Técnicas de Consórcio Ajudam na Formação de Palha para o Plantio Direto


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Publicado em: 01/04/2005

Técnicas de consórcio ajudam na formação de palha para o plantio direto

Fazer e manter a palhada no sistema. São essas as maiores dificuldades encontradas pelos produtores que optam pelo plantio direto na região dos Cerrados. O Projeto Plataforma, conduzido a partir de 1998, apresentou um mapa da situação do plantio direto na região. Entre os principais resultados obtidos, estava o levantamento dos maiores entraves à adoção da tecnologia. Para isso, foram entrevistados 1.300 agricultores, que relataram suas experiências pessoais. A partir dos relatos, foi elaborado uma lista de problemas. No topo, como obstáculo mais citado, figurava justamente as dificuldades com a palhada.

O problema está diretamente associado ao regime de chuvas do cerrado, que se caracteriza pela ocorrência de poucas e concentradas precipitações em, no máximo, seis meses. Chegando no mês de março, elas cessam.

Lavouras como soja, feijão e algodão, geralmente conduzidas no verão, produzem pouca palha. Com o milho acontece o contrário, mas em função, sobretudo, da baixa viabilidade econômica nos últimos anos, a cultura vem tendo sua área sistematicamente reduzida. No cômputo final, acaba-se fazendo um plantio direto com pouca palha. A solução então é aproveitar o período das chuvas para, junto com a cultura principal, inserir outra cultura que desempenhe o papel de formadora da palha que ficará no solo até a próxima safra de verão.

Dentre as alternativas merece destaque a prática do consórcio. Nesse sentido, o Sistema Santa Fé, que permite que milho e braquiária co-habitem o mesmo espaço, vem ganhando espaço. A braquiária tem se mostrado uma boa formadora de palhada e com a desejável vantagem da qualidade, podendo ser usada em consórcios com outras culturas, inclusive, a soja.

Todavia, ajustes na técnica de consorciação precisam ser feitos. Semear as duas culturas ao mesmo tempo pode significar um prejuízo certo para a soja em função da concorrência. ”Há também o risco de perda da colheita, pois no momento em que a soja começa a perder folhas, ainda com umidade no solo, a braquiária passa a ter um desenvolvimento bastante acelerado e forma uma massa capaz de encobrir a soja, dificultando a colheita, obrigando o produtor a fazer a aplicação de dessecante. Mesmo assim, o volume de massa é tão grande que se não for bem aberto, o produtor não conseguirá colher. A soja é uma planta de porte baixo, que deve ser colhida bem próximo ao solo e aí, qualquer massa de braquiária que haja, torna o trabalho mais difícil, acaba comprometendo até mesmo o sistema de limpeza da colheitadeira”, explica o engenheiro agrônomo e consultor Ronaldo Trecenti.

Trecenti, que fez parte da Associação do Plantio Direto no Cerrado (APDC), na época do Projeto Plataforma, resolveu aprofundar-se em estudos para a solução desse impasse vontando o foco de sua dissertação de mestrado para uma das opções tecnológicas que podem resolver o problema: a sobressemeadura. Uma técnica relativamente simples, que consiste no plantio da braquiária quando a soja entra no período de maturação, por volta da fase R5, quando as folhas estão começando a ficar amareladas e ainda não começaram a cair.

Segundo ele, a técnica tem um grande potencial de utilização com gramíneas não só com a própria braquiária, mas também com o milheto. Todavia, os melhores resultados verificados até o momento foram com a Brachiaria Ruziziensis. Porque tem uma adaptação melhor à sobressemeadura que a brizantha, demanda menos herbicida na dessecação do verão para estabelecer a cultura seguinte, apesar de produzir um pouco menos de massa que a brizantha. Outra vantagem da ruziziensis é que a produção de sementes é uniforme, pois só floresce uma vez, o controle torna-se mais fácil. Já a brizantha floresce desuniformente, o que favorece a criação de bancos de sementes no solo, que podem atrapalhar a cultura subseqüente.

Aspectos técnicos

Para fazer a sobressemeadura, duas são as condições imprescindíveis: que ainda exista umidade no solo e previsão de chuva para os três dias seguintes ao plantio da gramínea. Trecenti frisa que sem tais condições, não há como realizar a técnica. ”Além disso, também é importante salientar que o produtor que for entrar no sistema, preferencialmente, deve optar por variedades de ciclo precoce e médio, a fim de que as condições essenciais para a sobressemeadura sejam observadas. As variedades de soja de ciclo tardio só vão amadurecer no final de março e abril, quando não há mais chuvas, reduzindo, portanto, sua possibilidade de sucesso. Sendo assim, o ideal é escolher áreas onde existam variedades de ciclo mais precoce. Tudo depende do bom planejamento, que envolve até a espécie de capim a ser utilizada”, diz o consultor.

Outro ponto importante é relacionado à necessidade de se colocar uma quantidade de sementes de, pelo menos, duas a três vezes maior que o normalmente usado no plantio em sulco. O plantio é feito a lanço, podendo ser realizado via trator com distribuidor de calcário ou de cobertura nitrogenada, principalmente.

”Existem produtores fazendo adaptações acoplando duas ou três máquinas, o que lhes permite a cobertura de uma área maior. O uso de avião agrícola também é uma boa opção. Logicamente, as espécies que vão se ajustar melhor a essa modalidade de plantio são as que têm sementes pequenas. O produtor também deve trabalhar com sementes com alto valor germinativo ou valor cultural (VC). E recomenda-se a aplicação de algum inerte junto, como super-simples, para facilitar a dosagem, mas se o produtor conseguir uma regulagem adequada, pode usar apenas a própria semente”.

Plantando a gramínea na fase R5 da soja, o agricultor vai colher a cultura principal quando a braquiária estiver em torno de 20 centímetros — tudo vai depender das condições de clima. Plantando na fase em que as chuvas já começam a escassear, naturalmente haverá uma ”freada” no ritmo de desenvolvimento da braquiária. De 20 a 30 dias depois, a soja, dependendo da variedade, já estará em ponto de colheita.

Outro detalhe de suma importância, de acordo com o agrônomo, é que na dessecação da soja, não se deve usar produtos sistêmicos, apenas os chamados dessecantes de contato. Dependendo da fase que a braquiária esteja, vai segurar seu desenvolvimento, mas não a eliminará.

”O ideal é aplicar produtos que queimem a área foliar da gramínea, mas não queimem a gema. Lembrando sempre que o produtor deve procurar os dessecantes de contato registrados e recomendados para a cultura. No caso do Santa Fé utilizando soja com braquiária, o que o pessoal tem feito é usar na soja uma subdosagem de um graminicida para dar uma supressão na braquiária. Isso até funciona, mas o domínio tecnológico ainda não é total. E mesmo com a supressão, se lá na maturação da soja houver chuva, a braquiária volta e com toda a força, comprometendo a colheita”, observa.

Quando o produtor for colher a soja, acabará cortando também braquiária, dando uma espécie de aparada na planta, o que vai estimular o rebrote da gramínea, fato muito vantajoso, pois servirá para aumentar e melhorar a cobertura da área por desencadear o perfilhamento da braquiária. Como ainda deverá haver umidade remanescente no solo e a ocorrência de uma chuva, ainda que pequena, é bem possível, a planta terá um estímulo para crescer rapidamente, fazendo uma boa cobertura do solo. Ainda mais se forem considerados os fatos de que haverá a presença do nitrogênio das folhas que caíram, alguns fertilizantes remanescentes da lavoura principal e a incidência mais direta da luz.

Sob a palha

O consórcio da braquiária com a soja permite a obtenção de uma palhada de excelente qualidade que vai persistir até a primavera-verão seguinte. Uma produção suficiente para deixar o produtor tranqüilo com relação à cobertura do solo. Dependendo do ano, a produção de palha que pode variar de 5 a 12 toneladas de matéria seca por hectare.

Porém, os benefícios não são percebidos apenas sobre o solo. Sob a superfície, os efeitos positivos também são sentidos. Um deles é a formação de um bom sistema radicular. ”As braquiárias têm uma formação de raiz espetacular, assim como o pé-de-galinha, o milheto, o que permite uma boa ciclagem de nutrientes como nitrogênio, potássio, fósforo e enxofre. Outras vantagens agronômicas também estão associadas, como a supressão de plantas daninhas, de pragas e doenças, solubilização de fósforo, auxílio à ação das micorrizas e todos os ganhos oriundos da manutenção da umidade residual. Ganha-se também com a atividade biológica. O estabelecimento do sistema radicular origina canalículos que vão auxiliar a infiltração das águas da chuva no verão seguinte. Sem contar também com o aumento da matéria orgânica e o seqüestro de carbono. Contudo, a maior de todas as vantagens é mesmo a proteção do solo”, lembra Trecenti.

Pecuária

Viabilizado com o auxílio da sobressemeadura nas regiões de poucas chuvas, o consórcio da soja com a braquiária serve também como importante ferramenta para que os pecuaristas da região possam recuperar as áreas de pastagem degradadas. Uma prática muito usual no momento é a parceria entre criadores de agricultores, geralmente, amarrada em algum tipo de contrato. O pecuarista passa a área degradada para o agricultor, que vai entrar com o plantio de soja, com o cuidado de não usar áreas onde o solo já esteja degradado, apenas a pastagem pode estar.

”Posteriormente, já como sobressemeadura na soja, coloca-se o capim escolhido. Por volta de junho, julho ou agosto, período mais crítico da seca, o pecuarista já pode colocar o gado para pastar, justamente num período de oferta de forragem muito baixa. E é numa época em que ele não estaria produzindo naquela área. Depois, em setembro e outubro, ele tira o gado. Com as primeiras chuvas, a pastagem volta. Se ele quiser, pode repetir a soja ou não, pois já estará com o pasto restabelecido. O mais comum é colocar um ano de soja, no segundo ano colocar o milho e entrar no sistema Santa Fé, isso permite a recuperação do nitrogênio, que é justamente o principal problema da pastagem. Se o produtor puder fazer por três anos (dois de soja) e só no terceiro entrar com milho, é o sistema ideal”, explica.

Depois de colhida a soja, o produtor deve esperar um período de 45 ou 60 dias para ter uma produção de massa verde condizente com o ponto de pastejo. Mas para que o sistema não entre em desequilíbrio, há pontos referentes ao manejo que ainda não estão finalizados nas pesquisas. Por isso, como explica Trecenti, requerem acompanhamento de profissionais com experiência.

De um modo geral, as cuidados com o sistema variam muito de região para região, dependendo da chuva, e exigem acompanhamento minucioso. O importante é atentar para o fato de que o produtor vai ter uma formação de massa. Só que na hora que puser o gado, tem que lembrar que a pastagem vai precisar de manejo. Trecenti chama a atenção para que, no caso de a soja ser a atividade principal, é preciso estabelecer um ponto de equilíbrio entre o pastejo e a formação de palhada.

”Não adianta deixar o gado pastar demais, pois irá tirar a palha do sistema. O superpastejo reduzirá a capacidade de rebrote da braquiária, um fator necessário para quando a chuva voltar. Sendo fundamental então, muita atenção para que os animais não cheguem a consumir além do ponto vegetativo da planta. Nas primeiras chuvas a braquiária tende a rebrotar, mas com poucas reservas em função do superpastejo, ela vai rebrotar pouco. São pontos de manejo como esse que ainda merecem um acompanhamento específico por região”.

ILP

Um dos grandes méritos da sobressemeadura é que ela pode ser mais uma alternativa para viabilizar a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) nas regiões em que a chuva mostrava-se como fator limitante. ”A ILP é um casamento perfeito, você pega área de pastagem degradada, sem nenhuma capacidade de produção de forragem e suporte animal, entra com a lavoura, produz bem, e isso ajuda a pagar o custo da renovação, usa a área para aumentar a capacidade de produção sem promover o desmatamento. Sem contar que também ajuda nas áreas que estão sendo utilizadas por muitos anos sem seguidos e estão cansadas, reduzindo a pressão de pragas, doenças e plantas daninhas, além de também promover a ciclagem de nutrientes”.

Atraindo um número crescente de produtores, a ILP permite que a área de produção de grãos seja aumentada ocupando a área de pastagens degradadas. Só no cerrado, dos 50 milhões de hectares de pastagens, dos quais 60% encontram-se em alguma fase de degradação, seriam então 35 milhões de hectares para serem incorporados ao sistema de grãos, área suficiente para duplicar ou triplicar a capacidade de produção de grãos e carne do país, sem desmatar nem um metro quadrado.

”O produtor está percebendo que entrar com uma pastagem depois de muitos anos sucessivos de lavoura, permanecendo por um ou dois anos. No terceiro ano, quando a produção de forragem começar a cair, ele pode voltar para a lavoura. Dessa forma, nunca mais terá 15, 20 ou até 30 anos de monocultivo. O agricultor estará criando um sistema rotativo alto-sustentável”.

Pesquisas

Por vários anos, APDC, Embrapa Cerrados e Clube Amigos da Terra (CAT), tentaram estabelecer várias culturas de safrinha, com sucesso aquém do esperado. O principal obstáculo sempre foi, principalmente, a pouca chuva. As alternativas que se mostraram mais viáveis foram a ILP e a sobressemeadura. Foi este o principal motivo que levou Ronaldo Trecenti a se debruçar sobre o tema. Inicialmente, projetou uma parceria com as universidades de Rio Verde e Mineiros (GO) e Barreiras (BA), além da própria Universidade de Brasília e a Embrapa Cerrados. ”Íamos fazer os estudos em quatro regiões diferentes, mas não houve interesse em financiar o projeto”.

Mesmo com a limitação, os estudos vêm sendo conduzidos. ”No entanto, precisamos ainda de muitas pesquisas básicas com gama de materiais possíveis de usar, com a quinoa, amaranto, e até plantas consideradas daninhas como o capim marmelada e tantos outros que podem ser plantas invasoras ou indicadoras; estas últimas capazes de denotar situações problemáticas no solo, como estresse, compactação, acidez. Os estudos precisam ser ampliados e seriam também necessárias algumas pesquisas básicas para fazer uma triagem de materiais e estudar as condições de estabelecimento, bem como o comportamento das espécies em consórcio. Precisamos conhecer melhor as opções existentes em cada uma das diferentes regiões do país. Trata-se de um melhor aproveitamento dos recursos naturais”, conclui.

Dados para referências Bilbiográficas:Revista Plantio Direto, edição 86, março abril de 2005. Aldeia Norte Editora, Passo Fundo.