Estiagem nos EUA Altera Cenário Mundial da Soja e Milho (Mercado)


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Publicado em: 01/08/2005

Estiagem nos EUA altera cenário mundial da soja e milho

Flávio GassenEng.-agr., Supervisor Técnico Cooplantio - E-mail: flavio@agri.com.br

SOJA

A condição desfavorável para a safra atual de soja dos EUA é responsável pela pressão de alta nas cotações do mercado internacional da oleaginosa. Se a safra brasileira e argentina tivessem atingido a projeção de clima normal e não houvesse estiagem na atual safra dos EUA, as cotações dos contratos do grão na Bolsa de Chicago estariam entre 5 e 5,5 dólares por bushel, conforme foi registrado em meados de fevereiro, onde esperava-se produção de 64 milhões de toneladas para o Brasil. A redução dos estoques mundiais como resultado da menor produção sul-americana elevaram as cotações para um ”canal” de variação entre 6 e 6,6 dólares/bushel e a atual estiagem em algumas regiões norte-americanas promoveu outra movimentação no mercado para o patamar de 6,6 a 7,5 dólares/bushel (figura 1).

Os estados localizados ao sul e sudeste da região da soja dos EUA apresentaram elevada umidade do solo no período indicado para o plantio, resultando no atraso da implantação da cultura e, assim, a melhor marca das lavouras consideradas em condição boa e ótima foi de 64%, de acordo com a avaliação do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), sensivelmente abaixo de anos considerados bons como a safra passada (figura 2). Na semana de 24/julho, a participação dessas lavouras foi reduzida para 54%, muito próximo ao registrado na safra 1995/96, onde o rendimento foi de 2.527 kg/ha, indicando que haverá redução na projeção para a safra atual.

Houve forte alteração no cenário internacional da oferta de soja, onde a produção prevista no final de 2004 para a safra 2004/05 atingia 230,8 milhões de toneladas e no relatório de julho/2005 foi estimada em 214,3 milhões de toneladas. Da mesma forma, o estoque de passagem mundial foi reduzido de 60,8 para 45,1 milhões de toneladas e o consumo de 208,3 para 203,3 milhões de toneladas. A redução na produção foi mais significativa do que a queda no consumo, indicando que o declínio do estoque de passagem em relação ao consumo deveria ser notável. No entanto, a relação estoque final/consumo mundial aumentou de 20,4% para 22,2%, considerando os relatórios do período anterior e posterior ao consolidado dos resultados da estiagem na região produtora sul-americana. Já para a projeção da safra 2005/06, o USDA espera que a relação estoque final/consumo mundial alcance 23,8%, segundo o relatório de julho/2005. Com isso posto, nota-se que a elevação da relação estoque final/consumo mundial da safra 2004/05 de 20,4 para 22,2% e o indicador para a safra 2005/06 não explica a atual alta dos preços internacionais do grão. A origem desses indicadores pouco convincentes deve-se ao calendário para ano-comercial adotado pelo USDA que não está ajustado para o período adequado para o hemisfério sul. Sendo assim, a figura 3 mostra a relação estoque final/consumo mundial ajustada, onde a projeção do USDA para a safra 2005/06 diminui de 23,8 para 16,4%, tornando-se compatível à pressão de alta no mercado atual da soja.

Na média de julho, as cotações dos contratos de primeira posição da Bolsa de Chicago já atingiram 15 dólares/60 kg (bushel convertido em 60 kg), conforme traço vermelho da figura 4. Já para os produtores do PR, os preços atingiram a marca de 12 dólares/60kg e cerca de 29 reais, como resultado da moeda nacional excessivamente valorizada. Na figura 4, os preços pagos ao produtor de soja do PR foram deflacionados pelo IGP-M a partir de 1994, mostrando os preços praticados no passado ao valor de julho/2005 (traço verde espesso). A marca vermelha aponta o valor da soja nos meses de julho de cada ano, onde em julho de 1995, o grão atingiu cerca de 27 reais/60kg, aos preços atuais. Naquela época, os preços dolarizados foram de aproximadamente 10 dólares/60kg, coincidindo com um período de real sobrevalorizado, mas com menor severidade ao momento atual. Nos anos de 1998, 1999 e 2000, os baixos preços em reais resultaram das baixas cotações internacionais que variaram de 7,64 a 10,56 dólares/60kg (figura 4), em julho de 1998 e 1999, respectivamente. Dessa exposição, conclui-se que a causa maior sobre a crise atual deve-se à política de juros elevados que aprecia a moeda nacional ao ponto dos preços internos atingirem os mais baixos já registrados, mesmo com o grão valorizado no mercado internacional. Em posição mais confortável encontram-se os produtores argentinos, cuja moeda mostra-se estável desde meados de 2003 e atualmente está em 2,88 Pesos/US$. Dessa forma, os argentinos são estimulados a investir na próxima safra, ao contrário do brasileiro que é refém dos ciclos cambiais e, assim, assumindo riscos além dos climáticos. Mesmo considerando que a taxa cambial argentina é mais adequada que a brasileira, ainda não pode ser considerada justa. Na dedução de uma taxa cambial real ou justa, considerando a perda do valor de ambas moedas no decorrer do tempo, a taxa cambial para julho/2005 supera a marca de 3,5 e, ao considerar uma cesta de moedas, onde foi incluído o Euro, o cambio deveria estar entre 3,4 e 3,5. Assim, o preço da soja deveria estar ao redor de 41 reais/saca, confirmado pelos preços deflacionados da soja nas marcas de julho de 2003 e 2004 que quase atingiram 40 reais, considerando que estavam pouco abaixo de 12 dólares/60kg em ambos períodos.

Para os próximos meses, ao se confirmar a redução da safra norte-americana já apontada pela alta do mercado internacional, os preços deveriam manter-se em dólares nos patamares atuais. No caso de maior severidade da estiagem nos EUA e produtividade atingir 38 bushel/acre (2.554 kg/ha), contra 39,9 bushel/acre (2.681 kg/ha) projetado para a presente safra pelo USDA, haveria forte queda no estoque doméstico dos EUA e uma corrida especulativa pelos contratos futuros do grão na Bolsa de Chicago. A relação estoque final/demanda para a safra 2005/06 está em 7%, considerando safra normal para os EUA, sendo esta uma posição confortável quando comparada aos 4,4% da safra 2003/04 que provocou a ”bolha especulativa” internacional. Vale ressaltar que na suposição da produtividade cair de 39,9 para 38 bushel/acre, a relação estoque final/demanda ficaria negativa e, como tal é impossível, haveria necessidade de reduzir as exportações norte-americanas, levando a conseqüente nova ”bolha especulativa”.

MILHO

A produção mundial de milho projetada para a safra 2005/06 indica redução de 38,8 milhões de toneladas do recorde registrado na safra 2004/05, onde atingiu 706,3 milhões de toneladas. O declínio deve-se a estimativa de menor produtividade da safra norte-americana, considerando que as condições climáticas são menos favoráveis do que as do ano anterior. A safra dos EUA é determinante sobre a oferta mundial, pois representa cerca de 41% da produção mundial e 67% do comércio internacional do grão para 2005/06. Na projeção de redução de 38,8 milhões de toneladas ainda não foi considerado o efeito da estiagem da corrente safra, portanto, a queda da oferta de milho será mais significativa do que o esperado e poderá aumentar em 20 milhões de toneladas. Esse cenário levará o estoque mundial a patamares inferiores aos 100 milhões de toneladas da safra 2003/04 e conseqüente relação estoque final/consumo abaixo de 15,5%. Nesse cenário haveria a manutenção das cotações internacionais em patamares elevados como os registrados em 2004 nos EUA (figura 5).

A safra 2004/05 do milho nacional atingiu somente 34,8 milhões de toneladas, conforme o 5º. Levantamento da CONAB publicado em junho/2005. Esta forte queda na produção combinada com taxa cambial valorizada, que reduz a possibilidade de exportação, provocou o declínio da demanda para 40,6 milhões de toneladas e resulta no estoque final na ordem de 0,6 milhões de toneladas, sendo o mais baixo dos últimos 15 anos. Este cenário aponta para pressão de alta para os próximos meses, no entanto, a pressão cambial está sendo muito forte e mantém os preços numa posição intermediária, pois deveria atingir a linha de resistência, conforme a figura 6.

Os preços do milho praticados no PR e deflacionados pelo IGP-M (traço verde escuro) mostram duas oportunidades de forte pressão de baixa gerada pelo câmbio sobrevalorizado, provocando distorção cambial sobre os preços pagos aos produtores. Sendo assim, seria razoável que os preços praticados no início do ano deveriam estar abaixo da linha de suporte que considera taxa cambial próximo à taxa ”justa”. Já nos preços praticados no RS, estes registram um ”prêmio” positivo significativo desde meados de 2003 em função da crescente demanda e limitada oferta no estado. Com o mesmo argumento utilizado com a soja, supondo uma taxa cambial ”justa”, os preços atuais estariam juntos a linha de resistência respectiva aos preços de cada estado.

TRIGO

Da mesma forma que todos os grãos que possuem paridade exportação ou importação, o trigo também continua ”refém” da política cambial apreciada. Considerando que os preços do grão na Argentina registraram forte recuperação desde o início do ano, no mercado doméstico houve recuperação equivalente, mas anulada pela valorização cambial (figura 7). Na abordagem dos preços deflacionados pelo IGP-M, os praticados no PR atingiram a linha de suporte e os do RS estão abaixo da referida linha devido à paridade importação da Argentina que leva os preços do estado para o patamar mais baixo dos últimos 10 anos. Supondo-se uma taxa cambial justa, os preços deveriam estar acima de R$ 25,00 /60kg (figura 8). Se não ocorresse a valorização do grão argentino, os preços praticados no Brasil estariam numa posição abaixo do praticado atualmente.

Para a safra 2005/06, a projeção sobre a produção mundial indica redução da oferta e conseqüente declínio na relação estoque final/consumo mundial para 23,2%, contra 24,5% da safra anterior. Assumindo que os preços do grão argentino são pressionados pela mercado internacional, seria razoável afirmar que haverá sustentação dos preços e não há indicadores de pressão de baixa além do ciclo sazonal de safra.

Dados para referências bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 88, julho/agosto de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo-RS.