Inferno de Dante: estoques elevados, quebra de safra e taxa cambial desfavorável
Flávio GassenEng.-agr., Supervisor Técnico Cooplantio - E-mail: flavio@agri.com.br
SOJA
O mercado atual da soja pode ser bem representado pela ”Divina Comédia”, de Dante Alighieri (1265-1321), que descreve como seria o inferno, o purgatório e o paraíso. A estiagem do sul do país combinada com a relação estoque/consumo mundial em nível elevado e uma política cambial que está mantendo nossa moeda sobrevalorizada, conduz os preços domésticos do grão às posições mais baixas dos últimos anos, considerando o seu valor na economia (figura 3), deflacionado pelo IGP-M), ou seja, estamos no ”pior dos mundos”.
Sem dúvida, a hipótese de safra normal para o Brasil representaria preços internacionais entre 9 e 10 dólares/saca, pois a relação estoque final/consumo mundial estaria ao redor de 30%, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
Como o USDA considera ano comercial para Brasil e Argentina o período de outubro a setembro, os saldos de estoques devem ser ajustados e a relação estoque/consumo mundial do relatório de abril passa de 25,2% para aproximadamente 18,9%. Mesmo com este ajuste, o mais elevado desde 1990, considera-se que este indicador de sensibilidade da disponibilidade do grão deva cair paulatinamente a cada ano.
Quando a estimativa da produção brasileira foi corrigida de 64,4 para 51 milhões de toneladas, em resposta a esta menor oferta as cotações do mercado futuro da Bolsa de Chicago registraram forte alta iniciando na primeira semana de fevereiro e encerrando na primeira semana de março (figura 1). Em seguida surgiu outro fundamento de alta no mercado originado pelo atraso da colheita no Centro-Oeste devido às chuvas. Este movimento de alta foi encerrado em meados de março e as cotações retornaram a patamares tidos como razoáveis pelo mercado em virtude dos estoques mundiais estarem acima da linha considerada neutra sobre os preços, apesar da quebra da safra do sul do Brasil. Como os fundamentos da redução da produção já foram absorvidos pelo mercado e não há novidades para o período de implantação da safra dos EUA e China, as variações das cotações do grão seguem a óptica do investidor/especulador que faz aquisições e realiza negócios conforme sua oportunidade de auferir lucros, ou seja, passa da posição de compra para venda, sucessivamente até retornar à posição de compra para assim recomeçar seu movimento cíclico, conforme ganhos relativos a qualquer outra oportunidade de negócio que incluem outros grãos e demais commodities. Assim, num período sem a ocorrência de fundamentos que provoquem movimentos maiores no mercado, é formado o ”Túnel (ou canal) do especulador” (figura 1) que é mantido até o estabelecimento da safra do hemisfério norte ou até a ocorrência de novos fundamentos que alterem a demanda.
Para a China, há expectativa de redução da área de 11 para 10,8 milhões de ha e produção de 18,1 para 17,6 milhões de toneladas da safra 2004/05 para 2005/06 que inicia o plantio em maio. Assumindo que não haverá aumento na produção e a projeção do crescimento do consumo será de 600 mil toneladas, o país terá aumento na importação de 2,74%, equivalente ao incremento no consumo, mantendo sua relação estoque final/demanda em 7,6%, contra os 9,1% do ano comercial anterior. Dessa forma os chineses continuam sinalizando aos países produtores que sua intenção é manter estoques baixos.
A média histórica, desde 1973, das cotações dos contratos de primeira posição da Bolsa de Chicago é de 6,12 dólares/bushel. Portanto, o mercado está operando na ”média”, o que é penoso para uma região que registrou quebra de safra, como o RS. Além da estiagem, que foi restrita a determinadas regiões, o efeito mais nefasto nos preços tem como origem a taxa cambial que está ao redor de 2,47 R$/US$ para a média de maio (até 13/maio), contra o câmbio real (ou de paridade) que está na ordem de 3,8 para o mesmo período, considerando somente o R$ e US$. Já em relação ao Euro, o R$ mantém sua posição estável desde setembro/2002, com somente pequena valorização nos últimos 2 meses, justificando, assim, os preços elevados dos insumos cotados na moeda da Comunidade Européia. Como já foi dito, é o ”pior dos mundos” para a agricultura, principalmente para a soja, onde a moeda nacional registra forte valorização contra a moeda onde é cotado o grão (US$) e não registra valorização contra a moeda (Euro) onde parte dos insumos são cotados. Sem dúvida, seria razoável uma taxa cambial na ordem de 3,3 a 3,4 onde os preços da soja estariam próximos a 40 reais/60kg no sul do país.
A elevada taxa de juros (Selic 19,5% em abril) continua atraindo a aplicação de capital internacional para o país que, combinada com a desvalorização mundial do dólar, provavelmente manterá o R$ sobrevalorizado e com possibilidade de queda nos preços domésticos da soja se a safra dos EUA for normal, mesmo com redução de 1,7% na intenção de plantio (abril/2005). Esta variação na área de plantio é facilmente absorvida num cenário de produtividade favorável.
A ”chave” para os preços futuros da soja, e também para os demais grãos, está na política cambial.
MILHO
A produção mundial de milho está estimada em 708,5 milhões de toneladas para a safra 2004/05 e em 674,3 na primeira projeção para 2005/06, segundo o relatório do USDA de maio/05, contra consumo 679,7 milhões de toneladas. Desde a safra 1999/00 a produção tem se mantido abaixo do consumo, repercutindo na redução dos estoques mundiais, onde a relação de estoque final/consumo passou de 31,6% para 15,5% na safra 2003/04, recuperando-se para 18,9% na 2004/05 e 17,9 na projeção para 2005/06 (figura 2). Conforme a evolução dos preços internacionais do milho, o ”vale” do ciclo foi registrado no período de 1999 a 2001, com recuperação até o momento, desconsiderando, neste caso, o movimento sazonal (safra e entre-safra).
Diante da iminência de um ano de produção acima do consumo, a elevação dos estoques pode provocar a interrupção na recuperação dos preços. O temor sobre a ferrugem asiática na cultura da soja dos EUA resultou na redução da intenção do plantio da oleaginosa em 1,7% e conseqüentemente houve o aumento na área de milho na ordem de 0,6%. Se for considerado um rendimento de 9,3 ton/ha (na safra 2004/05 foi de 10,06 ton/ha), a área colhida projetada de 30,05 milhões de ha produzirá cerca de 279 milhões de toneladas, ou seja, 7% abaixo do recorde da safra passada. Mesmo com redução da produção de milho na próxima safra, há projeção de aumento de 14,6% no estoque final dos EUA para 2005/06, representando 23,8% na relação estoque final/demanda do país e o maior dos últimos 10 anos. Se isto ocorrer, são remotas as possibilidades de recuperação dos preços internacionais do grão e seria razoável o início do ciclo de baixa.
Já no mercado interno, a projeção de demanda para 2004/05 está em 41,2 milhões de toneladas, com pequena redução em relação a safra anterior, devido a expectativa de menor exportação. Se for considerada uma produção em 35 e 37 milhões de toneladas, haveria forte pressão de alta, no entanto, nossa moeda sobrevalorizada favorece às importações e inibem a recuperação dos preços em função de sua transferência para o mercado interno. Não há outra possibilidade, além da liberação das importações de milho RR da Argentina e a conseqüente pressão psicológica de baixa no primeiro momento.
Aos preços de abril, na média do estado do Paraná, o máximo que o mercado pagou pelo grão desde 1994 foi, aproximadamente, 22 reais/60kg (Linha de resistência da figura 4), com exceção do final de 2002 e início de 2003, cuja forte posição acima da linha de resistência foi causada pelo distorção cambial onde a taxa cambial real estava em 2,7 e a nominal em 3,8 R$/US$. Corrigindo-se esta distorção, os preços caem para a linha de resistência, demonstrando a participação cambial na composição do mercado do milho. Até meados de abril, o preço médio pago ao produtor paranaense foi de 16 reais/60kg (figura 4), estando restrito a pressão negativa proporcionada pelo real sobrevalorizado e pela pressão de alta da redução de safra. A moeda nacional possui forte poder de compra e as indústrias estão sendo atraídas pela aquisição do grão Argentino, enquanto ainda existem estoques naquele país sem pressão de alta dos preços no mercado interno, devido a menor oferta da safra. Considerando a distorção cambial atual, é razoável considerar que o preço máximo pago ao produtor até o final do ano seja mantido abaixo da linha de resistência, salvo oferta menor do que a estimada até o momento.TRIGO
Da mesma forma que os demais grãos, o trigo está recuperando seus estoques mundiais, onde a estimativa da produção aponta para 624,9 milhões de toneladas e o consumo em 606,3 milhões de toneladas para a safra 2004/05. Já para 2005/06, a projeção do USDA aponta para uma produção de 615,2 e consumo de 617,3 milhões de toneladas, reduzindo sensivelmente os estoques. Assim, justifica-se a resistência na recuperação dos preços do grão nos portos do Golfo dos EUA e somente houve o aumento sazonal na Argentina e Brasil (figura 5). Considerando que a relação estoque final/consumo mundial do grão passou de 22,2% da safra 2003/04 para a estimativa de 24,7% da safra 2004/05 e 23,9% na projeção de 2005/06, os fundamento de alta em função da oferta/demanda somente poderá retornar se houver quebra da safra de primavera do hemisfério norte. Na análise do valor do grão do período passado aos preços atuais no PR, conforme a figura 6, a variação sazonal (safra e entre-safra) dos preços é de aproximadamente 5 a 6 reais/60kg e até o momento houve recuperação de aproximadamente 3 reais. Considerando que a taxa cambial seja mantida no patamar atual, seria razoável esperar que os preços atinjam o máximo de 25 reais, segundo o modelo para o estado do PR (figura 6).
Dados estatísticos da China obtidos da Shanghai JC Intelligence Co., Ltd. – www. jcichina.com
Dados para Referências Bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 87, maio/junho de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo - RS.