados, final de julho a início de agosto, com híbridos super precoces, na maioria dos anos tem propiciado colheitas até 20 de janeiro, permitindo que o produtor faça um segundo plantio de verão. Esta prática tem sido adotada por grande número de produtores nos últimos anos.
Estudos atualizados em relação à rentabilidade líquida de duas safras de verão, comparado a uma safra com plantio em dezembro, levando em consideração os potenciais de produção e as despesas operacionais, demonstram que uma safra com plantio em dezembro tem receita líquida maior do que dois plantios. (quadro abaixo).
Considerando estes aspectos, sugere-se duas safras de verão, apenas na condição em que o primeiro plantio seja utilizado para produção de silagem de plantas ou silagem de grãos. Dessa forma, o segundo plantio realizado de 10 de dezembro a 10 de janeiro, período de melhor potencial de produção.
Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição número 89, setembro/outubro de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.