Bienal de Negócios da Agricultura - Desafios de uma nova visão do agronegócio brasileiro
Por Endil Tamara de Mello
”Inovar para superar desafios”. Este foi o slogan que caracterizou a programação da primeira Bienal de Negócios da Agricultura, realizada de 24 a 26 de agosto, pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), no Centro de Eventos do Pantanal, em Cuiabá (MT).Em meio à crise enfrentada pelo setor em função do clima, juros altos, preços baixos, o evento buscou encontrar a ”luz no fim do túnel” através de ferramentas como a informação e tecnologia. As diversas palestras focaram a importância do planejamento estratégico no agronegócio, visando agregar valor ao produto e ampliar os horizontes a fim de perceber oportunidades e ameaças no cenário mundial.
A pauta de discussões e debates contemplou cadeias produtivas que abrangem o segmento do agronegócio como a soja, algodão, arroz e safrinha. Além disso, a Bienal debateu temáticas imprescindíveis para consolidar o tão almejado desenvolvimento sustentável: legislação, certificação e responsabilidade ambiental. Ainda no leque de assuntos chamados alternativos, a Bienal trouxe pesquisadores para falar sobre bioenergia, mercado de carbono e reflorestamento, temas que chamaram a atenção do público composto por produtores, empresários, estudantes e profissionais da área.
O encerramento do evento teve a presença do ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Roberto Rodrigues, que instalou a Câmara Setorial do Algodão durante o evento.
Segundo a organização da Bienal, 4.095 pessoas participaram das palestras, feira e atrações. No total foram 155 palestrantes, 62 expositores e 50 palestras. ”Trouxemos os maiores especialistas e pesquisadores do País para fomentar este debate e mostrar suas experiências. Acho que o resultado foi satisfatório para o produtor, pois ele saiu com novo ânimo e mais disposição para continuar na atividade, buscando outras alternativas de sobrevivência para o seu negócio”, afirmou o presidente da Famato, Homero Pereira.
O que o agricultor precisa considerar para comercializar com eficiência
Produtividade, rentabilidade e responsabilidade formam o tripé bastante desafiador do agronegócio brasileiro. Ao lado desse desafio há uma série de fatores agindo contrariamente à conquista da eficiência na agricultura. Para o presidente do Instituto de Comércio e Negociações Internacionais (Ícone), Marcos Sawaya Jank, os maiores riscos do agronegócio são fundamentos macroeconômicos (câmbio e juros), aumento das barreiras não tarifárias (exportações de carne bovina), problemas de infra-estrutura (logística e armazenagem), negociações comerciais (acesso a mercados e redução de subsídios) e desrespeito a contratos e direitos da propriedade.
Apesar dos avanços obtidos na lavoura ao longo dos anos, Jank salientou que o produtor deve preocupar-se em reduzir custos e ter maior controle sobre os preços. ”As margens do negócio costumam ser baixas, voláteis, por isso, o produtor precisa ter uma gestão eficiente”, enfatizou.
Segundo o consultor, as intensas mudanças tecnológicas aumentam a seleção de produtores que se posicionam no mercado. O resultado deste efeito, chamado por ele de ”esteira rolante”, é uma maior competição e homogeneização dos sistemas produtivos. E neste sentido, o produtor necessita fazer um planejamento antes de entrar no processo de comercialização.
O foco da gestão eficiente está em otimizar rentabilidade e não produtividade. Essa visão definirá o lucro da produção. Jank explica que de nada adianta utilizar tecnologia para obter recordes de produção, sem ter rentabilidade. Ele reforça que a agricultura contratual requer coordenação das cadeias produtivas, visando competitividade sistêmica nos segmentos de grãos, carnes e lácteos.
”Da eficiência produtiva à comercialização lucrativa”. Este foi o painel apresentado por Jean–Yves Carfantan, consultor da Céleres. Ao destacar os importantes avanços da produção brasileira, ele mencionou que com a globalização o país precisa ampliar as negociações comerciais. Em sua visão, o Brasil é hoje um dos países mais prejudicados pelas barreiras protencionistas. Portanto, ”devemos ter uma abordagem mais agressiva em termos de marketing dos produtos do agronegócio”, evidenciou.
Segundo Carfantan, ainda prevalece em alguns setores do agronegócio nacional uma cultura de ”produtor de commodities”que solta foguete depois de embarcar o produto e ver o navio ir embora, sem se preocupar com a sequencia do processo.
Há uma mudança de foco no agronegócio, revelou Carfantan. Até o final da década de 80, as relações tradicionais de mercados entre os atores se davam em função da logística, redução de custos e otimização das operações. Atualmente, a diretriz que dita as regras de mercado é preservação ambiental e responsabilidade social. Conforme o consultor, em diversas partes do mundo, grandes redes de supermercados criaram alianças mercadológicas que visam padronizar produtos de qualidade, onde o diferencial está no respeito ao meio ambiente e na responsabilidade social. Neste aspecto, Carfantan ainda ressalta que as normas estabelecidas pela grande distribuição fazem com que os produtores adotem estratégias alicerçadas em três pilares: normas legais de produção, seguindo o padrão da União Européia, regime de legislação e normas estabelecidas pela distribuição de varejo.
”O Brasil está sendo foco de exigências no processo da cadeia produtiva e o país tem uma imagem de não preservar o meio ambiente”, constatou Carfantan, ao reforçar a urgência do país trabalhar seu marketing e o desafio de reduzir a distância entre produção e consumidores.
A postura de consumir produtos que representam consciência ecológica e social impõe novas formas de produção e comercialização ao agronegócio brasileiro. O consultor exemplifica que o consumidor não compra carne que seja procedente de uma fazenda que não respeita normas ambientais.
Para Jean–Yves Carfantan a partir de agora, conhecer os mercados lá fora, manter contato direto com os consumidores estrangeiros, dar marca aos produtos brasileiros e saber valorizá-los na hora da venda, vão ser imperativos essenciais para o crescimento do agronegócio e da renda dos empresários do setor.
Como participar do mercado de biodiesel
Há uma série de vantagens no mercado de fontes energéticas renováveis, especialmente, o biodiesel. Redução da poluição do ar, visto que há diminuição de 50% de emissões de monóxido de carbono, e, conseqüente redução de riscos à saúde e ao meio ambiente, o biodiesel representa uma oportunidade competitiva, uma vez que é apontado como alternativa para a substituição de combustíveis fósseis.
O professor de engenharia química, Donato Aranda, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, falou sobre o mercado de biodiesel na Bienal de Negócios da Agricultura. Ele explicou que o biodiesel é composto por carbono, hidrogênio e oxigênio, o que facilita a combustão. As principais matérias-primas são cana-de-açúcar e oleaginosas, como buriti, mamona, entre outras.
No Brasil, o biodiesel começou a ser desenvolvido em 1980. Atualmente, o país utiliza 40 bilhões de litros de diesel por ano. Em termos de importação o diesel pronto representa 6% do comércio exterior. De acordo com o professor, o governo federal lançou em 2004 o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel, momento em que se estabeleceram normas reguladoras do combustível.
Em nível mundial o consumo de biodiesel é significativo. Segundo o professor, a Europa consome 2 bilhões de litro/ano. ”Em contrapartida, o Brasil que é líder em produção de cana-de-açúcar não tem consumo expressivo”, comparou.
Por outro lado, há formas de alavancar o consumo e tornar o mercado mais atraente à medida que os produtores entenderem o processo de produção e comercialização do combustível. Conforme o professor, refinarias e distribuidoras são os ”filés” do mercado de biodiesel.
A partir de janeiro de 2008, as distribuidoras são obrigadas a adicionar 2% de biodiesel a 98% de diesel de petróleo. Com essa medida estima-se gerar 153 mil novos empregos. A projeção de aumento de consumo previsto para 2013 é de 2,6 bilhões de litros de biodiesel.
Mercado e estratégias para produzir arroz com eficiência
Reduzir custos e melhorar a qualidade do arroz foi a essência da palestra dirigida por Sílvia Helena Galvão de Miranda, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), na Bienal de Negócios da Agricultura. O exemplo do Rio Grande do Sul, maior produtor de arroz do Brasil, deve ser expandido para outros estados brasileiros, em especial, para o Mato Grosso.
Os desafios para um novo setor orizícola é ter visão de mercado, primando por desenvolvimento tecnológico, qualidade e redução nos custos de produção. No RS o arroz está sendo vendido em torno de R$ 17,00 a saca enquanto que o custo de produção é bastante alto podendo chegar a R$ 29,00. Diante deste cenário, a pesquisadora pontuou algumas estratégias para enfrentar os preços baixos, como: instrumentos de financiamento, comercialização e instrumentos para gerenciar riscos de preços e de produção.
Outro parâmetro importante para o produtor avaliar permanentemente é a legislação e classificação. ”O mercado está criando novos tipos e categorias para diferenciar o produto, agregando valor, como baixa umidade, por exemplo”, ressaltou Sílvia.
Ao longo do painel sobre o mercado de arroz, a pesquisadora fez um paralelo interessante, dizendo que num passado recente existia grande diferença entre a qualidade do arroz irrigado e de terras altas. Atualmente, reduziu essa diferença. Segundo Sílvia, o arroz de terras altas está competindo com o arroz do RS e de SC, o que permite aumento da concorrência.
Quanto aos incentivos para aumentar a qualidade do produto, a pesquisadora citou os seguintes indicadores: pagamento por menor teor de umidade e menor incidência de defeitos e licenciamento ambiental, como um desafio futuro para o setor orizícola.
Sucessão de culturas para melhorar a competitividade das culturas brasileiras
Pensar o sistema de produção em plantio direto (PD) como um todo. Esta foi a linha mestra da palestra do engenheiro agrônomo Nilvo Altmann (SLC Agrícola), na Bienal de Negócios da Agricultura. Da mesma forma que é importante pensar o sistema integrado, segundo ele, a rotação de culturas consolida-se como a base da sustentabilidade do plantio direto. Para Altmann, o equilíbrio de gramíneas, leguminosas e crucíferas é o que resultará o benefício de uma cultura em relação à outra.
”Temos que pensar em um sistema de produção com planejando adubação, seqüência da rotação e gerenciamento da propriedade como um todo, para se obter equipamentos adaptados e plantar com eficiência”, reiterou o engenheiro agrônomo.
Atingir avanços de produtividade já nos primeiros três anos de uso do plantio direto não deve ser o objetivo do produtor. Conforme Altmann, o plantio direto tem fases e nas fases inicial e intermediária deve-se esperar produtividades iguais. No entanto, na fase de consolidação do PD, pelos benefícios da rotação, certamente o agricultor terá ganhos significativos de produtividade em relação ao convencional.
Outro aspecto ressaltado pelo pesquisador refere-se ao pensamento do produtor que estava fazendo ”poupança” com plantio direto há vários anos, e de repente, revolve o solo e conclui que o plantio convencional produziu mais que o PD. ”Isso é uma inverdade, porque se ele fez uso da reserva adquirida através do sistema e, no ano em que mexeu, disponibilizou nutrientes para o solo. Nessa situação é claro que assim as plantas vão apresentar maior produtividade, mas no ano seguinte, a lavoura já não terá esses nutrientes disponíveis”, argumentou.
Transformando ameaças em oportunidades
O produtor precisa ter capacidade para transformar ameaças em oportunidades. Com esse propósito, Joel Hilleshein, da Fundação Mato Grosso (FMT) e José Henrique Abreu Rodrigues, do Grupo Guará, enfatizaram a gestão agrícola como ferramenta para reduzir custos de produção e aumentar a rentabilidade na Bienal de Negócios da Agricultura.
A visão de um surfista e de um produtor se assemelham no sentido de fazer um diagnóstico antes de entrar no mar ou iniciar uma nova safra. A analogia apontada por Rodrigues reforça a constante busca pelo conhecimento para aproveitar a melhor ”onda” e consolidar objetivos claramente definidos.
De acordo com Rodrigues, o que se vê hoje é uma crise de gerenciamento provocada por falta de escala, de liquidez, descapitalização, endividamento, falta de informação e de objetivos. ”Onde eu quero chegar? Quais os custos fixos que tenho? Qual a rentabilidade da empresa?”, questionou o técnico. A resposta é bom gerenciamento que significa ter objetivos claros; manejar informação produtiva e econômica da empresa; manejar o endividamento em relação à capacidade de pagamento. ”Para o empresário rural é importante planejar e controlar, além de ter uma equipe comprometida”, complementou.
O técnico da Fundação Mato Grosso conduziu seu painel na mesma direção, destacando que ”da porteira para dentro ainda temos que melhorar”, no sentido de usar as tecnologias corretamente para diminuir os custos de produção. O planejamento deve priorizar a fertilização e manejo do solo, através do sistema plantio direto, observar época de semeadura e avaliar a economia sob diferentes níveis de adubação. Ele ressaltou ainda que a questão de reduzir custos de produção também precisa ser responsabilidade dos recursos humanos envolvidos no processo produtivo.
Problemas de logística do agronegócio
A Bienal de Negócios da Agricultura discutiu os gargalos do agronegócio brasileiro através da palestra de Renato Casali Pavan, da Macrologística Consultoria, que também apontou alguns caminhos para solucionar o problema de infra-estrutura e logística.
No Rio Grande do Sul, de acordo com o consultor, há um gargalo ferroviário que poderia viabilizar o transporte de soja por ferrovia na região de Cruz Alta, Passo Fundo, cruzando todo o norte do estado até chegar ao Porto do Rio Grande. Entretanto, não se tem o transporte por ferrovia e por isso, acaba-se gastando o dobro com o uso de rodovias.
Em nível nacional um dos principais problemas apontados por Pavan é a falta de área física dos portos. ”Em Santos não dá para colocar mais soja”, exemplifica. Mas precisa-se de uma alternativa que é o porto de Cepetiba, localizado a 240 km de Santos, que é um porto moderno de fácil acesso a navios de alta capacidade. Para isso, necessita-se fazer o ferro-anel norte, uma vez que são apenas 66 km de ferrovia para ligar todo o Centro-Oeste.
Diante desses problemas, Pavan apresentou 17 projetos prioritários que totalizam um investimento de 4 bilhões e 300 milhões de dólares, sendo necessários 430 milhões por ano. Deste montante, um terço é de responsabilidade do poder público e o restante pode ser viabilizado na iniciativa privada.
Os gargalos existentes nos Estados Unidos e na Argentina são os portos. Pavan explicou que a nova navegação transoceânica usará navios maiores, pesando 120 mil toneladas. O problema é que esses países não podem usar o transporte porque não tem calado para os navios entrarem. ”Em contrapartida, no Brasil há dez portos que permitem acesso a navios de alta capacidade. Com isso, o país teria um ganho enorme na competição com os EUA e a Argentina”, enfatizou o consultor.
Vantagens da certificação ambiental
Desenvolver práticas de manejo visando a preservação ambiental é uma das preocupações do agronegócio. Para debater e enfatizar a importância do tema, a Bienal de Negócios da Agricultura realizou painel específico sobre meio ambiente. A palestra do membro do Instituto de Pesquisa da Amazônia (IPAM), Daniel Nepstad evidenciou a urgência de se ter uma agricultura diferente, que incorpore a responsabilidade e gestão ambiental de modo a efetivar o desenvolvimento sustentável do agronegócio brasileiro.
”Precisamos de soluções mais imediatas. Através de legalidade e certificação ambiental de propriedades, teremos a indicação de um bom desempenho frente ao mercado mundial”, conclamou Nepstad ao reforçar que esses critérios estão sendo amplamente discutidos e apoiados mundo afora.
A certificação ambiental oferece diversas vantagens para o produtor rural, além de maior acesso aos mercados, como; conservação da pesca e da biodiversidade, manutenção do clima regional, menores perdas com erosão, assoreamento, entre outras.
Um exemplo de ações de educação e pesquisa apresentado pelo pesquisador foi o plano de gestão ambiental realizado na Fazenda Tanguro, uma parceria entre o IPAM e o Grupo Maggi (MT). Recuperação de áreas de preservação permanente, retirada de represas e eliminação de fogo foram algumas medidas adotadas na fazenda.
De acordo com Nepstad, o sucesso da certificação ambiental depende da visão do produtor e do apoio da sociedade civil. O reconhecimento da certificação acontece dentro de dois anos, onde é estipulado carta de compromisso ambiental e feita visita do IPAM na propriedade rural.
O governo pode apoiar a certificação através do Sistema de Licenciamento Ambiental Único, que consiste numa licença emitida pela FEMA (Fundação Estadual do Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso) que é expedida à propriedade que encontra-se em situação regular quanto as áreas destinadas à preservação permanente (APP) e reserva legal (ARL).
Dados para Referências Bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição número 89, setembro/outubro de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.