Plantio direto e biotecnologia: a visão de um produtor
Almir Rebelo OliveiraEngenheiro-agrônomo, produtor rural e Presidente Clube Amigos da Terra de Tupanciretã (RS).
A partir da constatação de que para produzirmos uma tonelada de grãos perdíamos, através da erosão, 10 toneladas de solo por hectare a cada ano, uma verdadeira catástrofe em nosso ambiente de trabalho, o surgimento da tecnologia do plantio direto na palha se constituiu em algo impressionante. Através desse sistema as cinco causas da erosão: impacto da gota da chuva; ação direta dos raios solares; queima da palha, uso de grades e arados no preparo do solo, foram praticamente eliminadas com a ajuda da palha resultante da rotação de culturas. Como agricultores e através de percepções como essa também tivemos condições de constatar que a biotecnologia (bio = vida, tecno = técnica e logia = estudo) é o estudo de uma técnica a serviço da vida. Há tempos atrás também descobrimos o uso da palha como uma técnica a serviço da vida do solo.
Na região de Tupanciretã existem 260 mil hectares de plantio direto (verão/inverno), no Rio Grande do Sul, mais de seis milhões, no Brasil 22 milhões e no mundo mais de 70 milhões de hectares. Esses números transformaram o sistema no maior movimento prático de ecologia cultivada no planeta. Por isso acreditamos que a discussão sobre transgenia, uma ferramenta da biotecnologia, vai revolucionar o desenvolvimento da agricultura brasileira, assim como foi o plantio direto há mais de 30 anos. Hoje temos a oportunidade de dizer à sociedade que nós, principais componentes não reconhecidos da cadeia do agronegócio brasileiro, não aceitamos ficar fora do processo de desenvolvimento nacional e mundial, já que viabilizamos a principal atividade econômica deste país.
O agronegócio possui três segmentos distintos, porém interligados: o antes da porteira (10%), o dentro da porteira (12%) e o depois da porteira (78%). No entanto não pode existir o ”antes” e o ”depois” sem o ”dentro” da porteira. E é este que está pagando a conta, aliás, tentando pagar, pois vamos precisar prorrogar mais uma vez nossas dívidas.
Estudando os transgênicos percebemos os efeitos de seu uso na agricultura: diminuímos de 3,06 kg de ingrediente ativo/ha de herbicida na soja convencional para 1,44 kg/ha para a soja transgênica. Estamos utilizando herbicidas menos tóxicos, com isso diminuímos de U$ 66,00 para U$ 22,00/ha o custo desses produtos. É notório, portanto, que sem subsídios temos que ser os mais eficientes do mundo. Nossa única saída é diminuir os custos de produção, aumentar a produtividade ao mesmo tempo em que convivemos de forma amigável com as limitações climáticas, pois a água é o nosso principal insumo. Não temos poupança para investir 30 e colher 10. Realmente, nossa atividade é para quem tem coragem e muito amor pelo país!
Nesse sentido a biotecnologia possui um potencial imensurável para atender nossas demandas. Precisamos de agricultura sustentável sim, mas nos aspectos econômico, ecológico e social, e isto significa baixo custo e maior produção, menos agroquímicos, solo preservado e alimentos de qualidade com custo coerente ao poder aquisitivo do consumidor. Além disso, estudiosos dizem que para produzirmos uma caloria de alimentos estamos consumindo duas calorias de energia fóssil. Com o plantio direto e transgênicos estamos diminuindo aproximadamente 70% o consumo de energia.
A biotecnologia nos ensinou a utilizar um insumo chamado união e nos identifica como um segmento da sociedade que preserva o meio ambiente para as futuras gerações cumprindo com o artigo 225 da Constituição Federal. Nos últimos meses diminuiu a distância entre os cientistas e a classe política, que juntos possibilitaram as pesquisas com células tronco, uma nova revolução no desenvolvimento da medicina brasileira e mundial. Isso comprova que todos os segmentos precisam de evolução científica para a defesa da vida.
Nossa sobrevivência dependerá da organização como classe produtora. Precisamos nos levantar a favor da ciência, contra o peso da carga tributária que incide sobre a cadeia produtiva, contra os juros altos e também contra o desrespeito daqueles que lucram às custas da exploração e das prorrogações de prazo, que colocam o agricultor brasileiro numa condição de escravidão e penúria.
Nosso país produz alimentos em apenas 5,5% da sua área total, seremos o celeiro mundial sim, mas para isso precisamos trabalhar a união. O plantio direto e a biotecnologia nos ensinaram a ter esperança, vencer o medo e transformar o Brasil em um país de grande evolução na melhoria da qualidade de vida de seu povo.