Produtividade do Feijoeiro sob Plantio Direto e Preparo Convencional em Sucessão


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Publicado em: 01/08/2005

Produtividade do feijoeiro sob plantio direto e preparo convencional em sucessão a milho-silagem e milho-grão

Luiz Adriano Maia Cordeiro1; Múcio Silva Reis2; Antônio Alberto da Silva3 e Ernani Luiz Agnes31Eng.-Agrônomo, Doutor pelo Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal de Viçosa, ex-Bolsista do CNPq, Paracatu, MG, 38600-000. ambiental@finom.org.br2Professor do Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal de Viçosa, Bolsista do CNPq, Viçosa, MG, 36571-000.3Professor do Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal de Viçosa,Viçosa, MG, 36571-000.

1. Introdução

Segundo BORÉM e CARNEIRO (1998), o feijão (Phaseolus vulgaris L.) é um dos mais importantes constituintes da dieta do brasileiro, por ser reconhecidamente uma excelente fonte protéica, além de possuir bom conteúdo de carboidratos e de ser rico em ferro. Os mesmos autores apontam o Brasil como o maior produtor mundial de feijão, e Minas Gerais como o segundo maior estado produtor, respondendo por 12% da produção nacional.

O preparo do solo pode, em geral, ser dividido em três categorias bem distintas: i) preparo primário do solo (aração e/ou escarificação): operações mais profundas e grosseiras; ii) preparo secundário do solo (gradagem, nivelamento): operações mais superficiais realizadas após o preparo primário; e, iii) cultivo do solo após plantio: manipulação do solo após a instalação da cultura (MAZUCHOWSKI e DERPSCH, 1984; DERPSCH et al., 1991).

Os principais motivos que levam à adoção de sistemas de preparo do solo são: nivelar o solo para a semeadura; eliminar camadas compactadas; aumentar a infiltração de água; aprofundar o desenvolvimento radicular; criar condições favoráveis para a colocação de sementes ou partes de plantas no solo permitindo boa germinação de sementes e emergência das plântulas, eliminar plantas daninhas pela destruição da parte aérea e raízes; e também para a incorporar corretivos e fertilizantes.

É bastante comum, no Brasil, o preparo intensivo do solo com arados e grades pesadas para o cultivo de feijão, seguindo-se, geralmente, de duas a três gradagens mais leves. Além disso, se faz uso do fogo, plantio ”morro à baixo”, ausência de práticas conservacionistas, associados ao monocultivo. Isto se procede, na maioria dos casos, para contornar problemas fitossanitários como fungos de solo, por exemplo, e viabilizar sucessivos cultivos de feijão. Entretanto, com isso, sintomas de acentuada degradação e sinais de erosão são evidentes em praticamente todos tipos de solo.

O plantio direto é um processo de semeadura em solo não revolvido, no qual a semente é colocada em sulcos ou covas, com largura e profundidade suficientes para obter adequados contato e cobertura da semente com a terra. De acordo com este conceito, o sistema plantio direto pressupõe três requisitos básicos: i) semeadura sobre restos de culturas anteriores (sem prévia destruição e incorporação ao solo); ii) não-movimentação do solo (exceto nos sulcos de semeadura, no máximo em 25-30% da superfície do solo); e, iii) emprego de herbicidas para controle de plantas daninhas. Em síntese, consiste numa seqüência de três operações fundamentais: i) colher e esparramar os restos da cultura; ii) pulverizar herbicidas; e iii) semear com equipamento especial (MAZUCHO WSKI e DERPSCH, 1984; MUZILLI, 1985).

Este sistema elimina as operações de aração, gradagens, escarificações e outros métodos convencionais de preparo do solo, e a semeadura deve ser realizada em solo coberto por uma camada residual da cultura anterior e/ou resíduos de plantas mortas por herbicidas dessecantes (MUZILLI, 1981).

Na região da Zona da Mata de Minas Gerais, o feijão é a cultura mais utilizada em rotação com o milho para a produção de grãos, também para a produção de silagem, devido à predominância da atividade leiteira em pequenas e médias propriedades rurais. Entretanto, devido às características geomorfológicas, com relevos declivosos e solos susceptíveis à erosão torna-se fundamental a adoção do plantio direto como sistema de produção que confira maior sustentabilidade técnica e econômica ao agronegócio desta região.

2. Objetivos

Os objetivos deste trabalho foram:

Avaliar a influência do tipo de preparo do solo (plantio direto e preparo convencional) sobre o rendimento de grãos de feijão;

Avaliar a influência do tipo de cultivo anterior de milho (milho-silagem e milho-grão) sobre o rendimento de grãos de feijão em sucessão, na região de Viçosa, Zona da Mata de Minas Gerais.

3. Material e métodos

O presente trabalho foi conduzido no Campus da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Viçosa-MG, na Área Experimental de Horticultura do Departamento de Fitotecnia, conhecida como ”Horta Nova”.

Os tratamentos experimentais deste experimento foram implantados sob delineamento em blocos casualizados com parcelas subdivididas e quatro repetições. As parcelas foram compostas de dois sistemas de manejo do solo (plantio direto e preparo convencional) e as subparcelas foram compostas por dois sistemas de cultivo de milho (produção de milho-grão e produção de milho-silagem).

As parcelas experimentais tiveram dimensões de 23 x 116 m (2.668 m2) e as subparcelas de 11,5 x 122 m (1.334 m2). Cada bloco de repetição teve 11,5 x 29 m (333,5 m2), sendo que área total do experimento foi de 5.336 m2.

Para a implantação da cultura do milho foi realizada a dessecação química das plantas daninhas através do herbicida glyphosate (3,0 L/ha) mais 2,4-D (1,0 L/ha), aplicado por meio de pulverizador tratorizado, na vazão de 200 L/ha, dez dias antes da semeadura. O preparo primário do solo para as parcelas sob preparo convencional foi realizado através de aração profunda (40 cm) com arado reversível de três discos. Após esta operação foram realizadas, com grade de discos tipo ”off-set”, duas gradagens no preparo secundário do solo para uniformização, destorroamento e nivelamento do terreno.

Após a colheita da cultura do milho-grão foi realizado o manejo dos restos culturais através de operações de tombamento de plantas. Posteriormente, foi realizado aplicação de herbicida dessecante em toda a área experimental na data de 30 de abril de 1999, com os seguintes produtos e respectivas dosagens: glyphosate (3,0 L/ha) e 2,4-D (1,0 L/ha) com pulverizador tratorizado na vazão de 200 L/ha.

O preparo convencional do solo foi realizado através de aração profunda (40 cm) com arado reversível de três discos. Após esta operação foram realizadas, com grade de discos tipo ”off-set”, duas gradagens no preparo secundário do solo para uniformização, destorroamento e nivelamento do terreno.

Para semeadura do feijão utilizou-se o cv. ‘PÉROLA’, variedade de hábito de crescimento indeterminado (entre os tipos II e III), porte semi-ereto e pertencente ao grupo comercial carioca. Esta operação foi realizada na data de 05 de maio de 1999, com semeadora-adubadora SEMEATO modelo SHM-1113, com espaçamento entre linhas de 0,45 m, tanto para as parcelas sob plantio direto como convencional. Esta cultura foi conduzida sob sistema de irrigação por aspersão, durante todo seu ciclo.

Foi realizada avaliação de produtividade da cultura do feijão, na primeira quinzena de setembro de 1999, no momento da colheita, através de seis amostragens por bloco para cada tratamento. A avaliação realizada foi o rendimento de grãos, através do peso seco de grãos em kg por metro linear de plantas a 13% umidade (convertido para kg/ha).

4. Resultados

Os resultados da análise de variância dos dados obtidos para o rendimento de grãos da cultura do feijão, no ano agrícola de 1999, estão apresentadas no Quadro 1.

Não ocorreu interação entre os fatores estudados, e sim, efeito isolado de tipo de manejo de solo e do tipo anterior de cultivo de milho sobre o rendimento de grãos de feijão em sucessão. Neste sentido, os tratamentos sob plantio direto obtiveram valores médios de produtividade significativamente superiores aqueles sob preparo convencional (Quadro 2).

Estes dados concordam com resultados obtidos por SÁ e MOLIN (1994), com o feijoeiro produzido sob sistema plantio direto na Região Centro-Sul do Paraná, com médias em torno de 2.200 a 2.400 kg/ha, chegando em alguns casos até a 4.000 kg/ha. Estes resultados são superiores aos obtidos sob preparo convencional.

A superioridade no rendimento de grãos da cultura do feijão sob sistema plantio direto foi comprovada em diversos outros trabalhos, como aqueles de Silveira e Silva (1996) em Goiânia-GO, Silva et al. (1996) no Sul de Minas Gerais e Stone e Moreira (1995), citados por ARAÚJO (1998). Em todos estes trabalhos os tratamentos sob plantio direto proporcionaram maior produção de grãos do que os tratamentos que envolviam revolvimento do solo com implementos mecânicos. Especificamente, na região de Viçosa-MG o mesmo autor cita Galvão et al. (1981), que obtiveram aumento de quase 25% na produtividade de feijão da ”seca” sob sistema plantio direto. Segundo estes autores, uma das possíveis causas desse aumento foi a maior conservação de umidade neste sistema.

Existem muitas evidências que levam a observação de aumentos de produtividade da maioria das culturas agrícolas quando conduzidas sob plantio direto, com mais de dois a três anos. Dentre estes fatores pode-se incluir: maior armazenamento e disponibilidade hídrica (efeito isolante da cobertura do solo, menor evaporação e aumento de microporosidade total), menores oscilações térmicas (menor incidência direta de raios solares), maior oferta de nutrientes na solução do solo, aumento dos teores de matéria orgânica, aumento na reciclagem de nutrientes, menor infestação de plantas daninhas e melhor crescimento radicular.

As produtividades máximas individuais alcançadas neste experimento (no tratamento plantio direto-milho-grão = 2.999 kg/ha) foram em torno de três vezes a produtividade média de feijão de inverno na região fisiográfica da Zona da Mata de Minas Gerais, entre os anos de 1991 a 1996, que ficou entre 1.040 kg/ha, segundo dados apresentados por SANTOS e BRAGA (1998).

Os valores superiores obtidos sob cultivo anterior de milho-grão deve-se, possivelmente, ao fato de que com a operação de ensilagem nos tratamentos de milho-silagem, normalmente, ocorre maior adensamento do solo, prejudicando o crescimento radicular de plantas sensíveis como o feijão.

A colheita foi realizada entre 14 e 25 de setembro de 1999, sendo considerada mais precoce. Os dados obtidos para o ciclo final da cultura do feijão variaram, portanto de 117 D.A.E. até 121 D.A.E. A média geral de ciclo foi 119,5 D.A.E.

5. Conclusão

Com base nos resultados obtidos, pode-se concluir que:

O tipo de preparo do solo influenciou isoladamente a produtividade de feijão (rendimento de grãos em kg/ha), sendo que nos tratamentos sob plantio direto foi significativamente superior;

O tipo de cultivo anterior de milho influenciou a produtividade do feijão (rendimento de grãos em kg/ha) em sucessão, sendo que nos tratamentos sob milho-grão foi significativamente superior; e,

Não ocorreu interação entre os fatores estudados.6. Referências Bibliográficas

ARAÚJO, G.A.A. Preparo do solo e plantio. In: VIEIRA, C., PAULA JÚNIOR, T.J., BORÉM, A. eds. Feijão: aspectos gerais e cultura no Estado de Minas Gerais. Viçosa: UFV, 1998. p.99-122.BORÉM, A., CARNEIRO, J.E.S. A Cultura. In: VIEIRA, C., PAULA JÚNIOR, T.J., BORÉM, A. eds. Feijão: aspectos gerais e cultura no Estado de Minas Gerais. Viçosa: UFV, 1998. p.13-17.DERPSCH, R., ROTH, C.H., SIDIRAS, N., et al. Controle da erosão no Paraná, Brasil: sistemas de cobertura do solo, Plantio Direto e preparo conservacionista do solo. TZ-Verag, Rossdorf: Deutsche Gesellschaft für Technische Zusammenarbeit (GTZ) Gmbh/IAPAR, 1991. 272 p. (Sonderpublikation der GTZ, n. 245)MAZUCHOWSKI, J.Z., DERPSCH, R. Guia de preparo do solo para culturas anuais mecanizadas. Curitiba: ACARPA, 1984. 68 p.MUZILLI, O. Princípios e perspectivas de expansão. In: FUNDAÇÃO INSTITUTO AGRONÔMICO DO PARANÁ. Plantio direto no Estado do Paraná. Londrina, 1981. p. 11-17. (IAPAR. Circular, 23)MUZILLI, O. O plantio direto no Brasil. In: FANCELLI, A.L., coord. Atualização em plantio direto. Campinas: Fundação Cargill, 1985. p.3-16.SÁ, J.C.M., MOLIN, R. Manejo do solo e rotação de culturas na lavoura de feijão. Revista Batavo. Carambeí, Castro, PR, ano 3, n. 34, 1994. p. 21-27.SANTOS, M.L., BRAGA, M.J. Aspectos econômicos. In: VIEIRA, C., PAULA JÚNIOR, T.J., BORÉM, A. eds. Feijão: aspectos gerais e cultura no Estado de Minas Gerais. Viçosa: UFV, 1998. p.19-54.

Dados para referências bibliograficas:Revista Plantio Direto, edição nº 88, julho/agosto de 2005. Aldeia Norte Editora : Passo Fundo-RS