A Semeadura e a Proteção de Sementes


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Publicado em: 01/08/2005

A semeadura e a proteção de sementes

Dirceu N. GassenEngenheiro-Agrônomo, Gerente Técnico da Cooplantio - Porto Alegre-RS - E-mail: dirceu@agri.com.brA produção de milho e de soja cultivadas em áreas extensivas está na dependência direta da qualidade de semeadura e do estabelecimento de plântulas para a obtenção de rendimentos elevados. Portanto, investir na qualidade de sementes e propiciar condições para o pleno uso de energias para desenvolvimento das plantas é um dos componentes de produção mais importantes nas lavouras.

O ciclo das culturas se completa em torno de quatro a cinco meses, mas o estabelecimento de plantas robustas, com capacidade de acessar os nutrientes disponíveis no solo. Essa condição se define na semeadura, criando ambiente para a germinação rápida e para o desenvolvimento abundante de raízes nas duas primeiras semanas depois da semeadura.

A planta de milho apresenta três tipos principais de raízes que desempenham funções diferenciadas no desenvolvimento das plantas.

A radícula (primeira raiz) tem a função de âncora da plântula, as raízes seminais se desenvolvem na seqüência, absorvem água e nutrientes até o desenvolvimento das raízes nodais, que absorvem a maior parte da água e dos nutrientes que a planta necessita em todo o ciclo da cultura. As raízes adventícias dão suporte e estabilidade física para a planta, contribuindo menos na absorção de água e de nutrientes necessários para a planta.

O posicionamento adequado da semente de milho no solo é essencial para minimizar estresses e garantir o vigor da plântula, buscando estabelecer potencial de produção elevado.

A profundidade de semeadura afeta o desenvolvimento de raízes da planta, a formação do caule, da espiga e até o enchimento de grãos de milho.

Durante a emergência, quando o coleóptilo atinge a superfície do solo e recebe luz solar, pára a elongação do mesocótilo e ocorre a emissão da plúmula. Nesse momento, se a semente foi posicionada a 4 cm de profundidade, o ponto de crescimento está a aproximadamente 2 cm abaixo da superfície do solo.

Se a semente for posicionada até 2 cm de profundidade, as raízes nodais estarão, praticamente, na superfície do solo. Essa semeadura superficial pode resultar em plantas com poucas raízes nodais, sustentadas apenas pelo mesocótilo. Também pode resultar em injúrias no ponto de crescimento exposto diretamente a ação de herbicidas. Além disso, a temperatura da superfície do solo pode ser muito elevada para o desenvolvimento normal das raízes nodais.

As plantas nascidas de sementes posicionadas a menos de 2 cm de profundidade no solo apresentam raízes coronais junto à superfície do solo. Essas raízes, expostas a temperaturas elevadas e solos secos, apresentam-se curtas e engrossadas. Os sintomas podem ser confundidos com os de danos de herbicidas.

A profundidade de semeadura pode ser determinada na plântula medindo-se o comprimento do mesocótilo (distância entre a semente e a coroa da planta) somando-se 2 cm a essa medida. Por exemplo: o mesocótilo de 5 cm + 2 cm= 7 cm de profundidade de semeadura.

A semeadura superficial de sementes de milho pode resultar em plântula ancorada no mesocótilo, raízes coronais pouco desenvolvidas, acamamento, plantas de crescimento reduzido (nanismo) e folhas de coloração roxa.

Se a semente for posicionada muito profunda (mais de 7 cm) a planta necessitará de mais energia para empurrar o coleóptilo até a superfície do solo. Nessas condições haverá estresse, podendo quebrar o mesocótilo, forçando a formação da folha abaixo da superfície do solo e atrasar o crescimento inicial com perdas acentuadas no potencial de produção.

Outros fatores podem agravar os problemas de profundidade inadequada como temperaturas baixas, excesso de umidade, crosta superficial de solo, efeito negativo de herbicidas ou de inseticidas e características de vigor da semente.

A profundidade ideal de posicionamento da semente de milho está entre 4 e 6 cm, coberta com solo friável, sem torrões e sem formação de paredes laterais e fundo do sulco selados ou compactados.

A soja apresenta semente e estrutura física da plântula e das raízes diferente do milho, destacando a formação de raiz pivotante, que sob condições normais é profunda e robusta.

A profundidade de posicionamento da semente de soja e a importância de preparação adequado do sulco de semeadura são semelhantes aos do milho.

Sulco de semeadura

O sulco de semeadura é o leito de germinação da semente e de desenvolvimento das raízes que farão a prospecção de ambiente para a definição do potencial de produção das plantas.

A preparação inadequada do sulco de semeadura com filete de fertilizantes com elevado índice salino no vértice (fundo) e a compactação (selamento) das paredes laterais (figura 1) são fatores muito adversos para o pleno desenvolvimento de raízes e definição do potencial de produção das plantas.

As conseqüências adversas pode ser a morte das extremidades das raízes pelo excesso de sais, a penetração de patógenos oportunistas que vivem no solo e o crescimento de raízes limitado ao ambiente do sulco de semeadura, impedindo a expressão do potencial de produção da lavoura.

O adensamento das paredes laterais e do fundo do sulco de semeadura pode ser visualizado removendo-se o solo da superfície com o auxílio de enxada e pela deformação da raiz pivotante de soja (figura 2). A formação do ”nó” na raiz pivotante de soja é resultado de impedimento físico ou químico e mostra a profundidade em que o evento ocorreu. A presença do ”nó” a 4 ou 5 cm de profundidade no solo é tão freqüente que induz o agricultor a acreditar que essa formação estranha é normal para a soja.

A compactação e o posicionamento de fertilizantes de elevado índice salino no vértice do sulco podem causar lesões nas raízes, limitando o crescimento da raiz pivotante, facilitando a penetração de patógenos habitantes naturais de solo.

Pesquisadores das áreas de nutrição de plantas e de manejo de plantas sugerem que a quantidade de nutrientes com elevado índice salino (potássio e nitrogênio) deve ser limitado a 60 kg/ha para culturas com mais de 50 cm de espaçamento entre fileiras.

A qualidade da semeadura é a chave para condições favoráveis à germinação, o uso de energia da semente para o estabelecimento de plântulas robustas e sadias e para pleno desenvolvimento do sistema radicular.

A abertura exagerada do sulco de semeadura é resultado de velocidade elevada de deslocamento da semeadora, resultando na formação de torrões e na exposição de terra à radiação solar direta. A temperatura da superfície de solo nu pode chegar a mais de 70oC, prejudicando a germinação, o desenvolvimento de raizes e a sobrevivência de bactérias fixadoras de nutrientes.

Outro fator limitante ao pleno desenvolvimento de raízes está no efeito negativo de substâncias alelopáticas de plantas daninhas ou cultivadas para cobertura de solo e adubação verde. É importante aumentar o período entre a dessecação e a semeadura das plantas cultivadas para mais de três semanas. A semeadura sobre palha seca permite melhorar o preparo do sulco de semeadura e praticamente livre de substâncias alelopáticas negativas produzidas por plantas vivas ou logo depois da dessecação.

Depois da semeadura nada mais poderá ser feito para recuperar erros no posicionamento da semente, no ambiente para desenvolver raízes e na distribuição espacial de plantas.

Na lavoura deve se buscar o conceito de ”semeadura invisível” com o posicionamento da semente na profundidade adequada para cada espécie cultivada, a preparação do sulco para o desenvolvimento pleno de raízes e com a superfície do solo coberta de palha.

Tratamento de sementes com fungicidas

A análise da sanidade da semente é a base para a adoção de práticas de controle e a escolha de fungicidas mais eficientes para as características de cada cultivar de milho ou soja, combinado com as espécies de patógenos constatados e as práticas de rotação ou de sucessão de culturas adotadas nos sistemas de produção da lavoura.

Alguns fungicidas usados na semente protegem a planta contra o estabelecimento de fungos biotróficos como oídios e ferrugens por períodos de até três ou quatro semanas depois da semeadura.

O tratamento de sementes não deve ser usado com a expectativa de recuperar sementes com baixo poder germinativo, baixo vigor ou elevado índice de infecção por patógenos ou pragas.

Lavouras com elevada produção devem ser iniciadas com sementes de qualidade e sadias. O tratamento de sementes com fungicidas deve ser adotado com o objetivo de eliminar patógenos superficiais, proteger contra a infecção por organismos de solo que podem causar doença nas plântulas ou para garantir maior longevidade da semente sob condições adversas de excesso de chuvas ou de estiagens.

A aplicação de fungicida na semente de milho e soja de boa qualidade elimina a maioria dos fungos, melhorando a germinação, especialmente, sob condições de estresse. Com o tratamento de sementes é difícil garantir a proteção da plântulas contra patógenos saprofíticos que habitam em material orgânico e penetram em ferimentos nas raízes.

Em períodos de estiagem ou de excesso de chuva, depois da semeadura, se constatará a diferença na uniformidade de germinação de soja tratada com fungicida.

A mistura de fungicidas, com ação de contato e ação sistêmica, apresenta amplitude de eficácia para maior número de fungos causadores de doenças em plantas.

É importante usar equipamento que resulte em mistura uniforme na superfície de todas as sementes. O excesso pode causar fitotoxicidade e a falta resultar em proteção ineficiente. Em geral a qualidade de cobertura de sementes tratadas em lavouras pode ser melhorada com o uso de equipamento de qualidade e treinamento de pessoal.

Tratamento de sementes com inseticidas

Para adotar práticas de controle é importante agrupar as pragas de acordo com a localização no perfil do solo ou nas diferentes partes da planta.

As pragas subterrâneas mais freqüentes e que atacam sementes e raízes são os corós (Diloboderus abderus, Phyllophaga spp., Anomala spp., Liogenys spp., e Plectris sp.), cupins, larva-arame (Conoderus spp.), larva-angorá (Astylus sp.), piolho-de-cobra, gorgulho-da-raiz (Pantomorus spp.), cochonilha-da-raiz (Pseudococcus spp.) e percevejo-castanho (Scaptocoris castanea).

As pragas que vivem na superfície do solo e atacam o colo das plantas mais freqüentes são a lagarta-rosca (Agrotis sp., Feltia sp.), as brocas do colo (Listronotus bonariensis, Elasmopalpus lignosellus), as cigarrinhas (Deois spp., Ceresa sp.) e percevejo barriga-verde (Dichelops spp.), apresenta resultados erráticos de controle.

As pragas que atacam a parte aérea de plântulas mais freqüentes são a lagarta-da-aveia (Pseudaletia spp.), o grilo (Anurogryllus muticus), as vaquinhas (Diabrotica spp.) e o tamanduá-da-soja (Sternechus subsignatus).

Todas as formulações para tratamento de sementes, na dose adequada, protegem contra as pragas subterrâneas que atacam a semente e raízes.

Para controle de pragas do colo e da parte aérea é importante destacar que a absorção dos inseticidas que apresentam ação sistêmica ocorre pelas raízes e não pela semente. Portanto é importante que ocorra chuva depois da semeadura para a distribuição e absorção do inseticida na plântula.

Na escolha do inseticida mais eficiente é importante destacar a ação específica do inseticida e a dose letal para cada espécie de praga.

Sob condições de chuvas regulares e umidade de solo adequada, a planta cresce melhor, o inseticida aplicado na semente é plenamente absorvido pelas raízes e, por causa da temperatura amena do solo a praga consome menos, resultando na proteção eficiente de plântulas.

Em períodos de seca, a absorção de inseticida é reduzida, a planta cresce menos e a temperatura do solo se eleva aumentando a capacidade de dano da praga. Essa combinação de fatores adversos resulta em menor eficácia de inseticidas sistêmicos aplicados na semente, para controle de pragas na plântula.

A persistência de inseticidas usados no tratamento de sementes nas doses normais atinge três semanas depois da semeadura. Doses maiores do que as recomendadas podem aumentar a persistência até mais uma semana e ampliar o espectro de ação para outras pragas.

Formulações convencionais no tratamento de sementes

O uso de querosene, creolina e de outros repelentes de insetos é ineficiente contra pragas e pode prejudicar a germinação se a dose for elevada ou se a semente for armazenada por alguns dias. Não há evidências de controle ou de proteção de sementes ou de plântulas contra pragas em testes de lavoura.

A aplicação aérea de inseticidas é eficiente para pragas que se encontram acima da superfície do solo. Tem pouco ou nenhum efeito sobre pragas-de-solo e não substitui o tratamento de sementes.

Os inseticidas ou fungicidas para aplicação aérea, em geral apresentam formulações mais simples e preço menor, induzindo o agricultor a fazer o tratamento de sementes, objetivando baixar custos. A falta de registro impede o uso e a recomendação legal dessas formulações. Em alguns casos o ingrediente ativo é o mesmo e a expectativa de eficácia deveria ser equivalente. As formulações registradas para tratamento de sementes possuem adjuvantes e outros componentes que reduzem a fitotoxicidade, melhoram a cobertura, garantem a aderência e o rápido secamento da superfície. Enquanto as formulações para aplicação na parte aérea podem causar injúria em sementes e plântulas.

O uso de inseticidas fosforados registrados para pragas da parte aérea de plantas, quando usados no tratamento de sementes tem causado a redução na germinação e, principalmente, fitotoxicidade em plântulas, na fase inicial de formação de raízes, que tem a função de prospecção do ambiente de solo para a definição do potencial de produção das plantas.

As pequenas diferenças no valor de produtos para o tratamento de sementes, em geral, resultam em perdas muito maiores na redução do potencial de rendimento de grãos da lavoura.

Alguns inseticidas piretróides, em formulações convencionais, apresentam resultados eficientes para corós, mas não apresentam ação sistêmica para proteção de plântulas. A falta de registro para tratamento de semente impede o uso legal e eventuais reclamações.

Doses no tratamento de sementes

As doses registradas de acordo com a legislação e a forma tradicional de recomendação de produtos no tratamento de sementes pode induzir a erros e ineficácia na proteção contra pragas ou doenças.

É importante definir se o alvo é a proteção de um volume de sementes (em geral armazenadas) contra pragas e patógenos ou se a semente é o veículo para levar uma dose de produto para a proteção da plântula na lavoura.

No caso de inseticidas, quando a semente é o veículo para levar o produto e o alvo é a praga na lavoura, a dose deve ser para o número de plantas por unidade de área independente do tamanho ou do peso da semente.

O tamanho da semente de milho varia com a cultivar e a peneira de classificação, determinando o volume semeado por unidade de área. O peso de 60 mil sementes de milho usadas por hectare varia, aproximadamente, entre 9 kg e 25 kg. A dose de 2000 ml de um determinado inseticida por 100 kg de semente usando 20 kg/ha corresponde a 400 ml e 10 kg/h a 200 ml do produto para as mesmas 60 mil plantas semeadas por hectare.

A soja é semeada com população aproximada de 400 mil sementes por hectare, variando entre 40 kg a 80 kg/ha. A dose de 100 ml de inseticida por 100 kg de sementes resulta em dose de 40 e 80 ml de produto para o mesmo número de plantas por hectare. Essa variação na dose por planta pode resultar em menor ou maior eficácia e persistência no controle de pragas como o tamanduá-da-soja, vaquinhas ou pragas subterrâneas. Portanto, a dose deve ser por planta a ser protegida e não pelo volume de semente tratada.

No caso de fungicidas pode se considerar a dose pelo volume de sementes quando se deseja proteger a semente tratada. Porém, quando se deseja controlar o oídio e outras doenças biotróficas na fase vegetativa da cultura a dose de fungicida deve ser pelo número de plantas por unidade de área e independente do volume de sementes usadas.

Aplicação no sulco de semeadura

O uso de inseticidas no sulco de semeadura (granulados ou líquidos) apresenta a vantagem de aplicar maior quantidade de ingrediente ativo e de período mais longo de persistência do que o alcançado com o tratamento de sementes.

As culturas com baixa população de plantas, como o milho e o girassol, com apenas 5 sementes/m², necessitam de proteção na semente ou no sulco contra o dano de pragas.

As formulações granuladas apresentam vantagens com a liberação lenta de ingrediente ativo e período de persistência (proteção) mais longo. O uso é limitado pelo preço, relativamente elevado, dessas formulações e pela necessidade de adaptar uma terceira caixa na semeadora para distribuição do produto.

Esse método, nas doses normais, é eficiente para o controle de pragas que atacam as sementes, as plântulas ou partes subterrâneas até cinco semanas depois da semeadura.

É necessário adquirir ou adaptar equipamento nas semeadoras para direcionar o jato de inseticida para dentro do sulco de semeadura. É importante regular a vazão para volumes baixos (10 a 20 l/ha), optando por manômetro de baixa pressão, para permitir melhor regulagem, e por bico cone de baixa vazão e sem difusor ou por bico leque com ângulo de abertura menor. Assim, dirigindo o jato na forma de esguicho, para dentro do sulco, sem molhar os discos da semeadora e o solo ou a palha exposta à radiação solar. Deve-se aplicar o inseticida dentro do sulco e cobrir com solo, usando a roda ou disco de fechamento (cobertura) da semeadura.

A aplicação do produto no sulco de semeadura resulta em doses elevadas de inseticidas, justamente, na área onde se deseja proteger contra a praga. Com base no exemplo do milho, semeado com espaçamento de 80 cm entre fileiras, e a aplicação de inseticida em um faixa de 8 cm no sulco de semeadura, a concentração do produto é 10 vezes maior, se fosse aplicado em toda a superfície do solo.

A aplicação de inseticidas líquidos no sulco, durante a semeadura, é viável e eficiente para as pragas que atacam as sementes e as pragas-de-solo (corós, larva-arame, larva-alfinete e as lagartas que se protegem no sulco) nas culturas com maior espaçamento entre fileiras, como milho, girassol e algodão.

O equipamento de aplicação de inseticidas líquidos no sulco de semeadura, também é usado para a deposição de bactérias fixadoras de nitrogênio (Rhizobium) no ambiente onde se desenvolvem as raízes de soja e de feijão.

Antes de optar por métodos de aplicação ou pelo uso de inseticidas para pragas-de-solo, deve-se examinar a lavoura, amostrar a população das espécies dominantes, que podem atingir o nível de praga e, então, definir o melhor método de aplicação, o inseticida mais eficiente e a dose economicamente viável para a proteção das plantas.

Dados para referências bibliograficas:Revista Plantio Direto, edição nº 88, julho/agosto de 2005. Aldeia Norte Editora : Passo Fundo-RS