A missão do “Semeador”
Segundo Fernando Engler, engenheiro-agrônomo e produtor rural de Palotina (PR), a agricultura brasileira é a mais desenvolvida do planeta graças ao plantio direto. Para ele esta revolução do conhecimento, pacífica e silenciosa, que surgiu a pouco mais de trinta anos, possibilitou o cultivo dos solos tropicais de maneira sustentável e vai transformar o Brasil na maior potência mundial do agronegócio, sempre respeitando a natureza.”Isto não é novidade para a maioria dos agricultores e técnicos envolvidos com o agronegócio, mas é algo desconhecido para a população brasileira em geral. Nós somos extremamente eficientes dentro da propriedade, mas estamos deixando a sociedade desinformada sobre a importância do agronegócio para a vida das pessoas”, afirma Engler.De personalidade inquieta e um entusiasta do Sistema Plantio Direto, Fernando Engler escreve semanalmente no Jornal ”Gazeta de Palotina” abordando, numa seqüência cronológica, as principais questões da agricultura e do agronegócio brasileiro. Em uma de suas colunas Fernando fala do fundador da Revista Plantio Direto, engenheiro-agrônomo Gilberto Borges, falecido em 2002. Com autorização do autor reproduzimos nesta edição da Revista o texto intitulado ”A Missão do Semeador”.Aqueles que desejarem acompanhar o desenvolvimento da coluna semanal assinada por Fernando Engler, podem fazê-lo acessando: www.poop.com.br/colunas.php.
A missão do ”semeador”Fernando Oltramari Engler
Todo agricultor, pesquisador ou técnico que lida diariamente com o plantio direto possui uma história marcada por fatos e acontecimentos que o direcionaram a participar desta revolução do conhecimento humano, alguns de forma desordenada ou casual, mas na maioria das vezes com um ponto em comum, um elo que ligava as informações mais distantes a respeito do sistema e que possibilitava uma troca de informações preciosas e fundamentais para a perseverança em superar os desafios que a nova técnica exigia. Ser esse elo de ligação do conhecimento sobre o Sistema Plantio Direto era a missão do ”Semeador”.
Gilberto de Oliveira Borges, engenheiro agrônomo da primeira turma formada pela Faculdade de Agronomia da Universidade de Passo Fundo, no ano de 1971, envolveu-se com as causas e valores mais nobres da humanidade: ”a produção de alimentos com a preservação dos recursos naturais”. Seu primeiro contato com o plantio direto foi quando residia em Ponta Grossa; dizia-se ”contaminado” pelo sistema porque sempre foi ligado nas questões da conservação do solo e do meio ambiente, e acreditava que somente através do plantio direto este objetivo era plenamente alcançado, possibilitando a sustentabilidade da atividade agrícola.
Estando constantemente em contato com produtores e técnicos, Gilberto percebia a necessidade que todos sentiam de ter acesso às informações geradas pela pesquisa e também às experiências de produtores que já utilizavam o sistema em suas lavouras e resolviam de forma singular os problemas nas diversas regiões agrícolas brasileiras. De volta à terra natal, Passo Fundo, fundou em 1990, juntamente com o jornalista Ivaldino Tasca, amigo de longa data, o Jornal do Plantio Direto, idéia que alimentava há vários anos e que foi, de certa forma, a continuidade de um projeto piloto iniciado pela Fundação ABC, no Paraná.
Paralelamente à publicação do jornal, Gilberto promoveu inúmeros eventos técnicos sobre plantio direto, de pequeno, médio e grande porte, com o objetivo de levar a informação de forma direta a quem dela necessitava, possibilitando o contato entre produtores pioneiros e iniciantes, e também entre a pesquisa e o segmento da produção, gerando debates, levantando demandas, atualizando técnicos, motivando produtores e ajudando a impulsionar a adoção do plantio direto no Brasil.
Os eventos tiveram papel fundamental no processo de adoção do plantio direto e tornaram-se grandes fóruns de discussão sobre os problemas e soluções para o avanço do sistema. Muitas das promoções eram itinerantes e adaptadas a realidade de cada região, e os encontros, cursos e seminários eram um complemento para o trabalho do jornal. Através dos eventos era possível levantar as demandas reais e subsidiar a publicação de temas oportunos para cada momento da história do plantio direto; todos os projetos eram frutos da visão ampla que o ”Semeador” tinha da agricultura e, em especial, do plantio direto.
Esta constante troca de informações com produtores, pesquisadores e técnicos, de outros Estados, regiões e Países, além da crescente demanda pelos resultados de pesquisa, o motivaram a ampliar o volume do conteúdo do Jornal do Plantio Direto, transformando-o em revista. A partir de 1995, a Revista Plantio Direto foi mais um desafio que Gilberto Borges abraçou com o objetivo de ampliar seu trabalho de ”Semeador” da idéia do plantio direto na palha e da agricultura conservacionista em todo o Brasil, ele acreditava que uma publicação com abrangência nacional seria a ferramenta ideal para atingir todas as regiões agrícolas, levando informações técnicas e experiências práticas para quem necessitasse conhecer e adotar o plantio direto.
O ”Semeador” fazia tudo de forma descomprometida, nunca teve preocupação com os resultados que o trabalho traria para si próprio, sejam financeiros ou de reconhecimento público, suas ambições eram outras e, para muitos, impossíveis de compreender. Vibrava a cada levantamento da área total cultivada sob plantio direto no País; chocava-se com a visão de uma máquina lavrando ou gradeando; desagradava-lhe olhar um solo descoberto, exposto ao sol, à chuva e ao vento; achava irracional que, mesmo diante de uma opção tão coerente quanto o plantio direto, o agricultor ainda agredisse seu solo. Ao ter contato com situações assim, automaticamente, passava a pensar numa forma de levar o conhecimento e a motivação para que o Sistema Plantio Direto fosse adotado. Muitas vezes, impossibilitado de realizar seus projetos, buscava alternativas que suprissem, mesmo que de forma parcial, o objetivo proposto. Nunca deixou de colaborar ativamente com a evolução do plantio direto no Brasil, não somente para o aumento da área, mas, principalmente, para a qualidade das lavouras sob o sistema.
Gilberto tinha o dom da comunicação, sabia transformar qualquer informação em palavras claras e precisas; muitas vezes nem precisava falar para transmitir a sua forma de pensar, pois sabia buscar a opinião da pessoa certa para finalizar qualquer dúvida ou discussão. Em um evento técnico de plantio direto em Palotina, no ano de 1997, que foi relativamente fracassado em participação de público, mas que o deixou impressionado com a qualidade do que havia visto, ele simplesmente profetizou para mim: ”dê tempo ao tempo, mesmo as maiores avalanches possuem um início ínfimo e silencioso”. Menos de cinco anos depois, nossa região já estava com praticamente 100% das áreas em plantio direto.
Gilberto de Oliveira Borges, o homem dos eventos técnicos, que editou dezenas de livros ligados ao tema, que criou e estabeleceu o maior evento rural do Rio Grande do Sul, a Expodireto, e que fundou a estrutura mais importante de divulgação da agricultura sustentável no Brasil, a Revista Plantio Direto. Foi o ”Semeador” do sistema porque coletava o conhecimento e o dirigia às pessoas para as quais sabia que teria frutos, onde poderia coletar novas sementes e reiniciar o processo, proporcionando um intercâmbio de informações que agilizaram a difusão e a evolução do sistema, tornando-se um dos pilares de sustentação do Sistema Plantio Direto, esta revolução da agricultura tropical.
Infelizmente, o destino resolveu abreviar, tragicamente, a missão do amigo ”Semeador”, que partiu no dia 31 de agosto de 2002, durante um jogo de futebol na Associação dos Engenheiros Agrônomos de Passo Fundo, cercado de amigos. Talvez seu coração não tenha suportado as alegrias que seu trabalho lhe proporcionava e o peso da responsabilidade que carregava, ou, quem sabe, sua missão simplesmente já tivesse chegado ao fim. As cartas de condolências que choveram na Revista Plantio Direto de todos os lugares do planeta são uma prova irrefutável da importância que Gilberto teve na história do plantio direto.
Se hoje o Brasil é uma potência do agronegócio, temido pelos Países desenvolvidos e referência para os Países tropicais, muito disso se deve à missão do ”Semeador”. Só nos resta a eterna gratidão e o reconhecimento formal, concedendo a Gilberto de Oliveira Borges, o ”Semeador” do Sistema Plantio Direto, a comenda da Ordem do Mérito Nacional, em agradecimento pelo esforço em transformar a agricultura brasileira na mais eficiente e sustentável do planeta. Obrigado amigo Gilberto.