Debate Aponta Problemas na Safra 2005


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Publicado em: 01/10/2005

Debate aponta problemas na safra 2005

Na safra de 2004 a cultura do trigo foi castigada com severidade pelas manchas-foliares. Na época, a Revista Plantio Direto realizou um debate sobre o assunto que foi publicado na edição de dezembro do mesmo ano. Na ocasião foram destacados aspectos relacionados com a necessidade de rotação de culturas, sementes sadias e aplicação de fungicidas no início da ocorrência de doenças com o objetivo de manter maior área foliar verde.

Na safra de 2005 aumentaram as áreas de lavoura de trigo implantadas com melhor qualidade de semeadura e população uniforme de plantas. Porém, nesse ano surpreendeu a severidade de ataque da ferrugem-da-folha (Pucccinia triticina), combinado com dificuldade de controle com fungicidas. A ferrugem era considerada de controle relativamente fácil com o uso de fungicidas triazóis ou em misturas com estrobilurinas.

Para discutir o assunto, esclarecer dúvidas, definir estratégias para proteção mais eficiente de trigo e atender demandas de leitores da RPD, foram convidados alguns profissionais da pesquisa e da difusão de tecnologia para debater o assunto. A reunião ocorreu na Universidade de Passo Fundo, dia 21 de setembro de 2005 e teve a participação de Erlei M. Reis (Universidade de Passo Fundo), José Maurício Fernandes, Orozimbo Carvalho e João Nunes Maciel (Embrapa Trigo), Fernando Martins e Leandro Zanella (Cotrijal), Vanderlei Tonon e Anderson Solvalagem (Fundacep), Amarilis Barcelos (OR Sementes), Dirceu Gassen e Flávio Gassen (Cooplantio). Além dos presentes na reunião outras pessoas contribuíram com informações através de e-mails e telefonemas que ajudaram a alimentar as discussão com maior volume e diversidade de informações.

A ferrugem-da-folha

A ferrugem-da-folha dissemina pelo vento e sobrevive em plantas hospedeiras no intervalo entre cultivos de trigo. A disseminação ocorre pelo vento e a germinação dos esporos com períodos de 8 horas de molhamento (orvalho) na superfície das folhas. Em torno de 7 a 10 dias depois da penetração do tubo germinativo ocorre a esporulação da ferrugem, sintoma mais conhecido na lavoura.

Na safra de 2005 foram constatadas novas raças da ferrugem-da-folha, muito agressivas em algumas cultivares como o Ônix, Angico e BRS 194. Enquanto outras cultivares, como a Fundacep 30, tem mantido as características de resistência à todas as raças de ferrugem-da-folha.

Durante a reunião, nas decisões de controle de doenças de trigo percebeu-se a demanda de assistentes técnicos por maiores informações sobre a epidemiologia detalhada dos patógenos e o desenvolvimento da ferrugem por cultivar ou grupo de cultivares de trigo, o mecanismo detalhado de ação de cada fungicida e o momento de aplicação para a obtenção dos melhores resultados na proteção das plantas.

Cultivares que contém o gene LR34, de resistência de planta adulta, podem apresentar sintoma característico de necrose de ponta de folha, que não é causado por patógenos ou induzido por distúrbio nutricional.

Também foi mencionado que não há evidências de pesquisa sobre raças de ferrugens mais resistentes à ação de fungicidas.

Momento de aplicação

A definição de limear de dano econômico ou de momento da primeira aplicação de fungicidas ainda é um dificuldade constatada na assistência técnica. Depois dos problemas com a severidade de manchas-foliares em 2004 e com a ferrugem-da-folha em 2005, concluiu-se que as aplicações deveriam ter sido feitas com maior antecedência nas cultivares mais suscetíveis. O conhecimento sobre essa situação ocorreu depois da doença estabelecida e tarde demais para recuperar danos já causados nas lavouras.

Por isso, a aplicação de fungicida no início do desenvolvimento da ferrugem ou antes, nas cultivares mais suscetíveis, foi considerado mais importante do que aplicações freqüentes ou em doses maiores, depois que as doenças já estavam estabelecidas nas plantas.

As doses reduzidas de fungicidas também foram destacadas como fator que permitiu a reinfestação poucos dias depois da aplicação. Nas cultivares de trigo mais suscetíveis, depois de infestadas, é muito difícil o controle com o uso de fungicidas. Nesse caso as aplicações devem ser feitas com antecedência, buscando a manutenção de folhas verdes e livres do fungo, desde o início do desenvolvimento das plantas. A combinação das características de resistência de cada cultivar com a estratégia de aplicação de doses eficazes de fungicidas, também devem ser consideradas.

Foram constatados casos de fitotoxicidade de fungicidas com a adição de óleos, com necessidade de pesquisa para definição de parâmetros para maior eficiência dos produtos e menor impacto negativo sobre as plantas.

A combinação de dados obtidos em estações meteorológicas e a epidemiologia de patógenos por grupo de reação de cultivares de trigo foi considerada necessária para maior eficiência no controle de doenças. Os modelos matemáticos de previsão de desenvolvimento de doenças foram considerados eficientes, porém com deficiência de dados que deveriam ser gerados no campo e adotados por assistentes técnicos na tomada de decisão.

Tecnologia de aplicação

A tecnologia de aplicação de fungicidas apresenta limitações relacionadas com a penetração e circulação na planta e persistência. Evidencia-se a necessidade de melhor compreensão da biologia de patógenos (estabelecimento até a manifestação de sintomas visuais), conhecimento sobre a reação de cultivares para cada patógeno e mecanismo de ação de cada fungicida sobre cada patógeno, combinado com a prevalência de clima.

A qualidade de distribuição de fungicidas na superfície de todas as folhas continua sendo importante fator limitante na eficácia de proteção de plantas contra patógenos. Os melhores resultados tem sido evidenciados com aplicações sucessivas protegendo as camadas de folhas de acordo com o desenvolvimento das plantas. Ao impedir o estabelecimento de doenças na base da planta, facilita-se a proteção das folhas superiores de trigo.

Acoplar equipamentos para deslocar (abrir, curvar) as plantas e permitir a penetração da calda pulverizada nas camadas médias e basais das plantas foi citado como uma das demandas no desenvolvimento de equipamentos de aplicação de produtos fitossanitários.

Também evidencia-se a necessidade de proteção com maior ou menor freqüência de acordo com as características de cada cultivar.

Índice de área foliar

Na década de 1970, quando a meta era produzir 1,5 toneladas de trigo por hectare, a folha-bandeira foi considerada como referência para 80% de enchimento de grãos. Para lavouras com produções mais elevadas (60 sacos/ha) é necessário manter IAF de 3 a 4 para 1, ou seja, mais de 3 folhas verdes por colmo de trigo, com base em população de 300 espigas/m2.

A proteção dessa área foliar e o manejo adequado de fungicidas de acordo com as características de reação de cada grupo de cultivares é essencial para garantir o enchimento de grãos e rendimentos elevados.

VNAC

Além da incidência da ferrugem-da-folha foi constatada elevada freqüência do vírus do nanismo amarelo da cevada (VNAC), com aumento de incidência nos últimos dois anos. Essa virose é considerada importante fator limitante na produção de trigo.

Os pulgões do trigo são os vetores e podem transmitir e disseminar o VNAC nas lavouras de cereais de inverno. O VNAC causa a redução no crescimento das folhas (nanismo) e coloração amarelada ou avermelhada nas folhas. O vírus se desenvolve em tecido meristemático (tecido em formação), resultando em folhas jovens e outras partes da planta em desenvolvimento com sintomas cada vez mais acentuados. O tempo entre a inoculação e o aparecimento dos primeiros sintomas é de 4 semanas. A infestação na fase de afilhamento resulta em sintomas na folha bandeira e na espiga com deficiência no enchimento de grãos, enquanto as folhas velhas não mostram sintomas.

O tratamento de sementes com inseticidas eficientes para pulgões tem se destacado como estratégia importante para proteção de trigo contra VNAC.

Conclusões do debate

Os participantes consideraram importante a realização de reuniões para debater problemas que afetam diretamente a produção de lavouras e sugeriram a necessidade de antecipar o momento das discussões para aproveitar as informações, à tempo, para maior número de agricultores e assistentes técnicos.

Muito trigo pode estar sendo perdido por falta de informações novas ou atualizadas, como foi o caso da constatação de raças novas de ferrrugem-da-folha, muito agressivas em algumas cultivares amplamente semeadas no Sul do Brasil. Para evitar a perda há necessidade de sistemas de alerta para controle de doenças em trigo, com base em dados de pesquisa, à semelhança do consórcio da ferrugem-da-soja.

A seqüência de importância de problemas constatados em trigo na safra de 2005 citados na reunião pode ser assim ordenado:

1 - Constatação de novas raças de ferrugem que atacam algumas cultivares com maior severidade.

2 - Disponibilizar o conhecimento sobre modelos de desenvolvimento de ferrugens e manchas-foliares para cada cultivar de trigo.

3 - Conhecer o modo de ação de cada fungicida ou misturas, a relação de dose com persistência e combinar as características de resistência de cada cultivar com as de ação da dose de cada tipo de fungicida usado.

4 - Adotar práticas de aplicação mais eficientes na cobertura de folhas de trigo.

5 - Necessidade de alertas amplamente difundidos, semelhante ao elaborado pela OR Sementes, quando percebeu a presença de raças novas de ferrugem.

Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição número 89, setembro/outubro de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo - RS.