O Milheto na Sustentabilidade dos Solos Arenosos


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Publicado em: 01/06/2005

O milheto na sustentabilidade dos solos arenosos

Duas novas variedades de milheto – ADR 300 e ADR 500 –, criadas a partir de materiais antigos, mas com maior capacidade de crescimento, formação de massa e reciclagem de nutrientes, batizadas de SuperMassa, são as principais responsáveis por esta mudança e estão colocando na rota da produção de culturas como soja e algodão, solos antes considerados impróprios para a agricultura.

Desenvolvidas pela Sementes Adriana, maior produtora individual de sementes de soja do país, num trabalho de parceria com o melhorista conhecido como pai do milheto no Brasil, Luiz Bonamigo, e apresentadas no Encontro Técnico – Sustentabilidade do Plantio na Palha em Solos Arenosos, realizado na Fazenda Adriana, na Serra da Petrovina, município de Alto Garças, MT, no último dia 2 de abril, reunindo em torno de 2.500 produtores, estas culturas de cobertura proporcionam, segundo o presidente da empresa, o engenheiro agrônomo Odílio Balbinotti Filho, maior estabilidade de produção em solos arenosos e a possibilidade de ampliação de fronteira agrícola sem a derrubada de uma só árvore, apenas recuperando áreas degradadas.

De acordo com o empresário, só a farta produção de massa seca – 10 toneladas no caso do ADR 300 e 11 toneladas no ADR 500, mais que o dobro dos milhetos comuns – já justificaria a introdução desses materiais nas várias regiões produtoras do país, mas principalmente no Cerrado, onde existe muito solo degradado ou de difícil manejo pelo baixo teor de argila. Entretanto, ele entende que o sucesso acontece pela agregação de vários benefícios, evidenciados em campos experimentais, áreas de produção de sementes e em lavouras comerciais, entre eles a capacidade de reciclagem de nutrientes, possibilitando que culturas como a soja, o milho e o algodão, consigam extrair do solo elementos que de outra forma não estariam disponíveis para a planta.

Estudos apresentados durante o encontro pelo professor da FESURV (Universidade de Rio Verde), Gilson Pereira da Silva, mostram que as variedades ADR 300 e ADR 500 devolvem à superfície, respectivamente, 175 e 193 quilos por hectare de nitrogênio; 42 a 56 quilos de fósforo; 397 e 436 quilos de potássio; 44 e 46 quilos de cálcio; e 26 e 29 quilos de magnésio. ”Por terem um sistema radicular bastante agressivo, com raízes que atingem até três metros de profundidade, esses materiais conseguem romper camadas compactadas do solo e trazer para a superfície, água e nutrientes de camadas bem mais profundas, que ficam disponíveis para a planta subseqüente”, explicou.

Bom para o solo, melhor ainda para o bolso do produtor. Transformados em valores comerciais, esses nutrientes reciclados pelo SuperMassa representariam em torno de R$ 1.000,00 por hectare de ganhos. Mas a essa conta ainda podem ser somados cerca de R$ 150,00 a R$ 200,00 se o produto for colhido, considerando um potencial genético de produção de 20 sacos ou mais por hectare dependendo das condições climáticas e de manejo.

Pesquisa surgiu da necessidade de incorporar áreas inaproveitadas

A criação do SuperMassa foi uma aposta que deu certo. Há seis anos, a Sementes Adriana iniciou o plantio de milheto pensando em estabelecer um sistema de cultivo que permitisse a incorporação de áreas arenosas existentes dentro da Fazenda, localizada numa região de temperatura amena e com altitude de 800 metros, própria para a produção de semente, especialidade da empresa há 23 anos. Mas percebeu logo que as variedades existentes no mercado já estavam definhadas, devido a falta de renovação genética destes materiais. A solução veio com a ajuda de um dos maiores especialistas na área e detentor de um vasto banco de germoplasma, o melhorista e pesquisador Luiz Bonamigo, cujo trabalho resultou nesta tecnologia que agora promete revolucionar a agricultura do cerrado brasileiro.

Duas caraterísticas fortes do milheto motivaram a pesquisa de melhoramento: a produtividade mesmo com baixa oferta de água e a rapidez no crescimento da planta. ”O SuperMassa cresce quase 10 centímetros por dia. Costumamos brincar dizendo que dá para ouvi-lo crescer na lavoura, tamanha é a sua eficiência”, explica Luiz Bonamigo.

O uso de cobertura é essencial para o produtor do Centro-Oeste que enfrenta dificuldades em conseguir produzir em razão dos solos arenosos, afirma Bonamigo. Ele relata que em locais sem proteção do solo, a temperatura chega a atingir 60ºC, e que onde tem palhada do Supermassa, baixa para 40ºC. Bonamigo explica que acima de 50°C culturas como a soja tem poucas possibilidades de absorver nutrientes e de conseguir se desenvolver. Os testes foram realizados com solos de 4% de argila e a semente a 0,5 cm de profundidade.

”Correção adequada do solo, uma boa adubação e produção de massa em grande volume, são ingredientes fundamentais para o sucesso do cultivo em solos arenosos”, completa o engenheiro-agrônomo da Sementes Adriana, Marcelo Lemes. Ele ressalta que sem esse conjunto, não ocorre uma uniformidade de estante e o rendimento da lavoura fica prejudicado.

O domínio da tecnologia para solos arenosos a partir da introdução do Supermassa e da conseqüente adoção do sistema de plantio direto em 100% da área, também se refletem nos resultados da Fazenda. Segundo Odílio Balbinotti Filho, mesmo com áreas de abertura, que normalmente produzem menos, a produtividade média de soja em 21 mil hectares de planta tem ficado em 60 sacos por hectare. ”Excelente resultado”, faz questão de ressaltar.

Semente de qualidade rende mais e dá segurança ao produtor

Materiais formadores de palhada como o SuperMassa são ingrediente decisivo para que os produtores do Brasil Central adotem o sistema de plantio direto na palha, única forma de dar sustentabilidade à produção, tanto em solos argilosos como de arenito, disse durante o evento realizado na Fazenda Adriana o pesquisador da Embrapa de Londrina/PR, doutor em fisiologia de sementes, José de Barros França Neto, dando início a um amplo debate sobre a importância da tecnologia e da integração do setor produtivo com a pesquisa no processo de evolução agrícola da região e do país. ”Foi graças a essa interrelação que o Estado do Mato Grosso inaugurou, em 2001, os maiores patamares de produtividade média de soja do mundo, 3.090 quilos por hectare, 1.784 quilos a mais do que colhia em 1978, 23 anos atrás, quando estes índices chegavam a apenas 1.306 quilos por hectares”, exemplificou.

Dentre os fatores responsáveis pelo aumento de produtividade verificado no Mato Grosso, ocorrido também em outras regiões produtoras do país, tanto que o Brasil aumentou só na década de 90 em torno de 60% de sua produção de grãos, praticamente sem alteração de área, segundo dados do IPEA, França Neto destacou em sua palestra a qualidade da semente utilizada. Referindo-se ao Brasil Central, disse que o desenvolvimento de variedades adaptadas ao fotoperíodo dessa região, feito pela Embrapa de Londrina/PR, foi a primeira alavanca na obtenção dos atuais resultados. ”Se trouxéssemos materiais do Paraná ou Rio Grande do Sul, onde as condições são diferentes, não haveria o mesmo desenvolvimento, provavelmente as plantas cresceriam no máximo entre 15 e 20 centímetros e não iriam produzir nada”, explicou, ressaltando que a introdução posterior de materiais resistentes a doenças como nematóide de galha, nematóide do cisto e cancro da haste, ampliaram o universo de possibilidades a partir da semente. ”O foco, a partir de agora”, relatou o pesquisador, ”é usar a transgenia nas várias formas possíveis, mas principalmente para trazer resistência à ferrugem, que é a enfermidade que mais preocupa pela agressividade e potencial de danos à lavoura de soja”.

Considerando que a semente é o alicerce, a base para implantação de uma boa lavoura, França apresentou aos participantes do evento as principais etapas de produção de sementes. Ele disse que, diferentemente do grão, a semente carrega dentro de si um pacote tecnológico que nem sempre é visível para o produtor e, que dentro de cada grão estão embutidos as características de produtividade, adaptação de fotoperíodo, a resistência a doenças e a qualidade genética de cada cultivar.

Também explicou que uma vez desenvolvida uma determinada cultivar, o desafio é multiplicar esta semente, de maneira que ela mantenha suas qualidades originais, e que para isso existem hoje diversas tecnologias que começam na implantação dos campos, passando pela colheita, recepção, secagem, beneficiamento e armazenamento. ”Quanto maior for o controle das informações durante todas as etapas, maior será a segurança do produto que vai chegar às mãos do produtor, que perceberá a diferença quando observar o desempenho da cultivar no campo. Temos dados de pesquisa mostrando que uma lavoura que começa com uma semente de alta qualidade tem um potencial de produção muito superior a uma lavoura instalada com semente de baixa qualidade ou de média qualidade. O incremento pode ser de até 500 quilos por hectare”, observou França.

Nesse contexto, a utilização de semente própria, questionamento feito por diversos produtores, significa, segundo França, ”dar um tiro no pé”. Isto, porque ao invés de reduzir o custo, o produtor estará é diminuindo o potencial de produção de sua lavoura e em conseqüência, os resultados. O alerta serve principalmente para a soja transgênica pirata, as chamadas ”Maradonas”, não adptadas para as condições brasileiras. ”A aquisição de semente certificada, produzida por empresas com toda a infra-estrutura necessária para oferecer um material de qualidade, além de muita barata, de R$ 1,30 a R$ 2,00 o quilo, valor ínfimo perto dos benefícios, ainda permite que o produtor tenha acesso a variedades novas e a novas tecnologias de produção, normalmente de melhor desempenho e mais seguras que as antigas”, justificou o pesquisador ao grupo e ainda ressaltou: ”Os diversos procedimentos de controle de qualidade formam o sistema de rastreabilidade, uma exigência do mercado que torna mais eficiente e competitiva a agricultura moderna”.

Soja transgênica deverá atingir 50% da área na safra 2005/06

A área de soja transgênica na safra 2005/06 deverá chegar a 50% em todo o país. A estimativa é do engenheiro agrônomo e diretor-executivo da Coodetec, Ivo Carraro, que esteve no evento da Sementes Adriana, em Alto Garças, no Mato Grosso, para a apresentação das novas variedades de soja e milheto da empresa.

Na safra 2005/06, Carraro projeta um total de 5 milhões de sacas de sementes de soja transgênica disponíveis aos produtores do país. Este número abrange todas as empresas licenciadas a oferecer sementes geneticamente modificadas. Porém, existe a possibilidade deste número ser menor. ”A estiagem que atingiu o Sul do país poderá reduzir este número para 4 milhões de sacas, pois a estimativa é baseada no que foi plantado”, alertou o diretor-executivo. A Sementes Adriana, que tem uma parceria com a Coodetec, deve disponibilizar 20% de toda a sua produção de sementes de soja em variedades transgênicas.

A Coodetec, segundo Carraro, projeto um lucro 60% maior para a próxima safra com a venda de sementes transgênicas. ”O motivo do crescimento é porque a Coodetec espera vender uma grande volume de sementes”, ressaltou. Também afirmou que a cooperativa receberá royalties em cima da venda das sementes geneticamente modificadas aos sojicultores. ”De fato, para nós está sendo um negócio importante”, comentou.

Atualmente a Coodetec utiliza a tecnologia RR da Monsanto para elaborar suas próprias variedades de soja transgênica, mas não realiza o pagamento de royalties à multinacional norte-americana. ”Nós recebemos royalties das nossas variedades. Somente o produtor que usufrui desta tecnologia é que paga o percentual à Monsanto. A Coodetec, assim como outras instituições de pesquisa, tem uma autorização da Monsanto para utilizar a tecnologia RR”, afirmou.

Crescem as oportunidades para o milheto em grão

O otimismo em relação ao milheto no cerrado brasileiro vai além dos bons resultados obtidos no seu uso como formação de palhada visando o plantio direto de culturas de verão. De acordo com o professor e pesquisador em qualidade de semente e grãos para alimentação e ração, Flávio Antonio Lazzari, novos mercados acenam favoravelmente para a cultura em forma de grão. É o caso do setor de rações para aves e suínos, que se mostra interessado em ampliar as fontes de matéria-prima para atender a crescente demanda, como já acontece nas regiões de Rio Verde, em Góias e Videira, em Santa Catarina. Além do baixo custo de produção, a qualidade nutricional desta forrageira é um dos fatores predominantes para que o produtor faça sua opção. ”É comparável ao milho e superior ao sorgo, além de não apresentar taninos, que têm efeitos antinutricionais”, afirmou o pesquisador.

Lazzari estima que o lançamento das novas variedades ADR 300 e ADR 500, vai elevar o milheto, em pouco tempo, a condição de terceira cultura na região, só perdendo em área para a soja e o milho. E que se isso realmente acontecer, a indústria terá o que sempre alegou ser indispensável, que é uma regularidade no fornecimento do produto. ”Não adianta colocarmos um lote de 150 mil toneladas de milheto hoje, a empresa se adaptar para utilizar este milheto este ano, e o ano que vem não mais receber o volume previsto”, explicou, salientando que diante da perspectiva de produção maior e mais estável, um contrato para o fornecimento de 600 toneladas de milheto já foi fechado com a Perdigão de Rio Verde e novas negociações, com esta empresa e também com outras, já estão em andamento. A previsão é de que este mercado tenha condições de absorver mais de 2 milhões de toneladas do grão.

Lazzari acredita que se houver uma organização dos produtores de forma que a produção de milheto destinado à indústria possa ser estocada e as vendas distribuídas durante todo o ano, este é um mercado que tende a se ampliar. Segundo ele, na alimentação de aves pesadas, por exemplo, o milheto pode substituir com vantagem o milho na medida em que não precisa ser moído para ser administrado, o que reduz custos, e ser nutricionalmente semelhante.

Como o milheto não tem glúten, característica esta contida no trigo e que impossibilita o consumo de pão para cerca de 12 a 16 milhões de pessoas que são alérgicas a esse componente e de outras milhares que não têm no estômago uma enzima que digere o glúten, uma boa alternativa para o futuro, na avaliação de Lazzari, seria a instalação de um moinho progressista que produzisse farinha de milheto. ”Embora menor e mais elitizado, ainda assim, poderia ser um bom nicho mercadológico”, salientou.

Tecnicamente, também são muitos os argumentos de Lazzari em favor do milheto. ”Pouco exigente em água, pode suceder a soja em regiões onde o milho-safrinha não tem condições de ser conduzido ou, onde em uma ocasião ou outra ocorra perda da época de plantio do milho-safrinha, como aconteceu na região Sul na última safra, ajudando a cobrir as despesas da propriedade”, defendeu.

Mais calcário, melhor produtividade

O consultor Orlando Martins, da SNP Consultoria, de Viçosa, Minas Gerais, despertou a atenção dos produtores ao expor uma prática que promete bons resultados, mas que exige um desembolso inicial bastante ”salgado”. Trata-se do uso de calcário em grandes quantidades, cerca de sete toneladas por hectare. ”É uma das alternativas que estamos encontrando para viabilizar nossos solos, que são muito pobres, com baixos índices de argila, e bastante complexos em termos de manejo ao longo do tempo”, justificou , esclarecendo que a dosagem de três toneladas por hectare, em média, que os produtores vêm utilizando em solos arenosos, tem-se mostrado insuficiente na maioria dos casos.

Ele também destacou a importância do equilíbrio entre o calcário e os outros nutrientes, como o potássio, o fósforo e os micronutrientes. ”Em solos arenosos, normalmente gasta-se de 10% a 15% a mais em adubação, em comparação aos solos argilosos. Acompanhamos áreas de plantio por mais de dez anos e elas mostram que, nutricionalmente, é possível obter altas produtividades com sustentabilidade ao longo dos anos. Porém, são solos bastante susceptíveis à seca”, reforçou.

Orlando Martins informou que essa superdosagem de calcário acontece apenas no primeiro plantio e que as reposições, provavelmente só serão necessárias após seis ou sete anos, e em doses normais, de uma e meia a duas toneladas por hectare. Sua estimativa é de que com o passar dos anos, nutrientes como o fósforo, sejam utilizados em quantidade do que em solos argilosos, equilibrando assim os custos da produção.

Sistema de integração agricultura e pecuária pode ser implantado em 20 milhões de hectares

As variedades SuperMassa deverão impulsionar o que o pesquisador da Embrapa Gado de Corte há 26 anos, Armindo kichel, considera imbatível: ”o sistema de integração lavoura e pecuária associado ao plantio direto”.

De forma contundente, Kichel enfatizou durante o encontro, numa estação específica para debater o assunto, que o Brasil possui sérios problemas na agricultura e sérios problemas na pecuária, resultado da má condução dessas atividades. ”O monocultivo na agricultura”, disse ele, ”tem gerado problemas de pragas, doenças, invasoras, empobrecimento na fertilidade do solo, aumento dos processos erosivos, redução da produtividade e prejuízos ao meio ambiente. E na pecuária, uma deficiência brutal, considerando que 90% do rebanho passam fome pela falta de alimento disponível no campo”. Como contraponto, destacou que quem cultiva soja em cima de área de pecuária produz mais e a um custo de no mínimo 10% menor, e que quem cria gado no sistema de integração agricultura e pecuária, produz carne 20% mais barata, mais precoce e com mais qualidade.

Segundo o pesquisador da Embrapa, dos 100 milhões de pastagens cultivadas e mais 80 milhões degradadas, em pelo menos 20 milhões poderá ser implantado o sistema de integração lavoura e pecuária. Isso reduziria em muito a abertura de novas áreas do cerrado e de mata amazônica, com benefícios para os solos dessas regiões e ao meio ambiente.

Os novos milhetos podem ser utilizados na integração como forragem, grão e palhada, e a forragem, por sua vez, possibilita mais três usos: pastejo, silagem ou feno. Conforme Kichel, o uso em forma de pastejo é o que melhor demonstra o diferencial do milheto em relação às pastagens tradicionais. ”Nesse sistema, as novilhas de primeira cria antecipam a estação de monta, produzindo 30% a mais de bezerros e bem mais pesados, e os animais de recria, praticamente não têm recria, engordam. O animal que entra no milheto no mês de outubro e novembro, chega no mês de maio, com cerca de 400 quilos. E se for em seguida para um confinamento por um período de 30 a 60 dias, sistema onde a base é a silagem, pode ficar pronto para o abate entre 18 e 20 meses”, exemplificou o pesquisador durante sua apresentação, destacando que a precocidade e a qualidade é hoje uma questão de sobrevivência na pecuária. ”Animais acima de 30 meses já comeram todo o lucro da fazenda, e acima de 40 meses, com 42 meses, por exemplo, causam prejuízo de R$ 20,00 por cabeça”, afirmou. Enquanto nas forrageiras tropicais, os animais ganham em média 500 a 600 gramas por dia, no pastejo de Supermassa, ganham praticamente o dobro, um quilo por dia.

Entre as vantagens que fazem dos materiais SuperMassa fortes aliados da integração lavoura e pecuária estão o crescimento rápido dessas culturas e a alta produção de massa – em condições de boa fertilidade do solo, uma tonelada por dia de massa verde, 15 dias de crescimento, 15 toneladas, 60 dias de crescimento, 60 toneladas. Também se destacam no milheto melhorado os níveis de proteína, que em início de pastejo vão de 20 a 24%, o valor nutritivo e, principalmente, o volume de silagem, de até 19 toneladas por hectare, conforme trabalhos conduzidos na Embrapa Gado de Corte, bem maior que o sorgo,13 toneladas, e o milho, 10 toneladas. A silagem de milheto também supera o milho no nível de proteínas, com 12 a 13%, 7 e 8%, respectivamente.

Antecipar-se ao mercado é o segredo do sucesso

Com temperaturas amenas mesmo no verão, o município de Alto Garças, na Serra da Petrovina, Mato Grosso, foi o lugar escolhido há 25 anos pelo gaúcho de Gaurama Odílio Balbinoti, que já havia trocado o Rio Grande do Sul, primeiro por Santa Catarina, depois pelo Paraná, para começar tudo novamente. Ele vendeu a terra que tinha no Sul (60 alqueires) e se transferiu para o Centro-Oeste com o sonho de todo o empreendedor: crescer no seu negócio. O que não demoraria a acontecer. Dois anos após se instalar na região, já começava a trabalhar com produção de sementes, chegando hoje à condição de líder nacional neste mercado. A Fazenda, que cresceu de 1000 hectares iniciais para 29 mil hectares ao longo destes anos, disponibiliza atualmente mais de um milhão e 700 mil sacas de semente de soja por ano e em torno de 300 mil sacas das novas variedades de milheto ADR 300 e ADR 500. ”Tivemos visão administrativa e nos antecipamos ao mercado”, diz o proprietário.

Odílio conta que no início ele e a esposa Ivaína enfrentaram todo o tipo de dificuldades. Iam de camionete ou de ônibus de Maringá, no Paraná, até a Fazenda no Mato Grosso, passando dias e dias na estrada. Aos poucos a família foi assumindo o empreendimento. O filho, que tem o mesmo nome, Odílio, formou-se em agronomia e passou a comandar primeiro, a parte técnica, para nos últimos anos assumir a presidência da empresa, a nora, Tânia Balbinotti, é diretora de Recursos Humanos, a filha Adriana é diretora financeira, e o genro Marco Túlio, gerencia a Fazenda. ”Nós somos uma empresa familiar, que trabalha e assume junto as decisões. Este é um dos segredos do nosso sucesso”, afirma Balbinotti.

A fazenda, que já venceu o desafio de trabalhar solos extremamente arenosos, com índices de 4% a 6% de argila apenas, para poder avançar em área sem ter que desmatar, e que hoje disponibiliza esta tecnologia aos produtores com situação semelhante, também sai na frente na venda de sementes de soja transgênica. ”A sementes Adriana se posicionou muito bem. Apostamos na liberação e acertamos”, analisa Odílio Balbinotti Filho. A empresa estima ter volume suficiente para atender seus clientes neste primeiro momento e está preparada para aumentar a produção visando uma maior demanda nos próximos anos.

A importância do relacionamento

Como diz Odílio Balbinotti (o pai), reconhecidamente um personagem da saga dos sulistas que desbravaram o Centro-Oeste, ”nada se faz sem gente”. Ele afirma que a Fazenda Adriana só chegou no estágio de referência nacional na produção de sementes porque envolveu seus colaboradores no processo de condução da empresa e criou mecanismos de estímulo à permanência deles e de seus familiares. Boa parte dos 450 funcionários fixos está confortavelmente instalada numa pequena cidade interna que dispõe de uma série de benefícios. ”Temos que ser justos. Se cobramos deles dedicação e empenho, precisamos lhes dar em troca remuneração compatível e qualidade de vida”, destaca.

Responsável por essa relação empresa e funcionário, a diretora de Recursos Humanos, Tânia Balbinotti, esposa do presidente Odílio Balbinotti Filho, concorda: ”As pessoas não são máquinas, que é só apertar um botão que funcionam. Elas têm sentimento e por isso precisam estar motivadas e comprometidas para poderem dar tudo de si”.

Segundo Tânia, no mundo de hoje e, principalmente numa empresa como a Sementes Adriana, que procura estar sempre à frente dos acontecimentos para melhor atender a clientela, é preciso que os colaboradores estejam preparados técnica e emocionalmente para exercerem suas atividades. ”Nós temos trabalhado nestas duas frentes. Na capacitação profissional dos colaboradores – através de cursos e treinamentos específicos -, e em de âmbito mais social, desenvolvendo estratégias de melhoria da qualidade de vida das pessoas – infra-estrutura de lazer, creche para as crianças que ainda não estão em idade escolar, transporte para as crianças que estudam na cidade, boas moradias, entre outras ações”, explica Tânia.

Qualidade

Competir num mercado tão exigente fez a Sementes Adriana assumir altos investimentos. A empresa montou uma infra-estrutura gigantesca. Só para recepção de sementes e produção de adubo, são duas unidades com capacidade para 40 mil sacas ao dia e 40 mil toneladas por ano, respectivamente. Tudo na perspectiva de produzir mais e melhor. No caso do adubo, cuja mistura é feita dentro da Fazenda, Balbinotti considera uma medida de segurança e economia. ”Sabemos realmente o que estamos colocando na terra, com ganhos palpáveis de produtividade e qualidade”, assinala.

O principal salto, porém, aconteceu na área tecnológica. O setor de pesquisa cresceu e hoje envolve 18 agrônomos, sendo três doutores e dois mestres, e é responsável por conquistas como as novas variedades de milheto SuperMassa, a soja Plena, direcionada ao comércio, que se diferencia por conter um grão super nutrido e o IPA (Índice de Plantio Atualizado), formado a partir de testes de vigor, viabilidade e germinação na hora do plantio, que são processados por um sistema de informática que proporcionam a segurança para o agricultor regular sua plantadeira sem se preocupar em fazer testes de canteiro.

Em fevereiro de 2003, a empresa inaugurou o que considera o cérebro da empresa e sem o qual seria impossível tomar decisões ágeis e precisas: um laboratório de sementes de primeira geração, detentor do manual de qualidade e credenciado ao Ministério da Agricultura, um investimento de mais de R$ 1 milhão.

No laboratório são feito testes de toda a ordem e milhares de análises referentes a trabalhos de pesquisa de desenvolvimento de tecnologias de produção de sementes exclusivas para a Sementes Adriana. De acordo com Balbinotti Filho, o objetivo da empresa ao investir na modernização do laboratório é aprimorar as técnicas de manejo das culturas para obtenção de sementes de alta qualidade. ”Nossa meta é continuar crescendo em níveis iguais ao plantio do Cerrado, sempre tentando superar as es expectativas de nossos clientes”, afirma.

Novidades para a próxima safra

Uma das novidades apresentadas pela Sementes Adriana e que vai estar a disposição dos produtores do Centro-Oeste para a safra 2005/06, é a soja super nutrida. Este produto, em coloração prateada e denominada Plena, consiste na aplicação de diversos nutrientes a fim de proporcionar alto grau de produtividade. Na temporada 2003/04 foram realizados testes em módulos de 30 hectares em dez locais diferentes no Mato Grosso. Em comparação com outra variedade da empresa, a original, houve um acréscimo de 5 sacas por hectare. As sementes ”prata” foram comercializadas apenas para testes aos principais produtores do Estado no mesmo valor da original.

Após cinco anos de pesquisas e testes a campo, a nova variedade está pronta para chegar ao mercado. De acordo com o presidente da Sementes Adriana e um dos diretores da Fundação MT, Odílio Balbinotti Filho, ”o custo da saca será de aproximadamente um saco a mais por hectare em relação à original, devendo ficar próximo a R$ 30 por hectare”, afirma. Ele justificou que o preço mais alto ocorre por causa dos nutrientes utilizados na técnica.

Em locais que ocorreram testes comparativos entre as duas variedades, pôde ser constatada a diferença entre uma variedade e outra. Na fazenda Carazinho, em Chapadão do Sul, o rendimento passou de 53 sacas para 57 sacas por hectare. Na fazenda São Judas Tadeu, em C. Novo Parecis, onde a produtividade chega a 59,1 sacas por ha, a rendimento atingiu 59,73 sacas por hectare. Balbinotti Filho explica que estas sementes são exclusivamente adaptadas à região Centro-Oeste, por isso não teriam o mesmo desempenho em outros Estados brasileiros.

Além dos testes com sementes, a Sementes Adriana também precisou realizar experimentos com solos arenosos, que predominam na região. O presidente da empresa ressalta, que dos 29 mil hectares de área da fazenda, 6 mil ha tem menos de 5% de argila, componente fundamental que retém os nutrientes no solo. Para isso, desde 1995 são realizadas inúmeras pesquisas para conseguir produzir nesse tipo de solo. O resultado foi que na safra 2002/03 a produtividade de soja em solos arenosos superou à cultivada em argila, passando de 59 sacas por hectare para um pouco mais de 60 sacas por ha. Ele destacou que as chuvas também colaboraram para atingir este índice. Os resultados foram tão positivos que em 2004 mais de 700 produtores foram conhecer pessoalmente os experimentos.

A Sementes Adriana é a maior empresa do setor em Mato Grosso, com mais de 35 revendas espalhadas pelo Centro-Oeste. Ocupa entre 17% e 20% do mercado mato-grossense e tem como foco novas variedades de soja. Todos os testes são realizados na própria fazenda, o que facilita o processo de rastreabilidade. Este ano a empresa está completando 25 anos de atividade, sendo 23 focado na oleaginosa.

Dados para Referências Bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 87, maio/junho de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo - RS.