Pare! (Editorial/Opinião)


Autores:
Publicado em: 01/06/2005

Pare, olhe e pense antes de colher

Plínio Pinheiro é professor na área de mecanização agrícola há quase 20 anos e atua também como instrutor do SENAR, ministrando cursos em todo o Estado do Rio Grande do Sul. Durante o mês de abril ele acompanhou a colheita de várias lavouras de soja da região sul do Brasil e conferiu de perto os problemas enfrentados pelos produtores no momento de colher a lavoura que sofreu de forma brutal os efeitos da estiagem nos primeiros meses do ano.

Em breve entrevista o Professor Plínio aborda os principais problemas ocorridos na safra 2004/2005 e aponta alternativas que podem amenizar os prejuízos causados pela manutenção e regulagens inadequadas no momento da colheita.

Revista Plantio Direto – Como foi a colheita da safra de soja este ano?

Plínio Pinheiro – Foi um ano totalmente atípico para a cultura da soja, pois a estiagem transformou o cenário agrícola do Rio Grande do Sul, ocasionando uma quebra em torno de 70% da produção. Constatamos que os produtores de forma geral tiveram dificuldades com a colheita, sofrendo nesse momento um segundo prejuízo, considerando que o primeiro foi à queda violenta da produtividade das lavouras em função da estiagem.

A safra de soja 2004/2005 exigiu maior atenção em relação à manutenção da colheitadeira e de regulagens, em função da característica da lavoura, que exposta ao estresse hídrico na fase de enchimento de grão, apresentou anomalias na maturação, resultando na presença de plantas com folhas e vagens verdes entre as maduras. Nessa situação a colheita fica mais complicada porque a máquina tem dificuldade em realizar o corte, a separação e a limpeza.

RPD – Como o produtor pode agir para minimizar as perdas em lavouras que apresentam plantas com essas características?

Pinheiro – Observamos que a dificuldade começa no sistema de alimentação da colheitadeira, iniciando pelo molinete que, de acordo com a condição da cultura este ano, necessitou de maior velocidade para facilitar o corte e a alimentação da máquina. Em função disso ocorreu maior volume de debulha das vagens secas antes do corte.

Outra situação identificada foi às perdas causadas pelo sistema de corte. Se a máquina não estiver com este sistema bem ajustado, ao invés do corte ocorrerá o ”mascamento”, a planta será mascada pela navalha enquanto é dobrada para o lado batendo contra os demais componentes do sistema. Isso resulta na debulha da vagem antes de entrar na máquina.

O sistema de trilha também tem causado altos índices de perdas pelos saca-palhas e peneiras. Acompanhamos lavouras com 10 a 12% de umidade no grão e 30% das vagens verdes. Neste caso o processo de trilha do produto seco e do verde não deve ocorrer no mesmo momento. Deve-se separar na trilha apenas grãos secos e as vagens verdes devem ser conduzidas para a retrilha. Para alcançar esse objetivo o operador precisa ter o cuidado de regular a máquina com o côncavo o mais afastado possível do cilindro deixando-o com a rotação de média para alta. Se mantiver a idéia de trilhar as vagens verdes junto com as secas, o resultado será grãos verdes esmagados e secos totalmente quebrados.

RPD – Em que setor da máquina ocorreram as maiores perdas?

Pinheiro – Este ano o índice de perda por molinete foi reduzida em função da alta umidade do material colhido, porém, as perdas aumentaram no sistema de corte. Enfatizamos esse detalhe orientado produtores para que comecem a colheita com um bom equipamento de corte, não economizando nesse sistema, porque o retorno pode acontecer em poucas horas de trabalho.

Nossas avaliações a campo no inicio da colheita constataram números semelhantes aos divulgados pela Embrapa e Emater/RS. Na safra de 2003/2004 o índice de perda foi em média 2,1 sacos/hectare, correspondendo a 4,2% da produção média. No Rio Grande do Sul os últimos dados oficiais de produção giraram em torno de 9 sacos/hectare. Diante desse cenário, se considerarmos a mesma média de perdas da safra passada que foi de 2,1 sacos/hectare no Estado teremos 23% de perdas. Até meados do mês de maio, já se registrava o acréscimo de 25 a 30% nas perdas em relação a ultima safra, podendo esse número chegar a 2,7 sacos/hectare. Realmente é um bom motivo para preocupação.

RPD – Quais foram os principais motivos para esse crescimento?

Plínio Pinheiro - Este ano, na verdade, nós retroagimos na questão da regulagem da máquina e na capacidade do operador em analisar a lavoura antes de iniciar a colheita. Volto a afirmar que é necessário que o operador conheça a máquina de dentro para fora, pois do contrário ele não fará a manutenção e regulagens adequadas. É dentro dessa filosofia que trabalhamos nos cursos e nas propriedades que damos consultoria. Agora é o momento de sair da ”decoreba”, onde se aplicava regulagens já conhecidas para qualquer situação de lavoura, sem dar atenção a condição imposta pela cultura.

Somente notamos lavouras bem colhidas nesta safra onde dois aspectos fundamentais foram observados: estado de conservação da colheitadeira e a capacidade do operador. Particularmente acredito que não é o ano de fabricação, a marca, o modelo ou preço da colheitadeira que determinam perdas e sim os fatores que já mencionamos. Nesta safra, em alguns casos, mesmo operadores com muita experiência podem não ter observado que se tratava de uma lavoura diferente e que, por essa razão, não poderiam utilizar a mesma regulagem de safras passadas. Não era uma situação de lavoura conhecida, mesmo assim foi utilizada a regulagem tradicional, ocasionando maiores perdas.

Acompanho a questão das perdas há 15 anos e posso afirmar que houve nesse período uma evolução positiva, pois saímos de índices de 12 a 15% e chegamos a 2%, que é uma perda considerada aceitável. Trabalhamos com lavouras de soja com perda de 1,6 sacos/hectare. Estávamos, portanto, bem próximos do aceitável pela Embrapa, que é de 0,75 a 1 saco/hectare. Porém, nesta safra, perdeu-se mais de 2 sacos/hectare.

É importante considerar que os novos números também são conseqüência da ampliação da área de soja transgênica, pois essas variedades exigem regulagem diferenciada em função do tamanho e peso do grão, e também do peso e volume da massa, que devem ser considerados ao iniciar a colheita.

Um dos fatores de perdas a partir da soja transgênica foi o excesso de ar nas peneiras, poucos se deram conta disso no primeiro momento. Porém, quando solucionamos este problema junto aos produtores, nos deparamos com outra realidade, encontramos grãos verdes e secos juntos, misturados à massa pesada (palha verde). Mesmo em situações como essa, recomenda-se trabalhar com pouco ar, bastando direcioná-lo melhor, sem aumentar a velocidade do ventilador.

Nesse sentido é necessário que o operador, pare, olhe e pense antes de começar a colher, pois quem não dedicar maior atenção às condições da lavoura, não percebe a situação com clareza e não decide adequadamente.RPD – As perdas foram generalizadas ou há exceções?

Pinheiro - A média de produtividade no Rio Grande do Sul até o final de abril estava em torno de 9 sacos/hectare. Para um produtor que colhe 45-50 sacos, perder 2 tem um efeito, mas para o produtor que está colhendo apenas 9, é realmente um grande prejuízo. Além disso, aconteceu a perda na qualidade do grão, que apareceu quebrado fazendo com que o produto perdesse valor na comercialização.

Algumas cooperativas que tinham agendado cursos para o início da colheita cancelaram achando que não era o momento devido às condições das lavouras e o ânimo do agricultor. Outras, ao contrário, mantiveram seus cursos com intenção de amenizar as perdas. Foi uma decisão acertada, pois este ano qualquer perda foi grande diante do resultado final. Por exemplo: um produtor que colheu 50 sacos/ha e perdeu 2,1 sacos, teve uma perda total de 4,2% de sua produção. Mas o que colheu 9 sacos/ha e perdeu 2,1 sacos, teve uma perda muito maior, que chegou a 23% da produção. Nesses casos, os índices de perdas ganham outro significado.

Neste ano as lavouras foram diferenciadas e a estrutura de solo, em especial, foi o grande trunfo dos produtores. Quem plantou boas variedades na época adequada, em solo fértil e com boa cobertura de palha, conseguiu obter melhores resultados. Porém, encontramos algumas propriedades onde era quase impossível colher, pois além da pequena estatura da planta e da baixa inserção de vagens, o plantio feito com velocidade excessiva, prejudicou a colheita porque as vagens ficaram praticamente encostadas no solo. Em algumas regiões do Estado não só ocorreram perdas altas como se tornou economicamente inviável colher.

Também encontramos lavouras com baixos índices de perdas, onde foram usadas máquinas bem reguladas. Conhecemos muitos produtores que não aceitam perdas superiores a 10kg por hectare, e eles têm motivos para agir assim, pois possuem máquinas e lavouras em condições e pessoal bem treinado. Esse treinamento não é apenas um curso e sim um trabalho permanente.

Por isso acredito que este seja o caminho, criar a cultura de que todos os envolvidos no processo recebam treinamentos periódicos. Porque dentro da propriedade a peça chave para o sucesso da colheita é o operador, não adiantando somente o usar máquinas de última geração e ter lavouras em perfeitas condições. Porém, o conhecimento deve estar disseminado do proprietário ao motorista do caminhão que faz o transporte da produção, pois somente dessa forma o trabalho será desenvolvido de forma integrada e eficiente.

RPD – Em lavouras com as características observadas este ano, quais os cuidado que o produtor deve tomar para realizar uma colheita com o mínimo de perdas?

Pinheiro – Minhas sugestões se concentram na preparação adequada da máquina para a colheita e deve passar em primeiro lugar pelos cuidados com a conservação, para depois pensar em regulagem:

1)Estado do Molinete:

Observar folgas no embuchamento das hastes do molinete, alinhamento dos arames (pente), a folga entre as molas, arame e hastes do molinete e as suas regulagens, mas antes de tudo é necessário fazer a manutenção.

2)Ajuste do Sistema de Corte:

Podemos até encontrar máquinas cujas navalhas são novas e o restante dos componentes estão desgastados. Os produtores podem ter a idéia de que a navalha nova é a solução do problema. Pelo contrário, seria preferível deixar as navalhas usadas e trocar os demais componentes do conjunto. Porque é a folga que provoca a debulha e isso o operador pode não perceber, pois o sistema é encoberto pela planta na hora da colheita.

3)Regulagens:

É fundamental trabalhar com o molinete bem retraído em relação ao caracol, o caracol com altura máxima possível e com velocidade baixa. Tenho encontrado máquinas colhendo soja há vinte anos na lavoura e ainda possuem regulagens de fábrica, ideais para a cultura do trigo. O operador muitas vezes não se dá conta que o caracol com velocidade alta provoca debulha do grão. Isso acontece porque o dedo retrátil bate no sentido contrário à velocidade que gira o molinete, provocando a debulha da vagem jogando o grão para fora da máquina.

O caracol deve trabalhar com velocidade baixa e altura entre 12-16mm, sendo que as chapas raspadoras devem estar ajustadas a 2 mm do caracol e que os dedos retráteis devem trabalhar a 10mm do fundo da plataforma. É importante trilhar com rotação baixa do cilindro e com a folga entre cilindro e côncavo a maior possível.

RPD – Como o operador pode detectar em que setor da máquina as perdas estão ocorrendo?

Pinheiro – Em lavouras com condição semelhante a encontrada na maioria das propriedades este ano, os grãos são jogados fora pelo saca-palhas durante a colheita. Se o produtor fizer a colheita com o côncavo muito alto e com muita retrilha, o grão seco será moído. Para que isso seja evitado torna-se necessário trabalhar com o côncavo o mais afastado possível do cilindro e este com a rotação alta, pois dessa forma o sistema retira a vagem da planta e a conduz para o sistema de limpeza e daí para a retrilha. Se o operador insistir em trilhar a vagem verde na primeira trilha a planta e a massa (palha verde) vão para as peneiras em vez de irem para o saca-palhas, exigindo neste caso maior volume ar que jogará grãos para fora da máquina ou sobrecarregará a retrilha.

O segredo é trabalhar com rotação do cilindro alta visando apenas separar a vagem verde da planta, fazendo com que ela vá para o sistema de limpeza. É necessário fechar a peneira superior para não permitir a passagem dessas vagens, levando-as até a extensão para serem conduzidas para retrilha. Nesse caso, busca-se trabalhar com pouco ar, tendo o cuidado para distribuí-lo uniformemente nas peneiras, pois o ar em excesso desfaz o trabalho do bandeijão (separar os grãos em camadas) misturando todo o material novamente. É como soprar um furacão em baixo da peneira, o ar faz um buraco.

Resumindo, recomenda-se trabalhar com pouco ar, porém bem distribuído e direcionado através dos defletores para soprar no 1/3 dianteiro da peneira superior e no meio da peneira inferior. A abertura da peneira inferior deve ser de 8mm e na superior não usar 50% a mais o que se usava e sim apenas 2mm a mais do que a inferior. A extensão da peneira deve ficar com a medida suficiente para a descida da vagem, para isso deve-se usar a própria vagem da soja como referencial.

Na safra 2004/2005 foi observada alteração da distribuição das perdas pelo sistema industrial da colheitadeira que em função da situação da lavoura mostrou um aumento das perdas pelo saca-palhas e peneiras, diferente de outras colheitas.

Agora, se eu afirmar que a maior perda é na peneira, estou querendo dizer que a causa dessa perda está lá? Não. A causa está na frente da máquina, no caracol e no cilindro. As perdas tem sido maiores nos saca-palhas e peneira, mas as causas dessas perdas são o caracol da plataforma e o sistema de trilha. O operador precisa entender que até chegar no cilindro temos um produto (a planta) e um caminho apenas. Quando a planta chega no sistema de trilha, é transformada em dois produtos (grãos e palha) que percorrerão dois caminhos (saca-palhas e sistema de limpeza).

A colheitadeira que não conseguir separar 90% do grão no côncavo vai ter sobre-carga no saca-palhas, colocando grão fora a exemplo do que está acontecendo nesta safra. A barra do cilindro arrasta o material para o saca-palhas, que por sua vez não dará conta do trabalho de separação e retorno de grãos. Se a máquina colocar mais que 10% de palha no sistema de limpeza, também irá colocar grãos fora pelas peneiras e terá excesso de retrilha, porque nesse caso exigirá maior volume de ar para fazer a limpeza, fazendo com que o produto seja novamente misturado, jogando fora ou passando para a extensão da peneira e retrilha. Esse é o momento do operador mostrar sua capacidade e conhecimento, tendo a habilidade de administrar situações assim.

Por isso volto a afirmar: quando aparece um sintoma em determinado setor da máquina raramente o problema está naquele local. É necessário conhecer a máquina como um todo para pensar na melhor alternativa de regulagem.

RPD – Nas demais regiões do país, como está a qualidade da colheita?

Pinheiro – Estive no Paraná e em Minas Gerais no mês de março. Em Minas fui a convite do CAT de Uberlândia, onde estavam reunidos grande número de produtores e estudantes para o treinamento e vários admitiram que eventos como este não são comuns. Então podemos concluir que muito do que se perde hoje na safra brasileira de grãos poderia se evitado através do uso de informações dentro das propriedades.

Percebi uma realidade diferente da nossa, lá predominam grandes produtores que usam máquinas novas e algumas são axiais. Os produtores do centro-oeste têm utilizado esse tipo de máquina para fazer a colheita com menor quebra de grãos, garantindo um produto de melhor qualidade, principalmente produtores de sementes. A diferença é que o modelo axial tem o cilindro longitudinal em relação à colheitadeira, isso agiliza a saída do grão causando menor dano mecânico e demora na saída da palha, possibilitando maior separação do produto. Isso reduz a perda e a quebra do grão pelo fato de não mudar a trajetória do produto no interior da máquina.

Nessa ocasião, quando levantamos que a colheita de soja transgênica necessita de regulagens diferentes os produtores se preocuparam muito com a questão, porque a partir dessa safra ocorrerá um aumento significativo no plantio dessas variedades de soja na região. Por isso é necessário fazer este alerta, porque as máquinas do centro oeste estão reguladas para colher soja convencional e há diferença na colheita das variedades transgênicas. Nesse caso a rotação do cilindro, a abertura do côncavo e o volume de ar precisam ser observados, quem não der atenção a esses itens terá perdas maiores.

Estive presente em muitas regiões durante esta safra, mas foi impossível atender pessoalmente a todos que me procuraram ao final das palestras ou mesmo nas solicitações de consultoria, tanto que muitas informações foram passadas através do telefone. Essas, talvez não tenham sido satisfatórias por não conhecermos as condições da lavoura, da máquina e o nível de informação do solicitante. A demanda ocorreu quando o produtor mais atento se deu conta do volume de perdas em sua lavoura, e procurou buscar informações o mais rápido possível. Nesse momento lamentamos que essas informações não constem em literaturas, pois foram adquiridas na ”biblioteca do campo”.

Nesse sentido posso dizer que a safra 2004/2005 tem sido a melhor fonte de informações, pois me proporcionou uma aula a mais. Mesmo com todos esses anos de trabalho e experiência mudei parâmetros, porque percebi que os resultados não eram satisfatórios quando comparados ao padrão que tínhamos nas colheitas anteriores.

Esta safra me fez perceber que precisamos ser flexíveis no raciocínio e nas atitudes, pois o que havíamos estabelecido como padrão na verdade não é, pois o que determina a melhor regulagem é condição imposta pela cultura e não os padrões pré-estabelecidos.

Dados para Referências Bibliográficas:Revista Plantio Direto, edição nº 87, maio/junho de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo - RS.