Registros sobre os últimos 15 anos do plantio direto brasileiro
Dirceu GassenEngenheiro-agrônomo, gerente técnico da Cooplantio - Porto Alegre (RS) - E-mail: dirceu@agri.com.br
Aprodução brasileira de grãos evoluiu em fases distintas desde a década de 1960 com a ”operação tatu”, destacando a correção química de solos (calagem) e o terraceamento para reduzir a erosão.
Na década de 1970 estabeleceu-se a revolução-verde com a determinação de políticas governamentais de subsídios, a auto-suficiência na produção de trigo e a exportação de soja, com base nos preceitos da genética com cultivares mais produtivas. Nesse período cresceram as críticas de ambientalistas, destacando o impacto negativo da erosão de solos, contaminação de rios, uso exagerado de inseticidas e herbicidas, e desequilíbrios na natureza.
Na década de 1980, com base na experiência de agricultores inovadores se estabeleceram ações alternativas para reduzir as perdas de solo por erosão e para buscar a sustentabilidade na produção de grãos. Nessa época, com a formalização e estruturação legalizada dos Clubes Amigos da Terra, criou-se ambiente de debate e mudanças práticas para a solução de problemas sob plantio direto, seguido, posteriormente, pela estruturação da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha.
A necessidade de registro de informações práticas e de resultados de pesquisa relevantes para a solução de problemas resultou, em 1990, na criação do Jornal Plantio Direto, depois Revista Plantio Direto. Nesse artigo serão descritos alguns aspectos da evolução do plantio direto relacionados com a história de 15 anos de edições do mais importante órgão de divulgação de informações sobre plantio direto no Brasil.
Nesse período foram muitos os problemas levantados como empecilhos para a adoção do PD, destacando a fertilidade de solos, as pragas, as doenças, as plantas daninhas, a cobertura vegetal, a adubação-verde, o milho no sistema de produção, o suporte da pesquisa e a mudança de mentalidade do agricultor.
Fertilidade de solos
A cultura tradicional de arar o solo, de incorporar calcário para correção de pH e imobilização de alumínio tóxico foi assunto amplamente discutido e era ameaça para a continuidade do plantio direto. Pesquisas realizadas pela Fundação ABC, Embrapa, Fundacep e outras entidades, mostraram os parâmetros que deveriam ser considerados e a correção de solos passou a ser definida dentro do sistema sobre plantio direto.
Os solos com teores elevados de alumínio e deficientes em cálcio e magnésio ainda exigem a preparação prévia para então iniciar o PD. As aplicações de nutrientes para a manutenção e correção posteriores passaram a ser feitas na superfície do solo, em lavouras com boa fertilidade e equilibradas.
O aumento dos teores de material orgânico e da cobertura vegetal diversificada, com rotação de culturas, são desafios relevantes nas discussões sobre PD e continuam sendo demandas importantes para a sustentabilidade da agricultura.
Pragas
O plantio direto criou ambiente para restabelecimento de intensa atividade biológica no solo, existente em campos nativos. Com a cobertura de palha ocorreu o aumento populacional de espécies desconhecidas na agricultura. Também resultou no desenvolvimento de populações consumidoras de palha, de predadores, de parasitos e de microrganismos eficientes no controle biológico de pragas. Com isso, houve a necessidade de adotar estratégias seletivas de controle de pragas e a manutenção da fauna benéfica.
A ocorrência de pragas-de-solo teve atenção especial em determinados momentos da evolução do plantio direto e regiões, quando foi argumento para voltar a arar o solo, como alternativa de controle. Foram constatadas espécies e grupos de pragas com características locais de clima e de vegetação. Essas características de adaptação ao clima podem ser constatadas nas diferenças entre a fauna de solo do cerrado e a do Sul do Brasil.
Os corós apareceram no início da expansão de área sob PD. Logo, a identificação de espécies e a geração de informações sobre biologia, combinadas com alternativas eficientes de controle, resultaram em práticas de manejo e solução do problema. Inclusive foram identificadas espécies novas para a ciência. Outras espécies benéficas para a agricultura, que deixavam galerias e incorporam palha, sem causar danos em plantas, surgindo como símbolo da mudança da fauna benéfica sob plantio direto.
Por outro lado, espécies de corós também desenvolvem em áreas de preparo convencional, desvinculando a ocorrência de corós-praga exclusivamente ao plantio direto.
O tamanduá-da-soja foi outra praga que causou preocupação e no início teve até recomendação de aração como alternativa de controle, gerando muitos debates. A coincidência entre o ciclo biológico de um ano com disponibilidade de soja como alimento adequado na emergência dos adultos do tamanduá-da-soja resultaram em populações elevadas e danos severos em algumas regiões. A geração de informações sobre biologia, a rotação de soja com milho e outras estratégias eficientes de controle, combinadas com amostragem e monitoramento das populações resultaram em alternativas viáveis de manejo da praga.
O desenvolvimento esporádico de populações de lesmas, ratos e outras pragas ocasionais ainda demandam a geração de conhecimento sobre fatores de supressão natural e especialmente de agentes de controle biológico.
As pragas iniciais, que desenvolvem em plantas de cobertura ou em sucessão geram preocupação, mas podem ser manejadas aumentando o intervalo entre a dessecação e a semeadura e o uso de outras práticas de controle.
Doenças
As doenças de plantas sempre foram a maior ameaça à continuidade do PD. Especialmente as necrotróficas, transmitidas por sementes e mantidas nas lavouras sobre restos culturais da cultura o ano anterior.
Ainda existem conflitos de opinião entre pesquisadores que apresentam alternativas de solução dentro do sistema de produção sob PD e os que sugerem a alternativa de aração profunda do solo para controle de doenças. As razões apresentadas para controle de doenças com o revolvimento do solo conflitam com as evidências de campo, no Brasil e no exterior, de agricultores que conduzem suas lavouras sob plantio direto durante muitos anos.
Novas doenças como a ferrugem-asiática da soja apareceram nesse período, mas não tem relação com o PD, elas são biotróficas, sobrevivem em plantas vivas e são disseminadas pelo vento.
Os modelos de desenvolvimento de doenças com base em dados de clima e de incidência dos patógenos tendem a ser cada vez mais usados, com a geração de informações mais precisas em estações de aviso na lavoura.
Os patógenos que sobrevivem em restos culturais, podem ser ameaça para a lavoura sem rotação. O estímulo ao aumento de atividade biológica, a cobertura de solo com vegetação e a adoção de cultivares com características de resistência aos patógenos prevalentes em cada região, combinado com a rotação de culturas são estratégias importantes em lavouras para rendimentos elevados.
Adubação verde
A cobertura vegetal e adubação verde, com culturas de inverno ou no intervalo depois da colheita da cultura de verão, é uma prática muito importante, que sempre foi assunto de destaque, desde o início do plantio direto e necessita ter maiores informações sobre culturas economicamente viáveis.
A evolução das informações indica grande número de espécies possíveis de serem usadas e poucas adotadas em larga escala. No sul predominam a aveia-preta, o azevém e em menor escala o nabo-forrageiro. No cerrado predomina o milheto.
Ainda falta a conscientização sobre a importância da cobertura vegetal na qualidade química, física e biológica do solo e a necessidade de alternância de espécies vegetais para interromper a seleção de pragas, patógenos e plantas daninhas pelas sucessivas monoculturas.
A cobertura vegetal com plantas diferentes das lavouras usuais, como o nabo forrageiro na sucessão com trigo, soja e milho, pode ser importante estratégia para reduzir populações de pragas-de-solo (grilos, corós e cupins) e de patógenos necrotróficos. Esses efeitos necessitam de estudos mais detalhados.
Agricultores que percebem e quantificam aspectos químicos, físicos e biológicos de solos, com rotação de culturas e com a introdução de plantas para produção de biomassa, continuam firmemente no processo de sistemas de produção planejados para médio e longo prazos.
Milho
A cultura do milho é destacada como fundamental na alternância com soja, produzindo palha e raízes que melhoram ambiente para desenvolvimento de culturas de trigo em sistemas estáveis de produção.
A evolução de rendimentos com híbridos mais produtivos e plantas com arquitetura adaptada para espaçamentos menores entre fileiras, resultam em adoção mais ampla entre os agricultores que percebem a importância da adoção de sistemas de rotação e sucessão de culturas para elevados rendimentos e produções estáveis de grãos.
O milho é também importante no manejo de plantas daninhas, cortando o processo de seleção de resistência para herbicidas usados em soja e para diminuir a população de plantas daninhas em trigo no ano seguinte.
Plantas daninhas
Durante a década de 1990 o controle de plantas daninhas foi o assunto fitossanitário de maior demanda nas lavouras e amplamente coberto em treinamentos e em publicações. Os custos com herbicidas eram elevados e o limite entre a dose eficiente e a fitotoxicidade gerava freqüente insatisfação no controle de plantas daninhas ou o dano em plantas cultivadas.
A seleção de populações de plantas daninhas resistentes a herbicidas residuais ou pós-emergentes, destacando o leiteirinho e o picão-preto, criou maior demanda para a pesquisa em soja. Também, apareceram novas plantas daninhas de difícil controle como o saco-de-padre.
Com o desenvolvimento da soja RR na Argentina e a percepção da solução dos problemas com plantas daninhas resistentes ou de difícil controle o agricultor brasileiro passou a adotar as cultivares de soja denominadas transgênicas. Mas, apesar da polêmica criada, o agricultor adotou de forma generalizada as cultivares de soja RR.
Com o uso generalizado de glifosato nas lavouras de inverno e de verão, naturalmente, ocorre a seleção de populações resistentes e de espécies de plantas que toleram doses mais elevadas do herbicida. Já se constatam populações de azevém que toleram doses elevadas, selecionadas em lavouras com uso sucessivo de glifosato em doses reduzidas. Outras plantas, como a trapoeraba, que não era controlado com doses usadas para dessecação normal, sobrevivem e tendem a se estabelecer nas lavouras, exigindo novas estratégias de controle.
A dessecação e o controle de plantas daninhas em soja deixaram de ser assunto de reuniões ou preocupação maior em anos recentes. Por outro lado, há necessidade de pesquisa de monitoramente da dinâmica populacional de plantas daninhas, investimentos em novas alternativas de biotecnologia e de ingredientes ativos mais eficientes.
Custos e investimentos
Muito se falou sobre os custos iniciais para o PD e maior desembolso. Entretanto, os tratores grandes com motores cada vez mais potentes, necessários para a preparação de solos, deram lugar para tratores menores e para semeadoras mais eficientes. Percebe-se clara diferença na redução do custo de 2/3 no número de horas de uso de tratores e mesmo índice na redução de combustível fóssil não renovável (diesel). Essa diferença, com menor investimento em máquinas, em combustível e em mão-de-obra, permitiu a sobrevivência e a competitividade do agricultor nas fases de instabilidade nos últimos 15 anos.
Os custos indiretos de redução da erosão de solo em 96 %, comparado às perdas de aproximadamente 20 toneladas de solo por hectare todo o ano sob aração e gradagem, em geral, não foram quantificados e deveriam ser de conhecimento de outras áreas da economia e da sociedade, além da agricultura.
O debate sobre o crédito de carbono, atribuído ao aumento de teores de material orgânico no solo, foram motivo de reuniões, publicações e continua e processo de evolução buscando remunerar o agricultor que adota PD.
O agricultor que adota PD fez sua parte e pode afirmar com orgulho que participa com ações práticas e econômicas para atender as demandas da humanidade, relacionadas com ecologia.
A evolução da agricultura mundial e a competitividade na produção de alimentos exige do agricultor brasileiro, cada vez mais eficiência. A competitividade adquirida com o PD no passado exige novas estratégias de gestão rigorosa, combinadas com a rotação de culturas, sistemas de produção economicamente viáveis e material genético mais produtivo e resistente a pragas e doenças.
O posicionamento de mercado com a divulgação de benefícios do PD, claramente apresentados para a sociedade são necessidades cada vez maiores no mundo competitivo da produção de alimentos.
Semeadoras
No início da adoção do plantio direto a indústria de semeadoras foi grande diferencial para a viabilização do sistema. Houve conflito de interesses entre a indústria de tratores e de implementos de aração, gradagem e subsolagem de solos, com a florescente oportunidade comercial de semeadoras mais robustas para plantio direto.
Mas ainda permanecem problemas relacionados com a qualidade de preparação do sulco de semeadura, o fechamento insatisfatório do sulco e o posicionamento inadequado da semente para a germinação uniforme.
O desgaste rápido de discos, de sulcadores e de outras partes de contato com o solo, permanece como desafio que deve ser solucionado.
Na lavoura, a velocidade de semeadura e o processo de posicionamento das sementes e de preparação do ambiente para pleno desenvolvimento de raízes necessitam ser melhorados significativamente.
A preparação de sulco de semeadura com o posicionamento adequado da semente e de fertilizantes é uma das áreas que necessita de evolução significativa nos próximos anos.
Plantio direto e semear sem arar
Com a adoção do plantio direto houve significativa evolução no conhecimento sobre a atividade biológica de microrganismos, insetos, patógenos, material orgânico, carbono, adubação verde, mecanização e gestão de sistemas de produção para a sustentabilidade da produção de alimentos.
As afirmativas de maior impacto, às vezes constrangedoras, foram as que destacavam a mente (cabeça) do agricultor como fator mais importante para a adoção e o êxito do PD. A incorporação do sentido de sistemas de produção sustentáveis é a base desse êxito. Os problemas, as críticas e as dificuldades ocorrem quando se adota a prática de ”semear sem arar”, sem rotação de culturas, sem palha, sem raízes e se rotula como ”plantio direto”.
A produção econômica depende de constante evolução e produção com taxas crescentes todos os anos, combinada com práticas agrícolas ambientalmente aceitáveis.
A demanda por informações organizadas de forma prática e objetiva com o perfil de pensamento e aptidão natural do eng.-agr. Gilberto Borges resultou na criação do Jornal do Plantio Direto e diversos eventos direcionados a reunir informações técnicas relevantes para o desenvolvimento do PD no Brasil.
O veículo atendeu a esse objetivo e, ao completar 15 anos de atividades, colhe o conceito de referência de publicação independente e de credibilidade, sustentada em fundamentos de valor ético, buscando a confiança do agricultor e do profissional de assessoria técnica.
Nesse período, a Revista registrou a história e a evolução dos problemas e das soluções para as demandas em plantio direto, sendo uma das principais fontes de informação no segmento agrícola atualmente.
Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição número 89, setembro/outubro de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.