Características da cultura do girassol e sua inserção em sistemas de cultivos no Brasil
Osvaldo Vasconcellos VieiraEngenheiro Agrônomo, Doutorando UFPR; Embrapa Soja, Rod. Carlos João Strass, acesso Orlando Amaral,Cx. Postal 231, 86001-970, Londrina, PR; osvaldo@cnpso.embrapa.br
Introdução
O girassol (Helianthus annuus L.) destaca-se como a quinta oleaginosa em produção de grãos com estimativas de produção de 25,23 milhões de toneladas em abril de 2005, e a quarta em produção de óleo (8,78 milhões de toneladas) no mundo, (USDA, 2005). Os maiores produtores mundiais, com base na safra 2003/2004, são Rússia, Ucrânia, Argentina, China e Índia (USDA, 2004).De acordo com Pouzet & Delpancke (2000), nos últimos 20 anos, a produção mundial de girassol vem crescendo 1,8% ao ano, enquanto a canola e a soja apresentam uma taxa média de crescimento de 4% ao ano. O baixo rendimento médio mundial da cultura, 1170 kg/ha, é apontado como sendo um dos fatores que têm desestimulado o produtor, pois os custos de produção tem aumentado.O Brasil é um produtor pouco expressivo de girassol, tendo participado com aproximadamente 0,5% da produção mundial nos últimos dois anos. Verifica-se, no entanto, que a produção nacional cresceu 930% em seis anos, passando de 15,8 mil toneladas em 1998 para 147 mil toneladas em 2004, acompanhando o crescimento do consumo interno, com substituição progressiva das importações (USDA, 2004). O interesse e o aumento do cultivo do girassol no Brasil ocorreu, principalmente, pelo surgimento de indústrias interessadas em adquirir o produto e pela necessidade dos agricultores por novas opções de cultivo, amparados pelos resultados de pesquisa e pelas tecnologias geradas na década de 1990.Entre os óleos vegetais comestíveis, o óleo de girassol é aquele que apresenta o maior teor percentual de ácidos graxos poli-insaturados, principalmente o ácido linoléico. O ácido linoléico é essencial ao organismo humano e não é sintetizado pelo corpo e portanto, deve ser ingerido através dos alimentos (Mandarino, 1992). O consumo de óleo de girassol favorece a redução do colesterol plasmático total e da fração LDL (lipoproteínas de baixa densidade) o que contribui para a prevenção da aterosclerose e dos problemas cardiovasculares (British Nutrition Foundation, 1994).Além da utilização do óleo de girassol para alimentação humana, ele pode ser utilizado nas indústrias farmacêutica, de cosméticos, de tintas e de limpeza. O girassol pode ser utilizado na forma de sementes torradas como aperitivo, na composição de barras de cereais, biscoitos, papas de bebês, alimento de pássaros, ração para cães e gatos, alimentação animal na forma de silagem ou farelo, adubação verde, biodiesel, além de que, as suas cascas podem ser prensadas na forma de aglomerado para a indústria de móveis e o caule pode ser utilizado na construção civil como isolante térmico e acústico. Nos países eslavos, as sementes de girassol são torradas e moídas e utilizadas como sucedâneo do café. A sua utilização na área de floricultura pode ser ampliada com a criação de girassóis coloridos. A multiplicidade de uso tem contribuído para o aumento crescente da demanda por informações (Vrânceanu, 1974 ; Pelegrini, 1985).A produção de girassol concentra-se nos Estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul (Região Centro-Oeste) e Rio Grande do Sul. No Centro-Oeste, o crescimento da cultura em termos de área foi de 3,1% ao ano, no período de 1999 a 2004 (Lazzarotto, 2004, comunicação pessoal). No Brasil o girassol é semeado em ”janelas de cultivo” principalmente na safrinha (fevereiro), no Centro Oeste, norte do Paraná, Minas Gerais e São Paulo. No Rio Grande do Sul, a semeadura ocorre de julho a setembro. No Paraná e São Paulo, a semeadura do girassol pode ser realizada também nos meses de agosto a outubro (Castro et al., 1996) . Em levantamento realizado por Vieira & Oliveira em 2002 (dados não publicados) com 143 produtores da região Centro-Oeste, abrangendo os Estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul nas safras de 2000, 2001 e 2002 observou-se um decréscimo de produtividade quando a semeadura do girassol ocorreu após o mês de fevereiro (Figura 1).
Densidade de semeadura e preparo do solo
O girassol apresenta uma plasticidade quanto à densidade de plantas. Isto explica porque a distribuição de fotoassimilados para as sementes não é reduzida por aumentos de densidade, como ocorre em milho (Vega & Andrade, 2000). Por outro lado, ao reduzir a densidade no intervalo de 70 mil para 30 a 35 mil plantas ha-1, o menor número de grãos por unidade de superfície pode ser parcialmente compensado por um peso maior de grãos (Aguirrezábal et al., 1996). Logo, o rendimento do girassol responde pouco a densidade em determinada amplitude de variação. A densidade deveria ser aumentada em ambientes muito produtivos (irrigado e alto nível de fertilidade) e quando se utiliza genótipos de escassa plasticidade reprodutiva (Vega & Andrade, 2000). Por outro lado, em ano com condições de restrições hídricas, num experimento com populações de 30, 45, 60, 75 e 90 mil plantas ha-1 e espaçamento entre fileiras de 0,50m, 0,70m e 0,90m, Silveira et al., (2003) observaram que espaçamentos entre fileiras de 0,50 e 0,70m apresentaram tendência de menor rendimento de grãos à medida que se aumentou o número de plantas por área. Na Argentina, em semeadura direta, tem-se utilizado preferencialmente espaçamentos de 0,70m, principalmente quando se cultiva genótipos de ciclo precoce (Aguirrezábal & Andrade, 2002). No Brasil, a densidade de girassol recomendada pela pesquisa é de 40 a 45 mil plantas ha-1 com espaçamento entre linhas de 0,70 a 0,90 metros. A profundidade de semeadura deve ser de 3 a 4cm (Castro et al., 1996). Em semeadura direta, tem-se observado melhor uniformidade da lavoura quando se utiliza facão de corte.O solo deve apresentar boa aeração e umidade, pois o girassol é sensível a compactação (Figura 2) e excesso de água. Em unidades de observação conduzidas pela Embrapa Soja em Uruguaina(RS), em áreas de cultivo de arroz, foi observado a sensibilidade do girassol em relação a solos com deficiência de drenagem. As plantas não se desenvolveram e a produção foi comprometida. O pH (CaCl2 ) ideal para cultura é acima de 5,2. Solos com pH inferior a 5,2 o crescimento fica prejudicado e as plantas apresentam-se pequenas, rígidas, com folhas cloróticas e o sistema radicular pouco desenvolvido (Castiglioni et al., 1997). Blamey et al., (1986) afirmam que, na presença de alumínio tóxico, as raízes das plantas do girassol são severamente reduzidas, ocorrendo a perda da dominância apical. A redução das raízes provocado pela presença de Al+++ favorece o acamamento, devido a deficiência do sistema radicular em comparação com o porte da planta, além de diminuir a superfície de absorção de nutrientes e água. A adubação deve ser conforme a recomendação da análise do solo, observando-se a produtividade do cultivo anterior. Recomenda-se, como adubação de manutenção, 40 a 60 kg ha-1 de nitrogênio, 40 a 80 kg ha-1 de P2O5 e 40 a 80 kg ha-1 de K2O (Castro et al., 1996). A adubação com boro deve ser realizada com critério, pois resultados indicam que, em solo classificado como Latossolo vermelho distroférrico, com teores acima de 0,21 de B ha-1 , não deverá ser recomendada a aplicação de boro em girassol (Castro & Brighenti, 2003).
Uma prática viável e de fácil adoção é a utilização do herbicida em dessecação associado com fontes de boro, mas deve-se sempre lembrar que a umidade do solo afeta a disponibilidade de B mais do que qualquer nutriente. A quantidade reduzida de solução do solo e a consequente redução do fluxo de massa, assim como o limitado fluxo transpiratório durante o período seco, podem ser fatores determinantes do baixo teor de boro nos grãos, apesar do fornecimento desse nutriente no solo (Brighenti et al.,2003).Áreas com histórico de nematóides de galha e percevejo castanho não são recomendadas para semeadura de girassol.Uma boa regulagem na colhedora no momento da colheita da cultura que anteceder ao girassol evitará perdas na colheita além de minimizar a competição das plantas voluntárias que surgirão com a lavoura do girassol, principalmente nos primeiros 30 dias período crítico para o girassol. É fundamental uma boa regulagem no picador da colhedora para que a distribuição da palhada ocorra de forma uniforme.
Doenças do girassol
O girassol como opção econômica para compor sistemas de produção, exige produtividade estável e isto passa necessariamente pelo manejo das diversas doenças que atacam a cultura. Ampla revisão foi realizada sobre o tema por Leite (1997), mas cabe destacar duas das principais doenças que atacam o girassol no Brasil.A mancha de Alternaria (Alternaria helianthi) ocorre em praticamente todas as regiões e em todas as épocas de semeadura. Os danos causados pela doença podem ser atribuídos à diminuição da área fotossintética da planta, devido à formação de manchas foliares e à desfolha precoce, resultando na redução do diâmetro dos capítulos, do número de aquênios por capítulo, do peso de 1000 sementes e do teor de óleo. O girassol é suscetível à mancha de Alternaria durante todos os estádios de desenvolvimento da planta e esta doença avança das folhas mais baixas para as folhas do ponteiro. As infecções mais severas ocorrem em estádios mais avançados do desenvolvimento da planta. Alta umidade relativa e temperatura entre 25 ºC a 30ºC favorecem a doença (Leite, 1997).Como controle desta doença, Fernández (2002) propõe medidas culturais como a rotação de culturas, controle de hospedeiros intermediários (plantas daninhas) e semeadura na época recomendada para região.Outra importante doença que ocorre no girassol é o mofo branco ou podridão branca (Sclerotinia sclerotiorum). O fungo é polífago, tendo como hospedeiros plantas de 75 famílias, 278 gêneros e 408 espécies. Entre eles, destacam-se soja, girassol, canola, ervilha, feijão, alfafa, fumo, tomate e batata. Em condições de umidade relativa acima de 70%, e temperatura ao redor de 20ºC, os apotécios liberam os ascósporos, que são os responsáveis pela infecção da parte aérea das plantas. O fungo invade os tecidos e provoca o seu apodrecimento. O micélio desenvolve-se sobre substrato formado por tecidos mortos ou senescentes. A temperatura ótima para o desenvolvimento do micélio situa-se entre 18ºC e 25ºC (Leite, 2005).O controle mais efetivo desta doença é realizado por práticas culturais, dentre delas o uso de sementes certificadas com procedência conhecida e certificação fitossanitária. A rotação de culturas é fundamental, evitando o cultivo em sucessão com soja, girassol, canola, ervilha, feijão, alfafa, fumo, tomate e batata. Retornar na mesma área somente após, pelo menos, quatro anos. A intercalação com culturas resistentes a esse fungo, como gramíneas (como milho, aveia branca ou trigo), serve para dar um tempo para a degradação natural dos escleródios por meio de seus inimigos naturais. A época de semeadura recomendada pela pesquisa busca evitar a ocorrência de períodos de baixas temperaturas na época de florescimento (Leite, 2005).Em lavouras irrigadas com pivô central, Leite (2005) recomenda que diminua-se ao máximo as irrigações durante a floração. É conveniente escolher menores densidades de semeadura e espaçamentos maiores. Deve-se evitar adubações excessivas de nitrogênio, o que pode tornar os tecidos mais suscetíveis ao fungo.
Fenologia da planta e colheita
Pode-se dividir o ciclo do girassol em 4 fases distintas: germinação/emergência, crescimento/florescimento, enchimento de grãos e maturação/colheita.Os problemas que ocorrem na fase de germinação/emergência levam à desuniformidade no desenvolvimento das plantas que perduram até a colheita. O período de germinação/emergência deve ocorrer o mais rápido e uniforme possível. Este é o período que determina o número de plantas por área, e conseqüentemente número de capítulos potenciais por àrea. A ocorrência de plantas daninhas na fase inicial de desenvolvimento do girassol pode provocar perdas entre 20 a 75% do rendimento de aquênios (Chubb e Friesen, 1985; Fernandez, 1987; Constantim, 1994; Vidal e Merotto Jr., 2001, citados por Adegas, 2005). A cultura deverá ser mantida no limpo até os 30 primeiros dias, pois Rodrigues, (2002) concluiu que para obter 97,5% do rendimento máximo, são necessários períodos de 21 a 30 dias iniciais livre de plantas daninhas. Para o controle de plantas daninhas, atualmente apenas dois herbicidas estão registrados para a cultura do girassol (trifluralin e o alachlor). Assim, a estratégia de controle de plantas daninhas deve incluir medidas de manejo integrado (Adegas, 2005). É de suma importância a compra de sementes certificadas de origem conhecida Mesmo assim, o produtor deve analisar estas sementes antes da semeadura, pois como o teor de óleo das sementes de girassol é alto, a sua deterioração por problemas de armazenamento pode ocorrer.Na fase crescimento/florescimento é que a cultura define o número de folhas por planta e a duração deste período depende do genótipo, da temperatura e da disponibilidade de água. A intensidade de absorção de água e nutrientes intensifica à medida em que avança o crescimento, sendo que, o período mais crítico ocorre de sete a dez dias antes do início do florescimento (R4). Altas temperaturas e estresse hídrico levam a antecipação da floração reduzindo o ciclo das plantas (Castiglioni et al., 1997). Deste período até o final do enchimento de grãos deve-se ter cuidados com o ataque de pragas como Diabrótica speciosa (vaquinha), principalmente nos primeiros 30 dias, as lagartas Spodoptera frugiperda, Rachiplusia nu e Chlosyne lacinia saundersii e os percevejos Nezara viridula e Euchistus hero. Na fase de florescimento, a cultura define o número de flores e frutos potenciais. Nessa fase, também ocorre um crescimento rápido de folhas e talos, gerando 95% da área foliar máxima. Esta determina a capacidade de captação de radiação foliar. No período, são acumuladas reservas de carbono e nitrogênio nos órgão vegetativos e nos capítulos que, durante o enchimento dos grãos, será de grande importância para manter a taxa de acumulação de peso seco e óleo nas sementes (Uhart, et al., 2000). A duração do florescimento depende, principalmente do genótipo e oscila de 10 a 15 dias. Temperaturas baixas, tempo nublado e úmido prorrogam o florescimento, enquanto temperaturas altas e tempo seco aceleram o florescimento e, ocasionalmente, dificultam a polinização (Castiglioni et al., 1997). Nesta fase é de suma importância o cuidado no controle de pragas, principalmente lagartas e percevejos. Deve-se ter o máximo de cuidado na utilização de produtos seletivos a abelhas. Para a produtividade, esta é a fase mais determinante, com a absorção mais intensa de água e nutrientes. A pouca disponibilidade de água, nutrientes e agentes polinizadores ocasionam má fecundação e, conseqüentemente, redução no rendimento.No enchimento de grãos, a cultura finaliza a expansão foliar, determina a fixação de frutos, seu peso, a concentração e qualidade de óleo. É o período no qual a cultura define o número de aquênios por área, principal componente do rendimento.O peso dos aquênios (de alto custo energético devido a sua alta concentração de óleo – 50% - e de proteína -20% - respectivamente, 2,3 e 1,7 vezes mais caros energeticamente que o amido) estão diretamente associados com a produção de assimilados durante esta fase (Uhart, et al., 2000), processo que depende de área foliar verde que o cultivo pode manter, das condições ambientais e das reservas que a planta acumulou na fase de pré-antese. A área foliar verde durante a fase de enchimento de grãos está altamente associado com o peso e conteúdo de óleo na semente. Restrições na disponibilidade hídrica, nutricional (principalmente nitrogênio), baixa radiação solar e, altas temperaturas, podem reduzir a fixação de grãos, o acúmulo de peso, a concentração de óleo e qualidade do mesmo (Connor & Hall, 1997).O período da maturação à colheita caracteriza-se pela perda de água nos aquênios. Em função disso, a sua duração (20 aos 30 dias) depende da velocidade de perda de água que, por sua vez, está relacionada com as condições climáticas e com o genótipo. Os genótipos com capítulo de espessura reduzida apresentam maior facilidade para perder água. Na produção de girassol, é desejável que esta fase ocorra o mais rápido possível para minimizar perdas pelo ataque de pássaros, eventuais doenças e acamamento. Assim, é imprescindível que se escolha a época adequada de semeadura, fazendo coincidir o período da maturação a colheita com temperaturas altas, tempo seco e umidade relativa baixa (Castiglioni et al., 1997) .A colheita de girassol deve ser realizada quando a umidade dos aquênios estiver entre 14 a 18% (Balla, et al., 1997). Colhendo-se os grãos com baixo teor de umidade (inferior à 10%), há o risco de incêndio na colhedora. Deve-se considerar, também, a umidade da parte vegetativa que, com valores altos (45 a 47%), ocasionam um grau de impureza não desejável durante a colheita.
Tolerância do girassol à geada e à seca
Uma das características interessantes que facilitam a utilização do girassol na composição de sistemas de produção é a sua tolerância a seca, altas temperaturas e as geadas (Vrânceanu, 1977; Gaudêncio et al., 1993).A diferença na arquitetura da raiz do girassol em comparação com o sistema radicular do milho e da soja explica as diferenças da capacidade de exploração do solo. Isto permite que, em situações similares de seca e em estádios similares de desenvolvimento, o girassol seja o cultivo que demora mais para apresentar os sintomas de murcha. O crescimento longitudinal do sistema radicular do girassol é rápido em comparação com o desenvolvimento da parte aérea. Em condições desfavoráveis, as raízes podem alcançar profundidades maiores que 3 metros. A raiz do girassol é capaz de adaptar-se ao nível da água do solo, pela modificação da pressão osmótica. Para um conteúdo de água do solo de 80% de sua capacidade de retenção, a pressão osmótica das raízes e folhas é de 0,14 a 0,16, e com o conteúdo de água de 30%, a pressão osmótica é de 0,41 a 0,45 (Vrânceanu, 1977).A resistência do girassol a seca, no entanto não se explica somente pela capacidade de seu sistema radicular de explorar os recursos hídricos em diferentes profundidades do solo, mas também por que as plantas suportam uma desidratação dos tecidos (murcha das folhas), provocada pela seca. O girassol demonstra, portanto, uma grande adaptabilidade às condições não favoráveis, assim como grande resistência à falta de água, em função do modo que utiliza estas menores quantidades de água (Vrânceanu, 1977). Além do sistema radicular favorecer uma tolerância à seca, a capacidade de reduzir o crescimento foliar como resposta ao estresse hídrico é outra característica da planta do girassol. Isto provoca uma redução das perdas por transpiração, ainda que também provoque uma perda potencial da capacidade fotossintética da planta. O girassol possui a capacidade de fotossintetizar mesmo em condições de baixo potencial hídrico do solo. Isto implica no fechamento estomático em baixos potenciais hídricos permitindo que o intercâmbio gasoso continue, bem como a existência de mecanismos como ajuste osmótico que asseguram um metabolismo celular normal apesar das deficiências hídricas no solo (Vrânceanu, 1977; Connor & Hall, 1997). Recentemente, pesquisas realizadas no Estado de São Paulo têm demonstrado que o sistema radicular do girassol proporciona o aumento de micorrizas, principalmente em lavouras de cana de açúcar, além de favorecer a agregação do solo quando comparada com pousio, com soja e com amendoim. No mesmo estudo, revelou-se que as suas raízes são degradadas mais lentamente que outras espécies e conseqüentemente, favorecem a aeração e a movimentação da água no perfil do solo (Ungaro, 2004, comunicação pessoal).A temperatura atua sobre a assimilação de CO2, e portanto indiretamente sobre a abertura dos estômatos (Gimenez & Fereres, 1986). No girassol, o efeito da temperatura entre 10 e 25 ºC concentra-se principalmente sobre a velocidade de abertura e fechamento estomático. Os estômatos se abrem ou se fecham de modo mais lento em baixas temperaturas. Pospisilova & Solara, (1980), citados por Silveira, (2000) afirmam que a temperaturas acima de 35 ºC ocorrem alterações na função estomática. Aos 36ºC, os estômatos mostram a sua máxima abertura, mas se a temperatura aumentar, os estômatos começam a fechar-se e a atividade fotossintética diminui. O aumento da temperatura pode não influenciar o fechamento dos estômatos quando há aumento de CO2 e em caso de baixa luminosidade. O girassol suporta bem geadas desde que não ocorram na fase de indução do florescimento (R1) até o florescimento final (R6). Caso ocorram geadas neste período, a produção pode ficar seriamente comprometida. O efeito da geada é suportada principalmente na fase vegetativa e desde que não ocorra a queda de temperatura abruptamente. Caso as geadas ocorram de forma gradual, o girassol praticamente não é afetado pois quando a temperatura vai caindo gradualmente, a planta vai adaptando-se e chega a suportar nível de frio muito superior aos suportados quando a temperatura cai de forma brusca. Na adaptação da planta ao frio, ocorrem alterações muito importantes na fisiologia celular. Há redução da atividade metabólica com progressiva acumulação de glicídios e sais solúveis, e diminuição da absorção radicular e transpiração, para originar uma redução de água livre na planta. Estas trocas permitem a planta conferir um aumento da tolerância ao frio (Vrânceanu, 1977; Connor & Hall, 1997).
Integração do girassol em sistemas de culturas
Além das características anteriormente mencionadas, a integração do girassol em um sistema de rotação pode ser vantajosa pelas seguintes razões:
1º - A rotação de plantas que tem raízes superficiais, com plantas que tem raízes profundas, como é o girassol, evita o esgotamento das fontes de nutrição nos diferentes horizontes do solo.
2º - A água do solo pode ser melhor utilizada por um sistema de rotação racional onde o girassol está inserido, visto que o girassol consumiria reservas de água que estão em camadas mais profundas do solo, em alternância a plantas de enraizamento mais superficial como trigo, milho, sorgo, cevada, aveia dentre outras.
3º - A quantidade de plantas daninhas pode ser reduzida, alternando os cultivos de culturas com período vegetativo diferentes e pelo modo com que elas sombreiam o terreno, além do efeito de supressão dos restos culturais deixados após a colheita. O girassol promove um bom sombreamento nas plantas daninhas além de que protege o solo das ações das gotas da chuva e do sol.
4º - A rotação favorece o controle cultural de pragas e patógenos, alternando espécies que não sejam atacadas pelos mesmas enfermidades e pragas.
A obtenção de altos rendimentos de girassol passa necessariamente, pela capacidade do solo em armazenar água. A capacidade de armazenamento de água está relacionada às variações de textura do solo, profundidade, tipo de cultivo e rotação.O manejo dos restos de cultura é um ponto chave para definir o balanço de água e nutrientes, especialmente na região Centro-Oeste. A quantidade dos restos culturais, a uniformidade da distribuição destes restos de cultura, são aspectos importantes para melhorar o balanço de matéria orgânica e a captação e armazenamento de água (Figura 3).Os restos de cultura, também irão influenciar a dinâmica de plantas daninhas (banco de sementes).O volume e a natureza dos resíduos, assim como os restos culturais das lavouras de verão, afetam a qualidade da preparação do solo, a dinâmica do nitrogênio e a ação de substâncias alelopáticas sobre a cultura semeada após o girassol.O girassol e a soja deixam um menor volume de restos culturais no solo, porém possuem uma relação C/N menor que o sorgo e o milho, o que seria vantajoso quanto a disponibilidade de nitrogênio no solo.O girassol, em rotação com outras culturas, permite aumentar a produção global por unidade de área, pelo aumento da intensidade da exploração do solo num mesmo período de tempo. A utilização do mesmo parque de máquinas das culturas do milho ou soja, e a agregação de valor em um período em que as alternativas (milho ou sorgo) são de maior risco no Centro-Oeste, norte do Paraná e São Paulo.Verificando a influência da rotação de culturas no rendimento do trigo, em comparação com a testemunha (semeadura contínua de trigo), após seis de anos experimentação onde utilizou-se doze sistemas de inverno e três sistemas de verão, obteve com sistema girassol-centeio um incremento de 6% no trigo, tremoço-girassol 4% a mais no trigo, pousio-girassol, incremento de 9% na produção de trigo e girassol contínuo 16% a mais de produção no trigo.Quando cultivou-se soja continuamente em diferentes sistemas de rotação de culturas de inverno durante seis anos, houve um incremento de 10% na produção da soja semeada após girassol cultivado continuamente em safrinha. Em relação ao milho semeado em diferentes sistemas de inverno na rotação milho-milho-soja, obteve-se com sistema de inverno girassol-trigo um incremento de 10% na produção de milho (Gaudêncio et al., 1993).A planificação financeira de pequenos agricultores do Rio Grande do Sul e Paraná por meio a obtenção de renda em períodos curtos de tempo entre uma cultura e outra na sucessão, favorece o girassol, uma cultura que tolera bem ao frio. A data de semeadura indicada pela pesquisa é nos meses de julho a agosto, no Rio Grande do Sul, utilizando-se preferencialmente, cultivares precoces. A colheita é realizada nos meses de novembro ou dezembro, favorecendo o agricultor com a entrada de renda neste período. Na Região Sul, as culturas mais adequadas para suceder o girassol são o milho e o sorgo, podendo também a soja participar na sistematização da lavoura. Na região noroeste do Rio Grande do Sul, tanto o milho como o sorgo respondem bem quando semeados após o girassol, aproveitando bem a melhoria das condições físicas e químicas do solo cultivado anteriormente com girassol. Além deste fator, o milho e o sorgo semeados em sucessão ao girassol, em dezembro ou início de janeiro, escapam normalmente à deficiência hídrica da região, aproveitando os benefícios das chuvas de janeiro e fevereiro, e as temperaturas noturnas mais amenas neste período.Na utilização da soja como cultura em sucessão ao girassol, convém lembrar que as duas culturas podem constituir hospedeiros comuns dos mesmos patógenos, como por exemplo a Sclerotinia (Leite, 2005).Na região Centro-Oeste, Minas Gerias, Bahia, São Paulo e norte do Paraná, a semeadura do girassol deve ser feita final de janeiro até 20 de fevereiro. A sucessão poderá ser com o milho, o sorgo e a soja. O planejamento da lavoura deverá ser realizado já dentro da lavoura de verão pois caso a opção seja a soja, esta deverá ser necessariamente uma cultivar precoce. O ideal que o girassol semeado dentro da época recomendada seja de ciclo precoce, para aproveitar as chuvas que ainda ocorrerão. Semeaduras realizadas com girassol após final de fevereiro correm o risco de danos acentuados na produção por falta de água no período de florescimento.Outra alternativa estudada pela Embrapa Soja foi a semeadura de girassol em área de reforma de canavial. Quando o canavial de cana soca se torna antieconômico, surge a necessidade de reformá-lo, ou seja, destruir totalmente as soqueiras velhas preparando e corrigindo logo a área para o processo de reforma, visando começar com um novo ciclo de cana de açúcar. O girassol pode ser semeado nos canaviais dos Estados da Região Sul, Sudeste, colhendo a área de cana soca em agosto e semeando o girassol em setembro/outubro. Imediatamente após a colheita de girassol (janeiro ou fevereiro), planta-se a cana. Outra alternativa para a Região Centro-Oeste é a semeadura de girassol no mês de fevereiro e a introdução da cana nas primeiras chuvas de outubro (Oliveira, 2004, comunicação pessoal).Em trabalhos realizados no Estado de São Paulo, obteve-se incremento de 15% na lavoura de soja, 30% na lavoura de milho e de 45% na lavoura de cana de açúcar quando o girassol foi a cultura antecessora (Ungaro, comunicação pessoal, 2005).Como o girassol faz parte de um sistema de produção, deve-se estar atendo a residual de herbicidas das culturas anteriores.
Considerações finais
O crescimento contínuo do cultivo do girassol nos últimos seis anos vem demonstrando que a cultura é uma alternativa para os diferentes segmentos do agronegócio. Falta-nos ainda tradição, mas com pesquisa e um mercado sólido, o girassol é a grande opção para composição de sistemas de produção nas diversas regiões produtoras do Brasil.
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Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 88, julho/agosto de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.